Através do Tempo
7 Reviravoltas
Notas iniciais
Elizabeth estudava com sua amiga, Augustine, no jardim do casarão em uma manhã. Seu pai a deixava ler os mais diversos livros que se interessasse, e com isso aprendia dos mais variados assuntos.
- Mas vocês irão se casar? – Augustine indagara sua amiga por alto.
- Ele não pediu a minha mão oficialmente para mim, mas segundo o que tem demonstrado é o que ele gostaria.
- Elizabeth! Não perca esse homem de vista! Pelos céus! Ele é lindo, gentil, militar...
- E desde quando todas essas coisas são importantes?
- Desde... sempre?
- Claro que não, Augustine! Há outras qualidades numa pessoa além de beleza e status.
- Tá mas ele tem todas essas qualidades, Elizabeth. É só olhar para ele, e você o conhece desde criança, do que tem medo? Olhe pra você! Está apaixonada! – Elizabeth recebera a sentença não muito bem, embora soubesse que o amava.
- Eu não estou apaixonada! Ele é meu amigo!
- Amigo? Está mentindo pra você mesma! Do que você tem medo? – Repetira a pergunta.
- De tudo! De deixar de ser livre, de deixar o meu pai, minha cidade, minha vida como é! Eu gosto de tudo que tenho e não sei como será se me casar! – Augustine costumava ser uma donzela exagerada, mas havia ali sabedoria em seu jeito de ser.
- As coisas nunca permanecem as mesmas para sempre, minha amiga. Uma hora você terá de crescer, não acha?
- Mas eu não sou uma criança! Casamento não quer dizer que crescemos! – Elliot Ryan ouvia a conversa das duas ali perto, mas não se abalava com as palavras de Elizabeth, pois para ele esse medo dela já estava mais do que claro. Porém continuava por ali, em silêncio. O mordomo de sua residência o acompanhava.
- Porque estamos aqui em silêncio, meu senhor? – Richard, o mordomo, o indagara.
- Quero me certificar de que está tudo bem. – Respondera sério, observando as duas garotas discutirem sobre se casar ou não.
- Mas o senhor já deu ordens para que outras pessoas fizessem isso, não? – Elliot o olhara de esguelha, notando uma sombra próxima a casa de Elizabeth, do outro lado do jardim. Era um dos guardas de sua residência, que pessoalmente ordenara para que ficasse de olho na menina.
- Sim, mas não confio em ninguém além de mim mesmo para executar um bom serviço. – Dissera em tom decisivo. Richard arqueara as sobrancelhas. Conhecia o rapaz desde seu nascimento, e sabia de seu temperamento astuto e responsável.
- Deve amá-la muito. – Ele sorrira.
- Obviamente. Ela será minha esposa. – Richard sorrira.
- E ela sabe disso?
- Sim.
- E o que ela acha? – Elliot apontara para as duas ali perto, e Richard as observava brigar, enquanto Elizabeth repetia que casamentos eram uma prisão.
- É o que ela acha, mas ela vai mudar de ideia. – Ambos riram da cena que se desenrolava sem realmente levar algo que diziam as meninas em consideração.
A tarde fria se estendia pela cidade. A casa da família Philip, retomara seu clima tenso com a presença dos quatro irmãos mais velhos de Elizabeth, que discutiam novamente sobre a herança prematura dos herdeiros. Elizabeth por sua vez, ouvia tudo por trás da porta.
- Porque a menina está aí novamente? – Indagara Lucy, uma das empregadas da família.
- Preciso saber o que está acontecendo. Eu não confio nos meus irmãos, papai pode passar mal e eles não moverem um dedo! – Lucy, sorrira a ela, sabia que era uma mania incurável da senhorita. Mas apesar disso resolvera deixá-la ali. Elizabeth tentava escutar a conversa, mas desta vez a porta estava bem fechada, e ela só podia ouvir que uma discussão acalorada ocorria, mas sem realmente discernir as frases. Porém num dado momento, um baque surdo de um corpo caindo ao chão, pode ser ouvido pela garota, que no mesmo instante, temendo mais uma troca de socos, adentrara a biblioteca às pressas. Mas o que ela vira, não fora uma briga e muito menos meros socos. A cena que se desenrolara diante dos seus olhos, seria dali por diante, um de seus piores pesadelos, que a acompanharia para sempre.
Sangue se espalhava ao redor de seu pai, que caído ao chão, se debatera intensamente antes de se tornar imóvel, com uma espada cravada em seu peito, tão forte, que parecia ter atravessado seu corpo e se pregado ao piso de madeira abaixo de si. Joseph a mirou, juntamente com seus outros três irmãos.
- PAPAI! – Elizabeth gritara tão alto que mal pode conter-se. Correra em direção ao seu corpo, mas uma segunda espada a impediu.
- Mate-a. – Joseph ordenara a Jamie, do qual lhe apontara uma espada em sua direção. Elizabeth se lembrara vagamente dos cabelos cacheados que a desafiava em lutas intermináveis de treinos. Se dera conta que carregava consigo sua espada, escondida entre as camadas e mais camadas de seu vestido, em uma aba secreta que criara especialmente para isso. Sem pensar muito reagira, empunhando o sabre num reflexo, mandando para longe a espada que seu irmão carregava. Ela mirara o pai, que a olhara com urgência, e duas palavras quase silenciosas brotaram com dificuldade de seus lábios que pingavam sangue.
- Corra... Elizabeth... – Dissera, antes de seus olhos perderem o brilho e seus pulmões pararem de funcionar. Não, não! Aquilo não podia estar acontecendo! Pensara em completo pânico e desespero.
- Peguem-na! – Ouvira a ordem ainda mais alta, e soubera naquele momento, em que mais lhe parecia um pesadelo, que aquela seria a última vez que veria seu pai. Ela dera passos para trás, correndo como louca da sala onde estava, correra tanto, que só podia pensar em seu cavalo, correra a esmo até alcançá-lo, sem saber se mais alguém a seguia, se estava sozinha, se havia mais alguém ali. O alcançara, montara nele e galopara pela estrada lateral. A respiração ofegante, os cabelos desgrenhados, o desespero de tentar salvar a própria vida, sabendo que a de seu pai havia sido ceifada ali, naquele momento. Não poderia ser verdade, não poderia ser... Gritava para sua mente acordar logo daquele sonho horrível da qual estava presa, sem saber exatamente para onde ir. Até que sentira duas mãos enormes lhe agarrarem a cintura, puxando-a de seu cavalo. Elizabeth gritara sem saber a quem, mas ao ver o vermelho sangue de suas vestes, seu coração dera uma pontada forte.
- Acalme-se, Eliza! Sou eu! Elliot Ryan! – Gritara o rapaz pressionando-a contra seu peito. Ele a havia puxado para seu cavalo, do qual havia parado de galopar, após parearem para que ela fosse pega. Elizabeth o mirara finalmente.
- Elli... é você mesmo? – Ela indagara, tocando seu rosto com incredulidade.
- O que houve? – Perguntara segurando suas mãos. Elizabeth sentira as lágrimas em seus olhos instantaneamente.
- Meu pai... ele precisa de mim! Eu preciso voltar, eu... – Elliot segurara o rosto da menina firmemente.
- O que aconteceu, Eliza?
- O meu pai está morto, Elli! Meu pai está morto! – Elliot pareceu perder a cor de seu rosto. Havia sido alertado de um movimento estranho por seu guarda, que atualmente cuidava do casarão da menina em segredo, e então ele resolvera averiguar pessoalmente, mas não esperava ver Elizabeth desembestar estrada afora em seu cavalo.
- Se acalme!
- Não! Me solta! Eu preciso voltar! – Gritara a menina, empurrando Elliot como podia.
- SE ACALME! – Ele a apertara fortemente, a fim de mantê-la consigo. – Quem o matou? Quem foi? O que você viu? – Elizabeth agarrara-se a ele, chorando incessantemente.
- Joseph... – Dissera em meio às lágrimas que não paravam de chover por sua face. – Ele está vindo atrás de mim... ele vai me matar também. Eu fugi... Ele disse para me matarem... Ele disse... – Elliot a abraçara em si, acariciando suas costas.
- Se acalme, ninguém vai matá-la. Xiii... – Ele dizia enquanto beijava seus cabelos desgrenhados, ao mesmo tempo que Elizabeth desabava em chorar. – Eu estou aqui, vai ficar tudo bem... – Elliot dera comando ao seu cavalo para seguirem. Ele logo alcançara o de Elizabeth, que parou o galope quando notou-se sem ela por ali, então seguiu carregando-o pelas rédeas.
Elliot a levara para sua residência, era uma casa menor que a da família Philip, mas igualmente bela e requintada. Seu pai o recebera, estranhando Elizabeth por ali também. Ele dera ordens para que alguns colegas investigassem imediatamente o que ocorrera na residência Philip, pedira a alguns empregados que cuidassem de Elizabeth enquanto conversava com seu pai. A menina mal falava, o rosto inchado pelas lágrimas, as roupas sujas e os cabelos desarrumados.
- O que aconteceu, Ryan? – Ele averiguou se ela estava longe o suficiente para então contar o que ocorria.
- Harold está morto.
- O quê? – Seu pai não acreditara no que acabara de ouvir.
- Joseph Philip o assassinou.
- Do que está falando? Você tem provas disso?
- Elizabeth viu tudo. – Charlie sentara-se a cadeira na biblioteca em que estavam. – Eles quiseram-na morta também, mas ela fugiu.
- Maldita herança! Harold vinha se queixando sobre a pressão de seus filhos! Não, não, não... o que está acontecendo?
- Eu ainda não tenho certeza. Já chamei reforços.
- Mas e Elizabeth? Ela vai ficar aqui?
- E onde mais quer que ela fique? Na rua? – Charlie o mirou firmemente.
- Você está se arriscando demais com essa moça, olhe o que está acontecendo!
- Harold era seu amigo, e é assim que retribui a amizade? Rejeitando sua filha na hora que mais precisa? Tenho certeza de que se fosse o contrário, ele me acolheria. – Charlie se calou, mirando o filho com a face contrariada.
- Dê um jeito de lhe arrumar um lugar para ir. Essa casa ainda é minha, e é eu que mando por aqui. Harold era um bom homem, mas o histórico da família Philip é fétido. Não o quero se envolvendo demais com essa história, não sinto que isso seja algo bom para você no futuro. – Ele saíra da sala em silêncio.
Elliot pedira para que levassem Elizabeth para um quarto de hóspedes, e logo fora até ela. Avistara a moça com um vestido leve, quase como uma roupa de baixo, sentada na cama de dossel, e sentira-se sem jeito, dando passos para trás imediatamente.
- Me desculpe, Elizabeth. – Dissera, sem adentrar o quarto.
- Entre, por favor. – Pedira a moça, num fio de voz. Ela levantara-se, indo até a porta, puxando-o pelas mãos. Olhara-o fixamente. – Eu preciso ir embora, Elli.
- O que está falando?
- Eu não quero ser um incômodo. – Então ele se lembrara de que a moça costumava ouvir atrás das portas. Fechou os olhos lamentando.
- O que você ouviu?
- O suficiente para saber que não sou bem vinda aqui.
- Não é bem assim, Eliza!
- É sim! – Exclamara.
- Só esta noite, por favor. Ajudarei você posteriormente a encontrar um novo local, mas por favor, Elizabeth, me escute, você corre perigo se sair daqui hoje, você entende isso? – Ele disse, se aproximando e segurando em seus ombros. Elliot beirava um metro e noventa de altura; ele havia aumentado consideravelmente. Ela podia notar um tom de desespero em sua voz. – Perdoe meu pai, ele não sabe bem o que diz. – Permanecera séria o mirando, então baixara a face e se afastara sentando-se de volta a cama.
- O que eu farei da minha vida? Eu preciso matar Joseph. – Dissera simplesmente, o que fez Elliot sentar-se ao seu lado.
- Nunca mais diga isso. Não pense que matar alguém é assim tão fácil.
- É? Você já matou quantas pessoas? Tem pesadelos até hoje com isso? Elli Ryan, você não sabe o que é ver seu pai sendo morto na sua frente! – Disse, e ele pode ver seu olhar faiscando de raiva e tristeza.
- Eu vi pessoas importantes para mim sendo mortas e torturadas na minha frente, sim. Vi pessoas morrendo aos montes, explodidas por bombas, vi pessoas sendo abusadas e estupradas, você sabe disso. E sem eu poder fazer absolutamente nada. Eu não queria matar, eu não queria ter me tornado um assassino, mas eu não tive escolha.
- Você teve sim! Você podia nunca ter ido para o exército então!
- Isso me foi incumbido desde sempre, Elizabeth.
- Então você foi um covarde de não ter lutado contra o que os outros te incumbiram! – Elliot respirara fundo, ainda mirando-a. – Como quer que eu confie em você, se toma decisões sem realmente querer? – Ele se levantou sem olhá-la e caminhou até a porta. Elizabeth estava fora de si, e jogava nele toda sua dor.
- Fique aqui e não pense em fugir. Amanhã darei um jeito. – Dissera, indo-se sem olhar para trás, fechando a porta atrás de si. Elizabeth puxara as cobertas. Era um quarto com paredes de pedra, uma lareira estava acesa e a cama de dossel era bela, mas nada era realmente confortável por ali. Sentia falta de seu quarto, sentia falta de seu pai. E ao lembrar-se dele, ela desatara-se a chorar, agarrada aos travesseiros como uma criança faria. Se lembrara de Augustine e das brincadeiras pela manhã e jamais imaginaria que sua vida mudaria da água para o vinho em menos de doze horas.
Fale com o autor