Através do Tempo
21 Recomeço
Notas iniciais
Um Ano Depois...
Arrumava-se com roupas escuras e botas. Eram roupas guardadas há muito em seu guarda-roupas. Mirara seu reflexo no grande espelho do quarto, havia se recuperado por completo, ganhara peso, e seu bom aspecto estava de volta. Seu pai nunca retornara, embora se correspondesse com Richard por cartas. Nunca perguntara sobre o conteúdo delas, mas alguma hora faria isso.
A noite caíra, e ao ver o rapaz se arrumar para sair, Richard indagara-o.
- Aonde vai, meu senhor?
- Cemitério.
- A essa hora? Estará fechado.
- E é por isso mesmo. – O mesmo não entendera. – Tenho algo para lhe contar antes de ir. – Ele narrara a suposta recuperação de sua memória, Richard não tinha informações reais sobre o paradeiro de Elizabeth, mas torcia para que ela estivesse viva. – E tem mais, ela estava esperando um filho meu, antes de tudo acontecer.
- Um filho?! Isso é maravilhoso! Meus parabéns, Elliot! – Richard ficara realmente feliz com essa notícia e agora mais do que nunca, rezava para que suas memórias fossem mesmo memórias.
- Obrigado! Se eu estiver certo, ele terá hoje dois anos.
- Então você pretende tirar isso a limpo, exumando o caixão?
- Exatamente. – Uma expressão sombria perpassara o rosto de Richard.
- Eu preciso lhe alertar, que pode haver um corpo ali dentro.
- Eu sei. Eu estou preparado para isso. Até porque também o corpo pode não ser o dela. – O mordomo meneara em positivo, pousando as mãos nos ombros do rapaz.
- Eu vou com você. – Elliot sorrira, seria bom poder contar com mais alguém.
O cemitério de fato já estava fechado, porém arrumaram um jeito de entrar, pulando os muros. Haviam trazido nas mãos pás e lamparinas, para iluminar o caminho. Não havia guardas, o que facilitava tudo. Elliot já havia estado ali uma vez, então fora fácil encontrar o túmulo que diziam ser de Elizabeth.
- É aqui... – Dissera Richard.
- Sim. – Elliot respondera, enquanto fincava a pá na grama e terra do local. Fora cansativo, mas em menos de duas horas conseguiram alcançar a grande caixa de madeira a pelo menos um metro de profundidade. Ele fora até embaixo, mirando a tampa.
- Está pronto? – Richard perguntara.
- Sim. – Ele respondera, puxando a tampa e iluminando com a lamparina. Lágrimas escorreram de seus olhos. Havia somente um vestido azul dentro da caixa limpa. Sem ossos ou qualquer vestígio de que um corpo estivera ali. Richard descera também, mirando o interior da caixa.
- Você estava certo, meu senhor. Ela está viva. – Elliot chorava em silêncio, eram lágrimas de emoção. Elizabeth nunca estivera morta, estava viva, e se seguira para a cidadela, ela estaria lá, com o filho deles. – E agora, o que fará?
- Vou encontrar minha família.
***
Elliot arrumara alguns de seus pertences, documentos e outras coisas na biblioteca, até que vira um bolo de cartas enviadas de seu pai. Ele apanhara a última, afim de lê-la.
“Caro Richard, obrigado por me manter informado sobre o estado de saúde de Ryan. Em breve ele provavelmente irá, e quando for, me avise que retornarei. Não quero voltar a vê-lo. Espero que viva sua vida. Nós já não temos nada que nos prenda um ao outro. Ele escolheu a vida que quis, então que a viva.”
Ele estranhara, como seu pai poderia prever que iria embora? Provavelmente porque o conhecia o suficiente para saber que descobriria a verdade por trás da suposta morte de Elizabeth. E ele estava certo. Mas reprovaria até o último suspiro toda essa teia de mentiras que o circundara por dois anos, sem considerar seu estado emocional, sua depressão e sua vontade de tirar a própria vida. E se o tivesse feito, acreditando nessa mentira? Iria ter perdido a chance de retornar para sua amada e seu filho. Como poderia perdoar algo assim?
Esbarrara em uma caixinha na mesa, vendo-a cair ao chão. Algo tilintara e um brilho dourado lhe chamara a atenção. Elliot abaixara-se e apanhara o pequeno objeto, era uma aliança de ouro, cravejada em safiras. A memória lhe viera à tona, como poderia ter esquecido? Ele a pusera em seu anelar, a lembrança de um laço materializado em suas mãos.
Terminara de organizar tudo, selara Rena, uma égua, e fora se despedir de Richard.
- Eu poderia dizer para ir comigo, mas não teria como lhe pagar por seus serviços. – Richard o olhara com pesar.
- Não é sobre dinheiro, meu menino, mas alguém precisará cuidar do seu velho. Seremos nós os dois velhos a se cuidar um ao outro. – Dissera sorrindo.
- Tem razão.
- Então, isso é um adeus?
- Eu espero que não. – Respondera Elliot, abraçando Richard com todo o carinho que sentia por ele. Afinal, sempre estivera ao seu lado.
**
Retomara o caminho que percorrera com Elizabeth há dois anos, que mais pareciam séculos. As lembranças voltavam em sua mente como uma avalanche, todas de uma só vez, até as que não se recordava mais, estavam todas ali, reais como a terra que pisava. Tentaria chegar o mais rápido que seu cavalo aguentasse. Será que Luck ainda estaria vivo? Como estaria Elizabeth? Como seria seu filho? Qual seria o nome que dera a ele? Um sorriso brotava a cada pensamento. A curiosidade, a saudade, tudo se mesclava como as cores do céu ao entardecer.
- Minha Elizabeth, estou chegando!
*
Parara para descansar com Rena, a égua que trouxera consigo, que por sinal era irmã de Luck, na caverna que vivera a melhor noite de sua vida. Olhara em volta, havia alguns gravetos, mas não parecia ter sido ocupada por alguém recentemente. Ainda havia sinal de uma fogueira, perguntara-se se ainda seria a fogueira que Elizabeth havia feito naquela ocasião. Sorrira. Era como se fosse ontem, como se pudesse tocar em todas as suas memórias. Afinal, fora ali que tiveram seu primeiro beijo, fora ali que tivera sua primeira e única vez com ela. Passaria a noite por lá, embalado e abençoado por suas doces lembranças. A viagem ainda seria longa.
Não pudera negar que passara por alguns contratempos, mas nada que o impedisse de continuar. Por vezes ainda sentia alguma dor nas costas ou desconforto em seu abdômen, do qual uma cicatriz o lembrava do momento em que seus caminhos, o dele e o de Elizabeth, haviam se separado. Sabia que essa era uma consequência da última luta que tivera, uma luta por sua vida. Já tinha seus vinte e nove anos, a caminho dos trinta. Só queria poder sobreviver para ver Elizabeth outra vez.
Em uma manhã, Elliot passara por um imprevisto. Havia parado em uma cidadela para comer, mas ao adentrar em um dos pequenos restaurantes, fora surpreendido.
- Ora, vejam só! Se não é o nosso ex-capitão Elliot Ryan Fawkes. – Um dos homens de seu antigo batalhão o surpreendera. – Me admira estar aqui, com vida. – Pronunciara a última frase com certo deboche em sua voz.
- É mesmo? Pois não devia se surpreender. Afinal, o único que poderá me derrotar em uma luta, será meu filho.
- Uhhh..! – O restaurante parara para observar, alguns temeram pela provocação entre os homens. De um lado um elegante homem de corpo forte e bom porte. Do outro, um homem brusco de corpo maior.
- É mesmo? É o que vamos ver! – E fora puxando sua espada.
- Epaaa, rapazes, por favor! No meu restaurante, não! – Um homem moreno dissera, se metendo entre os dois.
- Eu vim aqui para comer, e não para brigar. Vocês viram que não fui eu que provoquei. – Falara Elliot, na maior cara de pau, dando de ombros.
- Sim, é claro... – O homem do restaurante dissera, com uma sobrancelha erguida em incredulidade. – A propósito, sou Hanke. – Apresentara-se, lhe estendendo uma das mãos. Elliot o cumprimentara. O homem briguento ficara de lado, observando os dois. – Mas ouvi que seu pai deu uma ordem para que não o caçassem por desertar do exército. Você sabe, é bem difícil sair.
- É mesmo? Não sabia. Não ando falando com meu pai.
- Pois é, acho que ele tem sua influência por aqui. – Elliot não sabia bem o que pensar. Pedira seu almoço e comera em silêncio, pensando que realmente, não havia sido parado por ninguém, mesmo viajando em sigilo.
Ao sair, o homem corpulento o esperava.
- Achou que ia se livrar de mim, belezinha?
- O que disse? Belezinha?
- Oras, um homem bonito como você, não deveria ficar por aí sozinho. – Ele dissera, passando as mãos em suas próprias partes íntimas. – Elliot entendera. Respirara fundo. Só queria almoçar e seguir viagem tranquilamente, era pedir muito?
- Você era do meu batalhão, respeito é algo inexistente pra você, não é mesmo? – O homem rira em bom som, cuspindo enquanto gargalhava. Elliot dera graças por estar a uma certa distância. Ele puxara a espada novamente.
- Se você perder, será meu. – Ameaçara.
- Se você perder, considere-se morto. – Dissera em resposta, puxando sua espada também. Estava fora de forma, mas talvez aquilo fosse uma das coisas que nunca se esquece. Em segundos ele atacara, partindo para cima tão rapidamente, que o homem grande mal pudera respirar. Ele sabia qual era aquele tipo de pessoa, e era a que mais odiava, as violadoras. Haviam pessoas se acumulando ao redor para assistir a luta e isso não era legal. Teria que acabar com aquilo rapidamente, mas não poderia fazer o que realmente gostaria, em respeito a todos os presentes. O homem era forte, mas não era rápido o suficiente, Elliot sabia lutar muito bem, não só com sua espada, mas com todo seu corpo. Sentira fisgadas em suas costas, e não podia negar, aquilo atrapalhava. Mas não poderia perder ali, evitava as investidas pesadas que por vezes lhe dera a impressão que a qualquer momento romperia sua lâmina. Em um momento de descuido, Elliot lhe passara uma rasteira, derrubando-o ao chão, apontando sua espada para o peito exageradamente forte do homem.
- Não vai me matar? – Indagara.
- Talvez outro dia. Estou com pressa e quero seguir viagem sem sangue nas mãos e na minha espada. Senhores. – Ele fizera uma pequena reverência ao público, apanhando Rena que estava próxima, montando nela. O homem sentara-se ao chão, olhando Elliot com olhos ferinos. O mesmo lhe fizera um cumprimento de cabeça e cavalgara para longe dali.

Fale com o autor