Através do Tempo
22 Quando o Amor Retorna

Elliot enfim chegara a seu destino. A bela cidadela em que comprara uma pequena casa para se, por ventura um dia, precisasse. Jamais se arrependera disso. Ele caminhara ao longo da rua em questão, ao final dela, uma casa branca, simples e isolada das demais, abrigava seus maiores tesouros na vida.
- Vamos, Rena. Vamos encontrar Elizabeth, meu filho e seu irmão, Luck. – Ele dera um pequeno tapinha amistoso na bela égua de pelos negros e crina trançada. Ela, entendendo seu comando, acelerara sua cavalgada, seguindo com ele próximo às montanhas, onde o rio contornava o monte e o por do sol era o mais belo.
Ele puxara às rédeas, uma leve fumaça flutuava para fora da chaminé. Fora chegando mais perto com seu cavalo. A casa estava bem cuidada, a horta estava cheia, o jardim e as flores, muito bonito e arrumado. Ele sorrira, seu coração em disparada. Notara um movimento nas cortinas da janela, então descera de Rena, e a puxara pelas rédeas, até que uma criança pequena escapara pela porta da frente, correndo em sua direção. Elliot não pensara muito, a criança fora rápida o bastante para alcança-lo e abraçar suas pernas rapidamente, olhando-o com grandes olhos redondos, curiosos e conhecidos, porém eram verdes e brilhantes como os seus. Ele abaixara-se apanhando-o em seu colo.
- Papai. – A voz infantil e doce, soara dos pequenos lábios rosados. Ele não soubera o que dizer, temia que seu coração não aguentasse tamanha surpresa, amor e emoções misturadas. Lágrimas surgiram de seus olhos, ao mesmo tempo que sorrisos de seus lábios.
- Meu filho. – Ele dissera, abraçando aquela criança, como se fosse sua vida em seus braços. De olhos fechados, ele aspirara o cheirinho de bebê em seus cachinhos dourados, apertando todo seu corpinho contra si. Mesmo que ninguém dissesse, ele sabia.
- Elli...? – Ele mirara a dona da voz que tanto abalava suas estruturas. Elizabeth estava bem à sua frente, como um sonho, uma miragem, algo que temeu não ser real, e sim um fruto de sua mente cansada. Ela se aproximara correndo, o enlaçando por sua cintura. Elliot segurara seu filho com um dos braços e com o outro apertara Elizabeth em si. – Você está aqui? Você é você mesmo? – Ela indagava, enquanto a voz embargada por suas lágrimas que insistiam em não cessar, molhavam sua pele sem parar.
- Eu estou aqui... Meu amor. Sou eu... – Ele beijara seus lábios com saudade, amor, paixão e todos os sentimentos bons que podiam existir em seu coração. Havia chegado em seu lar, definitivamente agora, estava em casa.
**
Por mais que estivessem de frente um pro outro, por mais que podiam tocar-se, ambos temiam acordar daquele sonho. Foram tantos dias em claro, tantas horas em sofrimento, que a mera presença parecia mais do que o melhor sonho que já tiveram.
- Eu ainda não consigo acreditar em meus olhos. – Elizabeth dizia, enquanto tocava aquele rosto tão amado e admirado desde sempre. Estavam sentados no sofá da sala. Elliot com Ryan em seu colo, que observava atentamente seus pais.
- Também te contaram uma mentira, não é?
- Seu pai me disse que estava morto. Eu retomei o caminho e voltei onde você foi ferido pelos soldados, mas só vi uma carruagem, que Charlie dissera levar o seu corpo. – Elliot sentira raiva, dor e tristeza ao ouvir suas palavras.
- Aquele velho... como ousa? – Elizabeth segurara uma de suas mãos.
- Isso não importa mais, você está aqui. – Ambos se olharam sem dizer nada por alguns minutos, tocando o rosto um do outro.
- Você está linda. Ainda mais linda agora que já é mãe. – Ela rira-se.
- Você também, agora que já é pai.
- Eu nem consigo acreditar nisso! – Ele erguera seu filho no alto, fazendo-o gargalhar de excitação. Elizabeth rira, nunca havia visto seu filho sorrir assim. – Como é seu nome? – Elizabeth pensara em interromper e explicar que o menino pouco falava, mas fora surpreendida.
- Ryan Harald. – Ele respondera com a voz macia, calma e doce.
- Ryan Harald. – Ele olhara para Elizabeth, um sorriso orgulhoso lhe enfeitara os lábios. – Eu sou Elliot Ryan.
- Eu sei... Você é meu pai.
- Isso mesmo! Como você sabia? – A criança escapara de seu colo e correra para o quarto, em segundos trouxera papéis que ele entregara a Elliot, que apanhara as folhas, mirando os inúmeros desenhos ali contidos. – Sou eu... – Ele olhara a assinatura, onde se lia “Elizabeth Morgan Philip”, Elliot a olhara abismado.
- É você, papai. – Ryan dissera, olhando para ele sorridente. Elizabeth por outro lado, estava encantada com o quanto seu filho estava falando normalmente, e perfeitamente.
- Desde quando você desenha, Elizabeth?
- Desde que Ryan nasceu. Eu descobri esse dom sem querer. Queria retratar você, eu tinha medo de esquecer seu rosto, tinha medo de que nosso filho nunca soubesse como era seu pai. – Elliot deixara algumas lágrimas caírem num dos desenhos. Eram aqueles sentimentos misturados novamente.
- Eles me disseram que você morreu no incêndio da família Philip. Há uma lápide sua junto com seus irmãos e seu pai. – Elizabeth nada sabia daquela história, mas de certa forma, era algo bom que a tivessem “apagado”, mas certamente não fora para Elliot. – Eu não conseguia acreditar naquela história. Eu sinto muito, Elizabeth. – Ele segurara suas mãos entre as suas. – Eu não pude vir antes, fiquei de cama por meses sem me lembrar de quase nada, perdi o movimento das pernas, levei tempo para me recuperar. Mas nunca acreditei realmente que estava morta. Só tive certeza porquê exumei o caixão.
- Você... passou por tudo isso..? Porquê? Porquê fizeram isso com a gente? O que fizemos para merecer tudo isso? Eu não entendo... – Elliot a puxara para si, beijando sua testa, cheirando seus cabelos com aroma de ervas.
- Eu não sei... mas estamos aqui agora. Nada mais no mundo importa para mim, a não ser vocês.
- Você sempre foi forte. Eu seria a pessoa mais feliz do universo se nosso filho tiver sua coragem e força. – Ele sorrira.
- Ele tem, posso ver isso. – Ryan que estava ao chão desenhando, parara para ver aqueles dois adultos se beijando novamente. Ele sabia que seu pai era alguém que sua mãe amava, e por isso não o via como ameaça para ela com sua infantil visão de mundo. De alguma forma, vê-los juntos o deixava feliz, era a primeira vez que via sua mãe sorrir assim.
Os três almoçaram à mesa, o casal conversara sobre tudo que viveram enquanto estiveram separados. Os assuntos eram tantos, que a conversa parecia interminável. Elliot descobrira que Elizabeth dera a luz sozinha naquela casa, graças a Margareth, que lhe ensinara tudo que precisava saber. Ele não sabia medir o orgulho que sentia dela, uma força tamanha que mal conseguia imaginar que ela teria, sempre soubera que era forte, mas não fazia ideia de que era tanto. Talvez as mulheres se tornavam ainda mais fortes quando uma vida inocente dependia de si; para ele, era como se o instinto de proteção fosse o carro forte desse gênero, e estaria mentindo se dissesse não admirar isso nelas.
Elliot finalmente se encontrara com Luck, que relinchara contente ao vê-lo. Elizabeth e Ryan admiravam a cena, até irem conhecer Rena, que também se empolgara ao encontrar seu irmão.
- Agora vamos cuidar desses dois. – Elliot dissera. – Rena é uma ótima égua. – Ryan já estava alisando seu pelo, apesar de pequeno, o menino podia alcançar suas longas pernas da frente. Rena baixara a cabeça, afim de deixar o menino tocá-la.
- Ele adora cavalos. – Elizabeth dissera.
- Notei, eu também adoro. – Ela sorrira ao ouvir a frase.
- Margareth tinha razão afinal, esse garoto é sua cara. – Ela o vira sorrir orgulhoso, olhando o filho com olhos de amor.
Elizabeth, Ryan e Elliot estavam deitados na cama de casal do quarto de Elizabeth. Apesar do pequeno ter seu próprio quarto, aquela noite era especial, ele havia adormecido entre seus pais, enquanto os dois conversavam ainda mais coisas que ele não entendia, mas que lhe dera sono. Com uma lamparina na mesa de cabeceira, ela podia notar pela luz bruxuleante, o olhar doce de Elliot sobre seu filho. Ele pegara em suas mãos grandes a pequena mãozinha, da qual admirava os pequenos dedinhos com unhas bem aparadas. Era tão delicado, tão pequeno.
- Ele é perfeito. Tinha mesmo que ter sido feito por você. – Ele dissera. Elizabeth sorrira.
- Você também me ajudou a fazê-lo.
- Ah não... eu não fiz praticamente nada. – Ela tocara suas mãos notavelmente maiores do que as suas.
- Não diminua sua presença. “Não se faz filho sozinha”, não se lembra de ter me dito isso? Se não fosse seus “segundos de descuido”, Ryan não estaria aqui. – Ele respirara fundo.
- Tem razão... Mas você fez um ótimo trabalho até aqui. – Ele a puxara para si, beijando seus lábios com calma. – Temos todo o tempo do mundo agora. – Ela sorrira. Os três finalmente adormeceram, embalados pelo amor e pela alegria de um ansiado reencontro.

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