Através do Tempo
9 Fuga Iminente
Notas iniciais
Apanhara quase nada de seus pertences, alguma comida, dinheiro e Luck, que ia consigo onde quer que estivesse, porém o tempo estava contra eles desde o princípio, e o exército inglês já batia à porta de seu pai, enquanto o rapaz escapava com Elizabeth pela estrada lateral. Mas antes de montarem em Luck, Elizabeth segurara o pulso de Elliot.
- Você tem certeza do que está fazendo?
- Eu já estou aqui, Elizabeth!
- Você não pode abandonar sua vida por minha causa!
- Não só posso como já estou fazendo isso! – Elizabeth sentira o desespero tomar conta de si, não suportaria perder Elliot também.
- Não, não, não!
- Rápido, Elizabeth! Se não seremos os dois mortos! – Ele montara em Luck e a ajudara em seguida, a pondo em sua frente. E ele sabia que não seria tão fácil assim. Cavalgaram por poucos metros, até terem a estrada fechada por um grupo de soldados.
- Capitão, Ryan! – Um deles se destacou do grupo, batendo continência.
- Nos deixem passar.
- Recebemos ordens que não deveríamos deixar ninguém passar. – Respondera o rapaz, e Elliot notando que de alguma forma aquele grupo em específico não sabia de sua baixa do exército, se aproveitara da brecha.
- Vai desrespeitar seu superior? – O rapaz e os outros baixaram a face. – Diga que não me viram aqui, somente isso. – Eles concordaram entre si e o deixaram passar. Elliot lamentaria ter de lutar com aqueles jovens rapazes e ter de ceifar suas vidas. Galopara para longe, levando consigo seu bem mais precioso, sem saber o que lhes aguardavam a seguir.
Cavalgaram por cerca de quarenta minutos, e ele notava Elizabeth se mantendo o mais firme que conseguia. Pegaram caminhos e estradas desconhecidos pela maioria, mas que ele conhecia muito bem, apesar de ter estado anos longe. Precisava despistá-los, e para isso teria de ser mais esperto que todos eles.
- Para onde estamos indo? – Ela indagara depois de vários minutos.
- Para um local escondido. Só chegaremos ao anoitecer e passaremos a noite por lá. – Elizabeth nada dissera, apenas concordara. Pela estrada, fora ficando frio à medida que o sol se escondia e a noite chegava. Provavelmente a essa altura, já havia saído da cidade há muito. Paravam ora ou outra para que Luck descansasse e pudesse beber água nos riachos que encontravam pelas trilhas. Quase nada conversavam, pareciam cansados o suficiente para trocar meia dúzias de palavras. E quando a noite os alcançara, como previsto por Elliot, se aproximaram de um casebre muito bem escondido no meio de uma densa floresta. Com um pequeno espaço de baia para um cavalo, onde tratara de acomodar Luck. A cabana de madeira era confortável, apesar do tempo deixar-lhe sinais de desgaste. Havia muita poeira, mas nada que não pudesse ser arrumado.
Elizabeth adentrara o local, enquanto Elliot acendia uma das várias lamparinas por ali. Bem iluminado, a menina observara tudo com atenção. Era um lugar aconchegante apesar da sujeira.
- Que lugar é esse? – Indagara.
- É uma cabana que encontrei há alguns anos, sempre que passava por aqui em serviço, descansava nela.
- Você que a encheu de todas essas coisas? – Perguntara, se referindo aos lençóis, lenha, lamparinas, e todo um aparato de sobrevivência.
- Sim, eu sabia que um dia iria precisar dela mais do que nunca precisei antes. – Confessara sinceramente. Ambos ajudaram-se na arrumação do pequeno local que só possuía dois cômodos, um quarto e uma cozinha repleta de ervas medicinais secas dependuradas, além de uma tina para o banho. Decidiram não acender a lareira para não chamar atenção, e apenas permaneceram com uma lamparina entre eles, que sentados ao chão, comiam alguns pães que Elliot trouxera. Uma chuva calma cobrira a floresta e o frio se intensificara.
- Como você está se sentindo, Eliza? – Indagara, mirando a menina olhar o nada enquanto comia em silencio.
- Estou bem. – Dissera com a voz fraca, notavelmente adoecida. Elliot se aproximara dela, postando uma de suas mãos à testa da menina, que ardia em febre.
- Você não está bem, Eliza! Como pode dizer que está? – Indagara, levantando-se. Arrumara uma espécie de cama ao chão, onde a deitara. Trouxera água e um pano e sem perder tempo começara uma compressa em sua testa. Elizabeth mal enxergava o que Elliot estava a fazer. Fora aos poucos perdendo a consciência. Sua mente parecia confusa e ela ouvira gritos e seu pai sangrando ao chão. Chamara-o sem parar, mas não conseguia alcançá-lo, ao mesmo tempo em que escutava alguém dizer que tudo ia ficar bem. Elizabeth chorara sem que pudesse parar. Em seguida via-se correndo uma estrada sem fim, enquanto flechas voavam para todas as direções. O crucifixo de Elliot brilhava em seu peito. Sem que esperasse, despertara, e se vira numa cabana de madeira, iluminada somente por uma lamparina próxima de si. No susto acabara por sentar-se, e se vira em meio a lençóis e almofadas que Elliot havia lhe preparado mais cedo, e fora então que tudo fizera sentido. E correndo os olhos pelo local notara o belo homem adormecido próximo de si. Estava sentado, encostado a uma das paredes. Ainda usava o uniforme e parecia ser sua única peça de roupa até então. As botas, de cano alto em couro marrom, e a capa vermelha adornada de azul, preto e dourado, lhe configurava uma figura imponente e esbelta. Em suas mãos estava um pano úmido com a água que lhe fizera compressa. Elizabeth sorrira, já sentia-se melhor, mas seu coração doera. Elliot havia dado tudo de si para ajudá-la, não tinha como não vê-lo como seu eterno herói. Ela se aproximara, estendendo a ele suas cobertas, o cobrindo também.
- Elli? – Ela o tocara, estava frio e tremia levemente. – Elli, acorda! Você precisa se deitar! – Dizia enquanto tentava sem sucesso esticar as longas pernas do rapaz. Até que ele abrira os olhos, olhando-a um pouco surpreso.
- Elizabeth..? Você está bem? – Indagara prestes a se levantar, mas fora forçado a continuar ali pelas mãos da menina.
- Eu estou bem, mas você é que não está! Precisa descansar. – Disse ela, o puxando para se deitar consigo.
- Não, Elizabeth! É você quem deve descansar.
- E você não? Acha que é de ferro? Venha, deite-se ao meu lado. – Ele a olhara de olhos arregalados, como se ela dissesse algum absurdo. – O que foi? Pare de pensar em etiquetas antiquadas, não estamos em situação própria para ficar de frescuras. – Ele arqueara as sobrancelhas e desatara-se a rir em seguida, uma gargalhada contagiante que Elizabeth nunca o havia escutado dar.
- Você é hilária, Elizabeth. – Dissera quando finalmente conseguira falar.
- Mas eu não disse nenhuma mentira. Estou falando sério, deite-se, você precisa dormir. – Então ele se deitara, meio que pra fora do acolchoado.
- Assim não vale!
- Ei! Eu sou grande para caber nós dois aí!
- Não é nada... – Ela o puxara, fazendo-o ficar bem próximo de si, então o cobrira com as densas cobertas. – Precisa ficar bem quentinho. – Ela disse, mas mal sabia ela que Elliot já estava pegando fogo. Estava perto demais, e repudiara-se por sentir o que seu corpo sentia. Elizabeth contudo tinha uma certa inocência, apesar de curiosidade genuína. – Porque está me olhando assim? – Indagara, vendo-o olhá-la fixamente e ridiculamente sério, controlando desesperadamente sua respiração.
- Eu não consigo chegar muito perto de você sem me sentir estranho. Você nunca reparou? – Ela o olhara de esguelha.
- Você pediu minha mão ao meu pai. O que quer que eu pense? – Ele erguera uma sobrancelha.
- Você sabe o que eu sinto?
- Acha que sou criança, Elli Ryan?
- Então porque está fazendo isso comigo?
- Porque quero que você se aqueça.
- Não liga de me deixar chegar tão perto?
- Eu confio em você. – Ela respondera simplesmente. Elliot sentira seu coração aquecer, como se tivesse mergulhado em um sonho bom.
- Eu a amo, Elizabeth. – Dissera olhando-a firmemente. – Você precisa viver, e é por isso que estou aqui. – Elizabeth sentira seus olhos marejarem, então ela se encostara a seu peito, apertando firmemente na abertura de suas vestes vermelhas.
- Eu não quero perder você também. – Revelara, chorando ainda mais lágrimas que restavam. – Não quero... – Sentira-o abraçar-lhe, puxando-a para seu corpo, aquecendo-a com seu calor. Beijara-lhe os cabelos.
- Você não vai me perder. Eu estou aqui com você, já percorremos um longo caminho. Só preciso que você seja forte, precisamos ir o mais longe possível daqui. – Ela encostara o rosto em seu peito e podia ouvir seu coração, como sempre, tão disparado, como se fosse sair pela boca a qualquer momento. Ela admirava sua força, admirava seu controle. Não sabia muito sobre sexo, paixão entre homens e mulheres, não sabia muita coisa com relação a isso, mas sabia que era algo quase “incontrolável” aos homens, em seu infantil conhecimento sobre essa área, então admirava o autocontrole de Elliot. Mas por algum motivo sentia um peso em suas palavras, como se nem mesmo ele realmente acreditasse que aquela fuga, terminaria bem. Elizabeth tinha esperanças, mas ainda era jovem demais, mimada demais, da qual quase nada vivera. O que os esperavam? Nenhum dos dois sabia, mas precisavam lutar, era a única coisa que lhes restavam.

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