Através do Tempo
17 Fogo e Cinzas
Notas iniciais
Elizabeth agora sabia se cuidar, ela lembrara todo o percurso, viajara o mais silenciosamente possível enquanto os dias se passavam, enfrentando chuva, sol, frio, vento. Ela pedia perdão a Elliot e a seu filho principalmente, pelo esforço aplicado. Seus cabelos agora curtos, estavam ali para lembrar-lhe de sua vingança decretada. Seu ventre havia aumentado, e a fome em igual proporção. Tinha pouco dinheiro e ela mal comia. Havia entrado em algumas cidades pequenas, pedido dinheiro pelas ruas ou limpado algo para ganhar comida. Ela sabia que poderia estar condenando sua vida e a de seu filho no processo, mas não poderia parar.
Em quase dois meses ela finalmente conseguira chegar. Não perdera tempo, não poderia viver se não o fizesse.
Reservara uma noite em específica para executar seu plano. Deixara Luck em um local estratégico, enquanto que armada de querosene e fósforos, se aproximara do que antes fora seu lar e o de seu amado pai. O lindo jardim estava destruído. As muitas flores que antes existiam ali estavam secas e mortas. A sensação de retornar naquelas circunstâncias, só alimentavam ainda mais sua vontade de vingança. Elizabeth escutara muitas risadas vindas do casarão, vozes de pessoas bêbadas e outros sons indistinguíveis. Com o rosto encoberto em boa parte, somente seus olhos eram visto. Usava vestes masculinas, seus seios e sua barriga haviam sido apertados em uma faixa. Podia passar facilmente por um rapazinho magricela. Ela mirara pela janela, não havia empregados na casa. E ocorria, pelo que lhe parecia, uma orgia ou algo do tipo; sentira nojo e repulsa. Tudo que sempre amou e protegeu como seu lar, agora estava destruído, nas mãos de seus irmãos, nada durava para sempre. Já devia saber do que eram capazes, mas nem em seus sonhos imaginara que chegariam ao extremo de ceifar a vida do homem que tinham em comum. Não eram humanos, eram monstros disfarçados.
Elizabeth rodeara a casa com querosene à sangue frio, regada pelo ódio e desesperança, adentrando em pontos específicos para que uma explosão ocorresse, e sem perder tempo, acendera um fósforo. Olhara a pequena chama queimar vagarosamente entre seus dedos a uma certa distância do local. A vida de seus quatro irmãos estavam em suas mãos, que irônico! Tantos dias vivendo à mercê de quatro bandidos, agora porém a história havia mudado de quadro. Ela simplesmente arremessara-o no caminho do líquido inflamável, vendo-o percorrer por ali. O fogo começara a consumir as vigas com madeira rapidamente, tomando o redor da casa por completo em chamas que cresceram em segundos, transformando-se em grandes labaredas. Ela dera às costas e pode ouvi-los gritar em desespero. Montara em Luck, e jamais olhara para trás.
Três Meses Depois...
Elizabeth encontrara por fim a tal cidadela mencionada por Elliot. Sua barriga estava maior e seus cabelos haviam crescido um pouco. Achara a casa com facilidade; era simples, mas muito bonita e confortável, embora fosse isolada dos demais vizinhos; um rio mediano passava por de trás. Ela sorrira ao mirar o lindo local e agradecera por Elliot ter sido tão cuidadoso e pensado em tudo. Havia uma pequena horta repleta de ervas daninhas competindo espaço por ali, um jardim não cuidado e uma bela varanda. Em cerca de três meses poderia dar a luz e precisava preparar tudo para a chegada de seu filho.
Limpara a casa com cuidado, encontrara o dinheiro mencionado por Elliot, era uma grana consideravelmente alta, poderia sobreviver uns bons anos sem se preocupar. Porém aprendera a trabalhar em seu período de fuga e gostaria de continuar assim antes de dar a luz. Haviam momentos em que ela desabava, embora tentasse viver um dia de cada vez. Chorava e flertava com a possibilidade de ceifar a própria existência. Estava sozinha; será mesmo que conseguiria criar uma criança nessas condições? Caíra em depressão e por vezes desejava simplesmente desistir. As pessoas que mais amava na vida não estavam ali, e seu filho não conheceria nenhum dos dois. Valeria à pena trazê-lo a este mundo? Talvez seria melhor acabar com esse grande sofrimento. Mas então o sacrifício de Elliot vinha à sua mente, a sensação de ter seu corpo apertado contra o dele, na tentativa desesperada de salvar sua vida e a de seu filho, nunca deixara suas lembranças. E com isso ela desistia do pensamento de acabar consigo mesma.
Não havia feito nenhuma amizade, as pessoas da cidade a olhavam torto, ninguém como Margareth. Ela não ligava para isso. Não precisava de ninguém e não tinha gana para tentar firmar algum laço. E com isso, os nove meses de gestação, já haviam se completado. E numa manhã em que coletava alguns tubérculos da horta que cuidava, sentira descer algo por suas pernas. Um líquido incolor escorrera, derramando-se. Ela sabia, a hora havia chegado.
Já havia deixado seu quarto arrumado e preparado para a hora do parto, catara as toalhas, álcool, tesoura e outras coisas. Algumas boas horas após o rompimento da bolsa, sentira uma dor excruciante invadir-lhe, era tão forte que nem se quer poderia ter imaginado. Elizabeth se apoiara na armação de madeira de sua cama, reunira toalhas e almofadas ao chão e começara a sentir uma força involuntária por seus músculos, ela ajudara seu corpo, esforçando-se ao máximo e em alguns minutos o pequeno bebê descera, junto com uma porção considerável de sangue e sua carne. Elizabeth o apanhara em seus braços, cortando seu cordão. Era um menino, como Margareth prevera. A criança não chorara, mas aparentemente estava bem. Ela pode sentir as lágrimas escapar-lhe os olhos rapidamente. Uma emoção diferente e sem palavras para descrever ou comparar. Elizabeth o embalara em panos limpos, ele tinha cabelos ralos e loiros, e ao abrir seus pequenos olhos minimamente, pode notar que eram tão verdes e lindos como os de seu amante. Ela o abraçara em si, chorando como uma criança, o enlaçara como se abraçasse um pedacinho de Elliot. Ele sempre estaria consigo e poderia senti-lo naquele exato momento, sua energia forte e imponente. Ele estava ao seu lado, como prometido, nada os separaria, não importava o que acontecesse.
O pequeno bebê em seus braços procurara seus seios instintivamente, e assim o fizera; sugando com uma força considerável seu mamilo rachado e dolorido. Elizabeth sorrira, aquilo era incrivelmente surreal. Mesmo com as dores em seu corpo, com o cansaço e toda a carga que vinha carregando, olhar o seu filho, era a coisa mais mágica que já havia vivenciado na vida.
- Seja bem-vindo, Ryan Harald!

Fale com o autor