Através do Tempo
5 Família Desordeira
Notas iniciais
E lá estava Elizabeth a escutar por trás da porta uma vez mais, e outras quinhentas no futuro. Seus irmãos resolveram se reunir para uma conversa com seu pai, e o centro da discussão era sua pessoa.
- Eu espero que o senhor não a inclua neste testamento como já havíamos dito.
- Mas como eu farei isso, Rudolf? Ela é sua irmã!
- Ela não é minha irmã! É uma selvagem que o senhor fez por aí, com uma vadia qualquer! – Ela escutara um baque surdo e o som de algo tombar ao chão. – O senhor está louco?!
- Nunca mais fale mal de Elizabeth e sua mãe outra vez! – Ela espiara pela fresta a tempo de ver seu irmão ao chão, tremendo de raiva enquanto seu pai lhe apontava um dedo. Os outros três rapazes miravam a cena sem saber bem o que fazer. Rudolf era o mais velho dos quatro, com quarenta anos, os outros três, Jamie, Joseph e Peter, na escala dos trinta. Todos eram frutos do primeiro e único casamento oficial de seu pai, cabelos castanhos encaracolados, pele branca e estatura mediana, eram o que marcavam as características de todos eles, muito parecidos com o pai na juventude. Rudolf era o único que usava uma barba espessa.
- Você é meu filho! Não pense que é mais do que eu para me dar ordens! – Continuava a dizer seu pai, enquanto Jamie ajudara seu irmão a se levantar quando comentara:
- Ficamos sabendo de um casamento arranjado para ela. Case-a e veremos o que fazer com esta casa, já que será grande demais para só o senhor viver aqui. – Harold baixara o rosto em desgosto.
- Onde eu errei com vocês? – Ele perguntara mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa na sala. – Eu ainda estou vivo, não sei se estão me vendo aqui. – Silêncio e Joseph fora quem falara em seguida.
- Quem será o homem?
- É o Elliot Ryan, filho do velho general Fawkes, acho que se lembram. – Peter respondera.
- Ah... Sim, me lembro. Fiquei sabendo que foi promovido a capitão, talvez seja suficiente para domar aquela selvagem! – Jamie dissera.
- Chega! – Harold gritara, levando a mão ao peito, no lado esquerdo. Elizabeth vira o ato e saíra de seu esconderijo em direção ao pai.
- Se acalme, pai! Por favor! – Ela o segurara e o fizera se sentar. As empregadas ouvindo os gritos vieram correndo, mas pouco puderam fazer ao ver o circo formado.
- Seus infelizes! Eu não dou a mínima pra herança! Por mim vocês podem engoli-la e evacuarem-na por seus orifícios imundos! – Todos na sala olharam Elizabeth com desprezo.
- Sua vadiazinha imunda, quem você pensa que é?! – Vira Rudolf avançar para ela, as mãos fechadas em punho, mas fora uma agressão interrompida, uma vez que ela não soubera dizer quando ele entrara ali, só que o via parado, segurando firmemente com uma das mãos, o punho que viera em cheio para acertá-la. O vermelho que invadira seus olhos e as longas madeixas loiras, soltas como sempre costumava usar, talvez no campo de batalha fosse diferente, mas ali, diante dos seus olhos, seu herói de infância viera lhe salvar.
- Dobre sua língua antes de se referir a Elizabeth desse jeito! – Elliot Ryan dissera, a voz grossa, firme e com uma grande pitada de desprezo, enquanto torcia o pulso de Rudolf com uma força sobre humana. Ele era mais alto e mais forte que o mais velho e que qualquer um ali.
- Chegou quem estava faltando, não é mesmo? Já transou com ela? – Desafiara Rudolf, que apesar de se contorcer de dor, não perdera a chance de provoca-lo. E dessa vez Elliot puxara sua espada, o sabre prateado reluzira na sala, como um flash que cortara a cena. Fora tudo tão rápido, que Elizabeth só ouvira o som de tecido sendo rasgado. As vestes pomposas de Rudolf foram ridiculamente cortadas, e Elizabeth previra o pior, mas Elliot era controlado o suficiente, pressionara sua espada em direção ao coração de Rudulf enquanto aproximara seu rosto para lhe falar:
- Você... não tem amor à sua vida? Que tipo de adulto se tornou? Alguém tão baixo e mesquinho, digno de pena, – cuspira as palavras – que não respeita sua irmã, que não respeita seu pai. Que merda de ser humano é você?
- Já chega, Elli. – Elizabeth se aproximara, segurando seus braços levemente. Elliot continuara firme, mas cedera segundos depois, baixando a arma. – Não vale a pena brigar por um motivo desses. – Ela se voltara ao pai. – O senhor está melhor? – Ele confirmara com um aceno de cabeça.
- É melhor irmos, Rudolf, Joseph, Peter. – Jamie se adiantara, puxando os outros irmãos para saírem. – Voltaremos novamente para uma conversa... definitiva. – Ele olhara friamente para Elizabeth, e Elliot captara no ar suas intenções.
A tarde estava nublada e uma névoa fraca descia pelos campos verdes da cidade. Harold fora levado a descansar em seu quarto enquanto que Elliot esperava por Elizabeth na entrada da casa, pelo lado de fora. O teto alto, o piso vermelho, os pilares brancos e belos do casarão, revelavam um requinte que somente as nobres famílias possuíam, e o sobrenome Philip, era uma dessas famílias.
- Ele ficará bem. – Dissera a menina ao rapaz, que viera dar-lhe satisfações sobre seu pai. Elliot porém a olhava preocupado.
- Eliza. – Ela o mirara, era só ele quem a chamava assim e fazia muito tempo que não o escutava chamá-la. Sua voz engrossara, se tornara a voz de um homem adulto, mas lá no fundo ainda podia encontrar a essência daquela doce nota do adolescente que conhecera. – Por favor, tome cuidado com seus irmãos, principalmente com Rudolf.
- Porque está me dizendo isso?
- Porque sim. – Ela o mirara desconfiada.
- O que você sabe que eu não sei?
- Não sei de nada, Elizabeth, mas eu conheço as pessoas e te digo, não confie em ninguém.
- Nem em você? – Ele respirara fundo.
- Acha que não pode confiar em mim?
- Eu acho que posso, mas devo levar ao pé da letra seu alerta? – Dissera ela, descendo a pequena escadaria e indo ao gramado, acariciar a crina de Luck. Ele rira, seguindo-a.
- Você é uma figura. – Dissera, seu semblante duro e sério, dissolvera, dando lugar a um afável e terno.
- Eu não confio nos meus irmãos. Não se preocupe quanto a isso. – Ela disse, enquanto desemaranhava os fios de Luck. – Eles nunca gostaram de mim, me batiam na minha infância quando papai não estava por perto. Uma vez me atiraram num rio, queriam me matar. Mas, aqui estou eu, viva, adulta e com muito desejo de vingança. – Elliot baixara os olhos. Não a culpava por sentir o que sentia, mas culpava-se por não ter estado por perto para defendê-la.
- Eu prometo não deixar ninguém te machucar daqui por diante. – Ele disse, segurando uma das mãos pequenas de Elizabeth entre as suas. As pontas dos dedos rosados, as unhas curtas e muitos cortes finos, se espalhavam por sua pele. Ele não se importava por como Elizabeth se portava, na verdade era isso que amava nela, sua rebeldia e força inconscientes.
- Obrigada, Elli, mas eu sei me cuidar. – Ela disse, mirando-o.
- E eu fico feliz por isso, mas eu quero estar aqui, quero estar ao seu lado, por mais que você não me queira. – Ela o olhara abismada.
- E eu disse que não o queria? Só disse que você não precisa pensar que sou uma boneca de porcelana.
- Ah mas pode ficar tranquila, que isso eu nunca pensei!
- Ei! – Ela quase lhe dera um beliscão na cintura, do qual ele escapara a tempo, porém a puxara para si pelos braços rapidamente, lhe dando muitas cócegas na barriga, fazendo-a dar grandes gargalhadas.
- Isso não é justo, Elli! – Ela exclamara rindo-se sem parar, agarrando-o pela roupa, e num tropeço, ambos foram ao chão. Elizabeth abaixo dele, vira algo brilhante escapar de seu pescoço. Era um crucifixo de prata. Ela o segurara com as duas mãos, analisando as escrituras em latim, gravadas no metal. – Que lindo... – Balbuciara. Assim, erguera os olhos para mirar Elliot, que a olhava de cenho franzido, a respiração afoita lhe escapando pelos lábios, o hálito fresco de café e menta roçando seu rosto, e foi então que Elizabeth se dera conta da posição íntima em que estavam, os corpos perto demais e cada poro de sua pele ansiando vergonhosamente, por mais. Elliot se afastara imediatamente, tentando recompor sua compostura.
- Me desculpe. – Dissera, puxando-a pelas mãos, afim de erguê-la. Ambos vermelhos e sem jeito. Elliot já tinha seus vinte e sete anos, mas ainda era jovem e por mais que tentasse, não dominava aos cem por cento todas as suas emoções. – Ele ajeitara os cabelos, tateando seu crucifixo, o botando de volta por dentro da roupa. – Era da minha mãe. É uma das poucas lembranças que tenho dela. – Elizabeth então se recordara que assim como ela, ele também não convivera muito com sua mãe, no caso dela, não convivera absolutamente nada.
- É lindo. – Respondera. – Eu também não tenho muitas coisas da minha mãe. – Contara se aproximando do rapaz. – Eu não a conheci. – O rapaz a mirara com pesar.
- Eu sinto muito por isso, sei como é perder quem amamos. Eu a perdi quando tinha oito anos.
- Acho que pra você tenha sido mais doloroso. Afinal conviveu com ela um tempo, já eu não tenho nenhuma lembrança. – Ela caminhara uns passos pela grama, mirando o céu nublado. Elliot a analisara por suas costas. Elizabeth beirava um metro e setenta de altura, sua postura era firme, costas retas, típicas de quem treinava alguma arte marcial, corpo magro, mas esbelto. Ele se aproximara, tocando seus cabelos longos, ondulados, fartos e negros.
- Você se transformou numa mulher incrível. – Ele sussurrara. Elizabeth o olhara sorrindo.
- E você num homem incrível! E eu sabia que seria assim. – Dissera, mirando-o. Ele pode ver em seus olhos, o orgulho que ela sentia dele, e sentira-se extremamente feliz, surpreso e sortudo em ter notado o fato. Olhara seus lábios rosados e brilhantes, e a vontade de tocá-los com os seus era gritante, mas por algum motivo refreava-se sempre que tinha chance, por respeito talvez, não sabia o motivo e não se preocupava em pensar nele agora. Elizabeth há muito já havia percebido o interesse, mas nada dizia a respeito, até porque não sabia se o amor que sentia por ele era equivalente, a verdade era que tinha medo; medo de perdê-lo outra vez, medo que ele desaparecesse, sumisse ou fosse embora de sua vida para sempre. Será que isso significava amá-lo como um homem, e não mais como aquele irmão mais velho que costumava lhe salvar de suas peripécias? Elliot Ryan lhe despertava um sentimento muito forte, e era forte para ambos, embora não soubessem verbalizar, era mais que óbvio para quem quer que os visse. O tipo de sentimento que te vira do avesso, em que o medo de perder o outro é maior do que qualquer outra coisa.

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