Através do Tempo
6 Aos Campos de Urze
Os dias se passavam e logo a primavera daria seu adeus, mas antes disso, Elizabeth convidara seu velho amigo, ou nem tanto só amigo, para dar um passeio pelos campos floridos da redondeza. E logo ela o avistara pela janela de seu quarto, no dia de folga de Elliot, o mesmo se aproximar à galope, de sua casa. Ela descera às escadas rapidamente e vira seu pai a observá-la.
- Irá cavalgar também? Escutei pedir para que selasse um cavalo.
- Sim, eu convidei o Elli para ir comigo ver as urzes antes que se vão. – Ela vira seu pai sorrir, acariciando suas bochechas.
- Eu gosto muito do Ryan, e faço gosto que se casem. Você gosta dele também, não é mesmo? – Elizabeth baixara os olhos, esse era um assunto que empurrava para baixo do tapete: casamento.
- É claro que eu gosto. – Dissera somente isso e deixara seu pai feliz, sabia do medo dele em deixá-la desamparada quando se fosse. Despedira-se dele e partira.
- Como está seu pai? Devo cumprimenta-lo antes. – Elliot dissera ao avistar Elizabeth saindo porta afora.
- Depois, vamos antes que chova! – Dissera a menina, alcançando seu cavalo, montando nele de qualquer forma e dando o comando para que partisse. Elliot rira-se, era mesmo uma moleca. Sem perder tempo, ambos cavalgaram para os campos de urze não muito distantes dali. Elizabeth sempre apreciara a sensação de liberdade, o vento batendo em seus cabelos, a velocidade com que corria, lhe dava a impressão de voar. Ria em contentação, e suas risadas despertavam um sentimento bom em Elliot, que embora preocupado, não deixava de admirá-la.
- Vá devagar, Eliza! – Gritara.
- Ah, qual é? Você não se diverte nunca? Tente me alcançar! – Exclamara em resposta deixando-o para trás.
- Vamos, Luck! Vamos deter essa garota travessa! – E entendendo, seu cavalo relinchou e correu mais rápido, pareando com o de Elizabeth. Os campos verdes adiante, eram tingidos de lilás forte, e as milhares de flores em forma de sininho, cobriam montes ao longo do caminho. A menina notando-o ao seu lado, esticara uma das mãos para ele, a fim de alcança-lo. Elliot apanhara sua mão firmemente, reparando no encanto juvenil que transbordava de Elizabeth. Seu sorriso aberto, tão verdadeiro quanto de uma criança se divertindo e aproveitando cada segundo daquele momento presente. Ele deixara suas amarras de lado, e rira com ela, apreciando a sensação de correr em meio ao vento, às flores e a pureza da vida. Queria guardar na memória aquele breve instante, que alcançava o infinito e tocava profundamente seu coração. Se aquilo era felicidade, descobrira que não precisava de muito para alcança-la, bastava um segundo de alegria e seria capaz de enfrentar o mundo.
Elizabeth sentira os dedos frios de Elliot entrelaçarem os seus, olhara para ele sorrindo a ela com igual contentação, e esta fora a primeira vez que o vira sorrir assim, tão sincero ao coração, e se encantara com isso, sentindo-se completa, fechara os olhos por breves segundos. Realmente o amava e sentia que devia ser honesta consigo mesma.
A noite estava para cair e Elizabeth já havia montado praticamente um buquê de urzes, Elliot a observava tagarelar sem parar enquanto saía catando as flores ao longo do caminho. Usava um vestido simples, uma manta de lã por cima e botas, perfeita para caminhar no mato, pensara ele rindo-se.
- E tem tantas abelhas! Me pergunto qual vai ser o sabor de seu mel quando ficar pronto. – Dizia, divagando sobre as flores.
- Já acabou, Eliza? Está ficando tarde e frio, seu pai vai me matar se não a levar logo para casa.
- Sim, acabei. – Ela dissera espanando as mãos com grama e terra uma na outra, após deixar as flores bem presas a uma pequena bolsa ao cavalo. Ela parou um pouco antes de ir, observando no céu as muitas estrelas espalhadas no degrade arroxeado e laranja. Olhando todo o contexto, parecia uma pintura. – Olhe, Elli! Já viu algo mais perfeito que a natureza? – Dissera, voltando seus olhos para a paisagem. Até que do nada, uma pergunta fora de contexto, viera. – Você enfrentou muitas batalhas? – Ela indagara de repente. E ele estava tentando se acostumar com as mudanças bruscas de assunto que uma hora ou outra se encontravam.
- Sim. – Ele dissera.
- Viu muitas pessoas morrerem?
- Sim. – Elizabeth se tocara do quanto aquilo deveria ser difícil para ele, e não devia ter perguntado.
- Me desculpe, eu não devia ter falado de guerras e sangue agora. – Ele meneara a cabeça em negativo.
- Tudo bem.
- Mesmo? Não se importa? – Elliot sorrira.
- Não me importo em responder sobre isso.
- Então... O que você pensava quando passava pelas batalhas? – Ele pareceu pensativo, observara o céu de cores diversas, respirando fundo.
- Que não queria morrer sem te ver novamente. – Elizabeth parecera surpresa, mas logo desconfiara de que aquilo não fosse verdade, podia ser só uma frase de galanteio.
- É sério mesmo? – Indagara rindo, mas seu sorriso morrera ao ver a expressão entristecida de Elliot, que sempre falava menos do que realmente queria dizer.
- Não teria porque mentir. Eu carreguei comigo sua lembrança infantil e me perguntava como você estaria naquele momento. – Elizabeth sorrira ternamente, havia sido convencida por ele.
Caminharam um pouco mais, e quando Elizabeth reclamara do cansaço, montaram em seus cavalos e partiram pela noite afora em direção ao casarão. Ambos carregando no coração, uma leveza nunca antes sentida, mas que duraria para sempre, enquanto permanecessem na memória um do outro.
Ao chegarem, Elizabeth correra com as flores para dentro, enquanto seu pai conversava com Elliot na biblioteca, e antes de ir, ela o chamara.
- Elli, espere! – Gritara, correndo até ele no hall de entrada.
- Eu não iria sem me despedir. – Ele se adiantara.
- Ah, que bom! Porque isso é pra você! – Dissera em empolgação genuína, lhe entregando algo. Elliot pareceu surpreso, Elizabeth carregava em suas mãos um pequeno buquê caprichado com as urzes colhidas horas atrás.
- Elizabeth! Não se dá flores para homens! – Dissera seu pai, fazendo a menina lhe olhar surpresa.
- Ora, mas eu adorei! – Dissera ele, apanhando o buquê delicadamente. – É pra isso que as recolheu hoje? – Ela sorrira. Elizabeth o acompanhara até Luck. A noite estava fria o suficiente para fazer os pelos se arrepiarem.
- Obrigado pelas flores, Elizabeth. – Dissera. – Vou guardá-las com carinho. – A moça o mirara com ternura.
- As urzes são plantas que mesmo sem suas flores, nunca morrem, ficam verdes até florescerem novamente. Então elas possuem um significado bonito para mim, queria compartilhá-lo com você, pra que não se esqueça que mesmo passando por batalhas difíceis, deve continuar ali, firme e forte. – Elliot a olhara com admiração e logo entendera o porquê dela ter tocado naquele assunto, naquele momento em específico durante o passeio naquela bela tarde de primavera. Deveria saber que mesmo nas mudanças bruscas de conversa, havia algo por trás. Admirara-se com a sensibilidade da moça.
- Receio que em breve não pertencerei mais ao exército. – Elizabeth o mirara surpresa.
- Porque não? – O olhar do homem ao seu lado, baixara consideravelmente, mirando as próprias botas ao caminharem pelo gramado. Elizabeth o acompanhara.
- Não é algo que admiro. O exército inglês faz coisas das quais não concordo.
- O que, por exemplo? O que você viu que o abalou? – Ele a mirara, mas não obteve respostas.
- Eu gostaria de ter a chance de fazer parte do exército. – Dissera sonhadora.
- É porque você não sabe a podridão que há ali. Vi coisas que gostaria de esquecer, mas não posso.
- E porque você não diz? – Elliot mirara o céu escuro.
- Sabe que há disputa territorial com outros países, correto?
- Sim, eu escuto papai conversar sobre essas coisas.
- Pois bem, é uma das coisas que não concordo. Ninguém deve invadir o território de ninguém, qual direito eles possuem? São melhores que os outros? Que direito possuem em humilhá-los, açoitá-los e abusarem de suas mulheres? – E foi aí que Elizabeth entendera o ponto do qual Elliot queria chegar.
- O que você viu... Elli? – Ele a mirara seriamente, ponderando se devia ou não falar desse assunto. Mas a verdade era que Elizabeth não conhecia bem o mundo, e deveria lhe revelar como era a realidade.
- Um dos meus atacou uma menina, eu não tive tempo de impedir, pois estava longe quando escutei seus gritos. Quando cheguei era tarde. – Ele parou, mirando-a. Tocara o rosto de Elizabeth com delicadeza, mirando seus olhos com ternura, e ela pode ver os dele marejarem instantaneamente. – Ela tinha em torno de seus dez ou onze anos, a mesma idade que você tinha naquele ano. Era só uma criança. – Ele baixara os olhos e ela pode ver as lágrimas que despencaram deles. – Estava em uma poça de sangue, sem roupas... sem vida. – Elizabeth não sabia o que dizer. – Eu pude ver você ali, foi a primeira vez que desabei de verdade, e foi a primeira vez que matei um dos meus.
- Você o matou? – Ela indagara surpresa.
- É claro que sim. O que queria que eu fizesse? Ele a matou porque a estuprou. Eu não ia admitir uma coisa dessas no meu batalhão, mas ninguém lá liga pra isso, porque estão acostumados a esse tipo de atrocidades. – Elizabeth segurara suas mãos.
- Eu não sei o que dizer... Não sabia dessas coisas. – Ele a olhara, era só uma criança também.
- Eu imaginei. – Respondera, beijando sua testa. – E foi por isso que aos cinco anos, decidi atender seu pedido e por um sabre em tuas mãos. A maioria dos homens, não respeitam as mulheres, independente de seu status. Ou você aprende a se defender, ou você não viverá para contar história. Você sabe bem, o quão limitado o mundo é para vocês. E no que depender de mim, coisas como aquela que vi, nunca mais acontecerão na minha frente. – Dissera, o tom forte e decisivo. Elizabeth sentira seu coração disparar ao mirar aqueles olhos de semblante valente e destemido. Elliot era um exemplo que deveria ser seguido por todo homem que se diz honrado. – Eu tenho inúmeros defeitos, Elizabeth. Eu não sou perfeito, mas eu jamais tocaria em alguém usando minha força para afrontá-la e possuí-la. Eu jamais iria contra meus princípios, por mais desejo que há em nosso instinto, nada é mais forte do que sua consciência, a menos que você não a tenha. Sairei do exército assim que tiver uma oportunidade.
- Você é especial, Elli. – Ela dissera sorrindo a ele ternamente. Ele sorrira de volta, mas a contestara.
- Eu não sou especial, Elizabeth. O nome disso é ter honra, e isso vem daqui, — ele batera em seu peito, próximo ao coração, — da nossa alma.
- E é por isso que sempre o admirei como meu herói. – Admitira. Ele a mirara com surpresa, mas não podia negar que isso fizera seu coração solavancar fortemente numa batida. Era a primeira vez que conversavam sobre algo tão seriamente, e gostaria que isso se repetisse no futuro.

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