Através do Tempo
20 Entre Sonhos e Realidade
Notas iniciais
Elliot via as estações passarem por sua janela, como as folhas de outono num vento frio. Estava mais magro do que o normal, quase não comia, não conversava. Passava a maior parte do tempo em seu quarto, pensando em mil maneiras de se livrar daquele lugar. Seu corpo se tornara um fardo para si, talvez precisasse abandoná-lo. Faziam semanas que não praticava sua fisioterapia. Sentia que naquele jogo, já havia tido sua derrota. Quando podia, passava seus dias na cama, convencido as vezes por Richard, de que ele precisava comer alguma coisa. Em sua mente, quanto mais deixasse de se alimentar, mais rápido sairia do mundo. Seu pai não tentara mais nenhum contato com ele, vivia isolado em seu quarto e há quase um mês não via seu progenitor. Os dias passavam como se todos eles fossem os mesmos, com nada para diferenciá-los. Se perguntava do porquê ainda estar vivo, qual sentido em ser mantido ali, daquela forma? Qual o sentido da vida? As vezes fechava os olhos e se imaginava com Elizabeth, um sorriso sempre lhe escapava os lábios quando esses pensamentos lhe ocorriam. Talvez seu mundo imaginário com ela, fosse mais emocionante do que sua pobre realidade. Ele olhara seu reflexo na janela. Seus olhos estavam sem brilho, as olheiras enormes, denunciavam as muitas noites em claro, a barba por fazer, os ossos do rosto proeminentes, estavam mais salientes do que nunca, e a magreza era palpável. Já havia sido engrandecido por sua beleza aonde quer que fosse, apesar de nunca se importar realmente com ela, e só dera real valor quando grandes olhos negros e curiosos lhe observavam com admiração e paixão.
- Belo e majestoso. – Ele dissera, deixando escapar uma pequena risada ao recordar esse fragmento de memória que não se fora; borrara com as mãos, o vapor que embaçara o vidro com sua respiração. – Eu te amo, Elizabeth. Logo eu irei te encontrar. Me espere, por favor. – Ele sentira uma brisa morna lhe tocar a face, fechara os olhos por alguns segundos. Elliot sabia que jamais estaria sozinho, ela sempre estaria consigo, aonde quer que estivesse.
Naquela noite sentira-se sonolento, e por algum motivo desconhecido para si, apagara assim que se ajeitara em sua cama, algo que há muito não acontecia, já que a insônia fazia parte da rotina. Sentira frio e nenhuma manta, por mais grossa que fosse, lhe impedira de tremer. Ora ou outra se via caminhando com Elizabeth em uma estrada, até que em um ataque fora ferido, em seguida se vira numa caverna com uma grande fogueira, Elizabeth chamando por seu nome, ao mesmo tempo que fazia amor com ela. A cena mudara, e eles estavam brigando numa estrada novamente, ele a vira chorar, xingando-o enquanto pousava as mãos em seu ventre. Até que estavam em um quarto simples, em uma cama de casal, “Será um menino, Margareth me disse...” O cenário transformara-se uma vez mais, ele mandava Luck correr, e levar Elizabeth para um local seguro, enquanto ele próprio sentia suas forças se esvaindo junto com o sangue que escorria de seu corpo, ao mesmo tempo em que lutava para ganhar tempo a Elizabeth. “Vá e sobreviva! Por você e por nosso filho, eu darei a minha vida!”.
Elliot acordara subitamente, a respiração rápida, seu peito subindo e descendo, tamanha força em puxar o ar para os pulmões. Sentira seu próprio suor escorrer por sua face, molhando seu corpo e os lençóis. Estivera febril por todo este tempo, mas isso não importava, aquilo que vira era real demais para ter sido apenas sonho, talvez fossem fragmentos de lembranças desconexas. Se realmente fosse isso, Elizabeth poderia estar viva, e ela estava grávida, de um filho seu! Ele sorrira, como uma criança que ganha um maravilhoso presente que tanto ansiava. Era por isso que ainda estava vivo, precisava encontrá-los, precisava ir até sua família. Tentara se acalmar. E se não fossem lembranças? E se fosse somente sua imaginação lhe pregando uma peça? De repente essa provável hipótese lhe puxara para a realidade, mas só havia um jeito de descobrir e se esforçaria em sair daquela cadeira em busca da verdade.
Elliot se dedicara todos os dias em seu treinamento e fisioterapia. Richard era quem lhe ajudava, já que os médicos haviam sido dispensados. Ele tinha orgulho próprio, não pediria nada a seu pai, faria o que tivesse que fazer com seus próprios meios. Se tudo que vinha vendo fosse verdade, seu pai havia mentido para si, escondido um fato que poderia custar a vida de Elizabeth e seu filho. Charlie estava se provando um homem sem escrúpulos.
Elliot sentira a dor em seus braços, mas era uma dor como resultado de sua resignação. Se esforçava o máximo em percorrer a barra, da qual se apoiava, e com os dias, voltara a sentir suas pernas, seus pés e a sensibilidade em sua pele de forma gradativa. Fora a melhor sensação que tivera nos últimos meses. Mas ainda não conseguia firmá-las, porém era questão de tempo, sabia, pois tinha algo em quê acreditar e é isso que verdadeiramente nos move. Esperava que Elizabeth estivesse aguentando bem, logo iria alcançá-la. Lembrara-se de ter dito a ela sobre a casa que havia comprado na cidadela, se tudo tivesse ocorrido como combinado, ela ainda estaria lá. Provavelmente acreditava em sua morte, provavelmente assim como ele, achava que estava morto. Ele respirara fundo.
- Só mais um pouco, meu menino! – Richard lhe incentivava. Reunira forças e terminara a pista de barra, alcançando seu mordomo. – Muito bem! – Elliot sorrira, contente por seu progresso.
- Onde está meu pai? – Richard se surpreendera pela pergunta.
- Ele está viajando à negócios, mas não deu previsão de retorno.
- Entendo...
- Queria mostrar a ele o quanto está progredindo? – Sondou o mordomo. – Elliot dera de ombros, não era isso exatamente, mas é claro que se sentiria contente em partilhar a vitória, porém seria decepcionante dividir pequenas alegrias com seu pai, ele não era o tipo de homem que comemorava progressos mínimos, se não fosse algo grande e de destaque, não importaria a ele.
- Na verdade eu estou feliz de ser você quem está aqui comigo. Sempre esteve ao meu lado. Obrigado por tudo, Richard. – Dissera, segurando-lhe o ombro. Pode ver os olhos do velho mordomo se encherem de lágrimas. Richard jamais tivera filhos ou fora casado. Sempre servira aos Fawkes, mas apesar de tudo, gostava muito de seu emprego.
- Fico contente por sua consideração! – Ele o abraçara fortemente, era como um filho para si.
Seus progressos aumentavam dia após dia e assim como as estações passaram em sua depressão, elas também passaram em sua ascensão e porque não dizer, renascimento.

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