Através do Tempo
19 De volta ao Lar
Notas iniciais
- Vocês ouviram?
- Ouvimos o quê?
- Os irmãos Philip, estão todos mortos. Ao que parece, alguém ateou fogo na mansão, com toda a família dentro.
- Tem ideia de quem possa ter sido?
- A irmã caçula, é claro!
- Ela não havia sido acusada de assassinar seu próprio pai? Ela queria matar toda a família?
- Não sei ao certo... Pode ter duas possibilidades nesta história... Mas ela também foi encontrada. – A conversa ecoava ali perto, duas pessoas cuja as vozes eram desconhecidas para si. Abrira os olhos lentamente, focalizando o teto acima. As vozes pareciam flutuar para longe, até notar que mais nada se ouvia. O local em que estava parecia familiar demais. Levantara-se rapidamente, mas uma forte dor na cabeça, nas costas e no abdômen, o acometera, forçando-o a curvar-se com a pontada. Estava sozinho em seu próprio quarto, na casa de seu pai. Forçara a mente para recordar os últimos acontecimentos, mas de nada lembrara-se.
- Elliot! – Escutara a porta se abrir. – Senhor! Ele acordou! – Richard, o mordomo, aparecera por ali. Em seguida seu pai viera a seu encontro, abraçando-o desesperadamente.
- Meu filho! Graças a Deus! – Elliot mirara seu pai sem entender absolutamente nada.
- O que aconteceu? – Charlie o mirara confuso.
- Não se lembra de nada? – O rapaz meneara em negativo. – O que você se lembra? – Elliot sentira uma forte dor de cabeça, se lembrava de deixar o exército. Elizabeth...
- Elizabeth! Onde ela está? – Indagara em pânico, ao se recordar da moça.
- Se acalme, por favor. Me conte o que você se lembra. – Ele forçara a mente, e lembranças desconexas começaram a emergir.
- Eu saí do exército, eu acho.. houve um incidente, ela... estava pedindo ajuda... – Charlie sentira-se contente com a memória falha de seu filho. Fora como dissera o médico, se ele acordasse, provavelmente sua memória estaria cheia de buracos, dos quais seu pai poderia preencher para si.
- Eu sinto muito, Ryan... Algumas coisas aconteceram sim. Os Philip, todos... estão mortos, incluindo... Elizabeth. – Elliot mirara seu pai, sem realmente crer no que dizia.
- Não... Está mentindo. O senhor sempre foi contra meu noivado com Elizabeth. Onde ela está?
- Não estou mentindo, Ryan. Elizabeth está morta.
- Pare de dizer isso! Ela... deve estar precisando de mim agora! – Continuara ele, sentindo as muitas lágrimas lhe escorrerem a face, o desespero tomando conta de seu ser.
- Acalme-se. Eu sei que é difícil escutar algo assim. Você tentou ajudar, meu filho. Mas acabou gravemente ferido, ficou em estado catatônico por meses. Achávamos que jamais acordaria. É um milagre estar aqui. Você me entende? – Elliot chorara em silêncio, sua maldita memória em nada ajudava, mas porquê também duvidaria de seu pai? Ele não poderia mentir com um assunto tão sério como esse. Charlie o abraçara, e ele enfim desabara-se a chorar. Quando finalmente acalmara-se, tentara se levantar da cama, mas suas pernas não obedeceram.
- Pai, o que...? – Charlie já sabia. Olhou para ele com pesar.
- Você recebeu vários disparos, um deles atingiu sua coluna. O médico previu que provavelmente perderia o movimento das pernas. – Ele o mirara aturdido. – Mas calma, você pode se recuperar. Precisa fazer exercícios com o médico regularmente. Agora que acordou, iremos começar com as sessões. Está bem? – Elliot baixara o olhar para suas próprias pernas inertes. O que deu errado? Porque não conseguia se lembrar?
- Como Elizabeth...? – Não conseguira terminar a frase.
- Os irmãos Philip sempre tiveram um grande impasse com relação a dinheiro e a herança de Harald. Pois bem, ele foi morto, e Elizabeth acusada de matá-lo. Posteriormente os irmãos também foram mortos em um incêndio e o corpo dela foi encontrado junto ao dos irmãos. Não sabemos quem começou com o fogo, ou se foi acidental. Mas aconteceu tudo muito rápido e não faz muito tempo. Foi uma notícia chocante para a cidade. – A cabeça de Elliot estava uma bagunça, de nada se lembrava.
- E como foi que me feri?
- Você tentou fugir com Elizabeth, e acabou levando os tiros. Não se lembra de nada mesmo? – Ele negara.
- Não me lembro, eu... forço minha mente... – Elliot apertara a própria cabeça que doera ainda mais, sentindo a agonia de estar no escuro, sem suas memórias o que poderia fazer?
- Tudo bem, não se force.
- Ela teve um enterro? – Ele indagara. Vira seu pai engolir em seco.
- Sim, foi enterrada ao lado de seu pai e os quatro irmãos. – Elliot sentira seu peito solavancar fortemente. Não podia ser real, não conseguia acreditar nesta história. Algo não encaixava, pois tinha a nítida sensação de estar deixando algo atrás de si, e seus instintos nunca lhe traíram antes.
As semanas se passaram, e Elliot Ryan iniciara seu tratamento de fisioterapia. Para ele era frustrante a falta de resultados, por mais que se esforçasse, suas pernas se negavam a lhe obedecer. O esforço aplicado era muito e o progresso nulo.
- Eu não aguento mais! – Exasperara-se num dado momento. Seu mordomo sentia pena do pobre rapaz, do qual vira nascer e crescer.
- Se acalme. Aos poucos seu corpo responderá positivamente. Faz pouco que começara o tratamento, meu senhor.
- Hoje faz um mês. E eu não tive progresso algum. – Dissera, sendo amparado ao sentar-se novamente em sua cadeira de rodas. Na verdade, não via muito sentido em se esforçar tanto assim, quem mais amava no mundo não estava mais ali, porque deveria continuar lutando?
- Richard?
- Sim, senhor.
- Elizabeth... você a viu no enterro? Foi ao velório dela? – Vira o mesmo baixar a face e parecer levemente nervoso.
- Ah... não exatamente, senhor. Eu tive que... ficar aqui. – Respondera.
- Entendo...
- Sente muito a falta dela? – Ele meneara em positivo.
- Eu sinto que há algo faltando dentro de mim. É como se... – Ele olhara para as paredes do salão em que estava, dentro de sua própria mansão. — ...Como se eu estivesse virando às costas, deixando algo importante para trás.
- Eu entendo. Foi tudo muito abrupto, essa mudança. Rezávamos para que acordasse, mas ao acordar de fato, o senhor não obtivera boas notícias. Eu sinto muito. Sei o quanto ela era importante para você. – Elliot não respondera. Sentia um gosto amargo na garganta.
- Será que pode me levar no túmulo dela? – O mordomo o olhara com pensar. Sentia pelo jovem rapaz.
- É claro, meu senhor. Vamos no fim da tarde.
- Obrigado, Richard.
***
A tarde havia chegado. Richard empurrava a cadeira de rodas de madeira, com um Elliot nervoso sentado nela. Seu coração palpitava desesperadamente sob o peito. Talvez se visse a lápide, poderia acreditar no que estava sendo contado a si. O cemitério era calmo, havia muitas lápides antigas por ali. Ele vinha sempre na infância visitar o túmulo de sua mãe, mas após a ida ao exército, parara de vir.
- É aqui, meu senhor. – Richard dissera, olhando atentamente ao rapaz. Elliot esticara uma das mãos, tocando a pedra fria. Era uma lápide simples, muito mais simples que as suntuosas do local. Ele passara os dedos no nome gravado na pedra “Elizabeth Morgan Philip”. Mesmo estando ali, diante daquele pedaço de pedra em que levava o nome de sua amada gravada nela, ainda não podia se convencer. Ao lado, o nome de Harold e os outros quatro filhos estavam por ali. Novamente o amargor envolvera toda sua garganta.
- Elizabeth... – ele engolira em seco ao pronunciar seu nome – Me perdoe, eu não pude defender-te como seu verdadeiro herói de infância. – As lágrimas desceram por sua face pesadamente, pingando em seu colo. – Me perdoe por ter sido um covarde, me perdoe por tudo, até pelas muitas coisas das quais eu não me lembro agora. Eu... – A voz travara em sua garganta. Elliot chorara, debruçando-se sobre a lápide vertical, como se sua vida inteira estivesse ali, debaixo daquele solo. – Eu preciso de você... o que eu vou fazer da minha vida agora, Elizabeth? O que vai ser de mim? Sem você... não me resta forças... pra continuar aqui. – Richard não aguentara olhar a cena sem que seus olhos marejassem. Elliot sempre fora um menino excelente, e um homem honrado. Não merecia tal destino. O carinho que tinha por ele, era como o de um pai para seu filho. Cuidara dele e o amparara em todas as situações de vida, até mais que seu próprio pai. Ele demorara-se mais um pouco ali, chorando em silêncio, até deixar ao solo um buquê de urzes, que ele mesmo fizera mais cedo com a ajuda de Richard. Sua vida agora perdera o sentido para si, não sabia mais por qual caminho seguir ou pelo quê lutar.
**
Seu pai o mirava, estava em silêncio, na mesa de jantar.
- Ryan, não vai comer? – Elliot o olhara de volta, esquecendo-se por um momento que estava ali. A maior parte do tempo, se sentia alheio ao mundo.
- Eu... não estou com fome.
- Você tem que comer! Olhe só pra ti mesmo! Está magricela e raquítico! Não é nem de longe o Elliot Ryan que eu conheço! – Exaltara-se. Elliot o mirara.
- O Elliot que você conheceu, não havia ficado de cama por meses.
- Quero meu filho de volta!
- Isso jamais vai acontecer. Eu estou travado em uma cadeira de rodas, eu perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida, o que o senhor espera de mim? – Seu pai o olhara duramente.
- A culpa é sua por esse destino. Eu avisei você! Desde o início! Avisei quando me comunicou que pediria a mão daquela vadiazinha em casamento! – Um forte murro fora dado na mesa, fazendo os pratos e copos tilintarem ferozmente.
- NÃO fale assim de Elizabeth! O senhor não a conhece!
- Você não me dá orgulho, hoje não mais!
- É mesmo? E porque me salvou então?
- Porque é meu dever como pai do meu único filho!
- “Dever”, não amor. O senhor nunca me amou como um pai, sempre olhando tudo de um viés político e financeiro. Acontece que eu sou um ser humano, um homem de carne e osso!
- Você é igual a sua mãe! Fala igual a ela! Sempre seguindo essa merda de pensamento de justiça, amor, paixão! Ela morreu por isso, e você quase morreu pelo mesmo motivo!
- Minha mãe era honrada, e é exatamente por ela, por causa dela que sou como sou hoje. Se o senhor não tem orgulho de mim, pouco me importa! Eu me orgulho do homem que me tornei, minha mãe deve se orgulhar também, assim como Elizabeth.
- Pare de falar o nome dessa meretriz na minha mesa!
- Pare de chamá-la assim!
- Ou o quê? Vai cruzar espadas comigo? Você? Um aleijado? – Elliot sabia o quanto seu pai poderia ser cruel. Fora criado por ele, mas as palavras pareciam ter um peso maior do que costumavam ter. Talvez pela tristeza que sentia, talvez por estar inútil no momento. Não sabia dizer. O olhara, meneando a cabeça em positivo.
- Você tem razão, mas eu agradeceria se tivesse me deixado morrer. Estar vivo, nessas circunstâncias em que me encontro, é pior do que a morte. – Ele dissera, girando sua cadeira, e indo-se embora dali. Richard se prontificara em ajudar. Charlie por outro lado, nada dissera, simplesmente virara sua taça de vinho e se pôs a terminar sua refeição.
Elliot olhava o teto inexpressivamente.
- Meu senhor, fiz algo para ti. – Richard adentrara o recinto, trazendo nas mãos pães com recheios dentro. – Coma, por favor. – Elliot sorrira. Aceitando o prato preparado com tanto carinho.
- Obrigado, Richard.
- Não dê ouvidos ao seu pai, ele o ama sim, só não sabe demonstrar. Ele ficou amargo depois que sua mãe se foi.
- Tudo bem. Eu estou acostumado com meu pai. Mas vou tentar não me preocupar, logo irei embora daqui. – Richard o olhara confuso.
- Ir embora? Para onde? Nessas condições?
- Vou pra perto de Elizabeth. – Dissera sorrindo, com muita convicção. O mordomo sentira sua espinha se arrepiar.
- Do que está falando? Você só pode estar brincando, não é? Não está pensando em tirar sua vida, não é mesmo? – Elliot comia o pão em silêncio, seu olhar vazio pairou em algum ponto no quarto, porém ele não respondera. Richard decidira que deveria ficar de olho no rapaz, nunca se sabe o que poderia estar passando em sua mente. Ele estava fora de seu juízo perfeito e isso não era bom.

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