Através da Renegada

1 Capítulo 1: Depois do Final Infeliz


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos a continuação da minha história! ♥

Branca não se lembrava de muita coisa, mas sabia que não fazia muito tempo que estava ali. Não conseguia mexer os braços nem as pernas, seus olhos pesavam demais para se abrirem, sua cabeça também estava densa e imóvel. Ela também se sentia nua, apenas uma roupa de tecido fino pairava sobre ela. Seu cabelo dourado estava sujo e não cheirava bem. Branca apertou as mãos devagar e seus pés se moveram levemente, suas pálpebras tremeram assim como seus lábios. Então, acordou.

A primeira coisa que Branca viu foi uma grande luz, quando piscou, sua visão focou numa grande lâmpada no teto. Quando olhou para baixo, viu seus braços presos por uma faixa que passava pelo seu tronco. Não fez esforço para se debater, mas sim para identificar onde estava. As paredes eram azuladas, havia uma larga janela com persianas brancas e uma poltrona no canto do cômodo. Uma larga bancada, com uma bandeja metálica e por fim um cheiro frio, o lugar era gelado. Não era Scarlet, Branca tinha certeza. Os olhos grandes e bem abertos se arregalaram por um momento.

A princesa se tocou de que estava viva e isso foi um alívio. Depois, um surto. E em conseguinte, uma dúvida. Será que estava mesmo viva?

A porta do quarto se abriu e um rapaz entrou, ele tinha a pele dourada e os olhos eram negros e pequenos, usava um jaleco branco e carregava uma prancheta. Quando viu Branca acordada, ele sorriu.

— Parece que...

— Eu estou viva? — a pergunta surgiu com urgência na boca da menina.

Branca sentia como se fosse a primeira vez que falasse. Tudo naquele instante parecia acontecer pela primeira vez: abrir os olhos, respirar, falar, sentir. O rapaz enrijeceu as sobrancelhas e fechou a porta atrás dele, caminhando devagar até a cama de Branca, ele a olhou.

— Sim, você está viva. — ele respondeu como se fosse uma pergunta normal.

A respiração da princesa se alarmou, ela sabia que algo estava errado. Por um instante temeu que Scarlet estivesse destruída o que significaria seu triunfo e sua vida.

— Quem é você, senhorita? — o rapaz perguntou.

Branca mordeu os lábios devagar. Ela estava desconfiada e um pouco assustada. O moço de roupas claras continuou a olhá-la com um semblante terno, seus olhos negros estacionaram nos olhos cinza de Branca. Notando o silêncio, ele respirou fundo, largou a prancheta. Passou a mão pelo cabelo preto e de corte baixo.

— Meu nome é Devon. — ele finalmente se apresentou.

Branca abaixou seu olhar e ponderou.

— Sou Branca. — ela disse ao levantar os olhos novamente. — Onde estou?

Devon assentiu devagar.

— Você foi encontrada vagando pela rua aos gritos hoje mais cedo. — ele contou e o rosto de Branca ficou tenso. — Você estava nervosa e dizia coisas sem sentido, mas eu não estava lá, apenas me informaram disso. Você chegou aqui se debatendo e com alguns machucados no braço, e usava um vestido branco, muito bonito e cheio de pedras. Estava se casando?

Branca negou com rapidez, mas não disse nada. Começou a se lembrar do que tinha acontecido em algum momento anterior àquele – como gritar coisas mirabolantes como as verdades de Scarlet por ruas desconhecidas, atraindo olhares esquivos – as memórias a assustaram, Branca se deu conta de que estava no mundo dos humanos. Devon tocou seu braço.

— Está tudo bem? — ele perguntou com mansidão.

Um silêncio se alastrou por alguns segundos e ele tirou a mão do braço de Branca.

— Estou bem. — ela disse em sussurros. — Quero ir embora.

Devon pigarreou e afastou-se da cama, pegando de volta sua prancheta.

— Você ainda não pode ir. — ele disse enquanto fingia ler algo. — Precisa ficar em observação por mais alguns dias assim que...

Ele se interrompeu quando Branca rugiu e começou a se debater.

— Eu quero ir embora, tenho assuntos a tratar! — ela berrou sacudindo a cabeça e sabia que se seus olhos estivessem naturais, eles estariam negros.

Branca então novamente se lembrou de quando estava andando pelas ruas de um lugar desconhecidos gritando coisas insanas. Lembrou-se também que não fazia ideia de onde estava sua mãe. Debateu-se novamente até sentir Devon segurar seus braços, ao sentir o toque, Branca se enfureceu e olhou-o nos olhos.

— Tire as mãos de mim. — ela disse com a voz baixa e com o olhar enraivecido. — Tire as mãos da princesa da família real Cleveland de Scarlet, seu mundano!

Branca soltou uma exclamação sutil após dizer aquelas palavras. Furiosa ou não, ela sabia que não deveria falar sobre Scarlet se estivesse entre humanos. A princesa estava imóvel assim como o rapaz de jaleco branco, agora Branca enxergava que a roupa que ele usava trazia seu nome, Devon Vasquez , e embaixo estava escrito “estagiário”.

Devon soltou vagarosamente os braços de Branca e ficou perto de sua cama, com o corpo rente a ela, olhando para o rosto da garota como se tentasse enxergar algo além do que estava vendo.

— O que você disse? — ele perguntou num sussurro.

Branca desejou estar com as mãos livres para enfeitiçá-lo, mas ao olhar para as linhas do rosto do rapaz, temia imbuí-lo de magia.

— Não foi nada. — ela tentou ser racional. — Eu estou me sentindo bem, apenas quero ir embora, pois preciso voltar pra casa.

— Você é uma princesa? — Devon perguntou como se fosse um segredo e começou a soltar os braços de Branca, deixando apenas suas pernas presas.

Ela esfregou o rosto em agonia.

— Não. — Branca mentiu. — Eu estou apenas perdida e preciso...

O rapaz negou pertinentemente.

— Você não me parece louca e eu ouvi bem o que você disse. — Devon insistiu. — Você vive em Scarlet?

Ele disse com uma precisão que assustou a garota. Devon falava como se soubesse o que era Scarlet e tinha a urgência de quem temia sequer tocar naquele assunto. Branca o olhou com medo, sentindo seu corpo esquentar e sua mão formigar. O rapaz continuou a olhá-la come expectativa.

— Família Cleveland? — Devon continuar os questionamentos com os olhos brevemente arregalados. — Os Invictus?

Branca ergueu as mãos que tremiam em direção a sua boca aberta. Seus lábios tremiam. Um mundano falando sobre Scarlet como se a conhecesse. Ela afastou as mãos trêmulas e dançou com elas no ar, formando uma massa prateada que escurecia conforme ela murmurava algumas palavras. Devon segurou suas mãos com delicadeza, enquanto seus olhos arregalados voltavam ao normal, mas sua expressão de choque ainda estava presente.

— Você ia me enfeitiçar? — ele questionou num fiapo de voz sentindo-se estúpido por dizer a palavra enfeitiçar com tanta eloqüência.

Branca puxou suas mãos para longe das do rapaz.

— Eu conheço essa história. — Devon falou mais sano. — Sinto que conheço até você.

A princesa estava alerta.

— Que história? — ela perguntou quase que de forma inaudível.

Devon soltou um sorriso infantil e agora sua expressão era de incredulidade.

— Os anciões, os Elfos, o grande palácio de gelo! — ele reluzia como uma criança. — A terra encantada, cheia de profecias e promessas!

O rapaz pensou no vestido que a garota usava quando foi encontrada, e lembrou-se de quando o viu pela primeira. Branca estava empalidecendo, mas não se sentia doente. Seu corpo tremia por inteiro, o rapaz não falava de Scarlet como uma terra física, mas imaginária.

— Você parece ter saído das histórias que eu ouvia quando era criança. — Devon estava encantado.

Branca se ajeitou na cama e pigarreou.

— Que histórias são essas? Do que você está falando? — a princesa questionou ainda com a voz baixa.

— As histórias que meu pai me contava quando eu era criança. — ele explicou. — Meu pai sempre falava sobre Scarlet, sobre a família real Cleveland, e sobre as criaturas que essa terra guardava. Isso alimentou minha mente infantil durante anos.

Branca assentiu devagar, com as mãos parando de tremer aos poucos, e sentia-as quase firmes para enfeitiçá-lo, e assim convencê-lo a soltá-la e depois fugir. Mas estava demasiadamente interessada em saber quem ele era para saber tanto, e quem era seu pai para saber ainda mais.

— Quem é seu pai, Devon? — Branca perguntou um pouco mais alto.

— Hector Vasquez, um historiador. — ele contou.

Branca assentiu novamente e ergueu as mãos devagar, deixando-as a mostra.

— Não quero feri-lo. — a princesa disse com suavidade. — Mas me leve até seu pai.

Devon não seria capaz de negar aquele pedido. Não negou.

***

Quando Rubra entrou no quarto Avalon já estava vestida, mas com roupas mundanas, uma blusa de moletom branca e calça jeans, com sapatilhas. A fada vermelha trancou a porta e caminhou devagar até a beirada da cama, e sentou-se. A mais nova rainha de Scarlet a analisou enquanto apertava a ponta de um lençol de seda azulado. Rubra, portanto, não tirou os olhos vermelhos dos olhos rosa de sua, antes que Majestade, amiga.

— Eros está desconfiado, mas eu o convenci a descer para a festa. — Rubra disse.

A voz da fada vermelha era mansa e seu rosto firme, seus lábios moviam para falar enquanto sua face permanecia inexpressiva.

— O que está acontecendo, Avalon? — Rubra questionou. — Que roupas são essas?

A rainha levantou-se e começou a dar voltas no mesmo lugar, em silêncio. O som das fadas musicistas poderia ser ouvido dali, o povo de Scarlet nunca teve tanto motivo para comemorar: Salvação da ruína, Alexa banida, Clarissa de volta, nova rainha. O futuro da terra mágica estava garantido. Avalon continuava em silêncio, mas agora ela tinha parado de andar e estava parada de costas para a porta do seu quarto, olhando no rosto de Rubra que tentava ter acesso aos pensamentos da rainha, mas não conseguia.

— Minha mente está vazia, Rubra. — disse Avalon com a voz estranhamente chorosa.

Então ela deu as costas e abriu a porta, passando por ela melancolicamente. Sem hesitar, a fada vermelha a seguiu.

— Avalon? — Rubra a chamou.

A rainha permaneceu em silêncio e começou a descer as escadas de gelo, a fada seguiu-a.

— Avalon? — Rubra repetiu.

Ao ouviu seu nome pela segunda vez, a rainha começou a descer as escadarias com mais rapidez e Rubra imitou seu ato. Ao chegarem ao primeiro andar, no grande salão do trono, Avalon virou para o corredor direito e parecia saber exatamente onde estava indo. Rubra também sabia e então segurou com força o braço de Avalon.

— Tire as mãos de mim. — a rainha pediu.

A fada vermelha não obedeceu e começou a sentir sua mão queimar, mas permaneceu apertando seus dedos contra o braço fino de Avalon.

— Droga. — quando o ardor foi muito forte, Rubra soltou seu braço.

A rainha estava quase congelada até seu ombro, para o azar de Rubra ela esteve praticando suas magias como uma Invictus. Continuou então seguindo seu caminho até o fim do corredor, e mesmo que sendo seguida, ela entrou numa sala minúscula que não tinha nada, apenas um espelho bem emoldurado. Rubra bateu a porta da sala. Avalon se olhava no espelho tomando certa distância dele, a fada vermelha estava atrás dela.

— Você não pode estar falando sério. — Rubra balbuciou.

Avalon suspirou e apertou as mãos. Um novo silêncio ocorreu e o som da festa no lado de fora estava abafado, mas ainda soava ferino nos ouvidos da rainha que apertou os olhos e quando os abriu, observou a luz rosa cintilar.

— Eu estou surtando, Rubra. Eu assumi uma responsabilidade gigantesca e eu acabei de fazer dezoito anos. — Avalon começou, falando baixo. — Não disse adeus pra minha mãe, deixei amigos, deixei uma vida inteira. E ainda não descartei a possibilidade de estar louca.

Os olhos de Rubra se apertaram e sua primeira vontade foi gritar alto, em seguida ela rendeu-se.

— Como é que é? — a fada exclamou. — Está tratando a minha terra, o meu povo, como uma possível histeria sua? Droga Avalon, você nasceu aqui, você foi coroada aqui, e você salvou esse lugar! Agora é nossa rainha e não pode fugir disso por que está em crise com tudo o que precisou deixar pra trás. Muita gente perdeu muita coisa. Houve morte aqui, garota. Não é como se...

— Para de falar assim comigo imediatamente! — a rainha ordenou enquanto interrompia Rubra.

Avalon virou-se agressivamente para Rubra e seus olhos rosa viveram lampejos de escuridão. A fada vermelha ficou boquiaberta por instantes e negou devagar. Mas que ordinária, Rubra pensou. Avalon se limitou a revirar os olhos.

— Então você quer a autoridade de uma rainha e ao mesmo tempo nega cumprir seus deveres como uma? — Rubra soou ferina sem nenhum dó, sua voz baixa e tensa doía nos ouvidos de Avalon.

A rainha umedeceu os lábios e não abaixou a cabeça.

— Talvez seja isso mesmo. — ela disse sem fraquejar. — Talvez eu tenha nascido para ser uma péssima rainha.

E então a rainha saltou dentro do espelho. Avalon mergulhou no espelho de névoa. Com os olhos arregalados Rubra observou sua ação.

— Que garota estúpida. — ela sussurrou.

Em seguida, em seu encantador vestido de festa, Rubra também mergulhou no espelho. Enquanto caía dentro dele a fada vermelha se perguntava o que todos pensariam quando entrassem no Palácio de Gelo e não encontrassem as salvadoras sentadas para um chá.

Mais tarde naquele dia eles procuraram.

Notas finais
Muito obrigada por ler e feliz natal!