Através da Renegada

2 Capítulo 2: Dizeres em Letras Bruxas


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos e espero que gostem!

Avalon caiu de joelhos num quarto escuro. Segundos depois surgiu Rubra resmungando e passando a mão pelo seu belo vestido vermelho. A rainha olhou pra trás e tirou o cabelo dourado que caía em seu rosto, vendo enfim a fada vermelha a olhando com desgosto e ainda assim estirando-lhe a mão. Avalon a pegou e levantou-se. Ambas ficaram encarando-se em silêncio, mas por motivos diferentes. Sem querer admitir, Avalon estava envergonhada. Mas Rubra estava furiosa.

— Você não deveria ter vindo. — Avalon disse desviando o olhar.

Rubra bufou irritada arrancando a presilha de borboleta que prendia sua cabeleira ruiva e jogou-a no chão. A fada afagou os cabelos e eles ficaram como o usual, volumosos e agitados. Arrancou depois os sapatos altos e segurando-os na ponta dos dedos lançou um olhar fulminante à Rainha de Scarlet.

— Você muito menos, Majestade. — e com isso escancarou a porta de vidro daquela sala.

Avalon atravessou a porta logo depois de Rubra, e mesmo estando ciente de que merecia aquelas palavras duras odiava ser tratada daquela forma. Quando fechou a porta atrás de si, Avalon teve uma visão familiar e finalmente confortável. Era a sala de estar de Lisandra como o esperado e ali estava, sentada ao sofá ao lado da mãe adotiva de Anthony, sua mãe Giovanna Hadgrier.

— Avalon. — disse a patrona da rainha quando a viu.

Ela tinha belos cabelos castanhos e olhos azuis. Finalmente parando para reparar, Avalon notou que não eram nem um pouco parecidas. Mas isso não importava, jamais importaria. A rainha abraçou Giovanna com força.

— Mãe. — Avalon choramingou. — Eu senti tanto sua falta.

Rubra as observou e entendeu o desespero da fuga de Avalon. Ainda que não achasse justificável, não se sentia no lugar de julgar, então ficou quieta. Lisandra as observava com os olhos nervosos e seus ombros rígidos denunciavam que ela estava tensa.

— Lisandra, o que houve? — Rubra questionou com os olhos apertados.

Giovanna e Avalon se separaram, e a patrona da rainha olhou a fada vermelha.

— Vocês não podem ficar aqui. — ela disse com seriedade.

Avalon enrijeceu a testa e olhou Lisandra.

— Aconteceu alguma coisa? — a rainha perguntou.

A patrona de Anthony remexeu-se no sofá e pegou uma xícara de chá na mesa de centro.

— Sentem-se, meninas. — disse Giovanna voltando ao seu lugar no sofá.

Avalon e Rubra sentaram-se nas duas poltronas da sala e não tiraram os olhos das patronas que, agora que pararam para perceber, estava com expressões parecidas e não boas.

— Algo não está natural. — Lisandra começou. — O espelho trabalha com independência. Se você atravessa um espelho de névoa não quer dizer que você irá sair em outro espelho de névoa. Alexa é uma banida de Scarlet, ela pode ter sido largada em qualquer beco escuro de Manhattan ou do mundo.

Rubra e Avalon sabiam disso.

— Está dizendo que Alexa está fazendo algo? Mas isso é impossível! — Rubra questionou. — Ela foi banida, os poderes dela são drenados no instante que ela está fora de Scarlet.

— Não estamos dizendo que Alexa está fazendo algo. Não temos notícias dela. — disse Giovanna pegando também uma xícara de chá e levando aos lábios.

Lisandra devolveu sua xícara a mesa, fazendo um tilintar quase inaudível.

— No dia que vocês venceram e Alexa foi banida, alguém mais saltou pelo portal? — Lisandra perguntou olhando Avalon e depois Rubra.

A rainha abaixou os olhos. Avalon ainda não suportava a perda de sua prima. Não por que elas eram amigas, não por que era família, não por que Branca era amada. Mas por que Branca não era má. Ela era apenas alguém sem escolha e alguém a quem o destino só deu caminhos ruins.

— Apenas Branca. — Rubra respondeu com indiferença. — Mas ela estava quase morta.

— Rubra! — Avalon repreendeu-a.

— É a verdade. — disse a fada vermelha dando os ombros sutilmente.

Giovanna e Lisandra se entreolharam.

— Branca atravessou o espelho de névoa que eu guardo. — Lisandra contou. — A princesa herdeira de Alexa está viva. Ficou três dias comigo recuperando-se e fugiu.

Avalon apertou os braços da poltrona e Rubra ficou boquiaberta.

— Como? — a rainha perguntou num fio de voz.

Giovanna terminou sua xícara de chá e repousou-a.

— Não fazemos ideia. — ela disse. — Com a ajuda de alguns feitiços da Lisandra nós nos comunicamos com Scarlet através de cortinas de fumaça e fomos ordenadas por Eros a procurá-la.

Os contatos através das cortinas de fumaça eram a maneira mais rápida de patronas bruxas se comunicarem com o povo de Scarlet. Patronas fadas não tinham o mesmo mecanismo.

— Nós soubemos que ela estava num hospital e fomos até lá, mas descobrimos que ela já tinha deixado a enfermaria. — Lisandra continuou. — Não sabemos onde ela está. Mas Branca estar viva não é natural, ela é a contradição e deveria morrer.

Avalon levantou-se bruscamente da poltrona e Rubra a acompanhou com o olhar que previa a inconseqüência da rainha.

— Vamos encontrar Branca. — a primogênita disparou.

Rubra levantou-se.

— Não vamos, não! — rebateu.

Os olhos rosa de Avalon fitaram os vermelhos de Rubra.

Você é a rainha, pensou Rubra, não pode fazer isso.

Branca é meu povo e minha família, pensou Avalon.

— Avalon, querida, você deve voltar. — Giovanna aconselhou.

Avalon fechou os olhos e respirou fundo. Rubra a observou e massageou as próprias têmporas.

— A rainha não pode deixar Scarlet. — Lisandra alertou.

Avalon abriu os olhos e passou-os pelas três mulheres naquela sala.

— Anthony era o esperado rei desde o princípio. — ela começou. — Ele pode segurar as pontas por uns dias no meu lugar. Eu vou atrás da Branca.

Rubra mordeu os lábios e negou pertinentemente.

— Branca chorou em seu leito de morte e agora você acha que ela é uma criatura que vale a pena. — a fada vermelha cuspiu. — Ela é traiçoeira e se fugiu é por que não precisa de ajuda.

Avalon soltou uma risada irônica.

— Eu vou atrás dela. — a rainha permaneceu em sua decisão. — Sozinha ou não.

Rubra revirou os olhos.

— E por onde você vai começar? Você não tem nada, Avalon! — a fada vermelha quase gritava.

As patronas desprenderam sua atenção nas garotas quando uma luz dourada piscava na mesa de centro, ao lado da bandeja de chá.

— Garotas...

— Eu tenho sim! Eu tenho a boa vontade de fazer algo por uma garota que não teve escolha, Rubra! — a exclamação de Avalon não deixou a voz de Giovanna terminar a frase. — Nós podemos escolher entre ajudá-la ou não.

— Eu não quero ajudar a garota que fez da minha vida o inferno! — Rubra berrou gesticulando. — E que ajudou a não deixar você cumprir seu destino!

Avalon grunhiu com irritação apertando os punhos. A luz dourada oscilava de intensidade, sempre que ficava muito forte se esvaía.

— Então você é tão amarga quanto a Branca foi. — Avalon disse com a voz baixa, cansada de se exaltar.

Rubra grunhiu e sentiu vontade de socar uma parede.

— Droga, Avalon! — a fada exclamou. — Certo, vamos atrás dela, mas...

No momento que Rubra concordou com Avalon o brilho dourado tomou forma e fez um barulho leve ao cair no chão. As recém chegadas de Scarlet olharam em direção do objeto formado.

— Ah, não é possível. — Avalon sussurrou ao olhar o objeto e abaixou para pegá-lo.

Rubra arqueou as sobrancelhas enquanto o observava e soltou um suspiro exasperado. O Livro das Profecias reluzia. Avalon apertou o livro e olhou Rubra.

— Abre. — disse a fada vermelha.

A rainha sentou-se no chão e repousou o livro no tapete cor de sangue. Rubra sentou-se ao seu lado e ambas se entreolharam. Sem dizer nada, Avalon abriu o livro que mexeu suas páginas por si só. Parou na página treze. A página se desenhava com fios dourados que se mexiam sem parar, e uma figura bem desenhada surgiu. Era um casebre feio com uma placa de madeira com palavras entalhadas. Havia também uma calçada larga e pessoas passando por ela, como se não vissem – pelo menos não notassem – a construção.

— O que diz? — Lisandra perguntou ansiosa.

Avalon demorou a tirar os olhos da página. Rubra passou os dedos pelo desenho e havia letras pequenas embaixo dos desenhos, que eram totalmente desconhecidas aos olhos da fada vermelha. Letras que aparentemente formavam uma frase. A rainha levantou-se com o livro.

— É um desenho. — Avalon olhou as patronas.

— E há uma frase embaixo. — disse Rubra ajeitando a saia de seu longo vestido. — Não sei que linguagem é esse.

Avalon entregou o livro à Lisandra que quando olhou o desenho se esforçou para não esboçar reação nenhuma e Giovanna fez o mesmo quando olhou. Ambas abaixaram o olhar ao mesmo tempo para ler a frase. Giovanna negou rapidamente enquanto Lisandra assentia devagar.

— Não sei o que significa. — disse a patrona de Avalon.

Lisandra demorou mais um pouco lendo a frase e deixou o livro na mão de Giovanna quando saiu rapidamente da sala, com uma luz em seu rosto que demonstrava que ela sabia de alguma coisa.

— Lis...

Avalon não terminou a frase por que Lisandra entrou em sua sala proibida antes que todos naquela sala soubessem sua real identidade. A bruxa não demorou sequer um minuto para voltar à sala, sob todos os olhares curiosos, trazendo um longo papel dobrado em quatro faces em sua mão, parecia um mapa. Lisandra ajoelhou-se na sala, em frente à mesa de centro, tirou a bandeja de chá e abriu o grande papel sobre a mesa. Ele era amarronzado e velho, tinha várias letras desconhecidas pela maior parte de pessoas daquela casa, felizmente não para Lisandra.

— Essa frase está escrita num idioma antigo de bruxas. — ela disse enquanto pegava o livro de volta e analisava mais uma vez a frase.

Lisandra colocou o livro em seu colo. Rubra e Avalon abaixaram-se para observar o grande papel estirado na mesa e Giovanna ajoelhou-se ao lado de Lisandra para também olhá-lo.

— E se eu não estiver equivocada, e aposto que não estou, aqui diz... N... O... P... T... Não... — Lisandra passava o dedo indicador pelo papel procurando as letras da frase do Livro das Profecias. — Per... i... ta... Permita! Não permita, é o que diz aqui!

Rubra enrugou a testa e pegou o livro do colo da bruxa.

— “Não permita” e uma casa velha? — a fada questionou. — Que droga isso quer dizer?

Avalon ponderou devagar e pegou o livro, observou minuciosamente o desenho. Surgiu um detalhe novo quando os olhos rosa da rainha passaram pelo canto do esboço.

— Uma placa. — Avalon apertou os olhos para enxergá-la e depois sorriu. — Sei que rua é essa, já devo ter passado por aqui milhões de vezes.

Rubra levantou-se e cruzou os braços. Avalon deixou o livro sobre a mesa e virou-se para sua amiga.

— Acho que temos coisas a fazer. — a rainha disse.

A fada vermelha ia resmungar, mas poupou-se a respirar fundo e olhar as patronas.

— Eu preciso de roupas. — ela disse impaciente.

Avalon soltou um sorriso.

— E precisamos de olhos cinza. — a rainha pediu.

As patronas moveram-se rapidamente. O livro sumiu sem ser notado.

Notas finais
Muito obrigada por ler essa história.