Através Das Ilusões
1 Cidade fria
Notas iniciais
Boa leitura!
“Aqui não era tão frio assim.”
Foi a primeira coisa que eu pensei após sair do taxí que havia me levado da rodoviaria mais próxima até a cidade.
Paguei o taxísta, que agradeceu e me chamou de rapaz. Eu apenas suspirei e disse adeus, não era a primeira vez que me confundiam assim, devido as minhas roupas masculinizadas e meu cabelo curto.
Me virei e peguei as malas, ele me deixou na frente do apartamento dos meus pais, eu ficaria por lá até arrumar o meu próprio apartamento.
Era de certa forma “chique” em comparação aos outros predios da cidade, pois ali moravam alguns dos que tinham as melhores condições financeiras e meus pais, felizmente, faziam parte desse tipo.
Eu sei o que é ser classe média baixa, pois nasci nesse meio, até meus pais conseguirem conquistar o que conquistaram, demorou bastante.
Quando eu era criança, sofri um pouco por parte das outras criaças. Porque eu era pobre e parecia um garoto... O fato é que desde criança, eu gostava do meu cabelo curto e nada que meus pais fizessem poderia me fazer mudar de ideia e deixar o cabelo crescer.
Parei na frente do espelho do salão da recepção, tirei a touca e arrumei meu cabelo, que era preto e liso, por eu ser asiática. Eu havia raspado dos lados fazia uns anos, mas eu não gostei do resultado então deixei crescer e cortei num estilo meio Justin Bieber quando era novo, eu não gostei muito mas algumas amigas haviam dito que eu ficava fofa naquele estilo, então eu deixei.
Guardei a touca no meu bolso e fui pro elevador, já sentindo a temperatura subir. Nevava bastante naquele dia, mas o predio inteiro tinha aquecedores. A cidade nunca estivera tão fria como aquele dia, pelo que eu me lembrava.
Parei no 3 andar e segui um corredor até encontrar a porta do apartamento dos meus pais, que eles já haviam deixado aberta. Deixei a mala do lado da porta e o casaco pendurado, não demorou muito até minha mãe aparecer, com aquele sorriso já desgastado pelo tempo, um olhar indeciso e bochechas coradas. Ela me abraçou, disse que estava com muitas saudades e elogiou o meu cabelo.
— Ficou bonita assim, Kuro, só ficaria mais bonito se deixasse crescer. — Ela acrescentou, mas era uma piada.
Meu pai chegou na sala e também me abraçou, desarrumando o meu cabelo e me chamando de “filhão”. Ri da brincadeira, já bem acostumada com essa atitude dele.
Meus pais são pessoas maravilhosas, quando me assumi, eles me aceitaram e ainda fizeram piada. Disseram “Mas você realmente achou que não sabíamos? Você é mais macho que seu pai quando era criança”. Me assumi com 14 anos, foi incrível. Eu fui embora da cidade pois queria uma vida melhor e naquela cidade eu sabia não acharia nada. Fiz faculdade de odontologia nos EUA, mas me toquei que eu não gostaria de ficar longe dos meus pais pelo resto da minha vida, então voltei pra cidade, procurar um emprego por lá. Eu tenho 22 anos, aliás.
— Kuro, a Haruki veio aqui mais cedo, perguntando as horas que você iria chegar. — Minha mãe informou, com um sorriso um tanto malicioso no rosto.
— Ah, Haruki, quanto tempo eu não a vejo — falei, me recordando da minha melhor amiga de infancia. — Que cara é essa mãe? Não me diga que ela também é lésbica?
— Não, não, ela tem um namorado. — Meu pai disse -Talvez seja bi, quem sabe?
— Pai, pare de querer me arrumar uma namorada! — Ri.
— Está errada, eu quero te arrumar uma namorada bonita.— Ele disse, rindo também.
Pedi licença e fui arrumar as minhas malas no meu quarto. Estava bem diferente, tinha uma cama de casal, uma ele tinha as paredes brancas, um armário do lado da janela, uma mesa grande, com livros, um computador, uma televisão e várias tranqueiras que eu não tinha idéia de onde surgiram.
Coloquei minha mala do lado do armário, embaixo da janela, e fui mexer nas tranqueiras. Haviam chaves de fenda, várias canetas e bloquinhos de papel, uns parafusos e até algumas maquiagens. Fiquei me perguntando porque minha mãe não tinha tirado aquilo da mesa, se sabia que eu iria chegar.
Dei de ombros pra tudo aquilo e fui desfazer as malas, minha mãe entrou no quarto e ofereceu ajuda, eu aceitei e arrumamos com calma.
— Mãe, vou sair essa noite. Ver a cidade de novo. — Informei enquanto guardava minhas bermudas, que agora eu percebia que não as usaria tão cedo.
— Se cuide, a cidade cresceu um pouco, está ficando perigosa.
— Se eu sobrevivi a America... — Ri.
— As coisas estão diferentes por aqui, a vida é mais arriscada, o prefeito é um inútil... — Ela falou, destraida, olhando para o armário.
Ela foi interrompida pelo som da campainha, que a tirou de seu tranze. Ela sorriu e avisou que iria atender a porta, que eu poderia continuar arrumando as coisas.
Não demorou muito tempo até que minha mãe entrou no meu quarto para anunciar que tinha chegado visita pra mim. Mas então uma garota vestida com roupas tão masculinas quanto as minhas, cabelo castanho solto e um sorisso travesso invadisse meu quarto e me desse um abraço, sem falar nada. Suas roupas estavam frias e meus braços estavam nus, então me arrepiei quando a abracei de volta.
— Nina! Quanto tempo! — Sorri.
— Kuro, achei que você nunca mais fosse voltar! — Ela me soltou, observando meu rosto e minhas roupas — Você não mudou nada!
— Obrigada, você... — Tentei me lembrar se já tinha visto ela vestida de garoto alguma vez — Você decidiu mudar o estilo, ficou legal!
— Do que você está falando, tonta? Eu sempre me vesti assim, erámos as bofinhos da escola, não lembra? — Ela riu.
— Claro que lembro, como poderia esquecer? — Ri sem jeito, achando que eu deveria ter dado um fora e tanto. Se bem que eu nunca havia visto ela assim, ela era até feminina quando andavámos juntas. — Espera, eu esqueci mesmo. Sério que você também se vestia assim?
— O ar americano não fez muito bem pra você, fez? — Ela fez cara de quem estava estranhando. — Não importa, você vai continuar brincando de casinha aqui ou vamos sair logo?
— Eu sabia que você ia perguntar isso — disse animada.
— Viu? Você ainda se lembra de alguma coisa sobre mim. — Ela sorriu e foi saindo do quarto, fui atrás dela.
Avisei aos meus pais que estava saindo, eles falaram que estava tudo bem e que eu não deveria voltar tarde, pois tinha que descansar da longa viagem.
“Pais... Sempre vão agir assim.” Pensei.
Nina morava no prédio ao lado e estudavamos na mesma escola. Eu e ela haviamos nos conhecido no caminho da escola no primeiro dia. Nós duas erámos muito boas em arrumar problemas acidentalmente, o que era terrivel quando eu estava sozinha, mas com ela, era simplesmente engraçado.
— Vamos a um lugar legal. — Ela disse, arrumando o casaco.
— Todo lugar é legal quando estamos juntas. Você sabe, podemos quebrar algumas coisas.
— “Todo lugar é legal quando estamos juntas” — repetiu, imitando minha voz — está tentando me seduzir, príncipe?
— Claro que estou. — Ri, afinal, eu estava mesmo. Eu e Nina já haviamos ficado algumas vezes quando estavamos bebâdas, eu meio que sentia saudade disso.
— Nem perca seu tempo. — Ela disse séria, mas logo sua expressão voltou para aquele tão nostálgico sorriso — Você já me seduziu. Você cresceu sabia? Ficou bem mais sexy.
— Eu sempre fui sexy! — Retruquei.
— Não pra mim, porque acha que só demos uns beijos, nunca nada mais?
— Cretina. — Bufei.
Ela riu e pegou minha mão, me levou até uma ruazinha deserta, mas que havia uma música bem animada soando por ali, não sabia exatamente de onde vinha.
Ela abriu uma porta do lado de uma casa e subiu as escadas, me incentivando a ir rápido, quanto mais subiamos, mais alta a música ficava, era um tipo de dubstep muito animado.
Assim que chegamos na sala do local, logo reparei as bandeiras de arco-íris. Uma balada gay naquela cidade foi tão surpreendente que por um momento pensei estar sonhando aquilo. Travei por um momento, antes de abrir um sorriso.
— O que foi, príncipe? Está encantado? — Nina brincou.
— É tão bom ver que tem uma balada gay nessa cidade...
— Mas sempre teve. Kuro-chan, você está com problemas de memóra? — Ela me encarou.
— Não lembro de nenhuma balada assim... Acho que estou confusa. Melhor eu voltar pra casa. — Soltei sua mão, dando passos pra trás.
— Kuro, espera!
De tanto andar pra trás, tropecei nas escadas e cai, lembro de ter visto Nina correr atrás de mim... Ou estava caindo comigo?
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