Através Das Ilusões
2 Parece mentira
Notas iniciais
Acordei na cama do meu quarto, Nina estava deitada ao meu lado, tentei me lembrar do que tinha acontecido na ultima noite, então lembrei da queda. Mas era estranho, pois eu não sentia nada além de fortes dores de cabeça, nada nas costas ou no corpo. Nina roncava um pouco com a boca aberta. Então notei o cheiro de bebida que saia da sua boca. E o quarto inteiro cheirava assim também.
Eu não lembrava de nada da noite além da escada e da balada. Nem lembrava se havia acontecido alguma coisa entre nós duas.
Nina levantou a cabeça devagar e murmurou algo como “nun ma bebm de no...” Que deveria significar que ela nunca mais beberia de novo, ela sempre dizia isso quando ficava de ressaca (quando éramos adolescentes, ela quase sempre ficava assim).
— O que aconteceu ontem? — Falei, com uma voz de sono.
— Não lembra? — Ela falou ainda meio murmurando. Sua língua demorava pra acordar. — Nós bebemos e viemos pra sua casa... Ai acho que dormimos, ou talvez não.
— Eu... Lembro de ter caído de uma escada... — Falei, tentando lembrar de quando teríamos começado a beber.
— Escada? — Ela se sentou na cama, fazendo careta por causa da dor de cabeça. — Mas a balada era no salão do primeiro andar.
— Não tem graça. Eu lembro claramente de ser no segundo andar. — Falei séria.
— Você deveria ir no médico, Kuro-chan, acho que é doença de americanos.
Me calei, pois havia ficado brava com aquilo, ela estava brincando comigo.
Minha mãe entrou no quarto e ficou um tempo tentando entender o que estava acontecendo.
— Ah, me desculpem por entrar assim... Podem... Continuar fazendo o que quer que vocês estavam fazendo. — Ela saiu do quarto correndo.
— Ah, ótimo, agora minha mãe acha que estávamos transando aqui.
— Quem garante que não? — Nina me abraçou pelas costas, passando as mãos na minha barriga e levantando a minha camisa.
— Para, eu ainda estou brava. — Me afastei.
— Mas eu não estava brincando, prometo, a boate nem tinha segundo andar. Você estava muito bêbada mesmo.
— Cresce, Nina.
Eu me levantei e sair do quarto, irritada com aquela brincadeira dela. Eu me lembrava muito bem, ela devia estar querendo me confundir, ela costumava se divertir fazendo isso quando éramos menores.
Entrei na cozinha e procurei o café que minha mãe sempre fazia de manhã. Coloquei em uma xícara qualquer, sem açúcar nem nada. Dentro da cozinha estava frio. Olhei pro relógio, eram três da tarde.
Minha mãe entrou na cozinha e parou na minha frente. Fiquei com vergonha por um momento, afinal, eu havia chegado bêbada e com uma garota na casa dela.
— Kuro... Minha filha... Não faça isso de novo. Eu sei que está arrependida. — Ela me olhou com um olhar bem caloroso.
— Estou... Desculpa mãe. Mas eu realmente não lembro de como eu fiz isso... Eu não lembro de nada dessa noite — desabafei.
— Tudo bem minha filha, não precisa se lembrar, só não o faça de novo. — Ela acariciou minha cabeça — Eu sei que você é uma boa garota, não é de fazer essas coisas. Não se perca assim.
— Não vou. -Olhei pra xícara, bem envergonhada por aquilo. Era estranho ter minha mãe acariciando minha cabeça daquele jeito depois de anos, eu já havia crescido tanto e mesmo assim ela continuava fazendo aquilo.
Nina chegou na cozinha e se sentou.
— Desculpa, senhora Amami, mas não aconteceu nada do que você imagina... Só somos amigas. — Ela se serviu de café também.
— Tudo bem, Nina, eu não me importaria se vocês estivessem juntas -Ela sorriu pra nós. -Você sabe o quanto eu gosto de você.
Nina e eu coramos, minha mãe riu e saiu da cozinha.
— Desculpa se eu te irritei, Kuro, mas eu não estou brincando sobre as escadas.
— Para com isso, já me irritou o suficiente, não está se divertindo ainda? — Me irritei de novo, não acreditando que ela ainda insistia naquela brincadeira.
— Kuro, se fosse brincadeira eu já havia desistido a tempo, lembra? Eu sempre parava quando você percebia que era brincadeira.
— Mas eu... Realmente lembro das escadas...
— Alguma coisa estranha está acontecendo. — Ela disse preocupada. — Você se machucou nessa tal escada?
— Eu não sei... — Terminei o café e fui pro quarto, Nina me seguiu.
Tirei a camisa de costas pro espelho e me deparei com a prova. Minhas costas estavam roxas, cheias de hematomas. Nina abriu a boca, parecia surpresa. Eu me irritei, pois isso provava que ela estava mentindo.
— Já não acha que é hora de parar com esse teatrinho? — Olhei pra ela, irritada.
— Kuro, não tinha nenhuma escada lá. Aonde você se machucou? — Ela tocou as minhas costas.
— Para de mentir, eu já me cansei dessa brincadeirinha. — Me afastei dela.
— Para você de ser tão teimosa! Não estou brincando! Aonde você se machucou?! — Ela pareceu irritada.
— Na escada da droga da balada que você me levou! — Me irritei também.
— Kuro, não tinha nenhuma escada! Isso é tão estranho... O que está acontecendo? — Ela se aproximou de novo.
— Não sei! — Me sentei na cama, vestindo a camisa de novo. Tudo estava confuso. Ela não parecia estar brincando, mas ela podia estar mentindo pra rir de mim depois. Eu lembrava claramente da escada, mas ela parecia convencida de não ter escada nenhuma. E eu tinha as provas da escada., mas não lembrava de como havia parado bêbada na cama com a Nina.
— Nina, lembra da cidade ser tão fria antigamente? — Perguntei, me acalmando.
— Sempre foi fria assim... Parece mentira, você voltou e está se esquecendo de tudo. — Ela passou as mãos pelo cabelo.
— Ou você está esquecendo. Eu lembro de muitas coisas, mas tudo está mudado, muito mudado! — Olhei pro quarto — Nada é familiar além das pessoas, a cidade e todos os lugares mudaram!
— Mas essa cidade não muda a anos — Ela até achou graça.
— Tudo mudou mesmo... E ninguém se lembra de como era. Eu tenho certeza! Você tem certeza que a cidade sempre foi fria assim?
Ela hesitou um pouco antes de responder.
— Não tenho certeza... Parece mentira. — Ela olhou pro chão.
Fale com o autor