Através do Tempo
4 Te Conheço Sem Conhecer
Caminharam um tempo pelos jardins do casarão em silêncio, havia muitos pássaros por ali, e o sol aquecia naquele frio tímido de primavera.
- Você ainda se lembra bem de mim? – Elliot perguntara. Ela o mirara.
- Acha que não me lembro?
- Eu não sei o que você se recorda, era muito pequena. – Ela se pôs a pensar.
- Me lembro de me carregar em seus ombros por várias vezes quando me cansava nos treinos de esgrima, lembro quando me dava cócegas e eu odiava! – Ela rira, e os olhos de Elliot se iluminaram a vendo narrar suas lembranças. Elizabeth havia se tornado a mulher que imaginou por anos. Forte, decidida e incrivelmente bela, mas não aquela beleza comum, e sim uma beleza enigmática, como um mistério que desperta em todos a vontade de desvendar. Sua voz era firme, seus olhos sagazes, a pele dourada lhe dava um ar de entardecer. – Ah! Também me lembro quando me contava algumas histórias! – Ele retornara de suas divagações num pulo.
- Você se lembra de muitas coisas. – Notara ele, parando a caminhada para mirá-la.
- Também me lembro quando se foi... – Ele segurara as mãos de Elizabeth nas suas. Eram menores e cheias de cortes. Ele sorrira, era ela mesma. Num ímpeto a puxara para si, abraçando-a contra seu peito forte, fechara os olhos enquanto a notava em seu corpo. Era exatamente aquela sensação que sentia falta. A sensação de lar, de estar exatamente onde deveria estar. Sorrira em satisfação. Elizabeth fora surpreendida por sua ação, mas logo o enlaçara num abraço terno. E o silêncio nunca pareceu dizer tanto naquele breve e infinito instante. Ela sabia que o amava, mas nunca parara para pensar em que sentido ia seu amor. Fechara os olhos, e podia escutar o coração de Elliot bater tão forte e rápido em seu peito, quanto o tamborilar de uma canção, as mãos quentes lhe acariciavam os cabelos tranquilamente, como se não houvesse mais nada no mundo.
- Me desculpe a ousadia. – Ele dissera se afastando devagar.
- Você está nervoso? – Perguntara, a tempo de vê-lo olhar o nada, até que seus olhos extremamente verdes a miraram profundamente e ele parecia querer lhe dizer mil palavras, mas nenhuma saíra de seus lábios, somente um sorriso sem jeito viera como resposta e com toda a certeza ela era positiva. Passara poucas horas com aquele homem que conhecia desde que nascera, mas pouco sabia sobre ele, seus gostos, costumes, manias, até porque uma lacuna de tempo os separara, porém parecia saber o que se passava em seus pensamentos e a forma como a olhava lhe contava muito.
- Estou aqui tentando associar você com a criança travessa que eu conhecia.
- Ora isso não é tão difícil, eu nem mudei tanto assim! – Ele rira.
- Sério? Vai me dizer que uma pessoa dos seis aos dezesseis, não muda?
- Uau! Você lembra a minha idade!
- Mas é claro que me lembro, nossa diferença é de dez anos, nunca me esqueci disso.
- E porque nunca se esqueceu? – Quis saber ela.
- Porque sempre achei uma diferença muito grande. – Dissera ele pensativo, apoiando os braços e se debruçando sobre uma mureta de roseiras de um templo grego, no grande jardim romano do casarão. Seu olhar vagava pelos campos além das montanhas, nas lindas paisagens inglesas.
- E é uma grande diferença para que, exatamente? – Elizabeth era esperta, Elliot sabia que estava sendo encurralado. Sorrira, olhando-a finalmente. – Se é o que estou pensando, meu pai considerou dar minha mão a um homem de cinquenta anos, você acredita? – E por questão de segundos, a expressão de Elliot mudara.
- Não, eu não acredito. – Dissera firmemente. Notara que estava sendo testado. – Seu pai nunca faria isso.
- E porque não? Ele diz que já está velho, e teme o tratamento de meus irmãos comigo. – Respondera ela indiferente, sentando-se à mureta.
- Mas ele não permitiria isso.
- Mas é comum acontecer, e você sabe bem.
- Sim, mas é mentira sua. – Ele dissera sorrindo sarcasticamente a ela. – Até porque você jamais aceitaria. – Elizabeth rira.
- Óbvio que não. Eu nem considero me casar, se quer saber. Não quero que roubem minha liberdade. – Elliot respirara fundo, mas não se surpreendera com a resposta da moça.
- E se a pessoa em questão não fizer isso? Se ela tiver plena certeza de que te cercear te faria fugir? – Indagara, inclinando o corpo para olhá-la mais claramente.
- E quem seria esse alguém? Você? – Elizabeth era direta o suficiente, como um sabre em forma humana, perfurava o ponto chave sem dó.
- Você aceitaria? – Perguntara ele.
- Qual tua posição no exército? – Ela o respondera com uma perguntara totalmente fora de contexto.
- Capitão.
- Você tem ido às guerras civis? – Ele estava estranhando o rumo da conversa, sempre soube da paixão dela por armas, mas naquele instante não sabia bem o que pensar.
- Sim, mas o que isso tem...
- Como você quer que eu aceite se corro o risco de te perder? – Elliot sorrira, botando uma mecha do cabelo de Elizabeth por de trás de sua orelha.
- Passei por guerras e ainda estou aqui, não é mesmo? – Ambos olharam-se fixamente e sem dizer mais nenhuma palavra. Uma brisa fria indicava que o sol já estava se pondo, e a luz dourada banhava os cabelos loiros do rapaz, algo que o fazia parecer ter uma luz própria, como o sol, pensara Elizabeth.
- Enfim vocês se encontraram! Estive procurando você, minha filha. – A voz de Harald despertara-a dos devaneios, ela mirou seu pai sorridente.
- Senhor Harald Philip, é um prazer reencontrá-lo. – Dissera o rapaz, cumprimentando o homem mais velho.
- O prazer é meu! Elizabeth mudou um pouquinho, não acha? – Ele a mirara de esguelha.
- Ah eu diria que só fisicamente mesmo, o gênio continua o mesmo! – Ambos riram, mas Elizabeth não achara a menor graça.
A noite chegara, a festa acabara e a moça ajudara seu pai a se despedir dos demais convidados. Numa desconversa, Elizabeth se perdera de Elliot e não o vira por um tempo, pensando que ele pudesse ter ido sem se despedir, rumara para seu quarto, a fim de tirar aquele exaustivo vestido de gala. A pedido de seu pai, vezes ou outras, usava vestidos simples para ficar em casa, ao invés de calças, que era o que mais amava vestir. Caminhara pela casa à procura de seu pai, mas ao ouvir vozes advindas da biblioteca, se pôs a ir até lá pé ante pé.
- Ah, essa menina! Mas é claro que é mentira! Eu nunca faria isso! Imagina, casá-la com alguém quase da minha idade!!! – Seu pai dissera e Elizabeth rira, então Elliot fora tomar satisfação de seu pai sobre sua “mentirinha do bem”? – Até porque prometi a mão dela a você. – Neste ponto da conversa, seus olhos se arregalaram. Por isso toda a segurança dele em dizer que seu pai nunca faria isso.
- Eu bem estranhei, fico mais tranquilo em saber. – Ela escutara Elliot responder. Desde quando isso era planejado? Desde sempre? Ela se revoltara momentaneamente, mas decidira esperar. Passado cerca de trinta minutos a conversa se encerrara, e Elizabeth sumira de vista.
Observara Elliot caminhar em direção ao seu cavalo, que pastava em parte do jardim.
- Achei que a conversa de vocês nunca iria acabar. – Elliot se assustara, puxara sua espada no ímpeto, até notar Elizabeth bem ao seu lado.
- Desde quando está aqui? – Dissera, guardando sua arma.
- Desde sempre. Aquilo que disse ao meu pai...
- Você estava ouvindo a conversa?
- E...? – Ele sorrira.
- O que quer saber?
- O que disse ao meu pai, quando pedira minha mão? – O rapaz pigarreara.
- Por carta... quando eu tinha vinte e cinco anos.
- Por quê? Você gosta de mim? Conseguiria se casar comigo? – Ele se aproximara de Elizabeth. – Eu sou toda torta, o que você viu em mim? – Continuara dizendo, dando dois passos para trás ao notar a aproximação. Elliot Ryan tinha uma energia forte, intimidadora e imponente, mas ela não o temia. Em suas lembranças, o sempre doce rapaz dos cachinhos dourados era seu melhor amigo, não haveria porque temê-lo, pensara incerta de suas próprias conclusões. – Me responde, Ryan! – Mas ele não respondera, levara a mão lentamente a acariciar suas bochechas rosadas, mas seu olhar terno dizia que ele pensava exatamente o contrário de como a própria Elizabeth se descrevia.
- Eu preciso ir. Mas eu vou voltar, prometo. – Respondera, se afastando dela, subindo ao cavalo rapidamente. Olhara Elizabeth uma vez mais, como sempre fazia, profundamente em seus olhos.
- Vamos, Luck! – Exclamara ao cavalo que rapidamente se movera. Com um último aceno de cabeça, Elliot se fora, deixando Elizabeth ali, a mirar-lhe partir. Ela respirara fundo, sentindo cada centímetro do seu corpo ferver de raiva. Quem ele achava que era para fazer coisas assim? Aliás! Como seu pai pudera tramar por suas costas? Aquela era uma boa noite para discussões e era o que ela faria.

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