Através do Tempo
2 Longo Período
Elliot olhava atentamente para a menina que treinava com seu sabre pequeno com muito afinco. Ele não sabia bem como dizer aquilo, mas era necessário, achar as palavras certas era o desafio, ainda mais por se tratar de uma criança, que ainda não possuía a capacidade de domar suas emoções.
- Elizabeth, venha cá. – Ele chamara. Era uma tarde fria. Estavam numa das florestas próximas da região.
- O que foi? – Ela indagara se aproximando.
- Eu vou precisar viajar por um tempo.
- Quanto tempo?
- Alguns anos. – A menina o encarava sem entender.
- Você vai me abandonar? – Elliot rira. Ela não sabia ao certo quantos dias possuía um ano, mas sabia que “alguns anos” era provavelmente bastante tempo.
- Ei! Você tem seu pai, ele é sua família de verdade.
- Você também é minha família. – Ela dissera, olhando fixamente para ele, pusera suas duas mãozinhas de cada lado do rosto belo do rapaz. Elliot não soubera dizer, mas olhar os olhos daquela menina lhe dizia muito mais do que meras palavras. Naquele momento era como se olhasse para si mesmo, mas de um outro ângulo, era como se ela fosse uma parte de si, como se tivesse muito mais que apenas seis anos. Que impressão estranha era essa que sentia?
- Sou? – Ele indagara.
- É sim. – Dissera simplesmente.
- Então você vai ficar muito triste se eu me for?
- Você não vai mais voltar?
- Eu vou voltar, mas não sei quando...
- Você vai para o exército?
- Vou sim. – Elizabeth pareceu-lhe ter entendido a realidade. Os olhos sempre vibrantes da menina, ganharam um tom opaco que ele jamais havia visto antes.
- Eu vou perder o meu melhor amigo?
- Você não vai me perder, eu prometo. – Dissera, apertando levemente as bochechas rosas e redondas da garota. Ela o mirara, com os olhos marejados, mas ele notara o quanto esforço a menina fazia para que nenhuma lágrima escapasse. Por um segundo ele teve orgulho dela, não que chorar fosse errado, mas sentia orgulho do quanto ela já havia amadurecido.
- Pode me levar pra casa? – Pedira num fio de voz. Ele atendera o pedido, logo pusera Elizabeth num cavalo e se fora com ela. Ao chegar porém havia uma carruagem logo a frente do casarão, e os pais de ambos os amigos estavam a se cumprimentarem.
- Pai? – Elliot indagara vendo seu pai conversar com o pai de Elizabeth. – O que faz aqui?
- Vim me despedir de Harald, partiremos logo mais. – Elizabeth permanecera quieta, enquanto Elliot a devolvia a seu pai.
- Vai ser um incrível militar, Ryan. – Dissera Harald. O rapaz sorrira ao homem.
- Obrigado, senhor.
- Gostaria de lhe agradecer por cuidar de minha filha durante esses seis anos. Ela gosta muito de você e sentirá sua falta.
- Mentira, eu não vou sentir a falta dele. – Respondera ela com semblante raivoso.
- Ei, isso são modos, Elizabeth? – Repreendera seu pai.
- Deixe ela, Harald, é só uma criança. – Dissera Charlie, que apesar dos também cinquenta anos, possuía todos os cabelos tão brancos como a neve. Ela mirara o pai de seu melhor amigo, odiando aquele homem por dizer aquelas palavras e também por fazer Elliot entrar para o exército. Ela dera às costas aos dois, se encostando em seu pai, como se não quisesse papo com ninguém. O rapaz que observava a reação da menina, sentia seu peito desabar. Sabia que quando retornasse ele próprio já seria um homem adulto e ela uma adolescente. Poderia nem sequer lembrar-se mais dele.
- Bem, então vamos? — Harold se despedira de Charlie e Elliot com um abraço caloroso, mas Elizabeth não o mirara.
- Eu prometo voltar, Eliza. – Ele baixara nos joelhos para ficar à sua altura, se aproximando lhe deixara um beijo nos cabelos negros e rebeldes. Sentira por não poder abraçá-la. Ambos pai e filho adentraram na carruagem deixando a família Philip para trás. Elizabeth finalmente mirara o veículo, sentia seu coração apertar. Ela não o abraçara, nem se quer olhara para ele. A carruagem ganhara movimento e partira. A menina se perguntara naqueles breves segundos quando o veria de novo, será que o veria mesmo? O desespero lhe tomara o peito e num ímpeto ela escapara de seu pai, correndo o máximo que seus pés conseguiam, e neste instante Elliot olhara para trás, a tempo de vê-la gritar em plenos pulmões.
- Não quebre sua promessa! – O rapaz sorrira, tirando a cabeça para fora da carruagem ele respondera:
- Eu não vou, Elizabeth! Eu não vou... – Ela sorrira em meio aos prantos e mesmo de longe ele ainda pode vê-la acenar para si, e somente isso fora suficiente para levar essa imagem consigo para onde quer que fosse.
- Eu te amo... – Balbuciara a menina baixinho, enquanto chorava observando a carruagem sumir de sua visão. Elizabeth apertara o próprio peito, o sentindo doer de uma forma que não era física, mas estava ali, de algum jeito, entranhada em seu corpo.
Os dias se passaram lentamente para ela. E uma febre sem explicação a acometera por semanas, o que levara seu pai ao desespero por muitos dias. Os médicos não sabiam explicar com exatidão o que ela sofria, talvez de tristeza, fora o que pensara seu pai. Ela sempre tivera Elliot por perto desde que nascera, e agora não tê-lo ali era um choque para si. Numa tarde, a menina dormia, quando Harald sentara à beira de sua cama.
- Quero te dar um presente, que sei que você irá gostar. – Ele acariciara os cabelos da filha.
- O que é?
- Ora, não estava dormindo? – Ela sorrira docemente ao pai, que lhe entregara um embrulho marrom muito longo. Elizabeth se sentara à cama, ansiosa o abrira às pressas. Era um lindo sabre prateado, cravejado de esmeraldas.
- É de verdade? – Ela indagara com os olhos surpresos.
- Mas é claro que sim! Eu sei que você treinava com Ryan em segredo na floresta.
- Mas não era um segredo?
- Sou seu pai e sei de tudo! – Ele dissera lhe sorrindo. – É sua, quando tiver idade para usá-la, poderá treinar com ela. – Elizabeth abraçara o pai pela cintura, sorrindo de tanta alegria.
- Obrigada, papai! – Gritara contente, vendo o pai lhe sorrir ainda mais. Ele sabia que Elliot não voltaria tão cedo, havia sido convocado para treinar em outra cidade, longínqua o suficiente para se tornar inviáveis quaisquer viagens para vê-los. Mas o tempo tinha seus caprichos e se havia uma coisa que Harold havia aprendido, era que não havia obstáculos para o destino.
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