10 Anos Depois


Elizabeth mirava-se ao espelho, os longos cabelos presos em um penteado belissimamente requintado, brilhos lhe adornavam o topo da cabeça como uma coroa de diamantes, seu vestido longo e azulado lhe cobria o corpo, e ela estava revirando os olhos para tudo aquilo.

- Está linda, como uma princesa, senhorita Elizabeth! – A bela moça de dezessete anos mirara a dona que lhe arrumara para o almoço de gala que seu pai lhe organizara.

- Obrigada, Joane. – Ela lhe sorrira tristemente.

- Ande, minha filha! Os convidados já estão à porta! – Lhe dissera seu pai, apressando-a.

- Eu já vou! – Respondera, abanando seus cabelos com o leque em mãos. Logo ela deixara o quarto. Caminhara pelos corredores do casarão, teria de encontrar seus irmãos e seus sobrinhos, tios, primos e mais parentes e amigos de seu pai. Estava se preparando mentalmente para os olhares de reprovação que existiriam, por mais bela que ela tenha se tornado, por mais bem vestida, versada em línguas e estudada que fosse, jamais seria aceita por ser “a filha da amante”. Parara em frente à biblioteca da casa. Adentrara sorrateira, fechando a porta de leve. As paredes eram repletas de livros em estantes de madeira cedro. O cheiro daquele local era maravilhoso para si. Ela olhara a parede esquerda, havia numa prateleira apropriada, um lindo sabre prateado, cravejado de esmeraldas. Elizabeth o retirou dali, puxando-o de sua bainha. Nunca deixara de treinar, esgrima era uma de suas paixões e já estava mais do que na idade de empunhar aquela espada. A pusera em sua cintura, por dentro do vestido, o qual arrumara um compartimento especial para que ninguém a notasse com aquela arma, algo que ela mesma costurara. Saíra da biblioteca tão pela surdina quanto entrara. Respirara fundo e adentrara ao salão da grande casa.

Era um almoço requintado de fato, haviam muitas mesas, uma festa bela e muito bem decorada. Fazia tempos que seu pai não dava um evento como aquele.

- Uau! Você está linda, Elizabeth! – Uma bela jovem se aproximara de si com total intimidade, era sua única amiga, Augustine. Eram amigas, mas não melhores amigas, como se diria. Elizabeth era um espírito livre e solto, não se apegava às pessoas, pois aprendera que elas se afastavam uma hora ou outra, então formar laços era algo que não priorizava.

- Obrigada! Você também, está magnífica! – Dissera sem realmente olhar para a moça.

- Ah não precisa mentir, eu sei que você está odiando tudo isso! – Exclamara Augustine sorrindo divertida. Elizabeth finalmente rira, pois era sim a real verdade. Logo seu pai interrompera o diálogo das duas, e levou a filha para apresentar aos demais convidados. Tivera que aturar sim alguns olhares de reprovação, mas notara algo que não esperava, a admiração e talvez até mesmo inveja, foram os mais perceptíveis, o que lhe surpreendera. Logo ela deixara seu pai e se afastara com Augustine para longe de todo aquele alvoroço de músicas, conversações e risadas, típicas de eventos assim.

- Aquele rapaz não para de te olhar! – Dissera sua amiga, Elizabeth olhara, um rapaz belo, porém sem sal e açúcar para si.

- Eu não estou procurando um casório, se quer saber! – Alertara.

- Mas não é isso, ele é bonito. – Elizabeth sorrira. Augustine ansiava por arrumar um par e ela sempre achara isso divertido.

- Pra você talvez, para mim é bem sem graça! – Respondera, puxando a amiga e se afastando bem dali, para um local consideravelmente isolado dos demais.

- Elizabeth! – Repreendera a amiga, dando um pequeno empurrão divertido na outra. — E aquele ali talvez seja do seu agrado? – Elizabeth revirara os olhos. Achara que estando distante o suficiente conseguiria fugir dos olhares paqueradores.

- Não quero ninguém!

- Apenas olhe! À sua esquerda, de vermelho. – Ela olhara, e um homem majestoso vestindo trajes militares, de cores vermelho e dourado, a mirava. Os olhos fixamente a encaravam, seus cabelos louros encaracolados, lhe caíam como cascata por seus ombros. E no fundo de suas memórias, se recordara de cabelos assim, do aroma campestre e amadeirado, das mãos quentes que lhe seguravam os pés pequenos. Se lembrava de chorar por dias, de adoecer, de dizer adeus. Foi como se uma enxurrada de lembranças lhe tivessem invadido a mente, uma mescla de dor, de amor e de amizade sincera lhe enchia o coração. O homem se aproximara à passos firmes, e de repente fora como se seu coração pudesse sair pela boca, suas mãos se tornaram frias enquanto ironicamente suavam, a respiração entrecortada lhe escapava aos lábios, e não era pelo espartilho apertado, e sim pelo nervosismo que lhe acometera instantaneamente. Ele estava ali, parado à sua frente, segurando uma taça de champanhe, que erguera em forma de cumprimento, e um sorriso largo, iluminado e feliz lhe enchera a face.

- Elizabeth, como prometido, aqui estou eu. – Disse ele, curvando-se levemente. Augustine parecera perder o ar dos pulmões, o rosto embasbacado mirara a amiga que estava três vezes pior, porém talvez Elizabeth fosse feita de ferro, num segundo ela recuperara a compostura, firmando um ar tão, se não mais, imponente que o belo homem.

- Já era tempo, Elliot Ryan.

- Vocês se conhecem? – Sua amiga perguntara.

- Sim, desde que ela nascera. – Ele respondera a Augustine, com um sorriso simpático. Elizabeth embora surpresa, não estava muito afim de um reencontro tão natural, como se nada houvesse.

- Não vai dizer nada, Elizabeth? – Ela indagara.

- Não sei bem o que dizer, só que talvez você não seja páreo para mim! – Exclamara Elizabeth ao rapaz, enquanto desembainhara sua espada, que até então permanecia tão escondida que nem mesmo Augustine havia notado. Apontara diretamente ao peito dele, roçando perigosamente próxima ao coração. Elliot não pareceu surpreso, mas um sorriso desafiador lhe surgira aos lábios. Ele tranquilamente entregara sua taça a Augustine, que mirava a cena aturdida. Elliot então, se dirigira a Elizabeth.

- É o que vamos ver. – Respondera, puxando seu próprio sabre e em questão de segundos, o som seco de duas lâminas se encontrando era desesperador. E Augustine não sabia o que fazer, sua amiga de repente estava cruzando espadas com um estranho que ela dizia conhecer!

Elizabeth era rápida, mas não mais que Elliot Ryan, porém por duas vezes ele tivera um dos seus cachinhos guilhotinados.

- Ei! Não é pra ser tão sério! – Ele exclamara de olhos arregalados.

- Você! Porque demorou tanto?! – O sorriso do rapaz se perdera, e ele conseguira finalmente desarmá-la, uma vez notando a instabilidade emocional da garota. A linda espada voara longe, caindo fincada à grama do jardim. Elliot fora rápido o bastante para ter o pescoço da bela dama, ou não tão dama assim, a centímetros da ponta de seu sabre. Vira Elizabeth engolir em seco, e notara o que não queria notar; o arfar na respiração da moça, o suor que lhe escorria a pele, enquanto umedecia os próprios lábios, nervosamente. Ele baixara os olhos em respeito, repudiando seu olhar furtivo.

- Me desculpe. – Ele dissera timidamente. – Eu devia ter mandado cartas, ter vindo visitá-la. Eu não o fiz porque sou um covarde. Sabia que se a visse, não iria conseguir retornar, rever a cena de você chorando, ou lhe fazendo adoecer por minha ausência. Foi a forma que encontrei para lhe proteger.

- Como sabe que adoeci?

- Seu pai me contou, nos correspondíamos por cartas.

- E ele nunca me disse nada? – Elliot sorrira.

- Eu pedi para que ele não dissesse e... Aquele sabre, — Ele apontara para a arma cravada na grama, — fora um presente meu. – Elizabeth se indignara por ter sido tapeada por todos esses anos.

- Isso não é justo, Elli! – Ele rira da reação um tanto juvenil da moça.

- Vocês não se esqueceram de alguma coisa? – Pigarreara Augustine, lembrando-lhes de que estavam em um evento formal enquanto ela ainda segurava a taça de Elliot.

- Me desculpe! – Ele se apressara em apanhar a taça de suas mãos. – Sou Elliot Ryan Fawkes, amigo da família, e a senhorita deve ser...?

- Augustine Charlotte. – Dissera ela lhe estendendo a mão. Elliot a beijara discretamente, ainda mirando Elizabeth. – Vou deixar vocês conversarem. – Ela queria mesmo era se afastar dali o mais rápido possível.

Notas finais
Affs, esse ome é lindo.. ಠ_ಠ)