Atração Fatal
8 Capítulo 8: Can We Go Back?
“Querido Peeta,
Louis com certeza é a pior criatura desse mundo. Hoje de manhã ele me trancou em meu quarto, acredita? Trancada no meu próprio quarto. Não consigo nem sair pela sacada, a neve aqui é demais, não se dá nem para ver as flores. Se eu pudesse correria até aí, mas Louis mandou me vigiarem. Ele não quer que nós nos vejamos.
E a minha perna dói, você bem que poderia vir aqui olhá-la. Não é um Doutor? Se com aquele tanto de pano já incomoda, imagina com esse gesso?
Eu...sinto a sua falta, faz exatamente uma semana que eu não te vejo, culpa do Louis. Poderia matá-lo, odeio esse garoto. Estarei a sua espera, mon amour.
Glimmer”
—Quem é Glimmer?— Gale perguntou ao final da carta, após ter sentado em uma poltrona no canto do escritório, vendo Peeta de costas do outro lado, com os braços cruzados por trás e os olhos fixos na janela imensa.
Os dois não brigaram, não eram disso. Gale só tomou algumas cartas e retratos enquanto o irmão não tinha ação alguma. Era um choque para ele, não sabia se brigava ou guardava os papeis. Peeta avançou, mas parou no meio do caminho, recuando e aproximando-se da janela. Sua vontade era de gritar, estava tudo acabado, ele era um homem fracassado.
— Fiz uma pergunta, Peeta!- pressionou. Ele olhava mais uma foto de Glimmer, ciente de que ela era muito bonita, porém não chegava nem aos pés de Katniss- Quem é Glimmer?
— Não é da sua conta- o loiro falou grosso, sem olhar para trás- Ela não é ninguém de especial.
— Se ela não é especial, acho que não há problema em levar essas cartas para o jardim, onde a sua esposa está chorando. E sabe por qual razão? Porque você não é um bom marido!- Peeta sem dúvida já passara dos limites. Trair Katniss? Aquilo era coisa demais para Gale.
Por isso, o mesmo agarrou alguns papeis e apressou o passo.
— ESPERE!- Peeta gritou sem se mover- Você vai...vai mesmo contar a ela?
— Se você não me explicar essa história...- Gale deixou a frase no ar e voltou a sentar-se, esperando pelo irmão, que parecia pensar em seu canto por um momento.
— Eu...eu a conheci em Paris- começou a falar- Nessa carta que você leu, Glimmer tinha quebrado a perna ao montar num cavalo... um cavalo que eu dei a ela. A conheci na primeira semana de faculdade, ela andava pelos corredores com um vestido verde claro e os cabelos presos num coque perfeito. Mas mulheres não fazem medicina, eu perguntei o que ela fazia naquele lugar e Glimmer disse que procurava pelo irmão... que ele estava doente e precisava de algo para comer, daí a cesta de carregava.
"- Estou meio perdida...minha mãe mandou trazer isso, mas fui empurrada de casa sem ao menos ter a chance de perguntar a razão — a loira disse dando um mínimo sorriso. O rapaz ao seu lado sorriu de volta, ainda parecendo encantado com a inesperada visita, que lhe era estranha.
— Posso saber quem é o seu irmão?- o loiro, por um segundo, fitou o objeto que a garota carregava. Era uma cesta, ainda coberta por um pano fino e azul.
— Louis. Louis Fontaine. Você o conhece?- era óbvio que Peeta o conhecia, Louis fora o seu primeiro amigo ali.
Pena que o garoto pegara uma vírus na primeira semana de aula acabando por ser isolado para observação, provavelmente com suspeita de ser um vírus extremamente perigoso.
Peeta a levou escondida até o quarto e Glimmer cuidou do irmão devidamente. O rapaz a observou, ela era bem diferente de Louis, o rosto dela era...tão perfeito. E por fim, sentiu seu coração acelerar ao vê-la sorrindo."
— Mas Louis não aceitava, ele acreditava que um dia eu voltaria a Londres e ela ficaria lá abandonada...assim como eu fiz- Peeta sentiu uma lágrima grossa descer por seu rosto e a limpou com raiva- Eu iria trazê-la...mas sou um idiota.
— E Katniss? Aonde ela fica nessa história?- o loiro bufou de raiva em seguida.
Falar de Katniss era tudo que ele não queria nesse momento.
— Nunca pedi para casar com ela, eu não me importo com os sentimentos daquela garota!- falou sem pensar, talvez ele realmente não se importasse.
— Eu não ouvi isso...- Gale falou passando a mão sobre os cabelos- Você nunca foi assim Peeta, nunca. Eu não sei se te conheço mais, a Annie comentou esses dias também sobre essa sua mudança. O que essa garota fez com você hein?
— Glimmer mudou a minha vida completamente- sorriu consigo mesmo.
— Mudou...mudou mesmo. Mudou para pior! E sabe o que eu acho?- perguntou apontando o dedo ao irmão- Que essa garota é uma aproveitadora.
— Não fale assim dela!- falou entredentes.
— É sim. Ela nem deve te amar, só quer ter tudo o que você tem. E a Katniss? Talvez você não saiba mas ela está chorando lá fora por causa de você. Porque o marido dela não dá amor o suficiente, não tem coragem nem de olhar nos olhos dela e elogiá-la. E sabe de uma coisa Peeta? Aquela garota lá no jardim é a única capaz de te amar. A única- Gale fez uma pausa para respirar- Você deveria fazer com que esse sentimento nascesse nela...talvez ela até já te ame, bem lá no fundo, tanto que está chorando.
— Você não sabe o que diz- ele se virou ao irmão com os olhos feito vidros
— Um dia você irá se arrepender, e será tarde demais. A Katniss irá embora da sua vida e ela pode nunca mais voltar. Pedi ao papai para me casar...pode ter certeza que nunca farei isso a minha esposa, mesmo que não a ame, ela pelo menos merece o meu respeito.
Gale saiu do escritório com passos largos e fortes. A porta se bateu com violência e Peeta fechou os olhos. Ele era tão idiota que não tinha coragem de dar uma resposta a altura para o irmão. Não queria chorar, mas seus olhos ardiam, ele queria gritar. Abriu-os imediatamente, estavam num tom escuro, ficavam assim toda vez que ele tinha raiva. Chutou a primeira coisa que viu na frente, uma pequena mesinha. Esparramou todas as cartas ao chão e colocou as mãos sobre a cabeça.
Tudo estava errado, muito errado. E ele precisava fazer algo.
Já anoitecia e Peeta saiu do escritório, descendo as escadas de dois em dois degraus a procura de Katniss. Ela não podia estar apaixonada, não por ele. Peeta Mellark não era nada.
A encontrou no jardim, Gale ofereceu o terno e a levou de volta a casa. Annie logo chegou acompanhando os dois. Peeta observava de longe, viu o rosto pálido da esposa, e era ele que tinha a feito chorar. De repente, suas pernas não aguentavam mais, fazendo o loiro desabar ali na grama.
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— Ainda não acredito que o Peeta foi capaz de fazer isso- Annie comentou arrumando os cabelos da amiga.
Só estavam as duas no quarto da Mellark. Katniss tinha tomado um banho e mal falara desde então. Agora, Annie arrumava seus cabelos com delicadeza, ciente de que o rosto da Everdeen estava horrível de tanto chorar. Katniss tinha até vergonha de si mesma.
— Não quero ver ele nunca mais, eu o odeio- falou olhando as suas mãos.
— Eu te entendo- Annie se sentou ao lado dela na cama, as duas tinham muitas histórias a contar.
— Por que me olha assim?
— Eu também chorei hoje- disse olhando as próprias unhas- Por que sempre choramos por causa dos homens?
— Quem foi? Você está apaixonada?- perguntou mais interessada agora, ajeitando-se sobre a cama fofa para olhá-a com um sorriso infantil.
— Não, claro que não. Um rapaz me chamou para jantar e eu aceitei, mas nós acabamos...- ela nem precisou terminar de falar. Katniss entendera tudo e a abraçou- Eu não queria isso, como vou me explicar agora? Não posso me casar porque...porque...
— E se...você se casasse com esse rapaz?- a Everdeen sugeriu, mas Annie não queria. Finnick era a sua última opção nesse mundo- Poderia saber quem é?
— Melhor não- disse secando as lágrimas- Assim que me sentir melhor, te contarei.
Katniss assentiu, entendendo a amiga. Saiu do quarto lentamente e foi para o seu, sem ao menos jantar. Sentou em sua prateleira, olhando si mesma. Mas por instantes ela não só se via, ciente de que um vulto alto entrava no cômodo através da porta atrás de si. Ele carregava um pacote enorme e branco consigo, antes de parar ao lado da moça.
— O que quer aqui?- perguntou seca sem ao menos olhá-lo.
— Soube que não estava bem... e a culpa era minha- o loiro falou baixo, colocando o pacote na cama- Não queria ter feito você chorar, mas é que...
— Você é assim não é? Nunca vai mudar- ela o interrompeu- Pode parar com essa cena, Peeta, sei o quanto é difícil para você, por isso não vou te obrigar. Quem te mandou até aqui? Na verdade, eu não me importo com o que você pensa, ou se eu estava chorando, e daí? Você não liga, eu só sou mais um objeto a carregar.
Peeta não esperava por isso, ele pensava que ela iria aceitar e ficaria até feliz com aquilo. Porém, lá no fundo, tinha certeza que seria daquele jeito, o que foi feito não tem perdão, ele estragava a vida da esposa.
— Mas mesmo assim...me desculpe- respirou fundo- Você não merecia.
— Ah, agora é assim?— Katniss se levantou, encarando o Mellark ainda parado no mesmo lugar- E você acha que eu vou esquecer tudo e viveremos felizes para sempre? Você é patético, Peeta.
— Quer saber? Eu não sou obrigado a fazer isso mesmo, mas eu quero. E você vai me ouvir, Katniss- a morena não demonstrou reação, queria ver onde aquilo iria dar- Talvez eu até não possa dar amor a você, porém quero que pelo menos haja paz. Chega dessas implicações, se você não quer falar comigo...não fale.
Katniss continuou em silêncio e o marido, se virou ao pacote que tinha. Ele tirou o embrulho aos poucos revelando o que havia ali. A garota não acreditava no que seus olhos acabavam de observar.
Ele não tinha feito aquilo...não seria capaz de...
— Soube que gosta de pintar. Você não faz isso há muito tempo e eu queria ver os seus desenhos. Comprei isso, a maior que achei na loja. Poderia pintar o que sente...o que acha?
Era uma enorme tela, tão grande como a janela de seu quarto. Dava para fazer um belo desenho ali, pincéis e algumas tintas estavam ao lado. Peeta organizara tudo, comprou até um avental para não sujar a roupa da esposa. Katniss, pelo contrário, sentia seus olhos arderem, desejando chorar.
Aquilo era lindo, mas...ela odiou completamente. Pintar lembrava a morte de sua mãe, a única coisa que ela não gostava de relembrar.
—Sai daqui Peeta- falou entredentes- E leve isso com você.
— M-mas você não gostou? Pensei que adorasse pintar, não é?
— Saia daqui antes que eu quebre essa maldita tela na sua cabeça- e o marido obedeceu. Carregou o objeto para fora do quarto com cuidado deixando Katniss lá, com pequenas lágrimas de ódio e saudade escorrendo pelo rosto.
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A moça subiu as escadas da porta da mansão segurando a barra do vestido. O pequeno guarda sol branco estava em uma das mãos, impedindo que a luz chegasse em seu rosto. Ela odiava o sol, deixava a sua pele meio avermelhada as vezes, contudo era bom caminhar no jardim e ler algum romance.
A garota entrou na casa sendo recebida por uma outra morena, que ela já conhecia há um tempo. Fora chamada até ali, fez questão de não contar a ninguém, era surpresa. Pelo menos foi o que a pessoa que a convidara dissera.
Nunca tinha entrado naquele lugar, era enorme e muito silencioso. As pessoas ali eram sérias, o que era bem diferente de sua casa, onde sempre era festa, tudo era motivo de risos e comemoração.
—MADGE!— Katniss gritou entusiasmada, enquanto as duas correram para um abraço. Elas não se viam há dias, uma surpresa daquelas era a melhor que tinha a acontecer.
— Katniss, mas...você está tão diferente!- a moça disse com as mãos no ombro da irmã- Passei muito tempo longe mesmo!
— Papai deixou você vir? Por que não me avisou?- um sorriso brotou nos lábios da outra Everdeen, lembrando de que Madge era a única criatura viva nesse mundo que fazia ela se lembrar de sua mãe e se sentir feliz.
— Na verdade...eu fui chamada aqui- enquanto a loira ainda falava, Katniss percebeu estar sendo observada. Viu um vulto alto se mover a poucos metros dali, se escondendo no corredor, mas acabou ignorando- Me disseram que você sentia minha falta então, eu vim te ver.
— E quem foi?- Katniss perguntou curiosa, como instinto.
— A curiosidade sempre falando mais forte, não é Kat?- as duas riam, finalmente sentadas no grande sofá da sala principal- O importante é que agora você está melhor.
— Ah, se não fosse por você Madge...só tenho a Annie aqui.
A irmã parecia preocupada, Katniss sempre fora engraçada, feliz. Agora a sua cor havia ido embora, ela já tinha perdido a pessoa que mais amava na vida, na verdade, as duas pessoas. Madge queria que ela encontrasse alguém que mudasse essa realidade, alguém que fizesse Katniss... sentir borboletas no estômago.
— Lady Everdeen?- uma empregada baixinha a chamou- senhorita foi convidada pelo Mr. Mellark a jantar aqui nesta noite.
—Olha que maravilha irmãzinha! Vou poder mais tempo com você- a loira comemorou, esboçando um enorme sorriso que mostrava seus dentes.
As duas conversaram. Katniss falara sobres seus últimos dias e a irmã ouvia atentamente. Peeta a convidara para jantar, mas a morena não achava estranho, ela sabia a razão. Esperou que a loira saísse da sala, ela ficaria finalmente sozinha, ou não, já que sentia que tinha companhia ali.
— Ouviu muito, querido?- Katniss perguntou para a sala vazia e logo ouviu um riso sarcástico que ela conhecia muito bem.
— Querido? Vejo que temos mudanças por aqui- ele respondeu ainda sem aparecer, Katniss se levantou e virou para onde a voz vinha.
— Sei que foi você quem chamou Madge aqui.
— Por que? Não gostou da minha surpresa?- o loiro andou até a sala, ainda sorrindo divertido. A garota revirou os olhos no segundo seguinte.
— Se pensa que assim eu vou te desculpar, está muito enganado.
— Sei que você não vai me desculpar, Chérie, fiz isso porque te conheço e sei que gostaria de ver a sua irmã- o Mellark deu os ombros, fingindo estar despreocupado.
— Eu nunca te disse isso, você não me conhece- o loiro deixou que um sorriso maior brotasse em seus lábios, mostrando até o brilho dos dentes.
— Não? Então vamos ver...você odeia o seu irmão mais velho, Madge lembra a sua mãe por isso você gosta de estar perto dela, você tem uma mania de separar os vestidos por cores no guarda roupa, gosta de pintar, mas não faz isso desde os nove anos...e eu descobri isso ontem. E você lê o seu diário todas as noites quando tem insônia, ele fica no fundo do seu armário, embaixo da caixa onde ficam as suas fotos de família.
— Mas...- Peeta não podia saber de seu diário. Katniss fazia isso discretamente, será que ele também tinha insônia? E se ele tivesse lido?- O que você faz a noite?
— O que todo mundo faz, eu durmo- falou rindo logo depois, divertindo-se com o fato de que a esposa as vezes fazia umas perguntas idiotas- Mas você não é tão discreta assim, Chérie.
— E você lê o meu diário?- falou como se não preocupasse, tentando não mostrar o nervosismo.
— Eu não- deu os ombros- O que eu quero lendo essas coisas de garotinha? Lá só deve ter palavras e textos idiotas, não tenho paciência.
Peeta saiu da sala arrumando a roupa. Katniss, no fundo, se sentia aliviada, mas desconfiada ao mesmo tempo. Primeiro a tela, depois Madge e agora a conversa do diário.
Ela teria que arranjar um esconderijo novo para ele e seria agora mesmo.
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