Atração Fatal

21 Capítulo 21: Take Care Of Yourself


Um frio passou por sua barriga. Uma sensação estranha, nunca sentida antes, como se tivesse a obrigação de sair correndo dali. Mas ela não iria, ficaria até o final. Viu o rapaz aproximar com passos lentos, mancando. E só de vê-la ali o esperando um grande sorriso já nascia nos lábios dele.

Ela tinha vindo, cumpriu a promessa. O túmulo da mãe da garota estava coberto de gelo e ela o observava.

— Não conheci Mrs. Everdeen, mas tenho certeza de que ela se parecia com você. Já a vi em fotos — Katniss sorriu, recebendo um beijo dele na bochecha. Cato pousou uma mão nos cabelos da garota, deixando seus lábios ali, grudados naquela pele macia. Ela o afastou delicadamente.

— Quero ir direto ao assunto — Katniss carregava um pequeno pacotinho. Desamarrou o embrulho, revelando papeis amarrados sem ordem alguma — Viemos fazer um acordo.

— Acordo? Que tipo de acordo? — Cato perguntou interessado. Lembrava de quando eram adolescentes e Katniss dizia histórias sobre casamento, ela era uma caixinha de surpresas. Merecia tudo de melhor.

— Bom, nós podemos esquecer tudo, fingir que não nos conhecemos ou... fugirmos juntos — os olhos de Cato brilhavam somente com aquela última ideia que Katniss tinha lhe dado. Era óbvio que preferia a segunda opção, nunca pensou que tudo seria tão fácil — Você pode me tirar daqui, me levar a outro país mas terá que destruir tudo isso.

Katniss ofereceu o pacote. Tinha tudo o que se imaginar ali, cartas desde que se conheceram. Ela queria se esquecer do passado, livrar daquele imenso pavor que sentia. Sua pequena estava sofrendo, Cato podia ver isso através do seu olhar, um olhar angustiado.

Poderia muito bem voltar para casa, mas entendia o lado dela, a garota queria fingir que aquilo nunca existiu.

— Você realmente quer fugir comigo? — ele resolveu peguntar, como se aquelas palavras estivessem presas em sua garganta. Katniss abaixou o rosto, não soltando sequer um som. Mas Cato já sabia a resposta — O que ele fez dessa vez?

— Ele já faz há um longo tempo... — ela olhou o túmulo do filho, só que preferiu não continuar fazendo aquilo — Eu preciso.

— Será, Katniss? — ele já ficava irritado. Saber que era a segunda opção, como se ela encontrasse nele o meio de acabar com as dores que o outro causava, era doloroso. Cato não conseguia deixar isso acontecer assim — Talvez você só não aguente o fato dele te rejeitar.

— Por favor, Cato, não complique as coisas... — Katniss respirou, queria chorar. Sabia que ele havia acabado de achar as palavras certas para descrever o que acontecia – Eu cansei disso. Cansei de sofrer.

— Você ainda é nova, Kat! Não pode acabar com tudo assim. De repente — ele não sabia. Não sabia como foram seus últimos dias.

— Se não quer me acompanhar, eu vou sozinha!

— Não...Não! — Cato falou rapidamente, se colocando na frente dela — Eu quero o seu bem, quero que se sinta feliz.

— Então me tire daqui — Katniss secou as lágrimas — E destrua tudo isso.

— Tudo bem — ele se sentiu derrotado, agarrou as cartas e se posicionou decidido a dar um fim naquilo tudo.

Katniss o seguia para um caminho longe dali. Andavam em silêncio, só se ouviam os passos lentos sobre a neve. Caminharam até um pequeno jardinzinho, no topo do cemitério. A garota se sentou em uma pedra qualquer, vendo Cato cavar um grande buraco.

Ele enterrou os papeis bem fundo, decidido a fazer o certo. Parou para olhar ao redor e depois se sentou ao lado de Katniss.

— Você o ama? — ela não quis responder. Continuava a brincar com os detalhes do vestido, mas percebendo os olhares do rapaz sobre si.

— Ele me deixou por outra, eu o odeio — acabou soltando as palavras. Mesmo que no fundo precisasse imediatamente de um abraço de Peeta.

— Não. Você tenta convencer a si mesma disso — ele disse arrumando uma mecha de cabelo dela atrás da orelha — Você o ama.

Katniss engoliu em seco com aquela revelação.

— Não sente raiva? — ela perguntou baixo, olhando-o com certo receio.

— Talvez — riu de uma forma melancólica, fazendo a garota continuar observando-o atentamente — Mas já que você quer esquecê-lo, posso te fazer me amar novamente.

E aquela sensação de se sentir uma adolescente de novo? Estava ali.

Katniss sentia o sangue pulsar nas veias, a adrenalina subir e o perigo de quebrar todas as regras chegar. Riu esquecendo-se do que conversavam, percebendo aquelas malditas sensações dentro de si. Ela podia voltar a ter 15 anos. E era isso que iria fazer.

— Vai mesmo se arriscar? — a Everdeen perguntou erguendo uma sobrancelha. Cato assentiu, entrando na brincadeira. Viu ela aproximar seus rostos, mesmo que inocentemente, mas ele levou a sua mão no queixo da garota antes que essa o beijasse.

— Sabe que eu cumpro as minhas promessas, Everdeen — Katniss riu de como ele a chamava pelo sobrenome, só não conseguiu pronunciar nada em resposta porque ele já a beijava em surpresa.

Beijava com uma certa paixão.

Podia até sentir a língua dele se movimentar lentamente, sentindo cada pedaço dela. Katniss estava traindo. Traindo.

Não poderia continuar, mas a adolescente estava em seu sangue. Quando tinha 15 anos Peeta não existia. Apenas Cato.

E então ela interrompeu o beijo, como fez no outro dia ao sentir aquela explosão de emoções e a culpa a corroendo por dentro. Cato a olhou fascinado.

— E se eu dissesse que quero muito você? — ele disse mexendo nos cabelos dela. Katniss afastou um pouco o rosto.

— Não precisa me conquistar, Cato, uma parte de mim sempre te amou — ela acabou falando, encarando aqueles olhos claros.

E aquela revelação foi suficiente para que um sorriso voltasse a brotar nos lábios de Cato.

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Annie pensava sozinha na sala de casa. Não tinha nada de interessante ali e não estava preparada para procurar por Finnick. Ouviu passos e mais passos apressados pela casa. E de repente estes subiram as escadas, ficaram em silêncio por uns segundos e depois desceram os degraus na mesma velocidade de antes.

Eram fortes e apressados, como se precisassem de alguma coisa urgentemente. A garota virou o rosto, tentando achar o indivíduo que fazia aquilo, mas nada aparecia.

Segundos se passaram e ela viu Peeta entrar sério na sala. Ele carregava o filho no braço, que tinha um paninho da roupa na boca. Annie não falou nada, esperou que ele rodasse o cômodo a procura do que provavelmente queria.

Por fim, ele parou de frente a irmã.

— Cadê ela? — Peeta perguntou ofegante, talvez pela corrida que fez. Annie deu os ombros, ignorando-o, não dava a mínima para o que ele queria.

— Por que não vai procurar a sua francesa? — a morena não falava com o irmão desde a volta, vê-lo rejeitar a própria esposa era imperdoável. Por isso não fez muita questão de responder o que ele desejava.

— Ela foi embora, voltou para Paris — Peeta se lembrava de ter visto Glimmer entrar no trem contra a própria vontade. Observou-a sumir aos poucos, até que estivesse longe. E somente assim ele se viu tranquilo para voltar para casa — Eu a mandei ir. Cadê ela?

— Me desculpe, Peeta, mas você é insuportável. Katniss não te quer mais — Annie foi direto ao assunto, fazendo com que ele sentisse a mesma sensação que sentiria se caso tivesse levado um soco. Isso mesmo, bela expressão. Havia chegado tarde demais. Como era burro,burro! – Ela não vai querer falar com você, muito menos para ser maltratada.

— Eu... Eu quero uma chance — Annie ergueu o olhar, surpresa — Uma chance para consertar, para fazer tudo certo.

— N-não entendo — ela gaguejou. Levantou da poltrona, começando a ficar interessada na história.

— Eu não posso te falar — ele desviou o olhar, tirando o tecido da boca do filho, que pareceu não ficar muito feliz — Preciso falar com ela primeiro.

Saiu novamente da sala, dessa vez sem Andrew, deixando-o com uma empregada que passava a sua frente. Ele correu, procurou por vários cômodos, gritava seu nome, olhava a cozinha e os outros lugares que ela poderia estar.

Nada, Katniss não estava ali. Só faltava um lugar, um lugar que deveria ter sido o primeiro como opção, o jardim. Peeta rodeou por ali, mas nem no banco favorito da esposa a encontrou.

Havia chegado atrasado, talvez ela já tivesse voltado para sua antiga casa. O que era estranho, porque Katniss falava tranquilamente e nem demonstrou sinais de que iria embora no último segundo em que se falaram.

Peeta ignorou a neve que caía sobre seus cabelos, ficou feito um fantasma olhando para o nada. Só percebeu segundos depois o vulto de sua irmã parar em sua frente.

— Cadê ela? — ele perguntou novamente, dessa vez mais irritado e ao mesmo tempo decepcionado. A garota continuou em silêncio — Cadê ela, Annie?

Sua voz também soava um mínimo desesperada. Peeta precisava encontrá-la o mais rápido possível.

E-eu não sei!— Annie disse assustada ao ver a alteração de voz do irmão, fazendo ela se afastar um pouco, enquanto ele se aproximava.

— Você sabe! Sei que ficaram conversando toda a manhã e ela te contou tudo! — Annie se segurou para não falar. Prometeu isso a Katniss, não podia falhar agora — Me fala!

— E-eu não posso— ela disse baixo. Peeta passou as mãos nos cabelos, impaciente — Desculpa mas... ela me pediu.

— A Katniss fugiu? — Annie negou imediatamente, fazendo Peeta suspirar de alívio. Isso era um sinal de que ainda a veria. Mas da mesma forma ele tinha essa sensação de que não aguentaria esperar nem mais um minuto — Então ela não deve estar muito longe.

— N-não, mas... — sua frase foi inútil, ficando pelo ar. Peeta já corria pelo outro lado, indo ao encontro de um cavalo.

Nem se deu conta do que tinha feito, mas sabia que tinha deixado seu irmão ir a um lugar que nem mesmo ele tinha consciência disso. Sua cabeça girava em torno desses fatos recentes, Glimmer foi embora finalmente, Andrew ficou e... Peeta procurava por Katniss.

Ela não acreditava, mas, sim, ele procurava desesperadamente pela esposa. E essa novidade a deixava assustada demais para agir.

Enquanto isso, Peeta corria sem rumo por Londres. Guiava o cavalo, passando por uma multidão de pessoas, até uma certa luz bater em sua mente. O cemitério. É claro, só podia ser.

Era o único lugar que Katniss visitava quando estava sozinha. Chegou naquele lugar solitário e silencioso, observando os diversos túmulos e sentindo aquela brisa fria pinicar seu rosto já vermelho pela rápida corrida que ele teve até ali. O cavalo já tinha sido deixado para trás.

Depois viu um sobrenome conhecido: Everdeen.

Ali, logo abaixo dos seus pés, estava a mãe de Katniss. E ao lado havia o sobrenome dele juntamente com várias homenagens que fizeram ao bebê falecido. Peeta se arrependeu por não ter estado no dia do enterro, era idiota demais na época para poder pensar em ir.

Andou mais um pouco, tendo quase a certeza de que não encontraria o que desejava. Ele só via o vazio, por isso resolveu inverter o passo, já de cabeça baixa.

"- Estatura média, cabelos rebeldes, sempre usando um casaco preto — Katniss dizia analisando uma carta que tinha nas mãos — Nunca se esqueça do sorriso, era a sua marca registrada.

— Ele era forte? — Peeta se acomodou na grama, ouvindo a esposa soltar uma bela gargalhada que soava bem nos seus ouvidos — Duvido que o queira comparar nesse aspecto comigo.

— Você se acha só porque é um Mellark — a garota negou vendo a face convencida dele. Abaixou-se com a cabeça do marido apoiada em seus joelhos e logo roubou-lhe um selinho com as posições contrárias mesmo — É... ele não era tão forte, mas era confiante.

— E eu sou capaz de matar sozinho a pior das criaturas — gabou-se, arrancando uma nova gargalhada dela."

Peeta ficou em dúvida, mas tinha as suas suspeitas. O rapaz de casaco preto sumiu de visão, indo para longe. E ele ainda não via sequer um sinal de Katniss.

Peeta deu meia volta e ignorou aqueles pensamentos. Cato estava morto, só podia ser besteira da sua cabeça. Afinal, olhando bem os fatos, ele estava num cemitério e imaginar assombrações vagando por aquele local é mais do que comum.

E nisso ele desistiu de procurar, resolvendo voltar para casa.

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Katniss finalmente chegou em seu próprio quarto. Suspirou aliviada, indo em direção ao banheiro.

O peso de suas costas foi retirado de uma vez por todas e agora ela poderia descansar em paz. Cato estava certo mais cedo, ela nunca quis fugir, nunca quis deixar sua casa, mas fazia aquilo por amor.

E ele a ajudou, foi a sua luz no momento, não a deixou cometer o maior erro de sua vida. Katniss devia a ele.

"- Você me amou, Katniss — Cato acabou evitando o beijo que antes Katniss insistia em dar, acreditando que, se ele aceitasse, ela poderia se arrepender depois — Tudo muda. Eu gostaria que voltasse a ser como antes, mas...

— M-me desculpe, Cato. Eu... — ele a surpreendeu num abraço, permitindo que Katniss chorasse em seu peito. Ele afagou os cabelos dela, sorrindo de lado — Eu não consigo, ele... é tudo culpa dele!

— Então você vai ficar — Katniss ergueu a cabeça, confusa — Você não poderá fugir, porque ele irá te procurar até no inferno se for preciso. Não poderá traí-lo, porque ele tomará conta de sua mente toda vez que você fizer algo de errado. Não poderá mentir, porque ele tem o poder de ter confundir. E não poderá desobedecê-lo, porque... porque você o ama.

— E o nosso acordo?

— Ainda há a outra opção, eu fico longe de você — era difícil aceitar, mas se tudo fosse para o bem dela, Cato o faria. Katniss nunca seria feliz se fugisse ao seu lado — Podemos esquecer o passado, certo? Podemos seguir em frente.

— Não posso ficar, Cato. Você não o conhece. O Peeta... ele...

— Nada de ruim irá acontecer — disse segurando o queixo da garota — Leve a melhor parte de nós e faça disso algo especial. Não fuja do que realmente te prende, do que te pertence. Vá em busca disso. Lute. Você não perderá. E eu garanto isso. Porque quem estiver contigo terá tudo."

E foi assim que Katniss o deixou. Ficaram abraçados por uns minutos, apenas despedindo um do outro. E depois ele a libertou para seguir em frente.

O passado finalmente tinha a deixado e agora ela era livre. Sem remorsos. Cato iria visitar uma tia distante, mas prometeu que torceria por ela para sempre. Seria seu anjo da guarda, estaria a olhando mesmo que não estivesse tão presente na vida dela.

Katniss vestiu-se, olhando o próprio reflexo no espelho. Estava começando a ganhar vida. Colocou brincos, um colar e deixou o cabelo bem solto, como fazia antigamente. E nem percebeu quando uma figura parou atrás de si.

Somente quando levantou o rosto e prestou mais a atenção no espelho foi notar o vulto dele quieto em suas costas. Não conseguiu se virar, ainda confusa sobre o que deveria de fato fazer em relação a ele. E por isso voltou a mexer nos cabelos.

Peeta estava diferente. Katniss não sabia dizer exatamente o que era, mas tinha certeza disso.

— Estava te procurando — ele disse por fim, com a voz serena — Queria te falar uma coisa.

— Eu também — Katniss virou, finalmente o olhando nos olhos. Peeta acabou deixando que ela começasse, sentando-se na beira da cama, disposto a ouvi-la primeiro — Recebi uma visita ultimamente e ela me disse para não sofrer por tudo isso.

— Uma visita? — nesse segundo ele sentia um certo aperto no coração. E com isso a imagem do homem no cemitério também apareceu em sua mente.

— É. Alguém que me deu coragem — Katniss entrelaçou os dedos das duas mãos timidamente, estava nervosa — Eu decidi que... se realmente amamos alguém, devemos deixá-la livre.

Peeta sentiu um nó se formando em sua garganta. Aquela sensação era horrível.

— Vo-você quer ir embora? — perguntou baixo, meio aflito.

— Não — e então Peeta deixou que um suspiro escapasse dos lábios. Mas sua paz não durou por muito tempo — Você poderá ir. Tem uma família fora daqui, não precisa ficar por mim.

— M-mas eu... — Katniss o cortou com um dedo erguido. E infelizmente ele não conseguia mais falar o que queria, confessar a ela os seus verdadeiros sentimentos.

A única reação que Peeta teve foi encarar as próprias mãos, sentindo sua mente rodar juntamente com as palavras dela que ainda o atormentavam.

Você poderá ir. Tem uma família fora daqui, não precisa ficar por mim.

— Pode ir se quiser — Katniss disse tranquila — Não serei mais uma pedra no seu caminho.

Peeta continuava sem palavras. Onde estavam todas aquelas frases de antes? Fugiram não se sabe para onde. Ele levantou o rosto e a viu mexer nos cabelos, olhava cada movimento com certa adoração.

Como pode perdê-la assim tão facilmente? Tentava evitar, mas seus olhos pediam por aquela cena. Katniss virou-se de repente.

— O que queria comigo? — perguntou curiosa.

— N-nada— ele gaguejou, forçando o próprio corpo a sair do quarto.

E como de costume, Peeta fugiu para o escritório. Sentou-se em uma poltrona ali, sentindo algo quente escorrer por seu rosto.

Não. Pensou limpando a lágrima violentamente. Não podia chorar por ela.