Atormentada

2 Presente de grego.


Blue Sky, dias atuais.

Ela sabia que era só mais um dia ruim, que levantaria amanhã e faria tudo de novo. As coisas melhorariam. Não podia desistir agora. Tinha que ser forte.

Naquela tarde cinzenta, a pequena garota atravessou a varanda simples e regressou ao conforto de sua casa. Era o único lugar em que se sentia em paz, onde não lhe apontavam o dedo.

Na sala de estar amadeirada, o telefone apitava indicando mensagens na caixa postal. Apertou o botão verde e ouviu:

— Catherine Lauren Bennett! É bom você me ligar logo ou vou chamar o FBI. Faz um dia que não nos falamos. Aconteceu alguma coisa?

Claro que era sua mãe. Quem mais lhe ligaria? Ela não tinha amigos, parentes ou um namorado. Era apenas Catherine e a mãe desde que seu pai morrera há seis meses. Catherine se sentiu triste com a lembrança, deu um longo suspiro antes de discar o número da mãe. Uma Taylor Bennett histérica atendeu no segundo toque e Catherine se sentiu reconfortada ao ouvir a voz familiar.

— Cathy! Graças a Deus. — Ela gritou. — Eu já estava achando que tinha acontecido alguma coisa. Você está bem? Comeu? E a escola?

— Está tudo bem, mamãe. Estou me alimentando e a escola está ótima.

Ela mentiu três vezes, mas não valia a pena atormentar a mãe com seus dilemas. Taylor já tinha problemas suficientes, passava metade do ano trabalhando em Boston e a outra metade em Blue Sky, no Minnesota. Catherine só via mãe de julho a dezembro. Claro que sentia falta da jovial Taylor Bennett, mas tinha dezesseis anos e conseguia sobreviver.

— Oh, querida, o Sr. Richard está me chamando. Nos falamos depois. Cuide-se. — Ela desligou.

Catherine sentou-se no sofá e ligou a TV. As notícias falavam sobre uma onda de assassinatos, dez corpos tinham sido encontrados com o sangue completamente drenado. A imprensa havia apelidado o serial killer de Sugador de Blue Sky. O FBI estava na cidade, suspeitavam que o assassino tinha algum tipo de fetiche por sangue. Catherine estremeceu, que tipo de maníaco faria uma coisa dessas? Preferiu não ver a notícia inteira, subiu as escadas até seu quarto. Foi se arrumar para o trabalho. Pegou uma calça jeans escura e uma blusa vermelha com mangas e calçou seu all star preto.

Se decepcionou ao olhar no espelho. Estava magra demais, com olheiras e seu cabelo claro parecia sem vida. Não havia nada que pudesse fazer, sua aparência refletia como ela se sentia por dentro. Passou um pouco de rímel e gloss e saiu do cômodo.

Quando foi certificar-se do horário, teve uma surpresa. Ela estava dez minutos atrasada. Tinha se distraído tanto com a TV? Não teria tempo de comer, pegou sua bolsa e as chaves do carro.

Catherine possuía um carro prata de 1990. Foi tudo que deu para comprar com seu salário de ajudante no consultório odontológico da Sra. Linton. Enquanto dirigia, ela pensava no quanto odiava se atrasar e na bronca que levaria. Sua mãe havia pedido para sua amiga, a Sra. Linton lhe dar o emprego. Catherine tinha vontade de ter seu próprio dinheiro e precisava ajudar nas despesas, então elas uniram o útil ao agradável.

— Srta. Bennett! Pensei que não viria mais. — Robert, o estagiário que ficava na clínica no período da manhã a recepcionou. Ele estava no primeiro ano de odontologia.

— Eu já pedi para você me chamar apenas de Cathy. — Ela corrigiu pelo que parecia ser a milésima vez. — Desculpe-me pelo atraso, eu me distraí. Espero não ter te atrapalhado. Não vai acontecer mais.

— Tudo bem, foram apenas vinte minutos, Srta. Bennett. — Catherine revirou os olhos. — Só vou te chamar de Cathy se aceitar sair comigo no sábado. — Robert era um cara confiante. Ele a olhava como se fosse impossível uma recusa.

Catherine se assustou, há seis meses nenhum garoto a convidava para sair, não depois do que tinha acontecido. Robert era bonito, tinha olhos verdes e cabelos loiros perfeitamente penteados. Catherine ponderou por um instante e chegou a conclusão que ainda não estava preparada para sair com alguém.

—Desculpe-me, Bob. Quem sabe outro dia?

— Não tem problema. Eu espero. E, por favor, não me chame de Bob, eu me sinto um cachorro. — Ele piscou e Catherine riu.

As horas se arrastavam na clínica, já que ao contrário de Robert, que podia ajudar com os pacientes, Cathy não fazia nada além de agendar horários. Com o tempo livre, aproveitou para ler Guerra e Paz até que a Sra. Linton fechou o consultório, às cinco.

Naquela noite, fazia frio e chovia fortemente. Cathy não conseguia dormir. Ficava com medo quando chovia, estava assustada com as notícias do serial killer e pensando em Robert. Desceu as escadas. Na cozinha, tomou água na tentativa de se acalmar.

Foi quando viu.

Ali estava, no balcão da cozinha, uma coroa de flores vermelhas e brancas, bem no meio havia uma faixa branca com uma única palavra escrita em letras grandes: Catherine. Ela empalideceu, a cabeça rodando. Pegou o envelope vermelho ao lado da coroa de flores e subiu as escadas com o coração na boca. Passou a chave várias vezes na porta, certificou se havia alguém em baixo da cama, atrás da cortina e dentro do closet. Quando não encontrou nada, sentou-se e abriu o pequeno envelope que tinha cheiro de perfume masculino, dentro havia um pedaço de papel com letras impressas dizendo:

“Vou te mandar mais flores se você não fizer exatamente o que eu mandar. Durma bem, Cathy"

Pela segunda vez no dia, Catherine sentiu a cor se esvair de seu rosto.