Atormentada
3 Surpresas.
As olheiras profundas que Catherine viu no espelho no dia seguinte confirmavam que a noite tinha sido ruim. Todas são quando você recebe uma coroa de flores e um bilhete ameaçador. Enquanto atravessava o corredor da Blue Sky High School, a única escola de Ensino Médio da cidade de quatro mil habitantes, ela ouvia risos e alguns comentários maldosos em sua direção. Suspirou, pensando que o dia não podia ficar pior. Quando Ridley Grey postou-se em sua frente, bloqueando a sala de História com um sorriso no rosto, Catherine soube que estava errada.
— E então, Cathy, vai fazer um de seus vídeos hoje?
Catherine grunhiu, as pessoas nunca esqueceriam? Já fazia meses, mas parecia que os olhares e fofocas só pioravam. Ah, como ela queria sumir naquele momento.
— Licença, Ridley. Estou atrasada.
A ruiva riu antes de dizer:
— Sua mamãe não te deu educação? Quando alguém faz uma pergunta, você deve responder. Vou perguntar de novo: vai fazer um de seus vídeos hoje?
Uma multidão começava a se formar ao redor, pessoas ansiosas com a possibilidade de uma briga. O sinal bateu. Catherine já estava com os olhos lagrimados. Não conseguia falar nada, nem ao menos se defender.
— Responde. — Os olhos felinos de Ridley estavam ameaçadores.
Ela não respondeu, só continuou ali, de cabeça baixa. Aquilo a machucava. E ela se odiava ainda mais por se importar.
— Olha só para você, Catherine. — Ridley a olhou dos pés a cabeça — Tão patética tentando esconder quem você é. Acha mesmo que usar tênis e moletom vai apagar o passado? Não vai. Nada vai apagar o que você fez.
— Rildey, sai da minha frente! — Catherine finalmente falou. Se recusava a ser fraca.
— E se eu não sair? Vai fazer o quê? Roubar meu namorado de novo? — Ela gritou antes de sair rebolando pelo corredor com seus saltos altíssimos.
Catherine não conseguiria aguentar a aula de História, deu meia volta e passou cinquenta minutos chorando no banheiro. Sua aparência estava ainda pior, seus olhos inchados e o rosto vermelho. A pior parte é que ela se sentia fraca por ter fugido. Ridley tinha razão, ela era mesmo patética. Secou as lágrimas e seguiu para a aula de cálculo. O Sr. Sullivan já estava na sala. Ótimo, pensou, aquele era seu dia de sorte.
— Srta. Bennett, vai nos dar a honra de sua presença? — O homem baixinho provocou.
— Desculpe, professor, eu estava...
— Chorando no banheiro! — Eliza Hallgman, a melhor amiga de Ridley a interrompeu.
A sala toda riu, o Sr. Sullivan pediu silêncio e disse para ela se sentar no único lugar vago, no fundo da sala. Ao se aproximar, reparou que não conhecia o garoto com que faria dupla. Ele tinha cabelos negros e ombros largos valorizados por uma blusa preta. Catherine não conseguia ver o rosto dele que estava virado para a janela, olhando a chuva.
Ela puxou a cadeira que rangeu e se sentou, colocando os livros na carteira.
— Oi. — Ela sussurrou, não queria conversar, mas não queria parecer mal educada ou antipática.
— Catherine. — Ele tinha uma voz rouca, como se tivesse acabado de se recuperar de uma gripe. A maneira que tinha dito seu nome soou estranha, como se ele tivesse esperando por ela.
— Pode me chamar de Cathy. E você, como se chama? — De repente, Catherine só queria que ele parasse de olhar a chuva e falasse com ela.
— Frederique, mas todos me chamam de Fred. Eu prefiro.
Espera. Aquilo era um sotaque?
— Por que Fred?
— É mais americano. Quantos Frederique Antoine Leonard Morrice de la Victoire Sartre você conhece? — Ele riu suavemente.
Ela estranhou o nome, parecia mais com o de alguém da realeza. Fred definitivamente combinava mais com ele.
— Você não é americano? De onde você é?
— Nasci na França. — Tinha que ser, o sotaque o entregava.
— Há quanto tempo está aqui?
Ele não respondeu, ao invés disso perguntou:
— Por que "Cathy"?
— Minha mãe me chama de Catherine quando está brava. — Ela se sentiu boba ao contar isso ao garoto que não tinha nem ao menos se virado para ela.
O assunto morreu e ela tentou se concentrar nas contas em seu caderno. Com muita dificuldade, conseguiu terminá-las. Estava louca para ver o rosto de Fred. Qual era o problema dele? As pessoas não ficavam olhando a chuva enquanto conversavam. Seria Catherine tão desinteresse assim?
— É...Fred, você sabe como faz esta conta?
Era esse o plano, fingiria precisar de ajuda. Faria qualquer coisa para ter um minuto da atenção do garoto misterioso. Ele finalmente se virou para ela, encarando-a por mais tempo do que a etiqueta permitia com um sorriso relaxado no rosto. Algo aconteceu com Catherine assim que viu os olhos dele. Eram de um azul profundo, escuro, como o de um oceano à noite e pareciam carregar o peso de mil vidas. Ela se sentiu momentaneamente triste quando olhou para eles, havia algo ali que ela não conseguia identificar.
— Em qual você tem dúvida?
Catherine se abalou, entorpecida pelos olhos de Fred nela. O que estava acontecendo? O que era aquele arrepio que ela sentia na espinha? Era uma coisa ruim, como medo. Gaguejou ao responder:
— No primeiro.
Fred virou o livro dela para ele e sorriu maliciosamente.
— Bom, parece que não precisa mais de ajuda. Magicamente todos seus exercícios foram resolvidos.
Parabéns pelo plano, Cathy. Ela se repreendeu mentalmente por ter esquecido desse detalhe. Queria sumir. Estava morta de vergonha.
— Não fique vermelha, Cathy. Se queria falar comigo, era só perguntar minha cor preferida ou meu aniversário. Sem dificuldades, já que você faz tantas perguntas. — Ele piscou para ela.
— Talvez se você tivesse sido mais receptivo, eu não precisaria criar artimanhas para conversarmos.
— O que você queria? Que eu te pegasse no colo e afagasse seus cabelos?
Ela abriu a boca, indignada. Quem ele pensava que era?
— Eu não te conheço e nem quero conhecer. Eu estava tentando ser legal, mas já que você não quer falar comigo, tudo bem.
O que ela estava dizendo? Fred semicerrou os olhos, parecia um pouco decepcionado.
—Tudo bem, Catherine.
— Tudo bem, Fred.
— Aliás, seu terceiro cálculo está errado. Você tem que multiplicar o resultado final, não somá-lo.
Ela bufou. Como ele conseguia ser tão irritante?
— Obrigada.
— Disponha.
O restante da manhã se seguiu sem nenhum acontecimento. Quando estava passando pela porta dupla que dava para o estacionamento, Eliza Hallgman esbarrou fortemente em seu ombro, o que fez os livros de Catherine caírem. Ela suspirou, rezando para que ninguém tivesse visto, mas alguém tinha.
— Quem é ela? — Fred juntava os livros dela no chão.
— Não é ninguém.
— Eu vi aquela garota te provocando na aula de História.
— Legal ter notado, achei que estivesse fascinado demais com a chuva. —Ele só a fitou, os olhos azuis insistentes. — Me devolva os livros. — Ela pediu.
— Me fale quem ela é.
Catherine tentou pegá—los, mas ele levantou-os onde ela não alcançava.
— Você é sempre tão infantil?
— Você é sempre tão distante?
— Eliza Hallgman. — Catherine se rendeu. — Ela costumava ser minha amiga, mas as coisas mudaram.
Ele devolveu os livros à ela.
— O que mudou?
— Por que você quer saber?
— Porque quero te conhecer melhor.
— Eu pensei que não queria falar comigo. — Ela acusou. — Agora tenho que ir, eu trabalho durante a tarde. Catherine deu alguns passos em direção ao seu Opala 1992, o último de uma fileira de carros, quando sentiu uma sombra atrás de si, pulou de susto.
— Por que está assustada, Catherine?
— Meu Deus, Fred! O que você quer? — Só estou tentando me enturmar. — Ele deu de ombros.
— Eu não sou a melhor pessoa para te ajudar. Fale com as meninas que estavam se jogando em você no almoço.
— Está com ciúme, Catherine?
No rosto dele estava aquele sorrisinho que ela estava começando a detestar. Ou pensava detestar.
Eles pararam em frente ao Opala.
— Bom, agora eu tenho que ir. — Ela disse.
— Até mais. — Fred se virou.
— Qual é? Essa história de "Só estou tentando me enturmar" não colou. Sério, odeio que mintam para mim. — Ela ergueu o queixo para poder olhá-lo nos olhos.
— Primeiro a tal de Eliza te humilha, depois te empurra e agora você anda quase correndo e olhando para os lados. Alguma coisa está errada.
— Você nem me conhece. Como pode dizer isso?
— Não sou tão burro assim.
— Olha, Fred, você assiste os noticiários? Há um serial killer em Blue Sky. Sabe quantos habitantes tem nessa cidade? Quatro mil. Meio perigoso, não? — Ele passou a mão pelos cabelos negros. —Repentinamente, Catherine sentiu vontade de tocá-los, pareciam tão macios. Ela piscou, afastando o pensamento.
— E a Eliza? Qual o problema dela com você?
— Por que você insiste nisso? Eu não quero falar. É passado, já foi! —Catherine estava ficando brava, mas quando viu a expressão nos olhos de Fred, sentiu a raiva dissipar. — Me desculpe, eu só não quero falar sobre isso. — Completou.
— Tudo bem, se precisar de alguma coisa é só me procurar.
Ele se virou e desapareceu na neblina do estacionamento em passos largos. Catherine sentiu o bolso do casaco vibrar. Pegou seu celular, o número era privado.
— Alô. — Do outro lado da linha só havia uma respiração pesada. — Alô? Quem fala? Alguém aí? — O mesmo som. Catherine desligou, olhou freneticamente para os lados.
O estacionamento estava vazio, não havia nenhum carro ou pessoa a vista. Mesmo assim, ela se sentia observada. Caçou as chaves na bolsa, quando ia colocá-las na fechadura do carro, elas escorregaram de suas mãos. Trêmula, Catherine as pegou embaixo do carro. Quando estava se levantando, viu uma sombra passar rapidamente ao seu lado. Ela nunca dirigiu tão rápido como naquele dia, até pensou que seu Opala 1992 não fosse aguentar. Não foi para casa, estava atordoada. Só tirou o pé do acelerador assim que avistou o pequeno prédio branco onde ficava o consultório da Sra.Linton. Subiu as escadas aos tropeços e soltou um grito ao ver Robert parado na porta do consultório.
— Cathy! O que houve? — Ele se espantou com o estado dela.
— Nada. Eu apenas... eu... estou com a adrenalina alta. — Ela não sabia o que dizer. Como explicaria tudo que estava acontecendo?
— Certeza? Você parece meio apavorada. — Ele deu dois passos até ela, que instintivamente recuou. — Ei, calma. Seu cabelo está uma bagunça. — Ele tirou os fios loiros do rosto dela, ajeitando-os.
— Obrigada pela preocupação, Bob.
— Robert. — Ele corrigiu. — Ou voltarei a te chamar de Srta. Bennett. Ela riu, era fácil conversar com ele.
À noite, Catherine ligou para a mãe que estava mais preocupada do que nunca.
— Houveram mais três assassinatos, Cathy! O que está havendo nessa cidade?
— Mamãe, eu já disse que não sei. É claro que estou com medo, mas não posso parar minha vida por causa disso.
— Ah, eu queria tanto estar ai com você.
— Quando você volta, mamãe? — Ela perguntou.
— Querida, você sabe, só em julho. Ainda estamos em fevereiro.
— Me sinto sozinha, às vezes. — Ela confessou.
— E Melanie? — A mãe perguntou.
— Ainda está na Inglaterra. Volta só no último ano.
— Por que você não vem passar o final de semana comigo? — Taylor propôs, por fim.
— O quê? Em Boston?
— Claro, filha. Eu não posso ir para Blue Sky agora. Amanhã é sexta-feira, você falta da escola e embarca de manhã, assim passamos mais tempo juntas. Depois volta na segunda-feira e vai à escola só na terça. Compre a passagem pelo site. Vem, por favor.
Catherine mal conseguia conter sua alegria, estava ansiosa para deixar Blue Sky. Mais tarde, quando arrumava as malas, seu celular tocou. O coração dela parou por um instante. O número não era privado, então Catherine resolveu atender, estava tentando não ficar paranóica. Arrependeu-se da decisão assim que identificou a voz que dizia:
— Marilyn! Sou eu.
Austin Mason. O cara que destruiu a vida dela.
— Marilyn? Você está aí?
Ela estava abismada. O que ele queria com ela agora?
— Não me chame assim. Meu nome é Catherine.
Austin a chamava de Marilyn porque dizia que ela parecia com Marilyn Monroe, ambas loiras e sempre com batom vermelho. Catherine mudara muito desde então, não usava mais maquiagem e o apelido que antes tinha orgulho, agora lhe dava repulsa.
— Cathy...Olha, eu sei que aconteceu bastante coisa, mas eu vou voltar para Blue Sky na segunda-feira e vou à escola...
— Você está brincando? Pelo amor, depois de tudo me liga para dizer que vai voltar? Qual é seu problema?
— Calma, só não quero que você se surpreenda quando me ver. Aquilo é passado. Eu mudei. Talvez até possamos voltar a namorar...
— Não. Por mim você poderia passar o resto da vida em Nova York.
Ela desligou. Sentiu seu corpo caindo e quando se deu conta, estava agachada no chão. As lembranças invadindo sua mente e machucando seu coração.
Do outro lado da cidade, uma figura encapuzada comprava uma passagem para Boston.
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