Atlas: Saturno
2 7 de Junho de 2004
O caminho do riacho até a velha casinha de madeira era longo, contudo, Tenten fazia questão de percorrê-lo todos os dias. Durante os primeiros meses, era o trajeto que mais acalmava o seu desamparo. Andava sozinha, deixando os vestidos floridos dançarem com o vento, segurando nas pontas do andador e olhando fixamente para frente; adquiriu a mania para não ter que encarar os tremores, desviando-a do verdadeiro propósito das caminhadas: relaxar.
Por mais que gostasse da companhia da avó e dos pais, às vezes sentia-se sufocada. Os olhares sofridos e empáticos chegavam até ela assim que colocava os pés em qualquer cômodo. Não gostava que sentissem aquilo dela.
Naquela tarde, levou consigo o gravador para espairecer. Acabou tornando-se um evento esporádico parar — as atividades ocupacionais e as fisioterapias — para registrar os seus pensamentos. Mal se lembrava de gravar, por mais que o coração ficasse leve após fazê-lo.
— Nós fomos felizes juntos por muitos anos, eu sei que fomos — afirmou logo que ligou o aparelho. Ao fundo, o barulho relaxante da água caindo sem muita força contra as pedras e seguindo o seu curso natural, também de alguns pássaros pequenos cantando uma canção desconhecida aos ouvidos humanos. — Contudo, quando me mostram fotos que dizem ser nossas, às vezes não consigo me reconhecer ou te reconhecer. Parecem pessoas que eu já vi em algum lugar na minha vida, mas não sei dizer quando. Isso dói, Neji.
Parou um momento, sentindo o rosto esquentar com um constrangimento que não lhe pertencia. Os lapsos de memória causavam tanto desconforto que não sabia como agir. Confidenciar em voz alta fazia com que se sentisse ainda mais estranha.
— Os médicos dizem ser normal. Descartaram Alzheimer, é só mais um efeito do Parkinson e do começo do tratamento. Os remédios demoram para fazer efeito, não sabem se serão eficientes. Eu só aguardo, tentando me manter confiante que boas decisões serão tomadas.
Sentia ter cada vez menos controle sobre si mesma. Algumas manhãs eram fatigantes, então, precisava de ajuda para se vestir e comer sem derrubar para fora da boca. Outras noites, era acometida por uma dor insuportável por todo o corpo, sendo necessária uma sedação forte para que conseguisse dormir. Tremia tanto que os dedos da mão esquerda estavam começando a enfraquecer, fechando-se lentamente — dia após dia — na palma. Suas mãos se tornariam ainda mais inutilizáveis.
— Muitas vezes as pessoas se estressam comigo e choram, ainda sem acreditar no que está acontecendo; por mais que eu tente, me confundo com os nomes e os parentescos que tenho com cada um. Há dias em que esqueço como minha mãe é, outros esqueço que meu pai é meu pai. Eu não tenho mais privacidade, alguém tem que estar comigo. Eu sei que sempre pedi para ter mais tempo com a minha família, distante do trabalho na confeitaria, mas não era desse jeito que eu queria. — Riu com tamanho desespero que acabou se tornando engraçado. O riso sofrido tornou-se uma alta risada, descontrolada e emotiva. Lágrimas começaram a brotar nos cantos dos olhos amendoados, descendo aos poucos em volta da face delicada, grudando pelo caminho alguns fios rebeldes do cabelo preso no alto da cabeça. — Me sinto como uma criança novamente, contudo, eu faço o caminho inverso: desaprendi a me cuidar sozinha, a me mover e a falar. A minha língua fica enrolada algumas vezes, espero que não se importe e que consiga me entender.
Movimentou a boca por um instante, da forma que a fisioterapeuta havia ensinado, tentando deixá-la menos rígida. A mão trêmula balançava o gravador com toda a pouca força que restava.
— A minha cabeça pesa toneladas quando tento escrever ou falar, as minhas mãos não estão nada firmes. Preciso continuar com as terapias, mesmo que não haja muito avanço no meu quadro. É, verdadeiramente, um saco ter que acordar cedo e fazer movimentos repetidos até alguém julgar ser o suficiente. Ultimamente, tenho pensado se tomei a decisão certa te deixando ir sem saber de nada. Você faz falta, eu te amo tanto...
Colocou o gravador ao seu lado no banco de concreto e fechou os olhos por um instante. O barulho da água era agradável, trazia segurança e familiaridade. Sentia-se uma só com a natureza, sem dores ou tremores; ali, era como uma estátua harmoniosa com o ambiente. Quieta, imóvel e bonita.
Era difícil se manter positiva a todo instante, porém tentava como um exercício diário. Quando a diagnosticaram com Parkinson, precisou de muita ajuda para recuperar o amor pela vida. Agora, só conseguia pensar que precisava aproveitar os bons momentos que ainda podia ter, não queria sentir que estava deixando a vida fazer a sua parte sem lutar de volta.
Neji costumava brincar que ela era doce demais para o mundo e, talvez, ele tivesse razão. No entanto, sem a sua doçura, teria caído e desistido de tudo na primeira vez.
— Você faz falta, eu te amo tanto… — repetiu para as árvores silenciosas e para a água do riacho. Tentou sorrir.
Foi a sua bondade que conquistou o coração do homem. Ele a enchia de amor e carinho, porque era tudo o que recebia dela; desde o primeiro momento em que se conhecerem na confeitaria. Ele como um cliente regular. Ela como gerente.
O sorriso fácil e a gentileza fizeram com que se atraíssem um pelo outro. O pedido de namoro demorou um pouco para vir, já que o homem viajava demais como soldado e queria que fosse especial. Completaram quatro anos em abril.
— Filha! Estávamos te procurando, você quase nos matou do coração.
Assustada com a presença tão alarmada e preocupada da mãe, abriu os olhos de supetão. Sentia o corpo rígido e a cabeça confusa, como se tivesse voltado à realidade depois de um longo sono.
— Por… quê? — perguntou com dificuldade, parecia que havia ficado horas sem falar nada. Foi, então, que percebeu que já estava escuro. Muito escuro. E, também, que não conseguia mover as suas pernas.
Voltou para casa carregada pelo pai, e aquele foi o último dia que conseguiu andar.
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