Atlas: Saturno
3 15 de Outubro de 2004
Hyuuga Neji descarregou as malas e entrou no táxi que o levaria para as cidades montanhosas. Ainda estava de farda e sentia o corpo dolorido, cansado por tantos meses em alto-mar. Ao terminar suas missões e chegar em terra firme, ficava por uma semana sentindo o corpo balançar no ritmo das ondas e sofria para deixar a cabeça relaxar, estando sempre em alerta e esperando alguma ordem dos superiores.
No entanto, ele não teria tempo para descansar suas ansiedades e preocupações, uma vez que sabia da condição de Tenten e precisava vê-la quanto antes.
Neji percebeu que havia algo errado quando começou a receber cada vez menos cartas, quando ela falava pouco ou inventava algo para não atender suas ligações. A voz doce e firme da namorada começou a ficar fraca, trêmula e enrolada. Ela ria e brincava dizendo estar cansada demais. Deixou-a em um momento delicado no ano anterior, sua preocupação aumentava cada dia mais; sabia que ela não estava bem, só não tinha conhecimento do que estava acontecendo naqueles meses. Ainda.
Logo em agosto, ao tentar ligar mais uma vez para o número conhecido, a mãe da Mitsashi atendeu. Aos prantos, explicou sobre a doença de Parkinson diagnosticada um pouco antes d’ele sair em missão. Tenten estava de cama, os músculos da perna haviam travado, e precisava de ajuda para realizar as mais simples tarefas do dia a dia. A fala havia sido completamente comprometida, vez que os neurônios não-prejudicados da substância negra não estava apresentando melhoras com o tratamento recente. Os médicos precisavam encontrar a dose certa dos remédios para que ela tivesse uma qualidade de vida melhor, para que o seu cérebro reencontrasse o ponto de equilíbrio necessário e ela voltasse a realizar as atividades que estava acostumada a fazer sozinha. Era o que eles esperavam que acontecesse, porém, não garantiam nada.
Neji ouviu tudo com lágrimas pesadas nos olhos, incapaz de responder com coerência ao que ouvia. O que mais queria era correr até a namorada e acalentá-la em seus braços até que todo o sofrimento e dor deixassem seus corpos. Queria tirar cada tremor com o seu abraço, livrá-la de todo o medo e pânico que sentiu durante aquele tempo.
Insistiu por alguns dias com os seus superiores para que o liberassem da missão, encontraria um jeito de voltar para casa sem dar trabalho a ninguém, mas diziam ser impossível. Não podiam abrir exceções. Enquanto isso, os pais da namorada garantiam que o Hyuuga deveria vir quando suas obrigações acabassem. Tenten continuaria ali — esperando por ele — em uma condição estável, apesar de toda a instabilidade da situação.
Dois meses depois conseguiu voltar ao Japão em segurança. Estava livre para cuidar da mulher de longos cabelos escuros que tanto amava. Assim que chegou em Takayama foi recebido por abraços calorosos e aliviados. Imaginava que os meses passados haviam sido pesados, mas poderia ajudar melhor de perto e aliviar um pouco a angústia dos familiares da mulher.
— Ela me pediu para entregar isso assim que você voltasse. — O pai estendeu o pequeno gravador antes que Neji saísse da cozinha para rever a namorada finalmente. Assim que sentiu o material frio na palma da mão, o coração dele comprimiu-se no peito, como se todo o segredo do mundo estivesse gravado ali dentro e se sentia inestimável por ser digno de ter aquele presente especialmente todo para si.
Ansioso e cheio de saudade, Hyuuga Neji entrou no quartinho onde ela estava. Em cima da cama de solteiro, bem coberta e olhando para a paisagem esverdeada do lado de fora, a mulher repousava acomodada. Aproximou-se com cuidado, não querendo assustá-la.
Sentindo a presença quente do namorado, Tenten presenteou-o com o sorriso mais feliz que cabia em sua boca. Passava pouco tempo acordada e animada por culpa dos fortes remédios que o seu corpo ainda não estava acostumado, mas, vê-lo ali, encheu-a de vida mais uma vez. Era como se a parte faltante de si tivesse retornado e ela pudesse tentar de novo.
Ele segurou a mão gelada da amada, sentindo-a tremular levemente dentro da sua. Levou-a até os lábios e deixou um beijo carinhoso ali.
Tenten ainda sorria quando pequenas lágrimas começaram a escorrer do canto dos olhos amendoados. Estava segura novamente, suas esperanças enchiam-se ao olhar para o rosto tão sereno e amoroso do namorado.
O homem ficou sentado ao lado da cama, fazendo leves carinhos na mulher até que ela dormisse. Aproveitou para puxar o gravador do bolso e os fones de ouvido; sentiu-se despreparado por um momento, mas queria ouvir o que ela havia registrado durante aquele tempo. Era outra forma que tinha para ficar mais próximo do consciente dela até a medicação iniciar o efeito de verdade.
Começou a ouvir os registros com um sorriso mínimo nos lábios, extinguindo a saudade da voz acalentadora dela; escutou tudo com atenção enquanto a olhava com o mais puro amor. As gravações eram uma mistura de sentimentos tristes e esperançosos, entretanto, nunca derrotistas. Mitsashi Tenten tinha esperança de um futuro melhor, mesmo quando tudo lhe foi arrancado tão cedo: seus movimentos, sua fala, sua independência, seus sonhos… Porque, lá no final do extenso corredor onde se encontrava, uma luz brilhava fracamente, convidando-a a caminhar e tentar um pouco mais. Ela não estava sozinha, quem a amava jamais desistiria de lutar para que tivesse a vida de volta.
A última gravação começou silenciosa, com pequenos ruídos característicos de som ambiente, como se fossem fracas gostas de chuva batendo contra a janela. Uma respiração breve foi-se ouvida, então, a voz entrecortada e fraca de Tenten disse:
— Espe...re por… mim.
Neji colocou a mão sobre a boca, tentando não soluçar alto demais. Todo o choro que vinha segurando desde que havia chegado saiu com facilidade. Sentiu todo o corpo desmontar.
Ele esperaria; faria o que fosse possível para que ela ficasse bem e estaria ali, ao seu lado, por quanto tempo fosse necessário.
Tenten era rara e bonita por existir. Eles veriam — juntos de novo — todo o esplendor do Universo.
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