Ativistas Dos Direitos Do Amor.
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Depois de se acalmarem e de tomarem quase todo o estoque de antialérgicos, Kyoko, Haru e Bianchi foram à Kokuyo Land para saber das novas instruções e do que fariam dali pra frente, também tinha a cerimônia de recrutamento de Bianchi e todas aquelas emoções deixavam as três garotas desesperadas. Quando chegaram, o local parecia mais desolado do que um cenário de guerra, um pedaço esquecido por Deus e horrível por natureza. O disfarce perfeito.
Enquanto Kyoko e Haru foram na frente, andando como se não fosse nada demais, a tão corajosa e destemida Bianchi ficou estática, paralisada. Nem parecia a mesma mafiosa que empunhava uma arma ou ainda um bolo de chocolate com veneno o suficiente para assustar o animal com a mais perigosa peçonha.
Kokuyo Land não tinha portões, o que mantinham as pessoas afastadas era o desolamento do local, o medo era o maior amigo. Só podia fazer parte da ALF quem não tinha medo, ou ainda dominava o seu. Pessoas que se sentiam afogadas no pavor, não eram feitas para aquilo. E justamente essa particularidade manteve Bianchi afastada e trêmula por alguns segundos.
A rubra tremia como se engolido um terremoto, metáfora infeliz para quem é chamada de Poison Scorpion. Era como se todo o veneno que estava dentro dela fosse tão remexido que tivesse virado soro fisiológico. Exatamente isso! Bianchi estava com tanto medo, que sua comida era capaz de ressuscitar alguém em vez de matar a mesma pessoa. O que deixou a moça muito furiosa.
Novamente, ela se sentia alheia a si mesma, mais uma vez se sentia estranha na própria pele, como se fosse uma alma aleatória possuindo um corpo tatuado e atraente. Bianchi só se sentia assim quando estava com Yamamoto, embora a situação não fosse tão terrível, tão assustadora. Na verdade, ela estava até com saudade daquele idiota do basebol, só que não era momento para alusões românticas, agora era hora de entrar e começar a mudar a própria vida. Urrou como uma leoa e foi correndo em direção à Haru e Kyoko.
As suas amigas a seguraram firmemente e Kyoko disse: “É completamente normal Bianchi-san. É a primeira fase do teste. Não se preocupe, até eu urrei, ou melhor, tentei urrar. Claro, parecia mais um miado rouco, mas enfim, foi a mesma coisa. Não esqueça que não está sozinha, ok? Respira fundo que os pulmões servem pra isso. Lembre-os de fazer com que sobreviva e não pense que essa é a pior parte, ok?”
Bianchi ficou pasma, aquela nem parecia Kyoko, a tão doce e amada Kyoko. Aquela garota que parecia alheia a tudo em sua volta, aquela que era a eterna observável, como se fosse uma peça de decoração estava com aquela atitude tão destemida. Pessoas mudam e Kyoko era uma prova mais do que palpável daquilo. Não restava nada além de assentir e expulsar aquele idiota do basebol dos seus pensamentos mais uma vez.
Haru, que estava calada, provavelmente meditando sobre os acontecimentos anteriores, olhou para a amiga com um olhar terno que misturava uma ferocidade animalesca e a incentivou a continuar. Deram-se os braços e foram caminhando juntas até aqueles portões. Ela não soube dizer com certeza, mas sentiu que alguém estava tremendo mais do que o necessário, e que infelizmente, não era Kyoko.
Quando entraram nas instalações, Bianchi viu que o lado de dentro era tão ruim ou até pior do que o lado de fora. A ALF de Nanimori fazia questão de frisar o sofrimento dos animais. Haviam gravuras, fotos, desenhos, sangue pra todo o lado, uma televisão que passava vídeos de animais sendo sacrificados, crianças sendo forçadas a escolher entre elas e os animais e aquela foto onde tem um abutre esperando a criança morrer, que representava o respeito que uma classe de animais tinha pela outra. Não atacavam até que o animal humano estivesse morto. Ela sabia que não era bem assim. Já tinha visto animais se atacarem muitas vezes, sabia que o que imperava era o instinto de sobrevivência, só que as batalhas pareciam mais justas e era aquilo que procurava, justiça.
Seu coração ainda continuava com aquele bater desenfreado. Parecia que se encontrava em uma situação de quase morte, a sensação era horrenda. Não conseguia respirar, não conseguia focar seus pensamentos em nada que não fosse aquele medo, sentiu que ia chorar e apertou forte os braços de Kyoko e Haru. Tentava com todas as forças puxar o ar e não conseguia. Estava quase desistindo quando ouviu Kyoko falando.
“Só o amor vence o medo, pense em quem você ama, não precisa ser amor de homem e mulher, mas pense com vontade, Bianchi-san, pense com todo o amor do mundo.”
Agora era a hora da Poison Scorpion se colocar à prova e os sentimentos que acredita como certos e reais. Enquanto aquela sensação de pavor a dominava, ela tentava seguir os conselhos de Kyoko. Tentava ver as referências amorosas, como por exemplo, pensar em Hayato a acalmava, pensar em Reborn, a acalmava também. Pensr em Tsuna e Ryohei fazia com que o pavor voltasse com mais força, então, fez o que considerava um risco enorme de ficar louca de medo, pensou em Yamamoto e desconfortavelmente constatou que o medo sumiu. Sim, então era real, pensar em Yamamoto, Reborn e Hayato, seus pais e alguns amigos a acalmava. Yamamoto apareceu como a peça que faltava para a calma e aquilo foi a gota d'água. Passados alguns instantes, a agonia desapareceu, apesar de a garota ainda estar ofegante e pálida.
Haru ficou bem preocupada e perguntou se ela estava bem, o que foi assentido com receio, sem falar que Bianchi tinha muitas perguntas.
“Haru, por que diabos eu fiquei nessa situação?”
“Isso é o processo de seleção de Mukuro-san, não sabemos bem como ele faz, na verdade, saímos tão passadas do processo que nem pensamos em questionar, mas a questão é que isso funciona quase como um polígrafo. Tem gente que não aguenta e sai chorando daqui, tem gente que surta mesmo, tem gente que simplesmente esquece e tem gente que aguenta. Kyoko-chan, por exemplo aguentou. Eu fiquei surpresa e sim, ela ficou pior do que você, mas conseguiu suportar. Ela ainda não me disse em quem pensou pra aguentar essa agonia e eu também não quero que você me conte, só que essas pessoas nas quais pensou, são vitais para sua sanidade. O processo visa exatamente isso.”
“Você pensou no meu irmão?” Bianchi perguntou subitamente.
“Sim. Foi a primeira coisa que passou na minha cabeça. Pensei no meu pai e na minha mãe depois, mas Gokudera Baka foi fundamental pra minha sanidade. E pra minha insanidade. Vamos começar.”
As três foram até o salão principal e se viram com poucas pessoas, todos com olhares sagazes e ao mesmo tempo assustados. Um som era ouvido ao fundo, até tranquilizante de uma certa maneira. Só se ouviam respirações ofegantes quando uma cortina se abriu diante deles e saiu um cara com um uniforme verde que parecia ter esquecido de frequentar as aulas de higiene e asseio pessoal. O cheiro estava medonho.
“Quem é esse dai?”
“É o Ken, um dos braços direitos de Mukuro-san. E sim, o cheiro é dele mesmo, desu. E é um baba-ovo do Mukuro, espera pra ver. Depois de uns minutos, o discurso começa a valer a pena.” Haru respondeu.
Bianchi sorriu ao perceber que Haru tinha usado aquele honorífico tão característico dela e começou a prestar atenção naquela pessoa de higiene duvidosa que falava em um idioma quase desconhecido.
“Eu sei que todos vocês, idiotas só estão aqui pra seguirem Mukuro-san que é a pessoa mais importante daqui e vocês não merecem ficar perto dele. Só que ele ofereceu pra gente uma oportunidade de mostrar que a nossa existência não precisa ser essa mediocridade toda, né? O negócio é que o ser humano é podre mesmo. Utiliza de meios idiotas e cretinos pra conseguir tudo o que quer. O foda é quando o ser humano se vê melhor que os animais ou mesmo seus semelhantes. É triste isso! Todo mundo aqui já sabe da minha estoria, né? Então não vou ficar falando. A parada é que todos os seres merecem respeito a partir do momento que os vemos como tal. Quando vemos um ser e pensamos que ele é menos que nós, não podemos ter respeito e sem respeito, acaba-se tudo. É isso.” Ken terminou sugando a saliva.
“O que aconteceu com ele, Haru?” Bianchi perguntou.
“Ele foi traficado quando era mais novo, pra experimentos, pelo menos é o que ele fala. Mukuro confirma, já que foi quem o salvou e também justifica essa adoração por ele. Tem o de óculos, o Chikusa. Logo ele aparece, mas ele não fala muito. Cuida mais da segurança do Mukuro.”
Logo que Haru terminou de falar, Mukuro apareceu diante deles, e apesar de ser um homem como qualquer outro, a selvageria mesclada com frieza era palpável. Ele tinha os olhos heterocrômicos, o que levava essa sensação de instabilidade a um nível totalmente inesperado. Mukuro era lindíssimo, um homem selvagem, inteligente e que sabia falar exatamente o que se devia. Bianchi se sentiu babando naquele momento.
“Boa noite, meus caros. Sem discursos demagógicos, não? Todos os que entraram aqui passaram pelo meu primeiro e letal teste, então estão ao menos psicologicamente aptos a colaborar com as missões. Ficamos sabendo que os Vongola estão em Nanimori. Provavelmente por causa das invasões. Temos novatos por aqui, um deles, o nosso fornecedor das substâncias corrosivas. Seja bem-vinda Bianchi. Fico satisfeito que tenha passado no teste.”
Haru e Kyoko ficaram impressionadas. Então, Bianchi-san sempre fez parte da ALF, mesmo sem realmente fazer parte. E como aquilo era possível?
“Vocês sabem dos meus experimentos, não? Antes eu usava partes de animais e eu fui desafiada por ele, a ver o que eu podia fazer sem utilizar os mesmos. Ele me desafiou na única coisa que eu achava que sabia fazer e caso eu conseguisse, teria que passar os resultados pra ele, sem saber pra onde iria e ele me garantiu que meu nome não seria citado. Ele cumpriu sua palavra, já que nem você sabia, né Haru?”
A morena só assentiu em silêncio. Aquela revelação era muito controversa. Bianchi era a fornecedora do principal material de combate da organização, mas não tinha conhecimento da causa. Entrou por amor à ciência, mas qual foi a razão que Mukuro apresentou a ela? Será que foi a mesma que foi com a própria Haru? Sem falar que ela não queria mais destruir os Vongola e não dava mais pra desistir da organização. A questão que mais latejava na cabeça de Haru era como ele tinha encontrado Bianchi e como ele sabia de suas habilidades. Alguém de dentro da casa tinha que ser a chave de Mukuro. Um agente duplo, alguém que estava traindo Gokudera e Tsuna e ao mesmo tempo traindo Mukuro. Quem era essa pessoa? Bianchi não era. Isso ela tinha certeza, mas quem era? A moça ficou matutando até que Kyoko disse bem baixinho. “Chrome-chan.”
“Como, Kyoko-chan?”
“Você está pensando quem foi que espionou a Bianchi-san, não é? Foi a Chrome-chan. Ela é amiga do Ken, não se lembra? Ela é amiga do Chickusa, provavelmente é amiga de Mukuro-san. E ela é uma das guardiãs de Tsuna-kun. Se não foi ela, é alguém próximo a ela, que começou a vazar as informações.” Kyoko assentiu triste. “Só que isso não soluciona a questão de quem está fazendo com que os Vongola façam isso.” Kyoko complementou.
“É verdade! Tem alguém por trás dessa porcaria, só que isso é problema deles. Nós salvamos os animais e eles que salvem a si mesmos, desu.” Haru falou
“Haru-chan...a gente mora junto há um tempo, né? Eu sei que eu tenho a minha cota de idiotice, eu admito, mas achar que eu sou tão burra assim, é ofender demais a nossa amizade. Vamos salvar os garotos também, ok? Vamos salvar o Tsuna-kun, o meu irmão, Gokudera-san e Yamamoto-san. Nada disso, vamos salvar todos eles, até aquele assustador do Hibari-san.” Kyoko sorriu.
Haru só conseguiu abraçar a amiga em forma de agradecimento. Retornou o foco para Mukuro e ficou aterrorizada quando ele começou a falar de uma tal de Milfiore que estava se utilizando de empresas idôneas para lavagem de dinheiro e testes irregulares. Uma das empresas era a de Kyoko, que tinha pego os documentos e encaminhado ao chefe da organização. Com o material que eles possuíam, era fácil saber de onde vinham as influências, entretanto, não era o suficiente para provar o real envolvimento e se por um acaso a empresa estava sendo utilizada como laranja do processo.
Então significava que o inimigo a se combater era outro, incrivelmente mais poderoso do que os Vongola, ou pelo menos mais esperto. E se tinha alguém que conseguia ser mais sagaz do que Reborn, o conselheiro-chefe, esse alguém deveria ser temido, pra se dizer o mínimo.
A reunião continuou sem muitas interrupções e sem muitas surpresas e as garotas saíram de lá completamente acabadas. Elas estavam com os planos da nova invasão, que era mais silenciosa e infinitamente mais arriscada. As batidas do coração de Kyoko poderiam ser ouvidas há uma boa distância. Também, ela seria uma das principais personagens dessa operação.
O plano consistia em fazer um dos integrantes da ALF serem contratados pela empresa de Kyoko, mas em um cargo de alta confiança. Tudo ali funcionava por indicação. Kyoko foi veementemente contra, já que duvidava e muito de sua capacidade, por causa de sua insignificância. Foi quando as palavras de Mukuro entraram rasgando em seus ouvidos.
“Seu valor está exatamente na sua insignificância, na sua invisibilidade Kyoko Sassagawa. Eu preciso de alguém que ninguém vê. Que ninguém ouve e você é exatamente isso.”
A garota não soube o que responder. Não sabia bem como reagir àquilo, mas não podia questionar a veracidade daquelas palavras. Ela era realmente invisível, ou melhor, sua persona era invisível. As pessoas achavam que ela era algo que ela realmente não era e já que essa indefinição estava mais do que consolidada, era o momento de utilizar para algo bom, não? E como percebeu que estavam todos preocupados com ela, começou a falar.
“Haru-chan, eu estou bem. Não se preocupe. Eu entendi bem o que Mukuro-san quis dizer e ele tem toda a razão. Agora é ver quem ele vai colocar na empresa e como eu vou fazer o que ele nos pediu. Vamos pra casa.” Kyoko respondeu sorrindo.
A reunião tinha acabado perto das 23h, então as ruas estavam desertas. Haru andava com o Wolkswagen em uma velocidade fora do normal, a morena achava que estavam sendo seguidas. Deu mais voltas do que o necessário e acabaram na loja de sushi do pai de Yamamoto. A garota alegou que estava com fome e que não tinha nenhuma confeitaria aberta.
Bianchi achou aquilo tudo muito estranho e ficou estressadíssima. O susto não tinha sido interessante, ela ainda estava enjoada, estava com um cheiro de sangue nojento pelo corpo e ir pra um lugar onde tudo lembrava Yamamoto, uma pessoa que ela não queria ver naquele momento pela dependência recém-descoberta, era pedir demais pra pobre mulher. Ela ia dar um jeito de mandar tudo pelos ares, com animais ou sem animais. E outra coisa, elas eram contra testes em animais, mas comiam sushi? Aí é mais do que esquisito. Os peixes não são animais? Bom, mas era só o idiota do basebol não estar lá que tudo ficaria relativamente bem, não é?
Não é?
Não, não é!
Elas entraram e não apenas Yamamoto estava lá, mas como quase todos os guardiões, exceto Chrome. Até mesmo Hibari Kyoya estava lá, e o bufão do Dino Cavalone.
Kyoko, Haru e Bianchi não conseguiam colocar os pensamentos em ordem e quando sentiram aquele peso dos olhares nelas, respiraram fundo, foram até o balcão, pediram o sushi mais leve e começaram a encarar o prato. Em silêncio. Elas precisavam pensar no que fazer e em como ajudá-los e no motivo pelo qual fazer aquilo. Kyoko era a mais tensa de todas e aquilo os deixava impressionados. Nunca tinham visto uma expressão tão carregada, sombria, tão adulta e ciente. Era como se fosse outra mulher e essa outra mulher pensou friamente e decidiu fazer algo chocante até pra ela mesma.
Levantou-se e foi em direção ao Décimo e o abraçou fortemente.
“Estou feliz que esteja aqui Tsuna-kun. Estou feliz mesmo.”
E saiu.
As duas amigas que ficaram estáticas, só puderam seguir Kyoko que ventava porta afora e deram uma olhada para ver todos os guardiões estupefatos, sem falar que Yamamoto estava com uma cara de cachorro sem dono e a fúria de Gokudera estava mesclada com uma indignação de ser ignorado mais uma vez.
“Isso não vai ficar assim, mulher idiota! Não vai mesmo!” E vomitou, claro, depois de ver a irmã.
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