Atenciosamente, Crane
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Eu deveria ter perguntado onde vamos. Diminuiria meu leque de possibilidades. Agora vou ter que jogar com um look coringa e que se adapte a pelo menos três ocasiões, só para me garantir mesmo. Optei por uma calça preta de cintura alta com tecido mais grosso para suportar o outono com cara de inverno. Uma blusa azul turquesa de caxemira quente o suficiente para eu não precisar de nada além do sutiã por baixo. Enrolei um cachecol no pescoço por precaução, calcei um par de botas até o tornozelo e fui dar atenção ao meu rosto e cabelo. Acabei fazendo duas tranças finas com mechas pequenas de cada lado que usei para depois cruza-las atrás da cabeça e manter o amontoado de cachos casualmente controlados. Não quis parecer estar me produzindo toda para ele, Crane já é confiante que chegue e sua auto-estima é nas alturas. Não precisa que eu adule ainda mais seu ego. Cobri os cílios com mais uma camada de rímel além das camadas habituais que todos os dias aplico e passei um batom discreto.
Faltando cinco minutos enfiei o casaco e agarrei a bolsa, correndo para ir até a Cafeteria. O estabelecimento estava bem movimentado como de costume e comecei a achar uma péssima ideia para ponto de encontro. Se algum conhecido me ver entrando no carro de um cara como Crane o que pensariam? Que você é uma sortuda, minha libido gritou dos fundos da minha mente. Quando fui me aproximando da entrada da Cafeteria meu celular tocou e um número desconhecido saltou na tela. Achando se tratar de mamãe que mais uma vez poderia ter ficado sem bateria e pedido o celular de alguém emprestado, atendi.
— Alô.
— À sua esquerda. — a voz grave e familiar informou.
Me virei, vendo o jipe do outro lado da rua bem ao fundo. Caminhei para lá. Abri a porta e não, eu não estava preparada para a versão Crane fora do colégio. Não que ele esteja muito diferente de quando está dando aulas pois ele não é um professor que se veste formalmente, mas a postura descontraída, transforma-o.
— Sabe, não é justo você ter acesso aos meus dados quando eu não sabia nem o seu primeiro nome antes desta semana. — vou falando ao me acomodar no acento de passageiro.
Seus olhos passeiam pelo meu corpo por um instante e então ele se vira para mim, estendendo sua mão.
— David Crane, 26 anos, professor de literatura e atualmente o cara mais sortudo do mundo. Você está linda. Porra! Você é linda o tempo todo e eu preciso me segurar.
Aturdida, aperto sua mão, abrindo e fechando a boca por duas vezes, meu cérebro varrendo e revirando todos os cantos em busca da melhor hipótese.
— Obrigada. — minha voz mais suave que o costume, quase irreconhecível aos meus ouvidos.
A intensidade do seu olhar é destabilizadora, me sinto invadida. Uma sensação familiar na qual me tornei perita a identificar os ínfimos sinais de conexão e intimidade. Duas coisinhas que podem fazer com que seu mundo desmorone. Vulnerabilidade emocional é algo não praticável, a evitar acima de qualquer coisa. Estou prestes a me auto sabotar como forma de preservação quando Crane libera minha mão e segura meu queixo, trancando ainda mais meus olhos nos seus.
— Agora você sabe.
Assenti, mordendo o lábio. Não guardei para depois o beijo. Estava morrendo de vontade de sentir seus lábios outra vez e aquele turbilhão de sensações percorrendo meu corpo. Deslizei as mãos pelo seu maxilar, adorando a aspereza da sua barba curta contra meus dedos. Beijei-o de leve, provando sua boca. Uma de suas mãos se enterrou nos cabelos da minha nuca, me arrepiando. Queria mais, mas ele me soltou, beijando meu queixo antes de se endireitar no banco.
— Se quiser almoçar vai parar de me olhar assim. — riu quando um protesto incompreensível escapou pela minha garganta.
Quando ele colocou os óculos de sol preferi nem olha-lo. Tirei o casaco, sentindo calor.
— Onde vamos?
— A uma delicatessen.
— E como é que você sabe que não sou vegetariana? — provoquei.
— Você acha que passa despercebida comendo tiras de bacon à meio das aulas?
Fiquei boquiaberta. Eu havia passado a aula crente de que ele não tinha sequer me notado, que dirá minhas tiras de bacon crocantes trazidas precisamente da Cafeteria da qual nos afastávamos agora.
— Foi só uma vez. Eu tinha pulado o café da manhã naquela segunda-feira. — me defendi, ficando vidrada no Crane sorridente ao meu lado.
Bela vigia que Molly, a garota que se senta ao meu lado, havia se saído.
— Nada costuma me escapar. Eu só finjo que não vi para não perder tempo.
Será que ele vê as garotas azarando sua bunda o tempo todo? Pressionei os lábios, prendendo o riso e gostando até demais de poder ter uma visão particular do que Crane vê e pensa para variar.
— Estraga prazeres. Agora que sei a verdade não vou conseguir agir com naturalidade. — resmunguei, recebendo um olhar de soslaio que me fez querer pular no seu colo.
A forma como ele dirige tem algo de sensual e que estranhamente me faz imaginar que ele tem toda essa maestria na cama também. Eu deveria trancar minha libido em uma jaula quando estou perto de Crane.
— O que mais você finge não saber?
— Tate passa as aulas reunindo coragem para falar com você e no final amarela, o garoto do capuz está sempre chapado, aquelas duas alunas de ontem nem sequer estão inscritas em literatura.
— Você exagera em relação à Lukas. Ele está bem.
— Ele te disse isso?
— Uhum. Hoje de manhã quando saiu da minha cama. — sua expressão petrificou e foi uma pena não conseguir ver seus olhos por trás dos óculos escuros — É o que parece que está pensando quando faz essas perguntas.
— Porque sei que ele não vai desistir.
— E daí? Já estou bem servida com um moreno perigoso que ocupa meus sábados sendo ciumento.
— Perigoso? Você exala encrenca por toda a parte e é infernalmente linda. Isso é perigoso.
Ergui uma sobrancelha. — Que tipo de encrenca?
— Do tipo que faz um cara correr o risco de perder o emprego e estar pouco se ferrando pra isso.
— Se chegar a esse ponto saiba que sou ótima atriz. Negarei até à morte ou finjo demência. — sua cabeça deitou para trás quando ele gargalhou, roubando meu foco.
Quando voltei a prestar atenção no mundo à minha volta e não no moreno ao volante com seus bíceps flexionados e olhar concentrado, já estávamos no centro de Nova Iorque. A cidade rugindo ao redor, milhares de automóveis e pessoas andando em ritmo apressado. Prontamente me senti à vontade e protegida. Ninguém poderia nos reconhecer aqui.
A entrada da delicatessen está lotada, uma fila que toma parte da calçada. Gente de todo tipo aguardando impacientemente sua vez, executivos bem vestidos e pessoas bem mais despojadas do que eu. O que me fez concluir que a comida deve valer a espera.
Crane abre caminho com facilidade não só pela altura e porte. Ele não precisa abrir a boca para que as pessoas se desviem e dêem espaço. É uma imposição silenciosa e que ele parece ter tido desde sempre pela naturalidade com que lida com isso. Assim que chegamos ao trecho da fila em que esta se estende para dentro da delicatessen sua mão agarrou a minha, me mantendo junto das suas costas à medida que íamos nos espremendo. Mesmo já dentro do estabelecimento a movimentação é tanta que não consigo uma brecha para caminhar ao seu lado.
— Cuidado. — alerta, me puxando para sua frente.
Vendo aquele lanço de escadas dou graças a Deus por não ter vindo de saia. Sinto-o atrás de mim como um predador guardando sua caça. No topo das escadas aprecio o espaço bem menos lotado que o andar de baixo, a decoração quase fazia crer que estávamos em um jardim e não num edifício fechado em Nova Iorque.
Um garçom veio nos receber e quando Crane disse seu nome ele nos encaminhou para uma mesa ao lado das janelas de vidro do chão até o teto, proporcionando uma vista privilegiada lá para fora.
— Não me olha assim quando estou comendo. — reclamei, limpando a boca no guardanapo.
Ele havia pedido um sanduíche muito maior que o meu e já o tinha finalizado enquanto eu ia à meio do meu.
— Como foi que descobriu esse lugar?
A forma como ele apertou a caneca na mão e seu maxilar se tensionou respondeu por si.
—Ah! — sorri, subitamente já não tendo tanto apetite para finalizar o que restou do sanduíche — E você também sugeria o mesmo sanduíche que me sugeriu e as sentava nessa mesma mesa?
A expressão no seu rosto intensificou, novamente uma confirmação silenciosa de que eu havia deduzido certo. O que eu havia comido parecia estar dando luta para descer e tomei um gole da coca cola para me certificar de que não tinha nada parado na minha garganta. Era o surgimento de uma nova sensação ligada diretamente ao lindo moreno à minha frente. Então ele estava me levando a uma tour por onde centenas de outras já tinham passado.
— Você está chateada.
Foi uma afirmação e não questionamento, mas ainda assim balancei a cabeça em negação, virando o que restava da coca cola no meu copo. Limpei a boca no guardanapo e busquei pelo batom e o espelho dentro da bolsa. Sob o olhar atento e minucioso de Crane retoquei o batom, e depois de contornar com toda tranquilidade os contornos dos meus lábios deslizei o indicador para dentro da boca e puxei-o de volta com a marca perfeita do excesso de batom ao redor do dedo. A saliva percorrendo sua garganta foi bem audível e o pomo de Adão subiu e desceu de forma mais demorada, seus lábios se abriram e o ar saiu.
— Está tudo bem. — não está — Não me importa quantas outras você trouxe até aqui antes — na verdade, é só isso que importa — Você só precisa saber que é a última vez que me leva para qualquer lugar — não quero mais te ver.
Ele prendeu a minha mão assim que acabei de guardar de volta o batom e o espelho dentro da bolsa.
— Não está tudo bem. Importa sim e muito. Não vá embora. Por favor!
Não havia poker face boa o bastante para esconder o assombro no meu rosto.
Foi como se ele tivesse estado dentro da minha cabeça, lendo meus verdadeiros pensamentos por trás de cada palavra dita. Que tipo de homem Crane é se consegue ter sensibilidade suficiente para decifrar uma mulher? Perfeito? Não pode ser. Ele tem que ter defeitos. E tem, ele é possessivo, ciumento e te trouxe para o mesmo lugar onde trás todas que pega. Quer erro mais grotesco e masculino que esse?
Abro a boca para lhe responder, mas uma figura conhecida atravessa meu campo de visão por cima do seu ombro.
— Puta merda. — murmuro.
As íris azuis à minha frente seguem o trajeto dos meus olhos e antes que ele se vire, impeço-o com uma das mãos no seu rosto.
— O que foi?
— Uma amiga antiga da minha mãe está se sentando bem ali. — observei apreensiva a mulher na faixa etária de mamãe, cabelos castanhos, curto e bem penteado, postura fina e elegante. — Espero que ela não me reconheça. Já faz um tempo que não nos vemos pessoalmente.
Mal disse isso nossos olhares se cruzaram e ainda que eu tenha desviado rapidamente meus olhos, percebi quando ela se levantou e vinha em nossa direção.
— Minha nossa! Mira. — vocifera de braços abertos e sorriso rasgado ainda antes de chegar à nossa mesa.
Fui forçada a sorrir de volta e me levantar para abraça-la. Ela me sacudiu de um lado para o outro, quase me sufocando contra seu ombro.
— Você está divina. Sempre disse: aquela garota foi feita à pincelada. — e de fato é a frase que associo à memórias que tenho dela — O que faz aqui? Sua mãe está com — seus olhos passaram pela mesa e ao encontrar Crane no cenário sua voz sumiu e a mão que ela ainda tinha sobre a minha se fechou em busca de apoio que tive de proporcionar, segurando todo o peso do seu corpo — Meu Deus!
— Mamãe não veio comigo. Está trabalhando. — respondi à questão que ela parecia já nem se recordar ter colocado.
— E quem é este?
Crane se levantou, pegando uma de suas mãos e beijando. Como ele conseguiu tornar aquilo um sinal de respeito até mesmo pela diferença de idades eu não sei, mas conseguiu e resultou. Sofia está completamente derretida antes mesmo dele abrir a boca.
— David Crane. É um prazer.
— Sofia Dias.
Pareceu voltar a se recordar da minha presença quando percebeu que ainda estava apoiada na minha mão.
— Fiquei sabendo que estava namorando, mas não imaginei que fosse um galã de cinema. — riu, sugestiva.
— Ah, não. Provavelmente está falando de Lukas. Já não estou com ele e Crane e eu somos só amigos.
Somos? Não consigo nos ver encaixando em nenhum rótulo que não seja aluna e professor ou deus grego e uma das várias que babam por ele. Ainda que eu já tenha tido aqueles lábios tentadores me beijando, os olhos azuis claros me fitando como se eu fosse o centro do universo e as mãos e o corpo junto do meu, não deixo de sentir um distanciamento absurdo entre nós. Tanto quanto uma estrela do rock pode estar inalcançável para uma fã mesmo depois de dar uns pegas nela nos bastidores.
— Lukas, o loirinho que esteve sempre apaixonado por você?
Ela está com a mesma cara de quem se questiona "tem certeza?" com que minha mãe me analisou quando contei que estava namorando meu melhor amigo.
— É, não foi uma boa ideia. — admiti, envergonhada por Crane estar ali para presenciar aquilo.
— Sabe que fui eu quem sugeriu o nome Mira? — se virou para ele, me puxando mais para perto.
Ah, essa história não. Quis interrompe-la, mas além de que não adiantaria pois ela retomaria o tópico, seria rude. Aguardei impaciente que o momento passasse e que ele não desse a mínima para a teatralidade dela.
— Ai sim? — Crane encenou interesse ou então realmente estava interessado, com ele nunca se sabe.
— Sim. Mira em espanhol significa "olha". Quando ela nasceu eu soube que ela seria digna de ser vista por todos, quantos mais olhos sobre ela melhor. Minha mãe sempre disse que um nome tem força e pode traçar o futuro da pessoa. Portanto, Mira foi o escolhido. Uma boa escolha, não acha?
Ela praticamente me exibia como um daqueles nacos de carne pendurados do lado de trás do balcão da delicatessen.
— Ela é qualquer coisa de cativante. — acrescentou.
— Não consigo imaginar um nome mais adequado para ela. — Crane articula, seus olhos sobre mim em aprovação e com a tal energia entre nós fluindo mais tangente do que eu gostaria.
Meu corpo esquentou e a pulsação acelerou. Há cinco minutos atrás eu estava determinada a sair do estabelecimento e não voltar a deixá-lo ser mais do que um professor do meu último ano e agora eu quero estar o mais próxima possível para prolongar a sensação de ser vista e desejada por um homem como ele. Não é bonito ou tem um significado especial como Sofia acredita que meu nome tem. É só uma grande merda na qual estou me metendo.
— Nada menos do que tratamento digno de uma princesa, hein. — Sofia está sorrindo, mas seus olhos têm seriedade — Se for assim terá a minha aprovação. Vou deixá-los agora. — anunciou, me apertando contra si novamente — Temos que marcar um piquenique como aqueles, nós três. — piscou o olho, afagando minha face de forma maternal.
Não era justo que uma das pessoas que mais me apoiou na pior fase da minha vida agora fosse deixada de parte por me recordar os momentos difíceis que vivi. Me senti péssima e disposta a mudar isso.
— Vamos fazer isso. — assegurei.
— Espero vê-lo mais vezes, garotão. — deu duas pancadinhas no ombro de Crane e regressou à sua mesa.
— Desculpa por isso. Ela é mexicana e eles vivem tudo com paixão e um pouco de drama para apimentar.
— Foi da vivência com ela que surgiu a Mira personagem de novela mexicana que conheci no dia das apresentações?
Não pude evitar rir.
— É que os brasileiros acabam por ser muito bons em novelas também. É difícil fugir quando a corrente vem de todos os lados. — dei de ombros.
Ainda estávamos de pé, nas extremidades da mesa, e aos poucos o fantasma do nosso assunto anterior que fora interrompido pelo furacão Sofia Dias, começava a se materializar.
— Vamos conversar fora daqui. Pode ser?
— Sim. — anuí.
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