Notas iniciais
Daqui está me parecendo um capítulo gigantesco, mas talvez seja só impressão minha. Eu queria encerrar por aqui esse "tópico" da história e ficar dividindo renderia esse capítulo e ainda mais outro. Assim já fica concluído

Vesti o casaco e peguei minha bolsa enquanto a alguns metros Crane falava com o mesmo funcionário que tinha nos recebido. Quando parei ao seu lado ele já estava guardando o cartão dentro da carteira que enfiou no bolso da jaqueta de couro.

— Eu trabalhei no verão e sou ótima em gerir meu dinheiro para que ele dure até o próximo verão. — informei.

— Eu te convidei. Eu pago. É assim que funciona.

Não discuti. Não sei se queria deixar meu dinheiro no lugar onde ele levava as mulheres que pegava. Meu ego que havia sido cutucado e não gostado nada se aliava ao meu orgulho, na dupla que me torna na Mira mais tóxica e sarcástica que já se viu.

O andar de baixo já não estava tão lotado como quando entramos e consegui caminhar lado a lado com Crane, tendo uma visão em primeira mão dos olhos de algumas mulheres seguindo-o pelo percurso. Minha irritação estava de volta num ápice e ao sair para o ar gelado da rua meu corpo estava quente o bastante para nem reagir.

Entramos no carro e Crane arrancou pelas ruas comigo calada no banco do passageiro, bem diferente da vinda para cá.

— Está me dando o tratamento do silêncio outra vez?

— Não. Sinta-se livre para começar um diálogo em cima do fato de eu estar ocupando o acento ainda quente da última mulher com quem você foi para cama. E quer saber? Eu vou lá para trás. — retirei o cinto, me contorcendo para a traseira do jipe.

O olhar atônito de Crane pelo retrovisor está intercalando a atenção entre mim e a estrada.

— Eu fiz merda outra vez ao te levar naquele lugar. Reconheço. Não pensei bem. Era próximo e imaginei que fosse gostar do menu, eu realmente não tive intenção... — a frase morreu à meio quando ele não foi capaz de concluir o pensamento.

— Não teve intenção de me tornar parte do seu menu de carne feminina. — me adiantei, fazendo-o por ele.

— Eu não tenho menu algum. — manobrava entre as dezenas de táxis ao nosso redor — Não sei de onde tirou isso.

— Não tem uma lista de mulheres no seu celular à quem recorrer quando quer transar?

Silêncio. Foi o que eu pensei.

— Isso é um menu. — esclareci — Hoje eu fui o prato da vez. E por que é que não me importaria de estar sendo levada para o mesmo lugar onde você levava todas as outras que estava pegando?

— Porque você não parece se importar com as outras.

— O que isso quer dizer?

Estou tão irritada que mal as palavras saem da minha boca quero que ele me apresente uma resposta satisfatória o suficiente para saciar minha ânsia por sua cabeça numa bandeja.

— Que me pareceu segura o suficiente para não dar a mínima se já tinha estado ali com outras.

— Está me testando? — a hipótese é-me apresentada e logo a estou expondo.

Crane abriu a boca, mas nem uma palavra saiu. Ele estava refletindo e isso me fez crer que a resposta fosse positiva.

— Não intencionalmente.

— Que jogo doentio é esse? Você até pode ser um dos poucos exemplares de deus grego pisando sobre a terra, mas eu não estou disposta a pagar o preço para te ter. Se está convencido disso pode esquecer.

— Não estou. Sei que a qualquer momento pode escapar pelos meus dedos e será como se eu nunca tivesse tido nada seu.

— Estou te ouvindo, mas nada está melhorando seu filme comigo. Sempre te achei arrogante, um tanto grosseiro e mal te beijei descobri que é também ciumento, possessivo e tende a fazer birra quando as coisas não são do seu agrado. E eu não me importei porque eu também não sou um amor de pessoa, alguns diriam que problemática e até fria. Mas um babaca? Esses eu não tolero.

Estou de braços cruzados ao peito, meus olhos postos no mar colorido de carros novinhos em folha, outros caindo aos pedaços, ônibus e por vezes alguns ciclistas corajosos, que movimentam as ruas de Nova Iorque. Cidade onde pretendo morar ainda no próximo ano.

— Pára o carro. Eu quero sair. — aviso.

Meu corpo teria deitado por completo nos acentos livres da traseira não fosse pelo cinto me mantendo no lugar quando Crane cortou para uma rua fora da principal que nos levaria para casa e colocou o carro em ponto morto, se virando para trás.

— O que está fazendo?

Olhei o trânsito se fechando na avenida agora atrás de nós. Poderíamos facilmente levar meia hora para conseguir que alguma alma benfeitora nos deixasse entrar na fila de carros.

— O que você está fazendo? O que quer dizer com isso? Está me dando um pé na bunda? — horror molda seu rosto tornando-o quase digno de uma compaixão que eu deixei de ter há já dois anos.

Tal como ele fizera, opto pelo silêncio, deixando-o responder por mim.

— Volta pra cá. — pediu, apontando o lugar do carona.

— Eu não quero sentar uma segunda vez onde outras mulheres com quem você transou já estiveram e com você do meu lado ainda por cima.

— Elas não estiveram aqui.

Estiveram onde então? Lentamente a imagem de mulheres semi nuas e ofegantes nos bancos de trás do Jipe pintaram na minha cabeça e meu corpo se retesou, desencostei do assento, meus olhos medindo o espaço mais que suficiente para albergar dois corpos se movimentando. Por que outro motivo um cara solteiro teria um jipe tão espaçoso?

— Eu vou pegar um táxi. — me desvencilhando do cinto.

— O que? — choque o define.

Escuto-o se livrar do seu cinto também e no momento em que minha mão chega ao manípulo da porta sou travada pelos seus braços fechando minha cintura.

— Que porra está acontecendo? Pelo menos fala direito comigo e me escuta. Eu mal abri a boca e você já está caindo fora.

Ele está atrás de mim, tão perto que sua respiração está aquecendo minha nuca e seu calor corporal me engolindo. Não consigo raciocinar em condições desse jeito.

— Primeiro me solta.

— Não vai fugir?

— Se eu quisesse mesmo fugir você não conseguiria me impedir. — suspirei.

Seus músculos se contraíram quando ele começou a rir, meu corpo ansiou por um contato maior, mas fui liberta do seu aperto.

— Que garota impossível! — balbuciou.

Girei, encontrando-o com o pescoço repousando na borda do acento, a cabeça deitada para trás e uma mão sobre a testa, o corpo parcialmente prostrado, como se estivesse se rendendo.

— Como pode estar questionando que porra está acontecendo quando eu acabei de te dizer? Se não consegue ter empatia porquê não se incomodaria se de repente eu te convidasse pra sair e aí te levasse pra um lugar onde eu costumava ir com vários outros caras, então bom para você e seu sangue de barata. Mas eu não sou assim. Não estou te pedindo exclusividade e não vivo num conto de fadas, ainda assim tenho limites. Queria me testar para conhecê-los? Aí está um deles. Não volte a ultrapassa-lo. — eu havia desbobinado tudo aquilo como quem ralha com uma criança que acabou de incendiar um quadro de Picasso, estava precisando recuperar o ar e a compostura — Não posso ser mais clara do que isso.

Crane parecia acuado e tão cedo eu não veria alguém do tamanho dele se deixando abalar por uma garota de metro e sessenta. Ou eu realmente havia soado tão assustadora como agora me parecia?

— Eu me importaria e muito se me levasse pra um lugar onde tivesse estado com outros caras. Te testar não foi algo que bolei de antemão. Preferia não ter visto esse limite. Acredite! Mas sim, parte de mim queria saber até que ponto você se importa. — tomou fôlego antes de continuar — Não foi a única que já foi traída. — sua voz é baixa e carregada de mágoa.

Quem trairia um homem desses? E com quem? Realmente não imagino homem algum mais completo do que o moreno de olhos azuis ao meu lado. A não ser que ela o tenha deixado pelo mesmo motivo que estava me levando a abandonar o barco antes mesmo dele zarpar. A minha vontade era berrar se ele tinha sido um idiota com ela também, mas me contive, optando por ser civilizada.

— Por já ter sido traído e ao pensar na possibilidade de eu te fazer o mesmo você quis se antecipar e desferir um golpe primeiro.

Crane esfregou a testa com vigor, perturbado.

— Quando é dito em voz alta parece ainda pior. — emendei.

— A verdade é que eu não estou pronto para me relacionar com alguém. — olhei-o, um frio se instalando na barriga.

Então agora esse maldito é que vai me dar um pé na bunda? Minha fúria começava a borbulhar novamente.

— Não posso pagar pelo erro de outra mulher.

— Eu sei. Porra! — frustração se manifestando — Sei muito bem.

— Olhando assim parece até que está inseguro. — revirei os olhos.

— É patético, mas estou. — resmungou.

— Não está. Você é perfeito.

— Eu não sou perfeito, Mira. Não acredite nisso, não sou o que toda mulher deseja.

— Mas é claro que é. E tem todo um restaurante e um colégio com centenas de garotas para confirmar isso.

— Você só está pensando no meu corpo.

Nossas cabeças estão finalmente à mesma altura e seus olhos estão fixos nos meus.

— Você tem noção do seu efeito sobre as mulheres. É impossível que não tenha.

Ele se endireitou no acento e sua altura e músculos roubaram o foco.

— Sim, eu tenho. Sempre fizeram questão de deixar isso bem claro e eu estaria mentindo se te dissesse que nunca tirei proveito em algumas situações. Mas isso não me torna perfeito, chega uma hora que o corpo não é mais o suficiente. Isso é uma das poucas coisas que se diz por aí na qual você deve realmente acreditar e ter em conta. Principalmente porque você também tem tudo o que os homens querem.

— Alguns homens.

— Sem essa. Qualquer homem. E o fato de você não se aperceber disso é problemático.

— Não vamos tornar isso sobre mim. — endireitei meu corpo no acento, deixando de o olhar — O você quer?

— Quero você. — refutou — E porque mesmo que vá eu vou continuar com você o tempo todo no meu pensamento. Quando você está aqui pelo menos eu me sinto menos esquisito. — deslizou as mãos pelo rosto, esmorecido — Se eu não consigo parar de prestar atenção em você, nem de pensar em você e quero saber o tempo todo o que você tem a dizer, por que não te querer na minha vida? Se ainda me quiser também eu peço que não vá embora.

Não ouse achar isso a coisa mais enternecedora que já lhe disseram. Aquele bilhetinho anônimo na sétima série foi bem mais profundo, ele citou Shakespeare. E Lukas foi doce e ternurento durante todo o namoro, exceto quando te chifrou. Crane vence pela autenticidade. Há a chance dele ser um ótimo jogador, bom o bastante para conseguir contornar minha leitura e estar disparando uma mentira atrás da outra. Só não é isso que minha intuição está sintonizando.

Ainda que eu tente me distrair Crane está como pano de fundo 24 horas por dia na minha mente. Nem mesmo as garotas que escrevem o nome dele nas paredes e portas do banheiro parecem tê-lo na cabeça o dia todo como eu tenho tido.

Torço apenas o pescoço para encara-lo. Seus olhos me transmitem firmeza, ele não tem dúvida alguma do que está falando. Acho que nada que sai da sua boca não foi antes plantado e assegurado.

— Que droga! — escondi o rosto nas mãos — Por que você tem que ser fofo?

— Fofo? — está reagindo como se nunca o tivessem associado a tal característica e menos ainda verbalizado isso.

— Eu também estou em choque. — arqueei uma sobrancelha.

Sua expressão se suaviza para num piscar de olhos endurecer outra vez.

— Nunca transei com nenhuma garota no meu carro. Sequer dava carona porque isso já implica uma certa intimidade.

— Porque esse jipe espaçoso então?

Observei-o tirar o celular do bolso, deslizar os polegares sobre o ecrã tátil e depois me apanhar desprevenida ao me entregar o aparelho.

— O que está fazendo?

— Respondendo à sua pergunta.

Empurrou o celular para as minhas mãos. Olhei a tela e um sorriso se rasgou, seguido de uma gargalhada num misto de alívio e embaraço por eu ter ido tão longe a ponto de confronta-lo com dúvidas que deveriam ter sido internas. Afinal e daí se ele já tivesse transado ali? Eu não posso apagar nada do que já foi feito no seu passado.

— É. Ele parece ocupar bastante espaço. — admiti, ainda observando a fotografia de Crane com um labrador golden retriever, extremamente fofo e com ar sapeca.

É de derreter o coração. Não só a fofura do animal, mas aquele seu lado que eu ainda não havia visto. O Crane da fotografia é um desconhecido para mim, a camiseta suada no colarinho, o boné amassando seus cabelos, o ar descontraído moldando seu rosto e revelando o homem de vinte e seis anos.

— Se eu ficar tenho chances de conhecê-lo?

— Quando quiser.

— Fechado. — devolvi-lhe o celular.

— Então você está topando ficar pelo meu cachorro?

Ri pela expressão confusa e espantada no seu rosto.

— O cachorro é encantador e também adoraria conhecê-lo, mas eu estou falando do homem que está nessa fotografia.

— Ele não é muito sociável, mas pode abrir uma exceção para uma garota que ferve em pouca água.

— Eu ainda quero te matar um pouquinho. — desabafo.

— Eu sei.

— Ótimo.

Notas finais
Postar ou não um extra no dia dos namorados?