Atenciosamente, Crane
11 Capítulo 11
Notas iniciais
POV Crane
— Você é um cretino, 'tá ligado? — a loira gritava a medida que ia catando pelo chão as peças de roupa, vestindo-as aos tropeções.
Cruzei os braços, impaciente.
— Sim, 'to ligado. — fiz questão de responder me servindo do seu sotaque russo para insulta-la — E estou pouco me fodendo. — funcionou, ela parecia capaz de me esfolar.
Honestamente não achei que ela fosse ficar tão irada já que estaria saindo com dois orgasmos na bagagem enquanto eu ficaria a zero naquela noite.
Atirei sobre a cama dinheiro suficiente para que ela conseguisse um táxi e vesti a camisa no trajeto do quarto até a sala.
— Eu não sou uma prostituta. — corria para me acompanhar — Enfia esse dinheiro no... — sua voz some e sua valentia falha quando me viro para encara-la, o rosto e o colo do peito estão vermelhos e percebo que havia tesão oscilando pelo seu corpo.
Faz sentido que ela esteja tão de cara. Eu estou sendo um filho da puta com ela e, no entanto, seu corpo continua reagindo de forma receptiva. Constatar isso deveria inflar meu ego. Mas não aconteceria porque havia cinco meses que eu enxergava mulheres unicamente como uma fonte de prazer e poço onde eu poderia de alguma forma aliviar a tensão diante da qual eu lutava diariamente para não ceder.
Grande parte dessa tensão deixo na academia, no saco de areia que recebe religiosamente os golpes precisos e movidos à raiva, com o ódio entranhado nos ossos servindo como resistência para soca-lo por horas seguidas. Levantar peso, correr, combater, tudo isso é necessário para manter a minha saúde mental estável.
E eu sentia os efeitos nos músculos que haviam dobrado de tamanho. Agora eu não tinha mais nem a mesma aparência de antes. Não havia como ou porquê tentar manter vivo o cara que vi no espelho nos últimos vinte e seis anos. Ele se foi juntamente com o lixo tóxico das pessoas que ele escolheu dar uma importância que não mereciam. Aquele cara sim teria agradado a mulher à minha frente, bufando de raiva, exalando excitação.
Contudo, se eu a jogar em cima da mesa seu corpo irá traí-la, se entregando tal como aconteceu depois de ela me olhar surpresa e desagradada quando não a deixei prolongar as carícias pelo meu corpo e anulei todas suas tentativas de romantizar o momento, e ainda assim ela cedeu mal toquei seu corpo, afinando-o como um instrumento para poder extrair dele a melhor melodia. Pode até ser que eu não tenha completado a sinfonia, mas orquestrei dois atos completos. Mesmo sabendo que eu não mereço um segundo sequer da sua atenção, que dirá seu corpo, era bem perceptível que parte dela desejava que eu voltasse atrás e finalizasse o que tinha me comprometido a fazer.
— Continue. Termine o que ia dizer. — zombei, puxando a carteira do bolso do casaco e tirando mais uma nota que estendi à frente do seu rosto — Estou literalmente pagando para ver.
Ela deu dois passos para trás, os olhos azuis bem abertos e sem dúvida tendo um vislumbre de quem eu realmente sou. Algum tipo de monstro que no fundo anseia ferir qualquer pessoa da mesma forma que fizeram com ele. Não é bonito, é uma anarquia interna onde a cada dia acredito mais que perdi a minha alma.
Por fim, Lana, contornou meu corpo e abriu a porta do apartamento, seus sapatos me alertando de cada metro avançado na direção dos elevadores. Houve uma pausa e pouco antes do tilintar agudo informando da chegada do elevador ela ergueu a voz para mim.
— Merece uma garota tão fodida quanto você.
Provavelmente ela está certa. Difícil será existir uma garota assim.
Vinte minutos após a partida teatral da loira que deixou seu perfume excessivamente doce por onde passou, agora recebia na porta do apartamento Malcolm.
— E aí, o que é assim tão importante que não podia esperar até amanhã? — soltei a porta, indo até o balcão da cozinha para terminar minha cerveja.
Ele passa a mão duas vezes pelos cabelos raspados ao fechar a porta e reconheci seu tique nervoso. Se debruçou sobre o mármore, do outro lado da bancada.
— Charlotte estava grávida. — desembuchou, baixo e ligeiro.
— Estava? — tomei um gole direto do gargalo da garrafa.
— Ela fez um aborto. Já faz quatro meses, mas só agora descobrimos. — explicou, penoso.
— Entendi.
Seus olhos se estreitaram e ele se endireitou, me medindo com minúcia.
— Você já sabia. E mesmo assim largou tudo.
— Já. — e se você soubesse quem era o pai me daria razão.
— David, que merda aconteceu entre vocês para tudo ter terminado com a terceira guerra mundial armada?
— Foi para isso que fez questão de vir até aqui pessoalmente? Perdeu seu tempo.
Terminei a cerveja e abri a geladeira em busca de outra, dando de caras com a grade vazia. Não consigo sobreviver a um confronto com meu passado que mal enterrei, já irrompeu alguém querendo desenterra-lo, sem um pouco de álcool para facilitar.
— Eu preciso saber. Não acha que tenho esse direito como seu irmão?
— Pergunta à mãe. — qualquer coisa que o faça ir embora para que eu possa encontrar o bar mais próximo que ainda esteja aberto a essa hora.
— Me vê uma daquelas bebidas azuis. — a voz doce e melodiosa chamou minha atenção não só por ser uma carícia aos ouvidos depois de horas tendo os tímpanos bombardeados pela música eletrônica, mas sobretudo por não parecer pertencer àquele lugar.
Olhei-a através do espelho atrás do barman. Uma cascata de cabelos negros com caracóis definidos e encorpados cobria sua face, caindo pelo ombro esquerdo e se esticando até sua cintura. Ela estava debruçada sobre o balcão, cotovelos apoiados no vidro, a cabeça sustentada pelas mãos debaixo do queixo, prefigurando tédio e instabilidade tanto quanto beleza.
Um meio sorriso adornou seus lábios quando o garçom dispôs o copo alto com o líquido azul à sua frente, e de pronto sumiu com a revelação do preço da bebida.
— Vinte e um? Não quer dizer sete?
— Vinte e um, gatinha. A idade que você tem que ter para beber. — lançou, sarcástico e sorrindo vitorioso ao ver surtir efeito — Vai pagar ou largar?
Sua boca se abriu e algo nela gritava que ela não leva desaforo para casa. Interrompi, tomando sua vez de responder. Deslizei duas notas de vinte até o garçom que me ofereceu um olhar digno de um estraga prazeres ao me devolver o troco.
— Eu não vou pra cama com você se esse for o seu plano.
Está voltada para mim, a bebida nas mãos delicadas livres de qualquer anel de compromisso. Sua pele é escura com um fundo dourado lhe dando um ar quente, como se ela precisasse de uma junção de características extravasantemente belas para chamar a atenção. Eu podia ver pelo canto do olho no mínimo mais dois sujeitos aguardando que minha conversa com ela encerrasse para que eles pudessem tentar a sorte deles. O que me fez querer retê-la ali a noite toda. Claro que era esse o motivo e não o fato de eu estar envolvido por uma garota pela primeira vez desde que toda aquela merda foi despejada sobre mim.
Seu rosto é redondo, os olhos apesar de levemente entorpecidos pelo álcool são grandes e de um castanho chocolate realçado pelo preto nas pálpebras, os cílios tão longos que quando ela me fita assim, de baixo para cima, eles encostam na parte debaixo da sobrancelha bem delineada. A vermelhidão na ponta do nariz, redondinho e pequeno, de botão começa a superar seu tom de pele, se tornando mais visível. Soube que em algum canto daquele recinto impessoal, carregado de álcool, feromonas, perfumes enjoativos e suor, ela havia chorado, provavelmente por algum babaca como aqueles que estavam feito urubus, rondando.
Uma garota de coração partido é sempre uma presa mais fácil. A esta hora, com a balada no pico da noite, costumam já estar debaixo do ombro de algum cara ou com as bocas ocupadas demais para conversas. Entretanto, aqui está um belo exemplar, perambulando livre e obstinada com ar de mocinha e um olhar de quem parecia saber algo que todas as outras não sabiam.
Ela não deve ter mais que vinte anos tal como o barman deduziu. O que se faz com vinte anos de vida? Perde-se mais de metade sendo estudante, obedecendo regras da escola e dos pais. Então onde essa garota pode ter estado para exibir um olhar como este?
— Mulheres bêbadas não fazem parte dos meus planos. — rebato tempo suficiente depois para já vê-la transparecer alguma impaciência ou tédio.
— É, eu estou bêbada. É aceitável quando se comemora dezoito anos de uma grande mentira. — ergueu o copo depois de sugar pelo canudo um pouco da bebida e fazer uma cara de quem acreditava que aquilo teria um sabor melhor.
Me peguei sorrindo, assistindo seus trejeitos e expressividade.
— O que é uma grande mentira? — inquiri, não tendo a certeza se ela ficaria aqui tempo suficiente para responder sequer.
Ela transmite uma energia de furacão ou qualquer outra força da natureza impossível de conter ou prever que caminho irá tomar.
Sem olhar para mim, pois estava mais interessada em girar o canudo dentro do copo, ela se recostou no balcão e respondeu.
— A vida é uma grande mentira. Bom, a minha pelo menos é.
Não esperava que o que quer que saísse da sua boca fizesse sentido e menos ainda que fosse algo com o qual eu iria me identificar.
— Somos dois. Mas aos meus dezoito anos eu ainda acreditava que minha vida era perfeita e que eu podia controla-la.
— E com que idade ela te bateu onde mais dói?
— Aos vinte e seis.
— Ah! — um sorrisinho me deu o vislumbre dos dentes brancos e alinhados
— É por isso que você parece ter bem mais que vinte e seis agora.
— Está me dizendo que pareço velho?
— Não é sua aparência. Você é um filho da mãe quente como o inferno, mas tem esse olhar de alma atormentada. Moreno sombrio. É tentador, mas hoje não, obrigada, Lúcifer.
Acabei gargalhando, estupidamente deliciado com a conversa mais natural que tinha com uma mulher em meses, e estava sendo tão inusitada quanto sua presença.
— Diz sempre tudo que pensa ou apenas quando tem álcool nas veias?
Ela deu de ombros, bem séria, mas ainda assim me aprisionando na energia mais leve e revigorante que eu já tinha experienciado.
— Quando estou sóbria filtro tudo. Afinal há vários momentos nos quais a minha opinião pouco importa.
— Tem a certeza que está completando só dezoito anos?
— Para a falar a verdade eu completei dezoito anos há dois meses, mas só estou comemorando hoje.
— Por algum motivo em especial?
— Disponibilidade. — apoiou um cotovelo sobre o balcão, novamente de frente para mim — Onde está seu brinquedinho para essa noite? E não diga 'bem à minha frente' porque eu tenho uma direita que merece um óscar.
Era impossível não querer sorrir, mas por uma questão de auto preservação estava me esforçando para me manter tão sério quanto ela.
— Sem brinquedinho para essa noite.
— Ah, qual é? — não caiu por um segundo sequer na minha mentira — Pode ser sincero. Não vou te considerar um cretino.
A russa não voltaria e repeti-las não é o que tenho em mente de qualquer forma. Minha nova companhia seria uma garota que estaria na cidade por dois dias.
— Ela está atrasada. — admiti.
— Você deveria tê-la buscado e pelo menos fingir se importar mais. Agora ela pode nem aparecer.
— Ela vai aparecer sim.
— Você é assim tão bom?
Sorri, bebendo o whisky e optando pelo silêncio. A batida eletrônica morreu e uma música pop foi preenchendo o estabelecimento, levando-a a se recordar de algo. Foi isso que pareceu quando sua feição ficou sisuda. O que por outro lado me fez ver que ela também estava se divertindo com a nossa conversa, até aquele instante.
— Obrigada pela bebida, moreno sombrio. — desceu do banco — A gente deveria fazer isso mais vezes.
— Como posso voltar a te encontrar?
— Não pode, mas caso encontre não volte a me perder de vista. — riu, se afastando.
Girei sobre o banco alto, acompanhando-a com os olhos.
Os scarpins pretos clicavam lenta e preguiçosamente a pista de dança enquanto suas coxas descobertas e a silhueta curvilínea é cobiçada pelos sujeitos que ainda não haviam fisgado nenhuma pobre coitada que levariam pra cama ou qualquer outro canto onde pudessem transar e ficarem bem resolvidos pela noite. Mal sabem que ela não é uma destas pobre coitadas e que é impetuosa o bastante para perfurar a virilha do próximo que dançasse a cercando. Sam Smith canta "Você diz que sou louco porque pensa que não sei o que você fez" e a sua voz repete o mesmo, acompanhando-o.
Pela intensidade com que ela cantava e as expressões genuínas diria que ela o está fazendo num timbre afinado e melódico.
Me debatia com o impulso me incapacitando de tirar os olhos daquela garota pequena em comparação às muitas outras altas e magras, com porte de super modelo e que só pisavam a pista de dança quando o ritmo lhes permitia exibir seus corpos. Ela não é nada assim. Fisicamente seu corpo me agrada muito mais, e pelo que vi e ouvi apostaria que emocionalmente ela se distancia ainda mais das restantes mulheres ali presentes. Tem sua própria órbita, e é tão intensa que faz aqueles imbecis rotacionarem ao seu redor crentes de que eles são os caçadores e ela a caça. Ela está mais para sereia devoradora de homens do que para a princesinha indefesa que aparenta ser.
Estaria mentindo se dissesse que não sou um desses imbecis. A diferença é que consigo manter o auto controle e não me reaproximar, ela claramente não está numa noite boa e ainda que estivesse ela tem encrenca escrito por toda a parte. Resistir e manter a distância de uma garota assim é sobrevivência. E eu sobreviveria àquela noite desde que não voltasse a vê-la.
Nada nunca está tão ruim que não possa vir a piorar. Comprovei isso na manhã de segunda-feira, no meu primeiro dia substituindo uma professora de literatura do Colégio Jane Austen.
Não podia ser. Eu estava em completa negação, observando a garota na quarta fileira de carteiras individuais, no rumo da minha mesa, onde eu conseguia uma pequena brecha entre as várias cabeças para ver parcialmente seu rosto. Eu acabaria mais tarde arrastando a mesa alguns centímetros bem calculados para a direita de forma a vê-la melhor. Quando depois da declaração mais melosa feita pelo aluno do lado ela simplesmente se levantou, juntou os materiais e saiu como se fosse vomitar, não me restou dúvida que era a mesma garota de sábado à noite.
Ela não deu sinal algum de se recordar de mim ou era ótima atriz. Foi unicamente com o intuito de desvendar se ela estava fingindo ou sendo autêntica que durante o intervalo me aproximei dela bem a tempo de presencia-la amassando um envelope do dia dos namorados e passar por cima da rosa caída aos seus pés.
— Se não fosse esse rostinho qualquer um diria que tem um coração de pedra.
Os olhos de boneca se mantiveram presos aos meus de forma petulante e sua expressão não vacilou nem por um segundo. Bem diferente do nosso encontro no bar no sábado, sua resposta não veio. Ela está na defensiva.
Me abaixei e recolhi a rosa de pétalas peculiarmente negras e voltei a encara-la. A parte da frente dos seus cabelos estavam puxadas para trás, revelando mais seu rosto e como ela era ainda mais linda longe das luzes coloridas da balada. Os lábios em especial, um desenho meticulosamente desenvolvido com direito ao arco do cupido mais perfeito que já vi. O tom da pele é canela e aparenta uma suavidade que é difícil não ansiar sentir.
— Como abandonou a aula antes mesmo dela ser iniciada e de uma forma tão artística me parece acertado que tenhamos uma conversa para evitar futuros atritos.
Seus olhos cresceram e quando ela estava prestes a fluir qualquer emoção que fosse, de uma hora para outra cortou o fluxo e sua expressão estacionou no modo diplomático.
Deveria ter dado ouvidos quando ela alegou que não seria necessário. Deveria ter mantido a distância e não perseguido a primeira emoção boa que me visitava. Deveria ter me limitado a observa-la, aceitando que ela sequer se recordava de já ter se esbarrado comigo. Mas não. Na minha cabeça uma garota como ela deveria estar desfilando em qualquer outro lugar e não perambulando pelos corredores do colégio, testando meu auto controle, roubando minha concentração e invadindo minha mente nas horas vagas. E eu soube desde o primeiro olhar que trocamos que acabaríamos assim.
— Mais calma? — pergunto, a culpa por pedi-la para ficar sabendo que eu a arrastaria para toda a merda na minha vida, me assolando.
— Não se você continuar me perguntando o mesmo a cada quinze minutos.
Se ela soubesse o que fiz e vivi antes de estar aqui, isolado, tendo somente à ela, será que continuaria por perto? O medo da resposta à essa maldita pergunta dita cada passo que dou, dorme e acorda comigo e estranhamente só desaparece quando sinto sua pele e o gosto enlouquecedor dos seus lábios.
É, eu sei que deveria jogar tudo pro alto e ir embora. Uma vez desistente, sempre desistente, não é assim? Só que no diz respeito à Mira isso subitamente deixa de fazer parte da minha natureza. E eu realmente não queria voltar a perde-la de vista.
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