Atenciosamente, Crane
12 Capítulo 12
Notas iniciais
— Mais calma? — questiona.
— Não se você continuar me perguntando o mesmo a cada quinze minutos.
Ele coçou a nuca. Estava tão perdido quanto eu. Não tenho ideia do que estamos fazendo.
— Quero ter a certeza que não vai desviar do caminho quando se cruzar comigo no colégio.
Tirei o cinto e me acomodei no seu colo, uma perna de cada lado, confinando-o entre as minhas coxas. Ele inspirou fundo, deitando a cabeça para trás com uma expressão de quem está sofrendo.
— Não sou assim tão pesada. — resmunguei.
— Mas se ser gostosa pesasse eu estaria sendo esmagado. Não pode voltar a se esfregar em mim daquele jeito. — beijiei seu pescoço, aproveitando que ele o deixava à minha mercê.
— Por que não? Não é bom? — movi os quadris e suas mãos agarraram minhas coxas, me contendo.
Seu rosto finalmente ficou ao mesmo nível que o meu e ele ainda parecia estar em sofrimento, as palavras saíam meio entre dentes e sufocadas.
— É bom pra caralho. — os músculos no meu ventre começavam a ter uma reação instantânea à sua voz quando ela se tornava mais áspera e excitada — Por isso não pode voltar a acontecer. Eu não quero perder o controle.
— Tudo que consigo pensar é que não me beijou em condições hoje.
Ele sorriu, passando a língua pelos lábios antes de me beijar. Tirei máximo proveito do raro momento em que nossas alturas estão equiparadas. Enterrei os dedos em meio aos cabelos sedosos e entrei em combustão com o toque da sua língua, meu sangue parecia lava. Suas mãos subiram das minhas coxas para os quadris e ao chegar à cintura sua mão teve contato direto com minha pele por baixo da blusa. Me arrepiei, me contorcendo. A boca de Crane foi para o meu pescoço e sua barba arranhava de leve a minha pele enquanto suas mãos iam abrindo caminho debaixo da minha blusa até alcançar a borda do sutiã. Então ele parou e se afastou, pressionando as mãos somente nas laterais dos meus seios, fazendo-os se tornar bem evidentes através da caxemira da blusa. Só me dei conta que estava movendo os quadris quando suas mãos desceram e apertaram, me travando.
— Não vou transar com você assim. — puxava o ar com força.
— Como assim? — apoiei as mãos no seu peito e seus músculos endureceram.
— Na rua, dentro de um carro, de qualquer jeito e por impulso.
— Agora já tem medo que alguém nos veja?
— Não costumo me lembrar do mundo quando me olha assim.
— Então qual é o problema?
— Não quero te assustar.
Ergui as sobrancelhas.
— É assim tão grande?
Sua gargalhada apenas me deixou mais excitada e inquieta. Estava tentado me mover, mas suas mãos me tinham bem presa. E por algum motivo sádico minha mente delirava com a capacidade dele me conter e ainda assim me deixar mais a fim.
— Eu não sei transar sem que o cara da fotografia apareça. E eu acho que ele pode te assustar.
Eu continuava ardendo de desejo, cada célula do meu corpo gritando pelo seu toque, mas depois daquela frase ele conseguiu captar a minha atenção.
— Por que acha isso? Ele me pareceu um cara legal.
Meu celular tocou me pregando um susto dos infernos e nos interrompendo. Não teria atendido se não fosse minha mãe.
— Oi, mãe. — alisava o queixo do moreno de olhos azuis claros me fitando.
Quão errado é falar ao telefone com minha mãe enquanto estou no colo do meu professor de literatura torcendo para que ele me pegue bem ali no jipe mesmo? E não era eu que há uns minutos atrás estava puta e enojada com a possibilidade dele ter transado ali dentro?
— JP está aqui, diz que combinaram de jantar juntos.
— Ah, meu Deus! — me alarmei — Eu me distraí completamente.
Puxei o braço do moreno, checando as horas no relógio do seu pulso, assombrada ao ver a qualidade do acessório. Pesquisar o piso salarial de professores no estado de Nova Iorque, anotei mentalmente.
Ouvi uma movimentação e de repente a voz de mamãe foi substituída pela de JP.
— Eu não acredito que está me dando bolo. — se ele soubesse da situação provavelmente compreenderia e até me incentivaria a ficar, mas eu não posso abrir a boca — Traga essa bunda para cá imediatamente. Eu consegui uma mesa no seu restaurante japonês favorito. Aquele com o garçom gatinho. — uma das sobrancelhas de Crane se ergueu e eu percebi que ele conseguia escutar tudo.
— Chego já. Vou desligar porque tem um enxerido tentando escutar nossa conversa. — encerrei a ligação — Por favor, tenha um ataque de ciúmes bem agora para eu poder descarregar a raiva que restou. — ameacei.
Suas sobrancelhas subiram e ele ergueu as mãos, em sinal de paz.
— Não que não fique ainda mais linda bravinha, mas não estou maluco para arriscar.
— Tão mais gato quando concorda comigo. — puxei-o pelo casaco até mim — Gosto de você assim.
— Assim como?
— Sorrindo.
— É seu efeito sobre mim.
— Tenho que ir. — antes que me derreta mais que o aconselhável.
Saí de cima dele e para fora do jipe. Ele me acompanhou.
Me estiquei, tocando seus lábios. Um beijo lento se desenrolou, em nada semelhante aos que já tínhamos trocado até então que foram desesperados e praticamente uma disputa para ver quem se aproveitava melhor da situação. Mas a tal energia ainda estava ali porque não era o vento arrepiando minha espinha enquanto contraditoriamente envia ondas de calor para todo o corpo. Quando nossas bocas se separaram ele plantou um selinho nos meus lábios e mais um beijo na testa.
— Espero que o jantar seja melhor do que o almoço. — declarou com um sorriso fraco.
Me desencostei do jipe, deixando-o entrar e dar partida. E, por algum motivo meu coração ficou apertado quando ele dobrou a esquina e fiquei parada sozinha na rua. Por sorte meu celular voltou a tocar, não me dando brecha para sucumbir a qualquer que fosse aquele sentimento despontando.
Eva tinha planos para o feriado da próxima semana e estava bastante eufórica, testando a resistência dos meus tímpanos do outro lado da linha. Não me deixei iludir pela sua empolgação, esse é o seu estado normal. Ela tinha ingressos para a inauguração de um bar onde seu primo seria o novo gerente. O fato de Guilherme ser um chato me fez imaginar que o seu local de trabalho também será, mas não recusei o convite. Até porque sei que ela insistiria e não me deixaria em paz até que eu lhe desse no mínimo o benefício da dúvida como resposta.
Encerrei a ligação já dentro do elevador, à caminho do oitavo andar. Antes de guardá-lo novamente salvei o número do qual Crane havia telefonado mais cedo e me peguei tentada a enviar uma mensagem. Lembrei de Laura se mordendo para enviar mensagens à Greg depois de discussões por vacilos dele e não dela. Sempre fiquei indignada e cheguei a confiscar seu celular para evitar que ela o tentasse reconfortar. Agora estou tentada a fazer precisamente o mesmo. Que merda está acontecendo com você? Encarei a garota no espelho.
— Tome vergonha na cara. — apontei-lhe o indicador.
Mal abri a porta as gargalhadas de JP chegaram aos meus ouvidos. Mamãe e ele petiscavam de um pacote de salgadinhos enquanto ele segurava uma pinça.
— Bons olhos a vejam. — ironizou, sorrindo.
— Não me digam que estão tirando a sobrancelha na cozinha. — torci o nariz, roubando um punhado de salgadinhos do pacote.
— É onde tem a melhor iluminação. — mamãe justificou, deixando-o continuar.
— Vou só vestir algo mais quente e já vamos.
Corri para o quarto e acabei trocando todas as peças de roupa e enfiando um gorro na cabeça que tive de prender com grampos para que ficasse seguro contendo os cachos.
Acabamos arrastando minha mãe para o restaurante japonês com a gente e foram as três horas mais divertidas de sempre. Ao voltarmos para casa Simon estava à porta do prédio e eu soube que seguraria vela o resto da noite para minha mãe e o namorado. Simon não parecia ter algum problema como os que Crane tem, por exemplo, mas eu simplesmente não lhe dava muita confiança e não pretendia conhecê-lo à fundo.
De banho tomado, pijama vestido e em meio às cobertas, a vontade de falar com Crane para saber se ele está bem voltou com força. Larguei o celular na gaveta das calcinhas, dentro do guarda roupa e confiei na minha preguiça de sair do calor da cama para atravessar o quarto, em como eu estaria segura de ser trouxa. Algum dia poderia acontecer. Só não seria naquela noite e não com Crane.
Ao abrir os olhos no domingo às onze da manhã, respirei aliviada por ter sobrevivido à provação. Ao resgatar o aparelho em meio às calcinhas meu coração falhou um batimento ao ver que tinha uma mensagem dele com uma fotografia anexada. Reconheci o cachecol que eu tinha à volta do pescoço ontem. Logo abaixo da fotografia uma mensagem dizendo: "Não pretendo devolvê-lo."
Digitei uma resposta rápida.
"Não acho que ele vá combinar com nada no seu guarda roupa"
"Mas tem seu cheiro"
"E você tem a mim"
"Não o tempo todo como gostaria"
— Para quem é esse sorriso bobo de menininha apaixonada? — mamãe questionou, sua voz me fazendo saltar e quase derrubar o celular.
— Mãe, deveria bater antes. — resmunguei como quem foi apanhada aprontando alguma.
— Eu bati e chamei. Você não respondeu, então entrei.
Ela trás o cesto azul debaixo do braço e está como costume inspecionando o cômodo à procura de peças de roupa.
— Eu não ouvi absolutamente nada.
— Porque pelo visto está bem entretida aí com seu amiguinho. — riu, sugestiva e me contagiando mesmo contra minha vontade.
— Não tem amiguinho nenhum.
— Então por que está rindo?
— É reflexo. Sabe que se começar a rir mesmo que eu não saiba o motivo vou acabar rindo junto.
Parecíamos duas malucas gargalhando e ninguém diria o quão desconfortável estou se assistisse à cena.
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