Notas iniciais
Religiosamente mais um capítulo entregue :)

Meu tênis repetia irritantemente o "squick squick" a cada dois passos dados desde que de alguma forma a borracha absorveu a água da chuva. Ter educação física logo como a primeira aula tinha tanto de bom como de ruim. Professor Hanzel como previsto está bem disposto e humorado. Seus cabelos longos presos em um coque na nuca, naquele seu estilo amante da natureza, aventureiro e mochileiro. Eu já o havia invejado por diversas vezes, a sua liberdade e despretensão. Também gostaria de uma vida simples, viajando pelo mundo e me alimentando de conhecimento sobre diferentes culturas.

— Eu definitivamente casaria com Crane, mas daria umas escapadinhas com Hanzel.

Esta semana Cassie havia conseguido ter educação física no mesmo horário que Laura e Eva e eu estar ali fechava o quarteto. Era quase mais do que podíamos aguentar sem nos tornarmos um bando de garotas com períodos menstruais sincronizados e uma ligação irritante que nos faz cantar as mesmas canções em coro.

— O que? Não! — Eva protestou — Crane é o amante perfeito e Hanzel o maridão liberal que nos dá bom dia com um prato de ovos mexidos e maconha.

Os olhos de Laura lhe ralharam antes da loira californiana abrir a boca coberta pelo gloss pêssego que trazia escondido dentro das meias altas.

— Hanzel não é maconheiro.

Nos entreolhamos antes de rirmos em sua cara.

— Não querendo estragar sua imagem dele, mas ele até já deu aulas chapado. — revelei.

— Isso é mentira! As pessoas teriam percebido.

— E perceberam. Toda a classe, mas ninguém o entregou, obviamente.

Quando Alan entrou na quadra meu sorriso sumiu, a percepção de que eu havia sido escrota com ele por nunca mais olhar na sua cara bofeteando minha consciência.

Nos juntamos à volta do professor Hanzel enquanto ele instruía sobre o que fazer nos próximos noventa minutos de aula. Fomos divididos em duas fileiras de alunos, uma rodava e a outra se mantinha no mesmo lugar enquanto íamos treinando dribles de basquete com diferentes colegas, com diferentes habilidades.

Eu me considerava aceitável. Não era uma negação como Laura, por exemplo, que me fazia rir toda vez que meus olhos a encontravam, vendo-a de bunda no chão ou correndo atrás da bola que parecia ter aversão às suas mãos. Percebi que teria de trabalhar em conjunto com Alan quando ele estava a três lugares de chegar até mim. Aquilo seria estranho.

Corri para recuperar a bola e quando me virei embati em alguém.

— Bu! — Alan diz, ao perceber meu susto.

— Oi.

Sorrimos de forma bastante sem graça um para o outro.

— Quer começar? — ofereci-lhe a bola.

— Não. Vai em frente.

Na primeira vez em que todo seu corpo se encostou ao meu não dei importância, é algo que pode acontecer quando é você o responsável por roubar a bola e não driba-la. Da segunda vez decidi mantê-lo mais afastado, abrindo mais o braço esquerdo para salvaguardar meu perímetro. Mas na terceira vez não pude ignorar, ele chegou mesmo a pressionar os quadris contra mim e em um instante passei de oito à oitenta. Minhas mãos estavam no seu peito e o empurrão foi violento o suficiente para desequilibra-lo, obrigando-o a buscar apoio no chão com uma das mãos.

— Você está abusando.

Ele deu um sorrisinho curto e cínico.

— E se estiver? Não tem mais seu pau mandado para defende-la.

— Que merda está falando?

— Do seu ex namorado e de como sem ele não resta ninguém que faça suas vontades, incluindo comprar briga por você.

Meu sangue lentamente entrava em ebulição. Alan voltou para perto de mim, me peitando. Mas ele devia estar maluco se achou que eu iria recuar. Ficamos então à milímetros um do outro. Percebi comentários ao fundo de alguns alunos que julgaram que estávamos prestes a nos beijar e não nos atracar.

— Não fala do que não sabe. — aconselhei em tom de aviso.

— Todo mundo sabe muito mais do que você imagina.

— Ah é? Me atualize. — encenei empolgação.

— Por exemplo, todos sabem que ele te traiu porque mesmo depois de dois anos você não dava pra ele.

Eu não imaginava mesmo. A informação me apanhou desprevenida, como um soco no estômago, fiquei nauseada. Minha máscara de indiferença foi ao chão e Alan se apercebendo que havia me atingido, sorriu, vitorioso.

— Você é gostosa, mas não é insubstituível. Acha que sair fazendo os caras de bobo é fácil assim?

— Ah, cala essa boca. — estalei a língua, nem prestando mais tanta atenção ao que ele dizia, minha mente estava com um novo alvo marcado. O único possível responsável por espalhar essa merda. — Está magoadinho pelo que aconteceu entre a gente e por eu não ter mais te procurado depois disso. — atirei na sua cara, o efeito foi imediato pela forma como sua expressão transitou de machão para bundão — Fica sabendo que eu me sentia mal até você mostrar quem é de verdade. Agora vai ser mais fácil esquecer que você existe. — dei duas palmadinhas no seu ombro, condescendente.

Atravessei a quadra em passadas apressadas, a raiva se entranhando e acumulando no meu âmago. Aquilo não seria bonito.

Avisto a sweater verde com capuz e os cabelos loiros em meio à pequena multidão de alunos e me lanço até apanhá-lo. Tenho a desconfortável sensação de que meus seios apertados pelo sutiã esportivo estão acompanhando meus movimentos e cedendo à gravidade mais do que o habitual tamanha é a solidez das minhas passadas. Um garoto que não me recordo de já ter visto antes segreda algo ao me ver aproximar como um touro raivoso e Lukas gira em minha direção.

Eu pretendia lhe falar tudo que estava inundando minha mente, mas assim que seu rosto ficou ao meu alcance meu punho esmurrou seu maxilar, atirando sua cabeça para o lado com violência. Um gemido de dor soou em coro e eu soube que tudo viraria um showzinho do qual eu me arrependeria. Já tínhamos uma pequena platéia, os alunos interromperam seu trajeto e aguardavam o desenrolar da situação. Ao menos que o fizessem em silêncio, o burburinho mal me deixava escutar meus próprios pensamentos e organizar minhas ideias.

— Em primeiro lugar eu vou falar e você vai escutar. — comecei, ajeitando o rabo de cavalo que havia praticamente se desfeito no caminho para cá — Porque eu estou realmente cansada de como as coisas têm sido desde que o verão acabou. Em segundo lugar, não me interrompa para dizer qualquer coisa como "eu não tive intenção". É que não importa, principalmente quando você pisa na bola duas vezes seguidas. E em terceiro lugar, quando eu terminar a gente termina. Ficamos por aqui.

Ele estava pronto a ignorar tudo que eu havia dito e me interromper, reconheço sua postura e a expressão de quem está prestes a dar um pulo maior que a perna. Revirei os olhos. Notando isso ele se conteve, algumas células do seu corpo devem ter morrido tamanho o esforço que ele havia feito para ir contra sua natureza. A percepção de que parte da fúria sendo destilada se deve ainda ao que Crane havia feito no sábado me atingiu, mas não me importei de descarregar tudo em Lukas.

Afinal de contas ele é quem foi meu melhor amigo nos últimos dez anos, o tornando no maior idiota possível.

— Eu sei o que você andou dizendo por aí sobre ter me traído porque não transei com você, e se isso se espalhar pode ter a certeza que vai ser muito mais sério do que uma falta disciplinar ou detenção.

— Não quer que eu diga, mas eu não quis nada disso. Tem que acreditar em mim, Mira.

Inspirei fundo, buscando qualquer réstia de forças em alguma parte de mim. Eu sou só raiva e arrependimento.

— Você foi forçado? Alguém te ameaçou ou fez com que temesse pela sua integridade física?

Ele pensou por um instante.

— Não.

— Então, cala a boca, vá se ferrar e esquece que eu existo. Me trair com uma garota foi idiotice, mas um dia eu iria esquecer e tudo ficaria bem. Agora, espalhar pelo colégio que só me traiu porque eu não transei com você, eu nunca vou esquecer. Você perdeu a namorada e a amiga de vez. — finalizei, e teria lhe dado as costas se ele não tivesse prendido meu braço.

— Me deixa ir. — grunhi entredentes.

— Nem pensar. Já estava na hora de conversarmos.

— Ficou maluco? Não temos nada para conversar. Eu não quero mais nada com você.

Eu tinha que elevar a voz para conseguir me fazer ouvir em meio aos assobios, gargalhadas e palavras de incentivo, repetindo "isso aí".

— Você não quer dizer nada do que está me falando. — a confiança no seu rosto me deixou indignada.

— Mas é claro que quero. E você vai me deixar ir. — insisti, lutando para retirar meu braço do aperto.

— Não vai me tornar num fantasma do seu passado como fez com seu pai. — sussurrou no pé do meu ouvido — Não vou permitir. A gente simplesmente aconteceu. Não pode ignorar isso.

— A gente aconteceu como amigos, como namorados foi cagada do início ao fim.

— Não.

Quando meus pés se moveram e comecei contra minha vontade a caminhar, atingi meu limite. Acertei-lhe um tapa no rosto e mais dois que não o demoveram de me arrastar. Todos assistiam e ninguém se propunha a fazer algo.

Estava ponderando recorrer a uma das poucas coisas úteis que aprendi com meu pai quando minha cintura foi agarrada, meus pés deixaram de tocar o chão e por um momento entrei em pânico, me preparando para me debater. Todavia, assim que senti seu perfume e meu corpo reconheceu a familiaridade do abraço, relaxei. Lukas olhou por cima do ombro, não compreendendo como de repente eu havia tido força suficiente para o travar.

— Solta. — a voz de Crane soou baixa e até tirânica, mas bem mais audível que a minha pois no instante em que ele entrou em cena todos se calaram.

A cedência de Lukas foi imediata e afaguei a região do braço afetada. Crane rotacionou meu braço com uma serenidade estarrecedora, o tipo de calmaria antecedente ao caos. E eu não era a única sentindo aquilo, todos os curiosos permaneciam em silêncio absoluto. A presença e energia do moreno de olhos azuis agora sombrios se sobrepondo à de dezenas de adolescentes antes eufóricos, anulando-os totalmente.

— Está tudo bem. — repliquei ao ver seus olhos cravados em Lukas, após ter analisado meu braço — Não estou machucada. — assegurei, requisitando sua atenção.

Ainda em silêncio ele me encaminhou para fora dali, uma de suas mãos repousando no meio das minhas costas enquanto eu caminhava à sua frente, atravessando o corredor sob o olhar dos alunos que assistiram à tudo.

Quando tentei descer as escadas ele me sinalizou o andar dos docentes. Entramos na sua sala e ele estava estranhamente quieto. Despencou na cadeira atrás da mesa e notei os músculos do seu maxilar endurecendo.

— Se ele tivesse dado mais um puxão no seu braço, eu teria intervido de forma bem menos didática. — pressiona as têmporas, bufando, sem olhar para mim.

Eu não tinha muito a acrescentar. As coisas fugiram do meu controle e para falar a verdade odeio quando um homem cede e me respeita apenas porque pintou outro homem que o impingiu a fazê-lo, e não por me levar a sério.

— Obrigada.

— O que aconteceu? Sabe que se isso chegar aos ouvidos de outro professor não se livra de uma ida à diretoria?

— É, eu sei. — suspirei — Era para ter sido só uma última conversa, mas eu meio que bati nele.

— O que? Você bateu em Tate? — ele vai de pasmo a maravilhado.

— Foi só um soco.

Ele alisa o próprio maxilar como se sentisse uma dor ali.

— O que ele fez?

— Saiu contando coisas que estão se espalhando pelo colégio pelo visto.

Seus olhos azuis faiscaram quando ele se inclinou, apoiando os cotovelos nos joelhos, preocupação se misturando à irritação.

— Que coisas?

— Deixa pra lá.

— Mira, que coisas?

Inspirei fundo, soltando o rabo de cavalo e massageando o couro cabeludo com uma enxaqueca se instalando.

— Ele disse que me traiu porque em dois anos de namoro eu nunca fui pra cama com ele. — não tirei os olhos da vista para a rua movimentada que a janela da sua sala tem a oferecer.

Prefiro acompanhar o progresso dos alunos atravessando a faixa de pedestres lá fora do que sustentar os olhos azuis de Crane ao lhe revelar algo que não deveria nunca ter saído da minha relação morta com Lukas.

Houve silêncio pelo que pareceu uma década e, por fim, ouvi seus passos encurtarem a distância entre nós. Parou atrás de mim, mas não fez nada para que eu me virasse ou sequer pediu que eu o fizesse. Fiquei grata por ele compreender como respeitar meu espaço.

— Então ele é ainda mais imbecil do que deduzi.

— Eu não sou virgem. — esclareci — Mas com ele nunca consegui. Era estranho. Pensei que com o tempo mudaria e eu sentiria vontade. Foi meu maior erro dos últimos tempos namorar o meu melhor amigo e sem estar apaixonada.

— O que te fez topar?

Dei de ombros.

— Parte de mim queria provar que eu não acabaria como minha mãe depois do divórcio. Estava cansada de me olharem como se soubessem que aquele seria o meu futuro também ou que talvez eu seria incapaz de ter um relacionamento.

— Lamento. Eu conheço a sensação.

Busquei seu rosto por cima do meu ombro.

— Conhece?

— Sim.

— É uma merda. — suspirei, subitamente exausta. Aquele cansaço. — Não estou legal. — me abaixei, apoiando as mãos nos joelhos e sentindo um mal estar generalizado se apossar do meu corpo.