Atenciosamente, Crane
14 Capítulo 14
Notas iniciais
— O que está sentindo? — me puxou para cima, segurando meu rosto entre suas mãos.
— Não sei bem.
— O que está doendo?
Eu sei que ele estava se referindo à uma dor física, mas a inquisição caiu em solo vulnerável e um nó se formou na minha garganta. A fúria e a revolta entraram em combustão, explodindo, deixando a mágoa soterrada até agora. Com a diminuição da adrenalina percebi que o imbecil do Lukas havia me magoado, outra vez. O garoto que foi meu verdadeiro amigo não existe mais. Ele é só mais um homem babaca que enquanto pode tirar proveito finge ser leal e digno de ser amado. Então mal você não os agrade ou deixa de ser novidade, eles te tratam como uma peça defeituosa e te jogam fora. Pouco importa tudo o que partilharam, os anos que estiveram juntos ou que tenham uma filha em comum. Se você passar à história será trocada. Vai por mim. Eu sei do que estou falando. Meu pai fez isso com minha mãe e agora em pequena escala o único garoto em quem confiei a vida toda está me fazendo o mesmo.
— Eu preciso ir. — afastei suas mãos, dando três passos antes de ser travada.
— Você não está bem. — um dos seus braços está à volta da minha cintura e eu estou fazendo de tudo para manter meu rosto distante da sua vista.
— Estou sim. Eu preciso voltar para a aula de educação física. A essa altura o professor já deve estar estranhando a demora.
— Mira. — seu tom irá me desarmar se eu não sair daqui agora.
— Crane, me deixa ir. — meus olhos marejam, me angustiando.
É bem perceptível que estou prestes a chorar, minha voz estrangulada e o estar deliberadamente mantendo meu rosto voltado para o outro lado não deixariam dúvidas nem mesmo para a pessoa mais alheia do universo. Que dira para alguém perspicaz como sei que ele é.
— Não. Olha pra mim. — me trouxe para junto do seu peito, e nem assim deixei que ele visse meu rosto.
— Não. Eu quero ir. — empurrei-o, conseguindo míseros centímetros de separação antes de voltar a embater no seu peito.
— Não vou te deixar sozinha.
— Mas eu quero ficar sozinha. — gritei, finalmente o encarando — Acha que quero companhia para chorar?
— Desculpa. — o vinco entre suas sobrancelhas perfaz um misto de aflição, compaixão e raiva — Eu não consigo deixar que vá. — ratificou.
— Mas que merda. Você é ridículo, sabia? — me debati, emoções prestes a transbordar — Não preciso disso. — minha visão turvou e meu rosto ficou molhado pelas lágrimas.
Crane me fechou nos braços, encostando minha cabeça no seu peito e eu fiquei inerte, me recusando a abraça-lo de volta. Ele também havia se tornado alvo da minha fúria naquele momento. As lágrimas caíam, gordas e salgadas. Estava mordendo meu lábio com tanta força que a dada altura senti um leve travo a sangue. Queria findar a sessão de choro à todo custo. O revés de oprimir por tanto tempo sua dor é que uma hora ela te sufoca e para conseguir voltar a respirar tem de deixá-la sair.
— Não tem que ser forte o tempo todo e aguentar tudo sozinha. Sofrer não te faz menos que ninguém.
Um soluço escapou e cobri o rosto com as duas mãos. É oficial. Eu estou uma bagunça tal como a minha vida.
Chorei em silêncio com as mãos sobre o rosto até já não ter mais lágrimas e meu corpo simplesmente soluçar em seco.
Ficamos em silêncio por um bom tempo depois de eu já ter conseguido me controlar. Eu não sabia o que fazer a seguir, parte de mim estava irritada porque se dependesse de mim nunca teríamos vivido esse momento. Já outra parte se sentia grata e renovada. Só não consigo prever qual destas partes tomará a dianteira mal eu abra a boca. Não me sentia nem um pouco capaz de encarar aquele par de olhos azuis tumultuosos.
Senti sua mão deslizar do fundo das minhas costas até minha nuca, me arrepiando.
— Isso é gostoso. — me assustei ao escutar minha voz, verbalizando um pensamento para lá de indesejado.
No meu interior caótico eu tentava identificar que parte de mim era aquela, roubando o comando.
— Vai precisar de uma camisa nova. — funguei, levantando a cabeça do seu peito.
— Essa ficou muito catarrenta? — puxou o tecido da camisa da vez, uma preta, avaliando o estrago.
— Que nojo! — levei a mão ao nariz, horrorizada — Foram só lágrimas.
Ele gargalhou diante da minha reação, o som da risada gostosa me enchendo de uma sensação boa.
— Que engraçado. — tentei ficar séria, mas tinha um sorriso muito bobo teimando se rasgar.
— Continua linda. — me atraiu para si, com as mãos na minha cintura.
— O que está fazendo, Crane? — seus olhos estavam passeando pelo meu rosto, seguindo as linhas que seu polegar riscava na minha pele.
— Aproveitando o único momento do dia que vou ter você assim só para mim. — comentou, alheio ao que eu me referia.
— David. — a carícia no meu rosto congelou e seus olhos buscaram os meus, atentos — O que está fazendo agindo assim?
— É errado?
— É... — procurei pela melhor palavra
— Comprometedor. Você não está me devendo nada por causa do que aconteceu sábado.
— Não estou querendo te compensar.
Puxei o ar pela boca e se aproveitando da brecha seus lábios grudaram nos meus e sua língua foi tomando a minha, numa dança quente de deixar as pernas bambas.
— Acho que estou viciado. — murmurou, ao me deixar respirar antes de voltar a investir num beijo que me fez gemer com sua boca na minha.
Ele sequer estava me tocando. Suas mãos estão na minha cintura, e ele está dedicado unicamente aos meus lábios. Mas a forma como sua língua desliza pela minha me faz imaginar como ele seria habilidoso fazendo o mesmo por outras partes do meu corpo.
— Não sei se odeio ou venero isso aqui. — puxou a alça do meu sutiã esportivo, se afastando e passando as mãos pelos cabelos.
— Para ser sincera, eu também não.
A campainha tocou e eu descaí os ombros, sabendo que teria que inventar uma mentira para professor Hanzel uma segunda vez e não estava muito confiante sobre ele cair ou não. E ainda teria que encarar a possibilidade de algum professor me dedurar e eu ir parar à diretoria por ter socado Lukas.
— Preciso ir e ser incrivelmente convincente ao dizer ao professor Hanzel que tive uma emergência feminina que não podia esperar. E aí torcer para que ele não seja capaz de questionar a veracidade disso.
Ele acompanhava meus movimentos com atenção, ainda recostado na mesa, apertando as beiradas de madeira. O que acabava por flexionar seus braços e fazer os bíceps saltarem à vista. Fui me perdendo na sua beleza e quando retomei o controle da minha mente eu sequer sabia o que havia dito por último.
Ir embora. Sim, é isso.
— Bom, então... — apontei a saída, indo até lá.
Tinha a mão na maçaneta da porta quando por impulso corri de volta, apanhando-o com o rosto digno de quem tinha presenciado um fenômeno incompreensível.
Atirei meus braços por cima dos seus ombros e o abracei, meu corpo se debruçou sobre o dele, encaixando entre suas pernas. Suas mãos largaram a mesa para que seus braços circulassem minha cintura e Crane enterrou o rosto no meu pescoço, entre meus cachos bagunçados. Seu peito expandiu quando ele inspirou, me apertando mais. Afrouxei a pressão e minhas mãos foram para sua nuca, enlaçando os dedos nas pontas dos cabelos. Toquei seus lábios de leve com os meus, sem os mover, apenas quis senti-lo naquilo que para mim era a forma de o ter mais próximo.
Desci as mãos pelo seu pescoço, até o peito numa carícia que não teve nada além de afeto, nenhuma intenção de sentir seus músculos ou provoca-lo. Desgrudei os lábios dos seus e logo a sensação em pequena escala, entretanto, inegavelmente presente, de desolação despontou. Então eu também estou viciada. Perfeito!
— Tchau, bonitão.
Lhe ofereci um sorriso temendo ser visível a sensação ruim de ter que o deixar ainda que nem fosse definitivamente. Eu o veria mais tarde pelos corredores e infelizmente com o feriado desta semana não haveria aula de literatura na sexta-feira. Ou seja, nada de Crane para mim na dose a que estou me habituando. Formiguei no meu interior, ansiosa para que ele propusesse se encontrar comigo ainda nessa semana. Não somos muito bons em encontros pelo visto, mas eu preciso de mais Crane na minha rotina.
Suas mãos ainda acarinharam minha cintura à medida que fui me afastando e ele permitiu que meu corpo deslizasse para fora do confinamento ao invés de tirar os braços, desfazendo o abraço de uma vez.
— Ele o que? — Laura, praticamente gritou tão ou mais furiosa que eu com a atitude ridícula de Lukas.
— Isso mesmo que ouviu. — mordi um ursinho vermelho de goma.
Eu estava surpreendente mais calma e até menos ferida. E eu sabia bem a razão para minha melhoria vertiginosa. Permitir que Crane seja meu escape, para onde corro para me recuperar ou sentir melhor é arriscado. Basta um dia ele não se mostrar disponível para eu ficar na merda.
— Aquele arrombadinho de merda. — Greg a olhou pelo canto do olho, quase amedontrado e isso me fez rir.
Estamos no tal restaurante com a decoração dos anos 50. Eu já tinha recusado o convite de Laura quando eles apareceram à porta do meu prédio e jogaram todas as cartas até que eu aceitasse. Não estava sendo tão péssimo como imaginei. Talvez por Laura estar mais ocupada odiando Lukas pelo nosso confronto na parte da manhã ou em consideração à minha situação como recente ex-chifruda, eles não estavam sendo melosos. Parecíamos mais três amigos lanchando numa segunda-feira à noite.
Eu estava incontestavelmente encantada com a decoração. A garçonete fardada com um vestido branco de listras vermelhas pouco acima dos joelhos, perfeitamente seguindo a vibe pin-up, deslizou sobre os patins de quatro rodas e dispôs os famosos milkshakes de cinco dólares à nossa frente. Morango para mim, baunilha para Greg e chocolate para Laura. Assim que bati os olhos no de chocolate pensei que me arrependeria. Porém mal a bebida rosa no copo alto inundou minha boca foi um frenesi.
— Isso aqui é uma delícia! — suspirei, fechando os olhos para assimilar o sabor.
— Eu não disse? — Greg se recostou no banco, desafogado agora que havia me provado estar certo.
— Tenho que socar meus ex namorados mais vezes se isso significar que vocês vão me pagar um desses depois. — brinquei.
— É, principalmente porque acho que te fez bem. Não te via assim há muito tempo. — seus olhos se estreitam e Laura me estuda com cautela.
— Assim como? — mordo o canudinho.
— Não sei bem. Tem qualquer coisa de diferente.
— Ela parece mais apaixonada agora do que quando estava com ele. — Greg matou a charada, não dando muita importância ao que tinha acabado de dizer, mas me atingindo em cheio como um caminhão.
— Gente, é que isso aqui é mesmo muito bom. — apontei para meu milkshake, recorrendo à minha boa e velha poker face.
— E acho que encontrei meu próximo emprego de verão. — comentei, olhando à volta o ambiente que serviria perfeitamente para um trabalho temporário. — Vou deixar meu contato antes de irmos.
— Lukas está se doendo agora porque você não foi pra cama com ele? Espera até ele te ver nesse uniforme. — a gargalhada de Laura só acentuou seu lado malévola.
Os dois se deixaram levar pela minha conversinha e eu livrei meu pescoço da forca. Na verdade, o laço continua à volta do meu pescoço e eu teria de lidar com isso uma hora ou outra. Só não seria agora ou durante o tempo que fosse possível evitar.
Bati uma fotografia do copo de milkshake enquanto ainda havia chantilly o enfeitando e do pacote de gomas de ursinhos coloridos, e enviei à Crane com a frase:
"Juntos são quase melhores que seus beijos." Sua resposta veio em alguns minutos.
"Isso doeu. Principalmente porque te imaginar com a boca com gostinho de morango e não poder provar é cruel."
"Talvez no nosso próximo encontro possa me levar pra comer morangos e aí matar sua vontade."
"Você e morangos combinados num encontro? Não sei se sobrevivo."
"Está duvidando do seu auto controle, Sr. Ciumento e Possessivo?"
"Não sou feito de aço, encrenqueira."
"Ninguém diria que não é..."
Por Deus, Laura e Greg estavam rindo de algo que ele havia dito e, por isso, meu sorriso idiota passou batido ao magicar que os músculos de Crane o tornavam no mais próximo que um ser humano pode chegar de ser feito de aço.
"Não faça planos pro feriado. É minha nesse dia."
Ele finalizou a troca de mensagens justamente com a atitude que eu esperava que ele tomasse. Teríamos nosso segundo encontro uma semana após o primeiro que por pouco não desandou completamente. Um friozinho se instalou na minha barriga pelo resto da semana e ele parecia ser alimentado por todas as minhas tentativas de ignorá-lo. Por esse andar no afamado dia do segundo encontro haveria um buraco negro na minha barriga, ameaçando me engolir de dentro para fora.
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