Atenciosamente, Crane
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Seus cabelos estão molhados e por mais que ele os penteie para trás com os dedos mechas negras caem sobre sua testa. A camisa polo de mangas compridas está ensopada e o tecido pesado marca ainda mais seus músculos. Dizer que ele está gostoso é tão pouco diante da realidade. Ou minha luxúria está incrivelmente intensa.
— Não aconteceu nada, Crane. — articulei, vendo os músculos do seu maxilar tensionando, indicando o quão puto ele está.
— Não por falta de oportunidade. Por que estava aqui sozinha? — o maldito dom de sequer precisar levantar a voz e ainda assim subjugar como a merda de um mestre, me deixou sem dificuldade alguma irritada.
— Era isso ou pegar carona com um cara que mal conseguia manter os olhos abertos de tão bêbado que estava.
— Ainda assim, por que sozinha, Mira? Não podia pegar um táxi ou vir com amigas?
— A festa estava paga. Não trouxe a carteira por estupidez e minhas amigas não têm uma mãe advogada e um pai delegado que passaram a vida as alertando de como álcool e estrada não combinam. Fazendo as contas eu tinha mais chances sozinha aqui do que acompanhada naquele carro.
— Poderia ter me telefonado. Teria vindo te buscar.
— Crane. — suspirei, rindo — Nós não somos um casal. Como eu explicaria meu professor de literatura vindo me buscar na porta de um bar à uma e meia da manhã?
Ele ficou quieto, parecendo concordar comigo.
— E eu telefonei, não é? Não na hora em que saí da festa e não antes de andar parte do caminho, mas você está aqui agora e é o que importa. — encerrei a discussão antes que ela engrenasse como a última que tivemos.
As ruas estavam desertas. No entanto, havia várias luzes acesas nos apartamentos dos prédios por onde eu ia passando, apressada.
Para alguém como eu é melhor assim, completamente às cegas ao invés de torturosamente diante do caminho que poderia estar me levando para um encontrinho de última hora com a morte.
Estava começando a me convencer que foi exagero e tudo teria ficado bem, exceto a minha consciência, se eu tivesse aceitado a carona.
Ultrapassei um dos limites que delimitei para minha convivência com Crane e enviei-lhe uma mensagem.
"Está acordado?"
Um frio circundou os órgãos na minha barriga ao ver seu nome na tela, uns dois minutos mais tarde. Atendi, protegendo o celular das gotas de chuva que começaram naquele instante a cair, com os cabelos.
— Moreno perigoso. — cumprimentei, no meu timbre mais profundo possível.
— Mira. — ah, ele dá de dez à zero, definitivamente muito melhor do que eu em assumir um tom de voz enigmático e sombrio.
— Já sabe que encrenca aparece se chamar meu nome.
Era perceptível que ele estava sorrindo quando voltou a falar.
— E como sei. Minha memória falha em me recordar que você é uma má ideia.
— Se eu não fosse que graça teria? — ele inspirou fundo — Como foi a sua noite?
— Solitária.
— Awn. Está me dizendo que está com saudades?
— Acho que é o que acontece se tudo que você faz é me deixar sozinho.
— Não teria ficado sozinho se tivesse combinado alguma coisa comigo. — e me salvado desse final de festa péssimo.
— Você poderia ter combinado comigo.
— Pensei que estaria ocupado.
— E eu pensei que você não teria interesse já que temos outro encontro ainda esta semana.
— A lição do dia é: perguntar é melhor do que deduzir.
— Hey, princesa, precisa de carona? — estremeci, só notando o carro ao meu lado quando um cara no lugar do carona falou comigo.
Parei e olhei para trás, para o final da rua, calculando desde que ponto ele deveria ter começado a me seguir e de onde tinha vindo.
— Não. Eu estou bem. Valeu! — voltei a caminhar, mantendo o impala 67 debaixo de olho pela visão periférica.
— Certeza? Essa chuva só tende a aumentar.
— Absoluta. Meu namorado está à caminho. — apontei o celular.
— Mira, onde você está? — a voz de Crane me repreendia no pé do meu ouvido.
— Sim, amor. — arrastei a voz, naquele tom que eu cria ser o de alguém apaixonada. — Rua Brighton, próxima ao centro. Já estou aqui.
— Puta que o pariu. — escutei-o se movimentar com certo alvoroço, provando ser um bom entendedor. — Onde está com a cabeça? — xingava baixo, ainda se movimentando. — Me diga que não está sozinha. — uma porta bateu com força onde ele estava.
— Ah, é só um cara branco, com um moicano de pontas vermelhas, uma tatuagem de serpente no pescoço e olhos escuros.
O rosto do rapaz à minha frente se contorceu, indo de confuso, mas esperançoso à enraivecido e apavorizado. Ele murmurou algo como "Que mina maluca" antes de bater na porta do carro, incentivando o companheiro a acelerar.
— Crane? — chamei, observando o impala sumir na escuridão adiante. — Acho que eles já foram.
— Estou à caminho. — informou, ríspido.
— Ok. Eu preciso falar com Cassie.
— Tudo bem. Só não saia daí. Chego já.
Falei com Cassie, admirada por ela ter aguardado tanto tempo antes de iniciar uma sequência de ligações desesperadas ou pior, acionar a polícia depois de eu ter lhes virado as costas à porta do bar. Ela tinha acabado de ser deixada em casa e estava indignada com Guilherme por ter dado uma guinada tão forte com o carro para não ultrapassar o sinal vermelho que, segundo ela, Eva não voou em direção ao tablier porque estava com o cinto posto. Deixei-a falar, optando por não mencionar nada sobre os caras que haviam me parado. As nuvens desabaram de vez após uma trovoada violenta e me despedi, prometendo avisa-la assim que estivesse em casa. Guardei o celular na bolsa pequena, torcendo para que a água não ultrapassasse o tecido.
As gotas de chuva eram pesadas e geladas, em menos de três minutos não havia uma parte do meu corpo que não estivesse ensopada. Meus dentes batiam, enquanto eu tentava não me perder refletindo em que momento meu dia que até tinha sido bom começou a dar indícios de que acabaria com um banho de água fria literal. Os faróis do jipe me cegaram quando Crane o estacionou como que propositalmente para me deixar debaixo de um holofote improvisado. Suas mãos seguraram meu rosto e seus olhos percorriam em desespero qualquer pedacinho de pele visível em meio às minhas roupas molhadas.
— Você está bem?
— Sim. Eles praticamente fugiram quando comecei a fazer a descrição. Funciona sempre.
— Vamos. — me escoltou até o jipe, fechando a porta depois de eu estar encolhida no lugar do carona.
— Me leva para casa. Amanhã tenho aulas com o moreno ciumento do sábado passado.
Ele riu, me olhando como quem está prestes a aprontar alguma. Nunca o tinha visto com aquela expressão.
Adoecer não estava nos meus planos. Nem tomar aquela chuva gelada na madrugada da noite anterior. Chuva que eu estava responsabilizando pelo meu mal estar, a dor no corpo e na cabeça. Eu sabia que estava com febre antes mesmo de colocar o termômetro debaixo da língua, porém não imaginava era que estaria tão alta.
— 39,5? — murmurei sozinha, sacudindo o termômetro e refazendo todo o processo novamente. — Essa coisa deve estar com defeito. — observava novamente o mesmo resultado.
Mamãe entrou no quarto, sua pele ébano radiante e perfumada, os cabelos escovados até a altura do ombro e um vestido vermelho adequado à sua idade, seu corpo em boa forma e a seriedade da profissão.
— Uau! Você está maravilhosa.
Ela sorriu, dando uma voltinha, mas quando realmente olhou para mim o sorriso sumiu e ela avançou consternada.
— O que você tem? — prendeu meu rosto entre as mãos, arregalando os olhos
— Mira, está ardendo em febre.
— Só 38. — menti, escondendo discretamente o termômetro debaixo do travesseiro.
Minha mãe ainda estava retomando seu ritmo de trabalho, voltando a ser a mulher que eu me recordo de ver ao crescer, Helena Jones de volta ao topo. Esse seria seu primeiro grande caso e eu não seria o motivo para mantê-la em casa e passar a frente a algum auxiliar ou a não ter um bom desempenho por estar preocupada comigo.
— Pode ficar tranquila.
— Vou ligar para a linha do seguro e eles virão entregar os remédios que acharem necessários.
Ela desapareceu por alguns minutos e quando voltou me entregou o celular, onde um homem me pediu para descrever o que eu estava sentindo, mais o que tinha comido nos dias anteriores, se tinha estado exposta ao frio e etc. No final ele concluiu que estávamos diante de uma possível gripe. No entanto, havia uma virose contagiando muitas pessoas ultimamente e que se os sintomas escalassem para enjoos e desmaios eu deveria procurar um hospital. Essa parte ocultei de mamãe. Eu ficaria bem e quero que ela também fique.
— Volto no domingo à tarde. Até lá me mantenha sempre informada do seu estado e ligarei ao final da noite. A geladeira e os armários estão bem abastecidos.
— Pode deixar.
Minha mãe saiu e seu perfume ainda pairou pelo ar, me reconfortando nos minutos seguintes nos quais peguei no sono.
Despertei quatro horas mais tarde, me sentindo ainda pior. Como se o sono tivesse consumido energia ao invés de repô-las. Chequei o celular e tal como esperava as meninas haviam tentado falar comigo. A novidade foi a mensagem de Crane.
"Você não está aqui"
"É, estou doente"
Sua resposta foi instantânea, o que me levou a ponderar se ele estaria com o celular nas mãos esperando que eu o respondesse. Sorri com a ideia mesmo que vaga e irrealista.
"O que você tem?"
"O vírus que irá desencadear o apocalipse zumbi"
No lugar da mensagem que aguardava recebi uma ligação.
— Você não sabe brincar. — reclamei, percebendo que minha garganta doía ao falar.
— Sua saúde não é algo com o qual eu esteja afim de brincar. — sua voz é tão gostosa por telefone, fechei os olhos querendo que ele continuasse.
— É só uma gripe.
— Foi ao médico?
— Consultei um por telefone.
— E como está se sentindo?
— Uma merda. Só vou dormir até que isso vá embora.
— Tem que se alimentar. Já fez isso?
— Não. — até mesmo a saliva descendo estava sendo doloroso, que dirá comida.
— Vai fazer isso então.
— Não. — repeti, sentindo que meus sentidos começavam a ser envoltos pela névoa do sono novamente — Depois. — murmurei.
— Quem está cuidando de você?
Ri contra o travesseiro.
— Minha mãe só volta no domingo. Não sou mais uma menina para que alguém cuide de mim, mas essa pergunta foi uma gracinha.
— Estou indo para aí.
— Como é? — meus olhos se abriram em alarde.
— Avise o porteiro. — e desligou.
Olhei a tela do celular, pânico tomando conta de mim. Ele está mesmo vindo para cá? Crane não é de falar por falar. Ele é o oposto daquele cara que promete aparecer, faz planos e te deixa em expectativa esperando. Com Crane não há planos e nem expectativas, somente o fator surpresa e a certeza de que ele não diz nada da boca para fora. Acredito que ele prefira o silêncio no lugar de uma mentira. Isso de certa forma me faz sentir segura e confortável. Só me iludirei com ele se eu mesma optar por ser boba.
Pulei da cama, meu corpo protestando e gritando para que eu retornasse para debaixo do edredom. Escovei os dentes e lavei o rosto, tremendo de frio pelo contato com a água. Meus cabelos tinham secado livres e aproveitado bastante a liberdade, dobrando o volume natural. Prendi-os num coque que considerei pavoroso, mas era o melhor que eu podia fazer com aquele bolo de cachos rebeldes.
Fui arrancada dos pontos que ainda queria riscar da lista de emergência que montei mentalmente pelo intercomunicador ressoando. Era da portaria, Joseph informando que os medicamentos tinham chegado e que o enfermeiro estava subindo para entregá-los. Agradeci, aliviada por ainda ter algum tempinho após receber os medicamentos para tirar o pijama do Pernalonga e as meias grossas que mais pareciam um par de botas de esquimó.
A campainha tocou e reboquei meu corpo maltratado até à porta que juro ter ficado mais pesada, me impelindo a um esforço maior para abri-la.
Meu coração disparou e o ar ficou preso nos pulmões ao ver o moreno com seus olhos azuis me fitando. Está usando uma blusa de mangas preta e um blusão verde tropa. Eu o estava medindo dos pés à cabeça enquanto ele fazia o mesmo comigo. Um sorriso de canto pintou nos seus lábios e eu quis cavar um buraco para me esconder.
— Enfermeiro? Você está maluco. — minha voz havia piorado.
— Resultou. — deu de ombros — Quer dizer, resulta se me deixar entrar. — os batimentos acelerados do meu coração saltaram alguns com aquela expressão no seu rosto.
Eu posso lidar com Crane o deus grego. Contudo não sei se tenho estofo para Crane sendo fofo. Desviei para que ele entrasse e fechei a porta, me encolhendo com a aragem. Ele balançou a sacola com os medicamentos.
— Mas como conseguiu os remédios? — sinalizei a banca da cozinha para que ele os deixasse ali.
— O enfermeiro estava saindo da van quando eu estava chegando. — dei-lhe as costas para encher um copo de água. —Perguntei se a entrega era para o seu apartamento e quando ele respondeu que sim eu simplesmente disse que poderia trazê-los porquê eram para minha namorada. — meus olhos saltariam fora se eu fosse um desenho animado.
Ergui a cabeça vendo-o na banca da cozinha lendo as caixas de remédio distraidamente. Quase como se ele não tivesse se dado conta do que havia acabado de dizer.
— Estes são primeiro e é suposto ter se alimentado pelo menos meia hora antes de toma-los. — os olhos azuis passaram por mim e desceram para a outra caixa de remédios. No entanto, viajaram de volta para mim, seu sobrolho franzido. — O que foi?
Estava parada à meio da cozinha com o copo de água na mão.
— Você está pálida.
— Eu estou doente. Dá um desconto. — tomei um gole de água, grunhindo pela dor na garganta que tratou de tornar meu disfarce bem realista.
— Vamos tratar do almoço para que possa tomar um destes logo. — desceu o zíper do casaco, desvencilhando-se do mesmo e pendurando-o nas costas dos bancos altos da cozinha. — O que quer comer? — arregaçou as mangas da blusa verde musgo, contornando a bancada ainda sobre meu olhar assombrado. — Mira. — ergueu as sobrancelhas, confuso.
— Você vai cozinhar?
— Por que está tão surpresa? Eu vivo sozinho e não sei cozinhar. É isso que pensa?
— Bom, você poderia viver de take-away. — dei de ombros. — Ou ter uma cozinheira.
— Uma hora enjoaria de take-away e uma cozinheira seria como ter um colega de quarto. — rebateu minhas teorias, rápido e sem dar importância. — O que quer comer?
— Eu não estou com fome. — fiz uma careta, me esticando para pegar os analgésicos.
Ele se moveu e num piscar de olhos tirou a caixa do meu alcance, enfiando-o num dos bolsos dianteiro da calça jeans.
— Carne ou frango? Massa ou arroz?
— Sua cabeça numa bandeja de prata.
Ele combateu o sorriso, pigarreando e cruzando os braços ao peito. Os bíceps contraindo, testando a elasticidade do tecido da blusa e me distraindo da batalha silenciosa de olhares que estava decorrendo. Meu corpo se queixou, pedindo tréguas.
— Ok. — revirei os olhos. — Frango e massa.
— Linda. — murmurou de olhos fixos nos meus.
Aquilo seria interessante.
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