Notas iniciais
Postei e saí correndo...

— Pode comer.


Está sentado ao meu lado na bancada da cozinha.


— Eu ainda estou me recuperando da descoberta do quão bem você manuseia uma faca. — remexi o macarrão com frango no prato.


Dei uma garfada e quando engoli os olhos azuis estavam postos em mim.


— Onde você foi fabricado? — ele sorriu, focando no seu próprio prato. — Estou falando sério, Crane. Você não pode ser bom em tudo.


— E não sou.


— É ruim de cama?


— Acha que sou?


Não mesmo. Alguém com a habilidade e controle do próprio corpo acaba parecendo bastante capaz de saber como usá-lo para agradar outra pessoa.


— Isso é pessoal.


— Pessoal? — o sobrolho franzido indicava o quão absurdo aquilo tinha lhe soado.


Terminei de mastigar e limpei os lábios no guardanapo antes de lhe responder.


— Como acha que eu sou na cama?


Ele piscou, despreparado. Passou as mãos pelos cabelos, respirando de forma audível e pesada.


— Ok. Eu entendi.


— Você já me imaginou na sua cama. — afirmei, meu instinto me enchendo de certeza.


O seu copo de água tombou quando ele o esbofeteou sem querer e apanhou-o antes que a água derramasse.


Segui o observando, curtindo o seu desconforto. Não é tão legal assim quando você é o boneco de posto de gasolina.


— O que eu fazia no que imaginou?


— Mira, coma. — ordenou, mas desta vez a ordem não me intimidou.


Eu estava no controle e essa é uma sensação de poder que facilmente sobe à sua cabeça e te faz ir em busca de potencializa-la.


— Consigo comer e te escutar contando o que andou fantasiando comigo ao mesmo tempo.


— Sem chances.


— Então, eu vou comer sozinha na sala. — juntei meu prato e o copo de água e me preparei para sair.


Sua mão prendeu meu pulso até que eu soltasse a louça de volta.


— Birrenta! — murmurou baixo, consigo mesmo. — Nua, embaixo de mim, muito molhada. Gemendo. É assim que você acaba na minha cama. — levou minha mão até sua boca e beijou meus dedos com os olhos azuis escurecidos me admirando. — Agora coma se realmente quiser tomar os remédios e começar a curar isso.


Fui incapaz de retrucar fosse o que fosse. Eu estava, inegavelmente e da forma mais imprópria, excitada, querendo ocultar isso dele o melhor possível.

***

Me enfio debaixo do edredom e Crane se senta na beira da cama, ao meu lado.


— Vai ficar bem?


— Claro que sim. Sei me cuidar direitinho. — sorri. — E vou estar boa no sábado para aquele tal encontro.


— Espero que sim. Tenho coisas a resolver amanhã durante o feriado, mas posso deixar pra outra hora e vir pra cá se precisar.


— Não, Crane. Pode tratar da suas coisas. Eu fico bem. Sério, relaxa!


— Eu telefono.


— E eu atendo.


Ele riu e se inclinou sobre mim, uma das mãos na cabeceira da cama acima da minha cabeça.


— Não tem mesmo apreço pela sua saúde, hein?


— Tenho, mas acontece que meu apreço pela sua boca é maior ainda.

Sou beijada. Não resisti em puxa-lo assim que com seu beijo aquela excitação ressuscitou. No princípio, ele resistiu, escutei mesmo a cabeceira estalar pela força com que ele a pressionava.

Estiquei meu corpo na sua direção e enrosquei os braços à volta do seu pescoço. Meu peito se alinhou ao seu e ele gemeu com o contato, soltando a cabeceira da cama para apoiar minhas costas. Sua mão livre subiu da lateral da minha cintura até se fechar à volta de um dos meus seios. Contraí com a carícia por cima do tecido do pijama, ele manipulava meu seio num movimento circular, lento e firme, com a palma da sua mão roçando no mamilo. Foi a minha vez de gemer. Então ele desceu a boca pelo meu maxilar, indo para o pescoço e o colo do meu peito.


Eu estava me arqueando de encontro à ele, deixando meus seios à mercê da sua boca. E ele aceitou a oferta. Seus lábios roçaram no meu mamilo sensível e mesmo por cima do tecido o calor da sua boca bastou para endurece-lo. Com o polegar ele sentiu o relevo e fechou os olhos com força, me apertando mais.


— Não aguento muito mais. Você me deixa tão duro que dói.


— Não tem que aguentar. Estou bem aqui pra você.


— Porra, Mira. Você está doente. Por mais que eu queira te pegar por horas não vou fazer isso com você desse jeito. Te quero, mas te quero bem.


— Mentiroso. — empurro-o.


O que foi ridículo já que minha força normalmente não é pareo para ele e menos ainda quando não a tenho a 100%. Detesto ter sentido a dor no corpo e não ter sido capaz de disfarça-la a tempo. Deixando-o mais convicto ainda sobre estar certo.


— Pode dizer o que quiser, mas a verdade é que você sempre inventa desculpas. Está começando a parecer que é virgem e tem medo que eu te julgue. — uma das suas sobrancelhas sobe e a boca repuxa em um dos cantos quando começa a balançar a cabeça, sorrindo.


— Não vai dar certo esse papinho mole pra cima de mim.


— Mole é meu papinho, né?


Agora, ele chegou mesmo a se afastar para me ver melhor. Para me coibir melhor, com um olhar ameaçador naquele sentido que faz sua calcinha encontrar o chão por conta própria, instintivamente.


— Continua não dando certo.


— Você é tão... — exaspero, atirando os braços para o alto para deixa-los cair nas laterais do meu corpo febril. — Ok. Vai embora! — antes que meu corpo de desligue com você ainda aqui.


— Está brava? — Crane inclina a cabeça para a esquerda, com uma careta e se torna adorável quando ainda há segundos tudo que ele era é um macho alfa, intimidando sua presa.


— O que você acha?


— Eu não sei. Você é difícil de ler.


— Eu sou difícil de ler? — me espanto.


— Difícil pra cacete. Se não retribuísse meus beijos e ficasse brava por não transarmos eu nem saberia se me quer por perto ou se quer me socar.


— Pode sempre me perguntar quando tiver dúvidas. — sugiro, louca que ele aceite para que eu seja liberada para questiona-lo sobre o que quiser também.


Ao invés de me dar a resposta que quero, Crane solta uma informação. Ou anuncia.


— Aceitei acompanhar a equipe ao decatlon.


Grunhi.


— Eu odeio o decatlon.


— Consigo torná-lo interessante. — uma das suas sobrancelhas levantou sugestivamente.


— Ok, estou te ouvindo.


— Conseguiria um final de semana inteiro livre?


— Hm, posso dar um jeito.


— Se conseguir, me avise antes. — ainda abro a boca para sacar mais sobre o que ele pretende, mas sou cortada por um beijo rápido. — Te ligo mais tarde. Descansa.

***

Eu odeio o decatlon. Odeio. E sinto que a palavra ódio não comporta todo o meu desagrado pela atividade extra curricular que reúne alunos de todo o estado numa competição com várias modalidades, desde esporte à matemática e xadrez. Eu já tinha sido obrigada a participar de um na modalidade de esporte e foi o mais próximo que cheguei de desmaiar. Não que eu não fosse resistente, afinal foi por ser que acabei selecionada, mas aquilo é levado a sério demais.


A presença de Crane é contraditória. Quero adora-la, mas acabo odiando-a em parte. Sabendo que seria extremamente difícil conseguir estar perto dele da forma que gostaria, na manhã de quinta-feira eu estava com uma cara feia diante do portão do colégio, observando os alunos entusiasmados por uma viagem de dois dias nos quais não teriam a rotina usual de aulas.


— Pára! — Cassie empurrou meu ombro com o seu — Não vai ser assim tão ruim.


— Ah, vai sim. Eu consigo pressentir. — minha negatividade é tanta que toda vez que eu abria a boca o dia parecia ficar mais cinza e úmido — Laura queria ir. Essa merda deveria ser voluntária.


— Laura quer ir por causa do gostoso de literatura. E falando nele... — cobriu a boca com a mão, abafando a voz.


Segui a trajetória dos seus olhos e minha cara feia se desfez pela primeira vez desde que tinha despertado. Estava simples como sempre. Para que se esforçar quando se consegue transformar qualquer roupa na melhor escolha? Adoraria parecer uma super modelo usando jeans, sapatos e um casaco de inverno. Minha empolgação foi esmorecendo quando vi o lado ruim da situação. Eu passaria muito mais tempo com Crane em meio à dezenas de outros alunos e uns quantos professores e não iria poder sequer encostar nele. Por noventa minutos e dentro da sala de aula é suportável. Fora desse ambiente não sei como será. Sua beleza não é bem vinda hoje.


A viagem de ônibus duraria quatro horas se não apanhassemos trânsito. Empurrei o dramin com um gole de água e adormeci com a música do fone que dividia com Cassie num dos ouvidos.


Despertei com uma carícia suave na bochecha, precisando de alguns segundos para me inteirar de onde estava e em que circunstância. Ônibus, decatlon e o meu cheiro favorito no momento. O dele. Me endireitei no banco desconfortável, olhando para as fileiras à volta já vazias e silenciosas. Cassie está adormecida ao meu lado, a cabeça encostada ao vidro da janela.


— Já chegamos?


Ele está parado no corredor do ônibus, uma mão dentro do bolso da calça, e um sorriso de canto nos lábios que imediatamente eu quis beijar.


— Já. — como quem transmite uma notícia ruim, que para mim no caso era isso e ele sabia.


— Não me olha assim quando não posso chegar perto de você. — empurrei-o com a mão no seu abdômen, não o movendo nem um centímetro se ele não quisesse.


— Bolso direito da mochila. — disse, se afastando.


Enfiei a mão no dito bolso da minha mochila, puxando um cartão magnético dourado com as iniciais do hotel onde ficaríamos hospedados e um número. Escondi-o no bolso do casaco e chacoalhei Cassie até seus olhos sonolentos me encararem.


— Vamos! Somos as únicas aqui dentro ainda. — levantei, atirando a mochila sobre os ombros.


— Já? Dormimos a viagem toda? — juntava suas coisas, desnorteada — Por que está com esse sorrisinho safado?


— Que? Está maluca.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.