Notas iniciais
Sim, eu mudei a capa e o título da estória. Sim, eu sou imprevisível, um pouco só, mas foi porque inicialmente esse seria o título e por achar que levaria a estória por um outro lado eu optei por Twisted e agora percebi que não seguirei coisa alguma o tal outro lado. E é só :)

Entro em casa, dando um beijo à minha mãe e em seguida me enfiando no banheiro para um banho que deveria ser de água fria para apagar o que Crane havia ateado pelo meu corpo.

Ele havia me deixado um pouco antes do prédio onde vivo depois de eu ter dito que Joseph, o porteiro, em tempos foi um espião para os meus pais me controlarem e verificarem se eu chegava sozinha. Ainda que depois do divórcio dos meus pais e ao ver o quanto aquilo tudo me afetou ele acabou se tornando meu aliado e mais leal à mim do que a um dos meus pais, preferi não arriscar.

Foi difícil vir o caminho todo vendo Crane ao volante do Jipe Mercedes do qual eu já o tinha visto saindo e entrando algumas vezes. Eu não estava sabendo lidar com a forma concentrada, mas incrivelmente despreocupada e habilidosa com que ele dirige. Tudo nele me parece sexy. Estou crushando com força nesse maldito.

Quando pela manhã Cassie veio me avisar que meu nome estava na lista de seleções para participar do decatlon deste ano eu quis morrer. Não consegui partilhar da sua empolgação por irmos à Chicago em uma viagem de dois dias por algo tão chato como responder a uma porção de questões que para mim poderiam ser respondidas online. Meu espírito competitivo ou acadêmico é zero. Sou boa aluna porque zelo pelo meu futuro e não porque adoro estar envolvida em atividades extra curriculares.

Na aula de literatura de sexta-feira antes do horário de almoço eu ainda não havia pensado muito sobre a minha pegação enlouquecida com Crane. E eu estava me sentindo bastante evoluída por isso. Afinal, eu tinha tido um momento bem quente com um cara que poderia estar estampando os outdoors da Calvin Klein na Times Square e não andei pelos cantos suspirando ou escrevendo o nome dele nos cadernos. Mereço algum crédito por isso.

Porém, ao entrar na sala e vê-lo recostado contra a mesa, cabelos ondulados penteados para trás, a barba bem aparada e vestindo algo tão casual e despretensioso como uma jaqueta e jeans escuros, meu coração disparou. E quando os olhos azuis trancaram nos meus foi uma sucessão de desastres que só cessaram quando sentei no meu lugar e tentei não me mover mais. Então é assim a sensação de ficar sem graça e sentindo que perdemos as habilidades de mover nosso próprio corpo só pela presença de alguém que mexe connosco. É tão patético quanto eu imaginava.

Meus músculos pareciam pesar toneladas e nenhum me obedecia com a graciosidade a que eu estava acostumada. Foi assim que meu estojo caiu à minha frente, me levando a tropeçar nele e ainda assim chutá-lo para os pés de Crane que se abaixou apanhando-o apenas para depois de me entregá-lo e eu tentar não olhar para seu rosto, a pilha de cadernos escorregar pelo vão entre meu cotovelo e por pouco não acertar a cabeça de Amy que se senta na primeira fila. Meus braços e pernas eram tão descordenados quanto dos bonecos de beira de posto de combustível.

Ninguém deu verdadeira importância ou chegou a ver isso tudo acontecer, mas Crane viu e quando o encarei ele estava na sua mesa com a mão à frente da boca, me observando. Não é perceptível se ele estava rindo de mim. Poucas pessoas devem ser tão bem articuladas como ele. É como se tudo que ele fizesse fosse previamente calculado para não falhar e com um charme extra.

A aula foi decorrendo com normalidade, com exceção de todos os instantes em que eu aproveitava que seus olhos estavam ocupados com outra coisa ou quando ele estava de costas para admirar o quão absurdamente maravilhoso ele é.

Não! Mas já? A campainha tocou e todos começaram a juntar as coisas. Uns mais eufóricos que os restantes pois aquela era a última aula do dia para eles, assim como é para mim. Eva e Laura ainda terão a tarde ocupada por isso se limitaram a acenar e lançar beijos voados quando saíram às pressas para não enfrentarem fila na cantina.

— Me dê cinco minutinhos, Jones. — a voz de Crane tirou minha concentração da mensagem que eu digitava no celular já me preparando para deixar a sala.

Aguardei ainda que duas garotas que mais pareciam irmãs pela similaridade entre elas batessem um papo que aposto que foi encenado apenas para terem a atenção do professor gato exclusivamente para elas.

Meu celular vibrou no bolso do casaco, formigando minhas costelas.

"Jantar sábado à noite?"

Sorri digitando rápido uma resposta à JP.

"Claro."

"É um encontro então."

Os clones passaram por mim me deixando sufocar na nuvem de perfume doce e intenso.

— Sabe que toda vez que alguém fica depois do toque não é porque realmente tem dúvidas e sim porque querem sete minutos no paraíso?

Parei à sua frente, sua mesa nos mantêm a uma distância que impossibilita o toque, mas ainda assim a tensão e energia que corre entre nós é palpável. É tão forte que ela é quase uma pessoa a mais no cômodo.

— Sete minutos no paraíso?

Assisti-o vestir o casaco marrom escuro aparentando ser de ótima qualidade, como tudo que ele veste aliás. O que me leva a questionar que talvez os professores do Austen não ganhem tão pouco como os outros.

— Sete minutos no paraíso. — repeti — Você nunca jogou verdade ou desafio? — franzi a testa.

Suas sobrancelhas espessas se ergueram evidenciando ainda mais os olhos azuis e me fazendo rir da sua expressão.

— Meu Deus! Onde você esteve exilado até hoje? — dramatizei — Pelo menos já ouviu falar do jogo e conhece as regras?

— Sim.

Ele está devidamente composto e pronto para enfrentar o frio lá fora, sua pasta preta na mão direita e uma chave na outra. Toda sua atenção voltada para mim em expectativa da minha resposta.

— Sete minutos é um dos desafios que costuma ser lançado sempre que o jogo acontece com álcool à mistura. Você tem de passar sete minutos trancado em algum cubículo com outra pessoa. E nestes sete minutos podem fazer o que quiserem com a suposta promessa de que o que fizerem nunca será dito à ninguém. Mas é óbvio que os garotos não sabem manter a boca fechada e muito se descobre sobre estes sete minutos no paraíso. — revirei os olhos.

— E você já passou sete minutos no paraíso com alguém? — o pomo de Adão em seu pescoço subiu quando a saliva desceu de forma audível pela sua garganta.

— Uma vez.

Carrancudo. É como ele está.

— Tem planos para amanhã?

— Não.

— Almoça comigo?

Me empenhei em estampar ar de quem não havia ficado embasbacada com o convite.

— E se alguém nos vê juntos?

— Não vão ver. — garantiu com uma convicção obstinada.

— Ok. E como fazemos isso?

Crane checou o relógio no pulso antes de retrucar alguma coisa.

— Passo na sua casa para te buscar por volta das onze.

— Você realmente não tem medo que alguém, digamos a minha mãe, nos veja juntos, não é? — ironizei.

Notei perfeitamente quando ele combateu um sorriso e me propôs uma nova solução.

— Na Cafeteria que fica a dois quarteirões da sua casa.

— Como sabe da Cafeteria?

— Não é a única que gosta de bagels.

— Eu nunca te disse que gosto de bagels.

— Sou bom observador. — rebate sem vacilar.

— Está bem. — concordei já me dirigindo à porta da sala — Não me deixe esperando. Eu não sou boa nisso de ter paciência. — ainda o vi pelo canto do olho sorrir quando fechei a porta.

— Oi. Você está na minha classe de geografia, não é? — me virei para a garota de rabo de cavalo atrás de mim.

Revirei os olhos, rindo. — Não sei. Estou?

— Pelas duas últimas aulas nas quais não esteve presente, eu diria que não. Ah, espera! Você não esteve arbitrando a última festa de Carnaval? Eu ia jurar que te vi lá.

Despejei os livros pesados dentro do cacifo, puxando a mochila que papai me ofereceu no verão.

— Fui às aulas em outro horário estas semanas. — encarei Sue — Eu estou um pouco sumida. — admiti, caminhando para fora do colégio com ela ao meu lado.

— Isso por um grande e mero acaso não terá alguma relação com o comportamento estranho de Alan desde a sexta-feira de carnaval na qual ele esteve por mais de duas horas desaparecido com você?

— Você montou um esquema na parede do seu quarto estilo FBI para chegar a essa conclusão? — debochei.

Apertei os botões do casaco até o colarinho e enrolei um cachecol à volta do pescoço, me encolhendo frente à temperatura negativa. O sol é uma dádiva em dias frios como este. Fechei os olhos por um instante, esticando-me como um girassol em busca dos preciosos raios solares para aquecerem minha pele.

— Foi muito mais simples que isso uma vez que Alan sempre teve uma quedinha por você.

— Como é? — busquei seu rosto para ler a veracidade do que ela acabara de dizer e tudo que conseguia ver eram bolinhas incandescentes a medida que meus olhos recuperavam da exposição ao sol. — Não brinca com isso. Eu beijeii Alan.

Finalmente minha visão se clarificou e uma Sue de pele alva, rosácea mais notória do que nunca e boquiaberta ganhou forma à minha frente.

— Mas é claro. Faz todo sentido.

— O que faz sentido? Você não está tirando onda com minha cara?

— Não. Estou falando sério. — entrelaçou o braço no meu, seus dentes batendo tal como os meus, numa sinfonia macabra. — Quando estávamos no andar de baixo suas amigas estavam paradas no corredor com Lukas e ouvimos parte da conversa.

Me lembrei das meninas terem contado na segunda-feira que Lukas tinha perguntado por mim e se eu tinha ido à festa com alguém, no que elas responderam com uma mentira sobre eu ter tido algo melhor para fazer naquele final de semana.

— Quando ele sacou que vocês não estavam mais juntos eu percebi que ele ficou um pouco animado.

— Que merda! Eu sou uma vaca sem coração agora. Eu o beijei com a ideia de tirar uma fotografia que depois de alguma forma faria chegar até Lukas por vingança. Entretanto, Crane apareceu puto da vida por estarmos bebendo, interrompeu tudo e eu nunca mais voltei a falar com Alan porque imaginei que ele não quisesse nada com uma garota que atrai encrenca.

— Está brincando? Uma garota que atrai encrenca é tudo que os garotos do ensino médio querem. — zombou, rindo.

— Eu vou tentar falar com ele para que eu possa ser só uma vaca, mas com coração. — Sue gargalhou, nem dando muita bola para o meu drama interno.

E quando cheguei em casa e pensei no almoço para amanhã que marquei com Crane entrei em outro drama. O que vestir?

Notas finais
Esses capítulos estão ficando gigantes. Deveria diminui-los