Notas iniciais
Se tudo correr como planejado devo conseguir atualizar todas as sextas-feiras ou sábados :)

— Detenção.

— Eu não entendi. — atropelei meus pensamentos e até mesmo as palavras ainda sob o efeito da adrenalina.

Ele sorriu e um abismo gelado cresceu no meu estômago. Um sorriso digno de propaganda de dentífrico, branco e perfeitamente alinhado, seu lábio superior levemente torto no canto direito. Seus olhos azuis me subjugando.

Não gostei e ele se apercebeu, rasgando ainda mais o sorriso.

— Não dificulte, Jones. — sua mão fechou meu braço com firmeza, mas sem me machucar.

Fui escoltada pelos corredores familiares, onde rostos também familiares me observavam, cochichando não baixo o suficiente.

E agora, despejada na conhecida sala ao lado da diretoria, para onde vão os alunos que estão de castigo.

— Espere aqui. — sua mão com o efeito de uma âncora me obrigou a encontrar uma cadeira. — Sentada.

Se ausentou da sala, me deixando sozinha por cinco minutos bastante irritantes com o tic tac do relógio na parede acima da mesa de professor preenchendo o silêncio. Reapareceu com os materiais que deixei na sua sala de aula.

— Este é seu plano? — cochichei.

— Tem alguma ideia melhor? — retrucou no mesmo tom, apoiando as mãos nas extremidades da minha mesa que diante dele parecia ridiculamente pequena.

— Até tenho.

— Uma que justifique sua demora em voltar à sala.

— Eu estou de ressaca. É totalmente compreensível.

— Agora admite estar de ressaca. — o tom acusatório na sua voz não me caiu bem.

— Eu não vou pagar detenção desnecessariamente. Tenho a certeza que mesmo você consegue perceber o quão injusto isso é.

— Não vai pagar detenção. Só vai ficar aqui repousando. Falei com a professora que virá. Aproveita e cura a ressaca que você não deveria nem estar tendo. É melhor assim.

— Para mim ou para você? — arrastei a cadeira, me afastando.

— Bravinha. — constatou, se inclinando perigosamente para cima de mim, a cadeira foi ruidosamente arrastada me trazendo para perto de si.

— Todas que te beijam recebem castigo? — revirei os olhos, vertendo sarcasmo.

A porta se abriu atrás de mim e o som de uma passada atarantada com saltos foi se propagando pela sala vazia. Sem perder a compostura Crane retornou à posição anterior, com as mãos apoiadas sobre a mesa, como se não fosse nada mais do que um professor empenhado em dar um raspanete discreto a um aluno. Já eu havia apanhado um susto, quase prestando continência.

— Bom dia, David. — a mulher de cabelos acobreados ainda com a forma do babyliss, pois por algum motivo é assim que a senhora Baylie os prefere, o que lhe garantiu o apelido de bayliss , cumprimentou descarregando uma pilha de livros e cadernos em cima da mesa. A letargia de Baylie nunca foi tão gritante como agora ou eu imagino que somos o elefante na sala quando sequer chamamos a atenção.

— Bom dia.

— David, é? — sussurrei para o moreno incrivelmente gostoso ainda à minha frente.

— Você vai ficar bem. Deixa comigo.

Ao vê-la chafurdar a bolsa atrás dos óculos Crane se abaixou roubando um selinho dos meus lábios. Rindo em silêncio da cara que fiz ele abandou a sala, me largando ali por uma hora para reviver tudo que acabou de acontecer de forma tão repentina.

Eu estou ficando com o meu professor? Isso algumas conseguem fazer. Não é só o fato de ser professor, mas de ser a personificação de um deus grego esculpido em carne e osso. Será que vai acontecer outras vezes? A dúvida disso me fez querer ter prolongado aquele beijo. E como era mesmo a sensação de ter seu corpo contra o meu e sua boca na minha? Quente com algumas ondas de frio, eletrizando e amolecendo meu corpo. Caramba! JP tinha razão. Tenho de falar com ele, mas sem transparecer o que está acontecendo entre Crane e eu. A memória de JP alegando que Crane já deve ter ficado com muitas mulheres rapidamente me fez estipular que não posso em circunstância alguma me iludir.

— Senhorita Jones. — Baylie vociferou, espalmando a mão sobre a mesa.

— Isto é uma detenção e não meditação. Se certifique de que se mantém conosco.

Só aí notei mais dois alunos sentados. Dois garotos aparentando ser da nona série ou primeiro ano.

— Meu professor não falou com a senhora? — indaguei quando a porta se abre e os olhos de Lukas trancam nos meus como se ele tivesse se deparado com a única pessoa que não contava.

— Sim, ele falou, mas já que está aqui fará o mesmo que os restantes. — informou com uma falsa simpatia — Seu nome. — exigiu de Lukas fazendo-o voltar a se mover e fixar aqueles olhos em outro ponto.

Mas que merda. Tudo isso numa segunda-feira de manhã e eu ainda estou de ressaca.

Lukas está tão ou mais desconfortável que eu. Estamos os dois diante da mesa de Crane. Por Deus o moreno perigoso se limitou a rabiscar alguma coisa na folha de Lukas, devolvendo-lhe em menos de um minuto após a nossa chegada.

— Está liberado.

— Obrigado, senhor Crane.

Assim que ele saiu e fechou a porta atrás de si Crane voltou a se pronunciar e o ambiente parece ter se tornado bem mais leve e respirável.

— O que estava fazendo?

— Você me botou lá. — sorri, sarcástica.

— Eu quis dizer o que estava fazendo com Lukas Tate.

Estou na sala de literatura, durante o intervalo, entregando a Crane a folha com a maldita tarefa que a professora Baylie inventou. É suposto ele corrigir ou avaliar e me autorizar a ir para a próxima aula, senão terei de voltar para a detenção e refazer tudo até que ele aprove. Sequer sabia que é assim que a detenção funciona. Sempre achei que o castigo era o tédio de estar uma hora ou mais em uma sala sem poder fazer nada. Mas o responsável e ao mesmo tempo quem me pode salvar desse calvário está mais empenhado em me interrogar.

— Ele foi pego fumando no banheiro e logo pelo professor de Teatro que é vegano, em prol do ambiente e saúde.

— Ele fuma? Você gosta disso?

— De cigarros? Não. — fiz uma careta, verdadeiramente enojada — Em um mundo que existe chocolate eu não viciaria em tabaco. E eu tentei fazê-lo parar.

— Se preocupa com ele então.

— Que tipo de namorada eu seria se não me preocupasse?

Crane ignorou minha colocação, avançando para algo em que estava visivelmente mais interessado.

— Estão juntos novamente? — jurei que aquela caneta na sua mão se partiria a qualquer momento.

— Não vou reatar com ele. Foi tudo um erro e eu costumo aprender com eles.

— Isso ainda não explica como acabou fazendo dupla com seu ex namoradinho. — ergui uma sobrancelha, fitando-o.

— Como viu este semestre a sala de detenção está à cargo da professora Baylie que ninguém suporta porque ela vive para passar tarefas. Foi o que ela fez. E já que eu estava lá, pagando detenção ou não, fui obrigada a participar. Os outros dois alunos se conheciam e se juntaram.

— Não poderia ter feito sozinha?

— Era em dupla.

— Te deixando Tate como única opção. — constatou, juntando as peças de informação de tudo que eu havia relatado.

Devo dizer que por mais que o tema da conversa seja bobo e totalmente dispensável, é boa a sensação de ter resposta na ponta da língua para preencher todas as lacunas que Crane está revelando ser mestre em encontrar. Isso e o fato de ter um leve gostinho à vingança por ele ter me deixado na detenção por estar de ressaca e ter fingido ser por preocupação e não repreensão.

— Exato. Está com ciúmes?

— Eu não tenho ciúmes. — sua expressão é digna de uma questão extremamente absurda e sem fundamento.

Sorriso claramente encenado se reclinando para trás na cadeira ao largar ruidosamente a pobre caneta em cima da mesa. E, no entanto, a postura me diz outra coisa completamente distinta.

— Estou liberada? Minhas amigas estão me esperando na cantina.

— Sim.

— Obrigada, senhor Crane. — foi difícil dizer isso sem soar extremamente dissimulada ou atacar seus lábios que se mantinham pressionados com força no para mim já habitual visual de Crane chateado.

Segui para a cantina com o estômago roncando e sedenta de algo doce para satisfazer pelo menos parte dos meus desejos pecaminosos.