Notas iniciais
Continuando...

— Está caindo de sono, Jones. Não quero nem imaginar o que andou aprontando a noite passada para estar nesse estado. — despertei, notando que ele está parado ao meu lado e a palestra tediosa não parece estar nem próxima do fim.


Murmurei algo incompreensível, esfregando os olhos.

— Pelo menos disfarce. Estava prestes a cair da cadeira. — falava comigo, mas seus olhos se mantinham fixos no homem magro e careca, discursando.

— Não estava nada. — descartei a ideia, não dando importância.

Até aqui Crane quer impor suas regras. Que saco!

— Não tem outros alunos para vigiar? — me empertiguei na poltrona.

— Mais ninguém está agindo como uma criança.

Olhei-o, cólera me inundando.

— Talvez se você fizesse um melhor trabalho a prestar atenção veria que eu sou o menor dos seus problemas.

— Levante-se. — seu tom de voz primitivo me levou a encara-lo — Agora. Não é um pedido.


Mer-da. Ele está puto.


Me desvencilhei da resma de folhas onde era suposto fazer anotações, esticando as pernas.

— À minha frente. — ordenou.

Obedeci, subindo os degraus alcatifados até alcançar a porta pesada e ter de reclinar todo meu corpo para abri-la. Crane me auxiliou de forma nada cavalheira, movido à impaciência. Seu corpo por instantes encostou-se às minhas costas e seus braços estiveram ao redor do meu tronco, me deixando levemente desnorteada com seu perfume.

— Qual é o problema? — inquiri mal pisamos fora do auditório.

— Sua língua incoveniente. É esse o maldito problema. Sou seu professor e deve se dirigir à mim de forma adequada.
Não sou burra. Ele está agindo dessa forma para restituir a barreira entre aluna e professor que foi quebrada quando tivemos aquele momento na semana passada.

— Merda nenhuma. — a irritação tomou conta de mim de forma tão repentina que eu nem sabia bem se era apenas ele ou uma junção de outros fatores que estiveram estas duas semanas me massacrando — Aliás, se há alguma parte do corpo a ser responsabilizada com certeza não é a minha língua e sequer é uma parte do meu corpo. Se é que o senhor me entende.

Ele pareceu surpreso com minha resposta. Não, ele está para lá de surpreso. A palavra surpreso está para Crane como assustada está para mim. Um eufemismo. Seu rosto está fechado em copas. É como assistir à 100 camadas de fúria se compactando e formando a expressão com que Crane me fulmina. Seus lábios estão comprimidos, os músculos do seu maxilar retesados e quando sua mão se fechou à volta do meu braço eu jurei que ele quebraria o osso.

— Desculpe, senhor Crane. Eu não quis dizer aquilo dessa forma. — quero esmurrar à mim mesma pela forma doce e feminina com que minha voz havia soado.

— Quis sim. — está tão próximo que seu hálito quente bate em meu rosto — Porque é insolente e não mede o estrago que essa sua boca pode causar. Não sei que tipo de tratamento os professores daqui têm lhe dado, mas comigo será diferente. — soltou meu braço e me apercebi que ele não havia aplicado assim tanta força, foi mais uma forma de me intimidar na qual ele foi extremamente bem sucedido.

Estou respirando pela boca, acuada contra a parede e de olhos bem abertos.

— Ok. Eu passei dos limites. — admito.

— Não será com pedido de desculpas que vai se safar dessa. Vou colocá-la na lista de árbitros para a festa de carnaval.

— O que? Mas —

— É isso ou uma falta disciplinar. — paralisei.

Falta disciplinar por aqui são as duas palavrinhas que continham qualquer revolta. É o equivalente a ter seu cadastro escolar manchado para a vida toda. Mesmo estando na faculdade.

— Vá falar com a sua professora de educação física no próximo intervalo para saber os detalhes. Por agora quero que volte ao seu lugar e se mantenha acordada.

Foi só quando ele parou de me lançar ordens e arruinar meu final de semana prolongado que o silêncio se instalou e notei sua respiração descompassada. Eu realmente tirei-o do sério.

— O que está esperando? — questionou ríspido. — Entre no maldito auditório.

Marchando com ódio suficiente para explodir o edifício, retomei o meu lugar. Ah, sim. Eu estou bastante acordada agora. Ser árbitro nas festas do colégio é o nome que se deu aos alunos que não participam da festa porque estão encarregues de vigiar os banheiros, corredores e restantes salas para basicamente evitar que haja alunos consumindo drogas, transando ou acessando pornografia. É infinita as possibilidades do que algum cabeça de vento pode se lembrar de fazer durante uma festa no colégio. E o pior é que haverá baile na sexta-feira e no sábado. O que me deixará apenas com o domingo como dia livre. Está feito. Crane foi premiado a ser odiado por mim. E eu faço questão de não o poupar de nenhuma das vantagens de ser odiado.

Parados do lado de fora do complexo de pavilhões onde decorriam as aulas de educação física estava uma dezena de alunos que eu já conhecia de vista. Imaginei que estivessem ali pelo mesmo motivo que eu. Encontrei dois rostos familiares e me aproximei, puxando conversa.

Na sexta-feira tinha combinado me encontrar com Sue e Alan à porta do colégio na hora marcada. Eu ficaria o mais próxima deles na divisão pelos corredores porque eles têm experiência e me tirariam de qualquer possível encrenca que estou rezando para não ocorrer. Laura, Eva e Cass pareciam não compreender a seriedade do meu castigo e insistiam que me arrastariam para o baile de máscaras sem ninguém se aperceber. Como se aquela camiseta de zebra e o walkie talkie preso no cinto da minha calça jeans não chamassem atenção pela negativa. O tédio estava me deixando sonolenta e nenhum aluno sequer havia dado as caras pelo corredor da biblioteca.

O chiado do walkie talkie e logo em seguida a voz abafada e cheia de estática que saiu por ele me fez saltar.

— Que susto. Porra! — respondi, apertando e soltando o botão.

— Você tem que dizer "over" no final das frases. Over. — Alan instruiu.

— Eu não vou fazer isso. É besteira.

— Está desrespeitando anos de tradição. — ri.

— O que você quer afinal? Precisa de reforço para conter uma orgia secreta?

— Quase isso. — girei, notando que sua voz não mais vinha só do aparelho.

— O que está fazendo aqui?

O garoto balançou uma garrafa de vodka à minha frente.

— Onde arrumou isso?

— Peguei de um pirralho da oitava série que tinha escondido dentro do cacifo.

— Certeza que não é água? — ele puxou a tampa da garrafa e empurrou-a para o meu nariz.

— É, não é água. Mas talvez a gente devesse dar um gole só para saber se é boa mesmo. — sugeri.

— Leu meu pensamento.

Ao fim de uma hora a garrafa antes cheia estava à meio. E meu corpo estava quente, quase febril. Estamos sentados no chão, encostados à parede, rindo de algo que eu havia dito e já não me recordo.

— Você tem os cílios de sonho de qualquer garota. — comentei, reparando no garoto ao meu lado.

Até que ele é bem bonitinho. Ou será o álcool nas minhas veias, moldando minha visão para algo agradável? Seus cabelos são compridos em comparação ao dos outros garotos, chegam aos ombros e ele está sempre com aquele ar de quem acabou de passar uma tarde surfando, depois vestiu uma roupa qualquer e tornou-a estilosa. Sua pele é oliva e ele claramente também parecia saído de um país tropical.

Me levantei, virando mais um gole da vodka que desceu queimando todo o trajeto até meu estômago.

— Onde está indo? — me acompanhou biblioteca adentro.

— Não há nada para arbitrar. — sentei em cima de uma das longas mesas de madeira — Eu poderia estar naquele baile curtindo e mostrando pro meu ex o que ele perdeu ao me trair com uma universitária.

— Ele te traiu? É por isso que não vejo vocês juntos mais.

— Sim.

— Você está triste?

— Não. Eu pretendia terminar com ele antes de ir para a faculdade. Mas meu ego está ferido. — finalmente percebi do que se trata.

— E quer curar seu ego esfregando na cara dele que é gostosa?

— Tipo isso.

— Sabe qual a melhor forma de ferir o ego de um homem?

— Me diga.

— Deixando que ele te veja com outro. — abriu os braços como se tivesse desvendado um mistério.

— Eu não estou tão bêbada assim para não perceber que está dizendo isso para que eu fique com você.

Ele riu, tomando a garrafa da minha mão. — Eu tinha que tentar.

—Admiro isso. — puxei-o pelo colarinho da camiseta listrada horrível. — Ele não está aqui para ver, mas a gente pode tirar uma foto. — sugeri, já com o celular na mão.

— Em nome da ciência. — soltou a garrafa em cima da mesa e logo seus lábios estavam grudados nos meus.

Os aparelhos jurássicos em nossas cinturas chiavam em uníssono e a voz de Sue mais falhava do que transmitia.

— O que ela está dizendo? — perguntei, aproveitando a brecha para respirar.

— Não estou nem aí. — sua boca faminta está no meu pescoço abafando sua voz.

O estrondo das portas da biblioteca subitamente sendo escancaradas fez com que eu soltasse um grito, mas nem isso foi rápido o bastante para alertar Alan do que estava para vir. O rapaz foi arrancado de cima de mim e arremessado para o outro canto da biblioteca, embatendo em uma das altas prateleiras que por sorte são aparafusadas ao chão.

Meus olhos viam com clareza Crane parado entre mim e Alan, seu rosto contorcido em uma carranca assustadora.

— Suma daqui antes que eu faça algo que me arrependa. — sua voz imponente e no entanto, mensurada.

Alan fora apanhado tão desprevinido quanto eu, é claro no seu rosto o choque. Desnorteado, vi-o atravessar as portas da biblioteca e desaparecer pelo corredor.

Em algum momento eu havia me levantado da mesa e sequer me dei conta, provavelmente puro instinto. Até mesmo a névoa do álcool na minha mente parecia ter sido enxotada. Observei Crane caminhar até as portas que se mantinham arreganhadas após terem as duas atingido o limite das dobradiças com aquele empurrão violento. Ele fechou-as e depois se manteve de costas para mim, seus braços descansando na madeira acima da sua cabeça e evidenciando os músculos dos seus ombros através do tecido fino da camisa.

— Isso foi desnecessário e totalmente descabido.

— Você é descabida. — seus olhos azuis estão ainda mais claros e evidentes pela forma com que ele me encara, parecendo querer me esganar — Não consegue cumprir uma ordem sem contorná-la e torná-la em um jogo?

— Eu cumpri perfeitamente com a ordem. — tentava me posicionar estrategicamente à frente da garrafa de vodka.

— Não me lembro de ter dito para ficar bêbada e deixar um babaquinha se esfregar em você.

— Não é da sua conta quem e o que eu deixo fazerem com meu corpo. Afinal ele é meu e a decisão também é minha.

Crane exasperou, resvalando as mãos pelos cabelos quase os arrancando enquanto resmungava coisas incompreensíveis. Por fim, se virou para mim. O peso do seu olhar quase insuportável. Desviei os olhos, ajeitando a camiseta que Alan havia bagunçado.

— Isso vai deixar marca. — parecia enojado.

— O que?

— Isso aqui. — a ponta dos seus dedos tocaram a pele sensível do meu pescoço. — Vamos! — apanhou a garrafa atrás das minhas costas, abrindo uma das portas e aguardando que eu passasse por ela — Mira, não teste a minha paciência.

Me limitei a segui-lo. Fui escoltada até sua sala, mais precisamente à salinha dentro da sua sala. Reparei na pequena pia onde ele despejou o que restou da vodka e no armário abaixo.

— É agora que vai me dar umas palmadas no traseiro e dizer que era isso que meus pais deveriam fazer? — em um sobressalto sua mão sustenta meu queixo, expondo meu pescoço e peito e deixando nossos rostos a uma distância perigosa.

— Não que você não mereça umas palmadas. — murmurou.

Rápido demais me perdi naqueles olhos azuis pela segunda vez tão perto.

— Tão bonito, mas tão irritante. — e então ele ficou ainda mais gato sorrindo e reparei que disse a frase anterior em voz alta.

— Só fique quietinha para mim agora. — mostrou a pedra de gelo na mão que tinha livre.

Em que momento ele havia aberto uma geladeira sem eu perceber?

— O que vai fazer com isso?

— Te poupar de desfilar pelo colégio com um chupão no pescoço. — seu sobrolho franziu ao tocar no assunto.

Deslizei o indicador sobre o pequeno vinco entre suas sobrancelhas, desfazendo-o. A intrepidez para dali acabar tocando sua face veio não sei bem de onde, mas uma vez que senti sua pele e sua barba na ponta dos meus dedos a última coisa que queria era parar.

— Eu disse quietinha. — prendeu meu pulso.

Ia retrucar, mas fui travada pelo frio da pedra de gelo contra meus lábios entreabertos. O contato com minha pele ainda excessivamente quente pelo efeito do álcool rompe o gelo, dissolvendo as extremidades. Seu polegar limpou um pouco da água que escorria, encostando de leve nos meus lábios. Para meu delírio ele levou o gelo à sua boca na forma mais lasciva de não beijar alguém pois só aquele simples gesto me deixou alucinada, remexendo as pernas dentro do jeans para aplacar a excitação. Meu queixo voltou a ser elevado e senti o que restava da pedra de gelo contra meu pescoço.