Notas iniciais
Minhas desculpas à Delua e Annie que a meu ver são minhas únicas leitoras :D Eu fiquei sem computador e minhas tentativas de conserto para recuperar os capítulos da estória que já estão escritos foram em vão. Tive de reescrever e por isso demorei mais tempo. Pra compensar estou postando o 4º e o 5º ao mesmo tempo. Espero que não tenha desistido da estória :)

Finalmente é sábado e estamos no último dia do segundo mês de aulas. Permaneço na cama até que as vozes de mamãe e Simon, seu namorado, perambulando pelo apartamento cessem e o som da porta batendo anuncie que o caminho está livre. Inspeciono a cozinha ainda cheirando à café e aos cigarros de Simon. Já havia me conformado com uma tigela de cereais e leite quando me lembrei dos bagels com queijo e os milkshakes da Cafeteria a duas quadras do prédio. O dia está nublado, mas se for rápida não devo precisar de um guarda-chuva. Escovo os dentes, lavo o rosto e prendo os cabelos em um coque bagunçado.

— Bom dia, Lola. — afago as orelhas da buldogue francês de JP, um dos moradores do andar de cima.

Ao me ver entrar no elevador ele abre um sorriso.

— Bom dia.

— Bom dia.

— Hoje é sábado, certo? — a confusão em seu rosto transmitiu um senso de urgência que até a cachorra captou, latindo.

— Sim. Por que?

— Ah. — suspirou, desafogado — Que susto! Mas então o que está fazendo aqui? Em cinco anos nunca te vi na manhã de nenhum final de semana ou feriado, dar o ar da graça neste elevador estando sóbria e descendo ao invés de subindo.

— Está me confundindo. — rimos — Acordei com vontade de comer bagels com queijo e milkshake da Cafeteria.

— Não brinca! Eu também estou indo para lá.

Me animei com minha companhia inesperada. JP é incrivelmente carismático e divertido. Está sempre pronto para qualquer aventura que se proponha. Só não havíamos aprontado mais pela cidade porque há dois anos ele se apaixonou por Miguel e os dois vivem agora um casamento de sonho com direito à cachorro e viagens exóticas. Chegamos à Cafetaria num instante, tínhamos tanto para conversar e atualizar.

— Onde está aquele seu namoradinho?

— Não faço ideia desde que ele foi parar entre as pernas de outra garota.

— Poxa! Deve doer ser gostosa e mesmo assim ser traída. — acabei rindo.

— Só você para fazer algo assim se tornar cômico.

Estamos sentados numa das mesas encostadas à janela de vidro, o cheirinho à chocolate quente, torradas e bacon desperta o apetite por mais que eu já estivesse satisfeita com o bagel que comi.

— Você está bem? Quando isto aconteceu? — abrigou minhas mãos entre as suas.

— Durante os dois meses em que estive com meu pai. E eu estou bem. No princípio fiquei furiosa, quis espanca-lo em público ou colocar um texto na internet. Algo que fizesse com que todos soubessem que ele que quis aquilo tudo, o namoro, o romance, as declarações e carinhos. Tanta coisa para dormir com outra depois de um ano? Me faz sentir que perdi tempo, ou pior ainda, que eu fui só um passatempo.

— Sua revolta faz todo sentido, minha querida. Lamento que tenha passado por isso. Gostava que tivesse me procurado, eu teria ensinado àquele moleque uma lição.

— Não fiquei tão mal assim. Já estou bem. O que até me faz me questionar se eu alguma vez gostei dele de verdade. — é a primeira vez que digo isso em voz alta e a expressão no rosto de JP me fez sentir menos culpada.

— Está precisando tomar um porre e comemorar.

— Comemorar o que?

— Não estar de coração partido. Podemos ir hoje à noite ou amanhã mesmo.

— Está maluco? Miguel te mataria e à mim faria pior.

— Miguel não é meu dono. — sacudiu os ombros com desdém.

— De qualquer forma, esta semana não dá. Tenho um trabalho chato de literatura para concluir.

— Desde quando acha literatura chato?

— Desde que Crane substituiu a professora dos anos anteriores. — não consigo falar dele sem que minha voz se molde nesse tom constantemente cínico pendendo perigosamente para o malicioso.

— Uh! Gosto do nome. — se empertigou, debruçando-se sobre a mesa — Como é esse Crane?

— Que fique claro que estou rindo das suas caras e bocas e não porque o tópico me diverte.

— Anotado.

Tomei fôlego e apresentei-lhe uma versão na qual Crane faltava ter chifres adornando sua testa, um tridente pontiagudo e a chave para os portões do inferno. JP está vidrado em mim, ouvindo atentamente cada palavra como quem assiste a um filme.

— Eu sei que vai parecer sem sentido, mas preciso que me descreva como é ele.

— JP! — resmunguei, surrando meu rosto com a milionésima passada de mãos de forma desgastada.

— Confia em mim. — deteve minhas mãos, mantendo-as junto de si. — Me diga como é esse Crane.

Bufei. — Alto.

— Quão alto?

— É sério? — ele assentiu — Alto tipo 1,80. Chega?

— Mira! Até parece que não me conhece. Continue.

— Olhos azuis bem claros, um pouco de barba, cabelos pretos e ondulados com um corte moderno, mas não muito certinho. Ele malha, sem dúvida. E tem pêlos no peito.

Minha boca queria entregar detalhes que não haviam se apagado da minha mente desde o dia em que o vi em tronco nu. Se minha luxúria o descrevesse ela diria "Foi numa quarta-feira à tarde e diante do espécimen mais perfeito que descobri o que é tesão no seu estado mais bruto". Só facilitar que minha mente resgate estas imagens me faz contorcer na cadeira. Impeli a mim mesma substituí-las pela recordação recente da atitude de Crane após o episódio com a pedra de gelo. É como se eu fosse invisível para ele.

Acho que nem que eu não entregue esse trabalho na segunda-feira ele irá me notar.

— Gata. — JP apertou meu queixo com o polegar e o indicador, requisitando minha total atenção em seus lindos olhos verdes. — Esse cara está muito a fim de você.

— Não está nada. — estalei a língua.

— Está sim. Pelas atitudes eu já estava desconfiando, mas precisei de uma descrição física para ter a certeza que ele é um macho alfa.

— Isso quer dizer o que? Que ele caça sozinho e é soberbo? Porquê isso é o que eu tenho afirmado ao me referir à ele como imbecil frustrado.

— Não quer dizer isso. Bem, em parte. Escute, o que vou te dizer é informação pela qual uma cambada de gente paga mil dólares.

— Adoro quando você recorre ao seu quase diploma em psiquiatria. — fui silenciada pelo seu indicador contra meus lábios.

— Um macho alfa é na maior parte das vezes um babaca porque o fato de ter vantagem sobre os restantes quase sempre faz com que o poder suba à cabeça e é fácil começar a se achar o fodão. Mas essa não é a definição do termo. Um homem que possua essa característica costuma não ter medo, ele é assertivo e confiante. O que por si só já cria uma certa energia sedutora à volta dele.

— Eu poderia ter lido isso em qualquer revista para adolescente.

— Não vou mentir. Ele já deve ter tido muitas mulheres. E acho que por isso agora ele não está sabendo lidar com o fato de estar de joelhos por uma garota do ensino médio.

— Isso não foi nem um pouco ofensivo. — ironizei, terminando meu milkshake.

— Você é uma garota, o que não quer dizer que não tenha uma maturidade até excessiva. Afinal eu nunca suportei adolescentes e estou rendido à você desde os seus quinze anos. Quinze anos. Você ainda nem era gostosa, era magricela e usava aparelho. — quis ralhar com sua descrição grotesca, mas acabamos gargalhando tanto que tínhamos os olhos rasos de lágrimas.

— Quer saber? Vamos tomar um porre sim. Que se foda o trabalho de literatura.