Atenciosamente, Crane
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Minha rosa amachucada, agora com um delicado pedaço de tecido branco a ligando como um curativo, repousa dentro de um copo alto com água até metade. Notei-a em cima do armário atrás da cadeira de Crane quando ele se abaixou para puxar meu histórico escolar de uma gaveta. Por que ele a guardaria? Ele não me parece um sujeito dado a flores.
O telefone voltou a tocar e Crane pediu licença para atender. Já está na ligação por cinco minutos.
— Como é que ele lida com isso? Ele não lida... É esse o problema. Eu propus uma solução. — seu lado frio e profissional está de volta.
Larguei a mochila aos meus pés e estiquei os braços, me espreguiçando às costas do moreno perigoso que discutia cada vez mais fervoroso com o pobre coitado do outro lado da linha chamado Andrew. Só a forma como ele pronuncia seu nome é quase aterrorizante. A sala tem poucos móveis, apenas aquela mesa, uma estante de livros e um armário alto. Existe uma janela, seguindo as normas de segurança do colégio, do tipo que abre uns míseros cinquenta centímetros e nada mais. Observei a vista para o parque de estacionamento privativo dos professores e ao longe uma cortina de nuvens escuras tomando o céu até então azul. Formiguei prontamente invadida pela pressa de chegar em casa antes da tempestade.
Retornei até a mesa de Crane, conseguindo captar sua atenção. Seus olhos subiram das minhas pernas até meu rosto, trancando nos meus. Senti necessidade de puxar para baixo a blusa em corte top crop que eu havia comprado não para mostrar a barriga, mas porque gostei da paisagem da Costa da Califórnia estampada no peito. Os milímetros de pele exposto entre a blusa e a calça jeans de cintura alta se foram e me senti instantaneamente mais confiante para estar de pé à frente de um Crane de cabelos ainda úmidos, braços apoiados sobre a mesa e olhos azuis semicerrados, não sei se para mim ou pelo que lhe era dito ao telefone.
— Faça como lhe instruí. Tenho algo prioritário em mãos. — dito isto o telefone foi posto no gancho. — Agora, nós. Acho que sabe o que a trouxe até aqui. — sinalizou para a cadeira para que eu me sentasse.
— Escute, professor Crane, eu não sou aquele tipo de garota que protagoniza novelas mexicanas da vida real.
Para minha surpresa ele pareceu interessado no que eu tenho a dizer e não sendo interrompida eu prossegui, ligeira.
— Lukas pode ser persistente. Ele sequer faz o meu tipo, mas desde a sétima série que ele tenta me conquistar e ele era o meu melhor amigo. Então pensei: por que não? A resposta veio dois anos depois, quando durante o tempo em que passei com meu pai ele me traiu com uma universitária. O que me tirou do sério foi primeiro: ele ser o meu melhor amigo. E segundo: para quê tanta insistência em me conquistar para quando me ter ficar com outra? — Crane está carrancudo quando volto a encara-lo e decido finalizar ainda mais rápida do que já havia sido — E é tudo. A minha atitude não foi o princípio de um drama para o resto do ano.
— Mira Jones. — ele diz como se provasse cada sílaba em sua boca. — Há quanto tempo é aluna do Austen?
Agora ele me analisa e me interroga de uma forma um tanto irritante, típica de professores. Tomei fôlego.
— Desde a sétima série. Mas acho que tem isso no meu histórico escolar. — sugeri, esperando que ele acatasse a dica.
— Prefiro ouvi-lo da sua boca. — com um aceno da mão direita descartou minha sugestão, passando a outra questão. — Vive com seus pais?
Eu realmente odeio esta pergunta.
— Vivo com minha mãe. Meus pais se separaram e meu pai regressou ao Brasil. — recito a frase decorada, apalpando as extremidades das unhas quadradas e bem aguçadas.
— Que é onde você estava neste verão e o motivo pelo qual seu ano letivo começou duas semanas após o arranque oficial. — disse mais para si mesmo do que para mim.
— Exatamente. Tem sido assim no último ano e pelo visto continuará a ser.
— Brasil. — sibilou, intrínseco. — Sim, eu consigo ver... — deduzi que ele se referisse ao meu tom de pele que me garantia ser lida como originária de vários países considerados exóticos e tropicais. — Preciso saber que você não será o prego no meu sapato este ano. Você cheira a encrenca.
Me peguei sem reação diante da sua última frase.
— Eu...não... — a frase ficou à meio pois fui impedida de concluir.
— Pode ter o melhor de mim ou o pior. Vai depender do seu comportamento e suas atitudes dentro da sala de aula.
Suas palavras tendo o efeito que uma camisa de forças ou algema teriam, neutralizando meu espírito caótico e me inundando com a sensação de que se não fizesse como ele diz detestaria as consequências.
Folheou meu histórico escolar, acenando de forma positiva — É uma boa aluna, ótimas notas apesar de ter um problema com as faltas de presença e distração durante as aulas. — me fitou por cima da resma de folhas — Não falte, Mira. Se eu não a ver nos intervalos dos dias em que não tiver aulas comigo contactarei o telefone do seu tutor escolar.
— Eu completei 18 anos no verão. Estava pensando em ser a minha própria tutora este ano.
— Mas não será. — fechando o histórico, levantou-se.
— Não pode impedir isso. — me indignei.
— Já o fiz.
Cheguei a abrir a boca para contestar, porém me senti indisposta e sem o mínimo de paciência. Me limitei a levantar e atirar a mochila para as costas.
— É tudo?
Esticando o braço ele pegou a rosa dentro do copo e contornou a mesa, vindo até mim. Não a entregou, a manteve entre nós como se me desse a possibilidade de escolher levá-la ou não. Será isso um teste? Se eu a levar ele vai pensar que terei problemas em lidar com Lukas? Ou eu levá-la é equivalente a assinar um acordo de paz?
Em meio ao meu impasse captei confusão cruzando seu rosto, deixando-o com ar de quem parecia ter provado algo amargo.
— Qual é o seu tipo? — seus olhos azuis se estreitaram e ele deixou novamente de me parecer apenas um professor chato de literatura.
Se eu o visse me encarando daquela forma em qualquer outro local que não fosse dentro do colégio, onde eu sou só mais uma das alunas que babam por ele, com certeza eu interpretaria como um flerte. Meu cérebro precisou de uns quantos átomos para me localizar.
— Disse que Lukas Tate não é o seu tipo.
Prendi com delicadeza a rosa entre o polegar e o indicador, aceitando-a. Ele não a libertou de imediato.
— Hum. — dei-lhe tempo de demonstrar caso fosse uma brincadeira ou dei à mim tempo para refletir sobre o que está acontecendo — Homens mais velhos. Morenos. Sem dúvida prefiro morenos. — a rosa finalmente ficou em minha posse e sem mais eu me afastei com dezenas de cálculos geométricos na mente, tentando compreender se ele havia ou não flertado comigo.
Eu não tenho problemas de auto estima. Bem o oposto. Eu não me preocupo muito com a minha aparência talvez porque onde quer que eu vá eu consiga me destacar pelo tom de pele, canela e uma mistura de chocolate, e sem dúvida os cabelos. E sempre houve garotos interessados. O que me deixou à vontade e confiante o suficiente para nunca me questionar da minha beleza. Mas, Crane? Se Zeus fosse real seria como ele. Se a perfeição existisse Crane seria a sua personificação. Até para o meu caminhão ele parece ser areia demais. Tenho de admitir. E há a diferença de idades, ainda que ele não pareça muito mais velho. Sem dúvida tem menos de 30. De qualquer forma, o que uma finalista do ensino médio tem a oferecer de interessante a um cara que com certeza já viveu e viu muito mais? Bem, sei de umas quantas coisas que tenho e que lhe interessariam. Só nunca me imaginei sendo esse tipo de garota, concluí. Quando minhas ideias foram sacudidas e voaram como pássaros sobressaltados pelo choque repentino com outro corpo.
Lukas já estava desconfortável, como eu jamais o havia visto, alisando a camisa listrada e enfiando a mão no bolso da frente da calça jeans desnecessariamente, enquanto me cumprimenta.
— Hey!
— Oi. — nem eu sabia que conseguia ser tão seca.
Se não fosse o clima pesado e a raiva que me faz desejar ter realmente comprado aquela espada de samurai que vimos na internet só para agora decepar sua cabeça, eu estaria pendurada em seu pescoço pressionando meus lábios contra os dele. Lukas é aquela pessoa que simplesmente precisava aparecer para me fazer vibrar. Ele conseguia tornar qualquer ambiente mais leve. Seus olhos castanhos de cachorrinho que caiu da mudança se iluminaram ao ver a rosa na minha mão.
— O cara da floricultura me disse que rosas negras são desde sempre símbolo de perfeição. Elas só florescem em locais muito específicos. — ele parece estar sufocando dentro da própria pele.
— Até o momento e antes dessa explicação você ter me oferecido uma rosa negra pareceu que estava retratando a morte do relacionamento que tivemos.
Terror transformou seu rosto com requintes de pânico a medida que ele engasgou com o ar e sua garganta não proferiu nenhum som.
— Estou brincando. — o sangue voltou a circular em seu rosto pálido e o ar voltou aos seus pulmões.
Foi uma sensação estranha vê-lo tão apreensivo e inseguro. Foi a primeira vez que a única pessoa que nos últimos anos parecia me conhecer não conseguiu fazê-lo. Com essa eu havia ficado deprimida e novamente furiosa porque ele havia estragado tudo.
— Diz. — incentivou ao notar que algo se passava pela minha mente — Não guarda para você e simplesmente fique me odiando em silêncio. — aquilo se assemelhou bastante a uma súplica.
— Você não merece que eu te diga nada. Já que eu sempre te disse tudo e isso não teve peso algum na sua maldita consciência quando comeu aquela magricela. — as palavras saíam entredentes.
— Não há desculpa possível. Eu sei.
— Então não tente se desculpar. — dei de dedo em seu peito.
Uma porta se abriu às minhas costas e a voz de Crane ecoou grave pelo corredor, nos subjugando.
— Senhor Tate, estou aguardando-o.
Então ele também havia sido chamado. A teoria que começara a surgir na minha mente de que Crane tinha me convocado apenas para estar a sós comigo caiu por terra, juntamente com a possibilidade maluca dele ter flertado comigo e demonstrado interesse.
Lukas passou por mim não sem antes muito agilmente ter beijado a minha bochecha. Olhei de relance em direção à sala e flagrei Crane já recomposto, vestindo uma camisa clara e as calças de moletom tinham desaparecido. A imagem dele dentro delas é que não desapareceria tão cedo da minha memória. Tampouco sua expressão dura e ranzinza que quase me fez questiona-lo "O que eu fiz?" A porta bateu distante de mim, mas não pude deixar de sentir que havia sido fechada na minha cara.
— Maluco! — sussurrei sozinha, caminhando pelo corredor.
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