Ataques de um Lobisomem
1 Parte I - Janeiro
Notas iniciais
Aquela noite pelo jeito não estava agradando ninguém. As ruas em Belo Monte estavam vazias, e uma lua gorda e brilhante ficava em destaque em meio ao céu estrelado. Em algum lugar próximo ao parque, onde algumas senhoras e senhores idosos costumam passear e onde crianças levam seus cachorros para dar uma mijada e retomarem suas vidas normalmente, as folhas mortas que caíam das árvores se espalhavam pela grama recém-cortada e pelo calçamento estreito.
Em um beco escuro onde a luz da lua gorda e brilhante custava a chegar, um homem grande e um pouco corcunda brincava com seu cachorro. O pastor alemão era quase de seu tamanho, mas bem dócil.
As crianças da rua brincavam com ele o dia todo e o cão Fofão chegava em casa cansado, com a língua de fora, lançando baba para todos os lados. O homem, que se chamava Alberto, estava com um disco amarelo em mãos. Ele jogava o disco para longe, perto do parque, e Fofão ia busca-lo sem pestanejar, cada vez mais com a língua de fora.
- Muito bem boy. – Era o que dizia Alberto toda vez que Fofão se aproximava dele com o disco amarelo na boca.
Alberto jogou o disco pela vigésima vez e Fofão não foi busca-lo. Estava muito cansado e se deitou em uma calçada próxima, colocando as patas dianteiras embaixo do pescoço e observando o local com seus grandes olhos esbugalhado.
“Droga” Pensou Alberto. Agora teria de buscar o disco ele mesmo. Deu meia volta ainda resmungando e se virou na direção do parque, andando lentamente e ainda pensativo para lá.
A lua cheia em Belo Monte era mesmo de causar admiração. O tamanho do brilho que emitia era surpreendedor, embora desde novembro passado a lua cheia não havia trazido tanta admiração assim. Dois assassinatos de animais aconteceram nas noites de lua cheia, cada uma com um intervalo de um mês.
Alberto viu o disco emborcado embaixo de uma árvore. Se aproximou rapidamente e tomou o brinquedo em mãos.
Sentiu um ar frio arrepiar sua espinha, e se virou rapidamente. Um uivo alto e estridente tomou conta de seus tímpanos, e Alberto recuou amedrontado. O susto foi tamanho que as pernas nem a garganta do homem não obedeciam mais, e ele ficou lá, parado e com medo.
Um vulto passou por trás da maior figueira do bairro, e uma estranha criatura se encontrava no local cerca de dez segundos depois, metros de distância de Alberto.
Era o maior lobo visto por aquelas bandas, nem na televisão Alberto havia visto um animal daquele porte. Seu pelo estava arrepiado e molhado, o que exalava um cheiro insuportável.
Seu focinho era grande e quando o lobo abria a boca em um rugido era capaz de se ver dois dentes em destaque, extremamente afiados e pontiagudos. A criatura se ergueu e ficou por alguns segundos andando por duas patas, apenas para depois pular em cima de Alberto.
Sua vida nem teve tempo de mudar para sempre.
Lucas morava perto do parque de Belo Monte e ficou um tanto surpreso quando recebeu a notícia da morte de um habitante da tão calma cidadezinha. A cidade estava sendo abalada por acontecimentos estranhos desde novembro passado, um por mês.
Em novembro do ano passado um dos fazendeiros mais ricos da região, o Sr.Teixeira, escutara em estranho ruído vindo de seu quintal. E lá foi ele, de espingarda em punho, só para encontrar duas vacas suas mortas no meio do curral, com buracos no pescoço e principalmente na barriga, de onde saía muito sangue.
Mesmo assim, Teixeira jurou que ainda deu tempo de ver o “safado”, fugindo pelos arbustos e passando bem em frente a casa, correndo por trás de uma cerca e pegado uma estradinha que dá no riacho. Quando foi questionado quem era o homem, Teixeira disse que não virá o rosto dele, apenas um vulto que seguiu este mesmo caminho.
Em dezembro o azarado foi outro fazendeiro, só que este morava mais perto da cidade. Fora atacado do mesmo jeito, e não havia visto quem fez aquilo.
E agora em janeiro o terror se abateu sobre a cidade, já que nos dois meses anteriores foram apenas animais, e neste mês fora assassinada uma pessoa.
Lucas foi se juntar a multidão que se formava perto do corpo em companhia do seu amigo Charles. Em Belo Monte não havia Instituto Médico Legal e o corpo teve de ser levado para outra cidade. Enquanto ninguém chegava o corpo permanecia onde estava, sem ninguém mexer em nada, só olhar. Lucas conseguiu dar alguns safanões nos curiosos e chegou bem perto do corpo. Charles ficou sentado em um banco próximo porque não gostava de corpos sem vida.
Depois de três minutos Lucas saiu da multidão e eles resolveram darem uma passeada antes de voltarem para casa.
- E aí, viu alguma coisa? – Perguntou Charles, sentado perto de Lucas em um monte de madeira que se formava perto da Rua 07, de onde se podia ver a ponte que atravessava o riacho e uma casa abandonada.
- Ele tinha um furo estranho no pescoço, fora isso nada de estranho.
- Foi o Lobisomem.
Disse Charles, sem mais nem menos.
- Como sabe?
- Não é o que a vizinhança anda dizendo desde o ano passado, para mim só pode ser lobisomem.
- Você é muito infantil.
- Vai dizer que você também não tem uma sombra de dúvida?
- Tenho, mas não quero pensar nisso, posso sonhar com alguma coisa a noite.
Os dois ficaram calados por certo tempo, o dia estava entediante, sem nada para fazer.
- Ei, e se a gente fingisse que é um lobisomem mesmo? – Disse Charles, brincando.
- Como assim?
- Se liga, não tem nada para fazer, sei que estamos um pouco velhos, mas vamos brincar de alguma coisa. Se a gente fingisse que é um lobisomem, pelo menos teria algo para fazer.
Lucas se levantou do monte de madeira quase podre, por sorte sua bermuda não havia ficado manchada. Ele já estava um pouco mais ativo.
- E posso saber o que vamos fazer depois?
Charles deu um sorriso que ia de orelha a orelha e apontou para a casa abandonada.
- Aceito. – Disse Lucas, rindo.
A tal casa abandonada era imensa, pena de que tinha apenas um andar. Foi habitada dez anos atrás, por ingleses imigrantes, e no mesmo ano eles foram embora, sem dizer nada a ninguém. A casa ficou entregue ás moscas e a mangueira que fora plantada em frente ela apenas crescia.
Depois de algum tempo – tempo suficiente para que tudo ficasse mofado ou velho – uma fama de má assombrada que sempre acontece entre jovens foi dada a velha casa, mas nem Lucas nem Charles tinham conhecimento de tais estórias, apenas da má fama da casa mesmo.
O mais estranho de tudo – isso a mãe de Lucas é quem havia contado – foi que os ingleses abandonaram a casa sem levar os móveis e os mesmo até hoje estão intactos. Se alguém roubou algo de lá dentro, foi sem arrombar nem quebrar nada.
Depois de uma breve conversa os dois amigos se dirigiram até a mangueira e ficaram observando a fachada do casarão.
- Não estou vendo nenhum jeito de conseguir entrar sem arrombar nada. – Disse Lucas, sentando em uma raiz.
- Talvez pudéssemos entrar pela chaminé...
- Tá louco! Essa rua nem é tão parada assim, se alguém visse a gente?
Charles se sentou perto de Lucas e coçou a cabeça.
- É mesmo, que tal se a gente voltasse outra vez?
- Sim claro. Vamos deixar de besteira, e vamos a minha casa pegar uma bola.
Os dois se levantaram com raiva e com tédio, e se dirigiram lentamente em direção a casa de Lucas. Ninguém falou nada durante o trajeto, apenas pensaram e tiveram certeza de uma coisa: O que estava cometendo tais assassinatos não era humano.
Fale com o autor