Ataques de um Lobisomem
2 Parte II - Fevereiro
Notas iniciais
O mundo é cruel, e quando falo isso não estou mentindo de modo algum.
Era mais uma noite de lua cheia em Belo Monte e Antônio Ferreira descobriu isso naquela mesma noite.
Uma imensidão de estrelas se encontrava no céu, mas no bom e velho Fiat Bravo azul de Antônio se encontravam apenas algumas cervejas. Havia acabado de faltar luz em toda a cidade, e o forte ex-policial parouperto de uma pequena praça próxima a autoestrada e tomava cervejas enquanto observava as estrelas.
Estava bravo da vida por causa de sua mulher, que alguns dias atrás havia falado para ele enquanto tomava um suco na copa:
– Quero o divórcio.
Ele não havia perguntado o motivo, talvez porque no fundo já soubesse, nem queria mexer em nada. Ela que ficasse com a filha pequena, desde que fosse visita-la.
Tudo ficaria pronto dali á algum tempo e Antônio resolveu dar uma volta, para esfriar ainda mais a cabeça, que daqui a pouco só esquentaria.
Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho muito alto que vinha da parte de trás do carro- ou de algo que estivesse bem atrás do carro – e em seguida Antônio tirou a cabeça para fora do veículo e observou.
Não havia ninguém nem nada na rua, apenas uma lua gorda e brilhante que se encontrava em destaque no céu cheinho de estrelas.
Iria se sentar de volta quando um barulho ensurdecedor apareceu, dessa vez bem próximo ao seu ouvido. O teto do carro foi amassado para dentro com violência, e Antônio ficou paralisado, com as pernas encolhidas dentro do veículo.
Em uma fração de segundo, pensou em sua mulher, sua filha, e por fim em sua vida. Algo havia se mexido lá em cima, e uma face horrível de lobo apareceu pela porta aberta, soltando um bafo quente e úmido no rosto do homem assustado.
Antônio teria gritado, se houvesse tempo para isso. Os dentes do lobo se cravaram em seu peito, e o homem se encurvou e gritou de dor.
Depois de dez segundos já não havia mais vida no corpo dele, e o lobisomem foi embora, alimentado e saciado.
Mais uma vez – assim como no mês passado – uma multidão se juntou próximo ao corpo de Antônio Ferreira, e no meio dela estavam os dois amigos Charles e Lucas estavam entre os curiosos.
Depois de algum tempo todos foram embora, pois o IML já havia chegado e o corpo foi removido, sobrando apenas o carro, que tinha um dos bancos todo sujo de sangue seco.
Nenhum dos dois amigos negava que chegaram a ficar chocados com os assassinatos, mas também não a ponto de exclamarem “Oh meu Deus!”. Mas eles também percebiam que Belo Monte estava sendo levada aos poucos para um caminho desconhecido, mas macabro.
Depois de uma olhada cheia de repulsa os dois se refugiaram na casa de Lucas, onde o menino guardava uma grande – grande mesmo – coleção de filmes e revistas.
Charles se sentou na cama macia e pegou uma das numerosas revistas, folheando-a sem muita vontade.Lucas também pegou um gibi, mas deu apenas uma olhadela em uma das páginas e em seguida o jogou por cima do ombro, estava totalmente entediado.
Lá fora, uma nuvem cinzenta ameaçava chuva e os garotos viram isso pela janela, agora tinham mesmo de arrumar algo para fazer.
Charles se levantou da cama de Luca e foi até a janela, onde observou a rua ser salpicada por um chuvisco, que logo viraria uma chuvarada.
– Chuva e tédio, a pior das combinações! – Exclamou ele, com um sorriso no rosto.
– Tédio o que? – Indagou Lucas.
– Estamos aqui, sem fazer nada...
– Esse é o menor de nossos problemas, por que não conversamos um pouco?
Charles aceitou a “brincadeira” meio sem querer, e depois de falar o que mais havia passado de legal na televisão Lucas disse alguma coisa com ar sério.
– Por que não falamos sobre o “Lobisomem”.
Charles se levantou rapidamente.
– Que lobisomem o que! – Exclamou – Isso é só invenção popular, pois eu acho mesmo que tudo não passa de estranhas coincidências!
_ Não negue Charles, todo mundo pensa algo diferente, nem adianta negar.
Charles se sentou de novo, dessa vez mais calmo.
– E se existisse um lobisomem mesmo, quem seria?
Lucas ficou calado por algum tempo, pensando, mas logo respondeu.
– Não faço ideia.
Os dois se entreolharam, Charles teve uma ideia brilhante:
– E se nós voltássemos para aquela casa abandonada, aquela que mês passado a gente tentou entrar?
– Sim, claro!
O rosto de Lucas se iluminou e os dois saíram da casa em menos de cinco minutos, a chuvarada já havia parada e a rua estava toda molhada.
A cidade estava vazia, algo que a dupla chamava de “efeito pós-chuva”, e assim eles puderam falar livremente, sem censuras.
– Se eu fosse apontar alguém, apontaria o dono do Bar Passagem, aquele cara é meio estranho.
– Eu não sei que eu apontaria – Disse Charles – mas se fosse por votação de ideias eu votaria nesse aí mesmo.
Os dois foram conversando e rindo, e nem se deram conta que passaram da rua da casa abandonada.
– Opa! – Disse Lucas – Agora vamos ter que voltar.
Os dois se viraram rindo e voltaram para a rua da casa velha, assim que os dois se aproximaram Charles parou estatelado.
– O que foi? – Indagou o amigo.
– Nada – Ele riu – Um ar me passou pela espinha.
Lucas deu um sorrisinho e em seguida olhou para os lados, desconfiado e depois de se certificar que a rua estava vazia deu uma leve empurrada na porta, mas ela não cedeu.
– Já imaginou se a casa não estivesse vazia? – Disse Charles, brincando.
Lucas não respondeu nada, havia sido uma pergunta retórica. Depois de mais uma empurrada todos ficaram surpresos e chocados. A porta havia sido aberta com aquele empurrão, e a frente dos dois amigos se revelara um mundo novo, estranho e proibido.
Os dois se viraram em trezentos e sessentas graus até terem certeza absoluta de que ninguém chegaria, e só assim tiveram coragem de dar uma espiada na casa.
Da porta dava para se ver um corredor que se estendia até um cômodo do qual os dois julgaram ser a sala, pois se via um pedaço do que aparentemente era um sofá velho, comido por traças.
As paredes do corredor estavam mofadas e exalavam um cheiro levemente desagradável, além de vários quadros que eram bem dispostos pela extensão do velho corredor.
Lucas se virou para Charles e percebeu que o mesmo estava bem surpreso, deu uma cutucada no ombro do amigo.
– Entramos?
Charles demorou um pouco para responder, talvez por causa do velho sentimento de culpa que toma conta de qualquer um quando está fazendo algo de errado.
Mas não é isso que todo jovem quer? O bom gosto do proibido é a gasolina para a aventura, a adrenalina.
Charles deu mais uma olhada para os lados e em seguida respondeu afirmativamente com a cabeça.
E foi Lucas quem deu o primeiro passo no interior da velha casa. E assim que colocou os dois pés, já se sentiu dentro de um mundo totalmente diferente- um mundo em que o cheiro de mofo e um ar bem úmido predominava –e chamou Charles com um gesto de mão.
O outro garoto entrou meio desconfiado, mas logo já est6ava com os olhos grudados no velho quadro.
– Fecha a porta – Disse Lucas- Se alguém ver que ela tá aberta pode desconfiar e nos pegar com as mãos na massa.
Charles obedeceu ao pedido sem pestanejar, e depois se dirigiu rapidamente para o fim do corredor, seguido por seu amigo.
E os dois estavam certos a respeito do sofá. No fim do corredor se encontrava uma sala feia e triste. Um sofá velho com quatros lugares estava bem próximo da parede, com uma mesinha no centro e um armário cheio de bibelôs perto de uma janela paralela ao sofá, onde existia uma colônia de musgos e provavelmente bactérias, muitas bactérias.
Um dos garotos se coçou, cheio de repulsa. Lucas olhou desajeitadamente para todo o cômodo e em seguida trovou apenas uma frase com o amigo.
– Vamos para outro lugar?
– Vamos.
No entanto, quando Lucas se referia á “outro lugar”, queria dizer um lugar que ficava no interior do casarão.
Além do corredor, existiam apenas duas portas, uma delas foi aberta e tudo que foi encontrado eram nada mais nada menos do que duas vassouras velhas e alguns vidros de químicos, todos completamente vazios.
Com toda a certeza, ou esses produtos foram usados, ou simplesmente se evaporaram lentamente em meio a tristeza do local.
Os dois amigos se preparavam para abrir a segunda porta quando de repente um ruído na janela chamou a atenção dos dois: Era Lúcia, a menina do fim do quarteirão.
Assim que perceberam que a colega os estava espiando, os dois pararam perplexos.
“Pelo amor de Deus, não conte nada para meu pai” Pensou Charles, mas não conseguiu articular uma única palavra.
– Fomos pegos com a mão na massa – Sussurrou Lucas, sabendo que o amigo havia escutado.
Lúcia acenou para a janela e em seguida bateu levemente na vidraça, em seguida falou algo inaudível e saiu dali.
A princípio os dois garotos pensaram que ela havia contar para algum adulto, e o castigo por tal façanha seria um dos piores. No entanto os dois se surpreenderam ao ver que Lúcia já havia entrado na casa e estava vindo pelo corredor, com um sorriso que ia de orelha a orelha.
– Ainda bem que encontrei vocês! – Ela disse, assim que chegou na sala.
Lucas se aproximou de Charles e já estava se preparando para falar qualquer coisa, mas foi interrompido pela garota.
– Eu iria chamar vocês para brincarmos, mas quando passava por aqui vi uma silhueta na janela e pimba!
“Já estamos grandes para brincar!” Pensou Lucas, mas nada disse.
– Você não vai contar nada não é? – Perguntou Charles, aparentemente bem assustado.
– Não, não vou contar nada. – Disse Lúcia, e os dois garotos puderam perceber que seu sorriso havia se alargado, ela devia estar fazendo o máximo de esforço e para nada. Mas logo o sorriso de Lúcia se desmanchou e ela ficou séria – Mas tem uma condição.
– Claro, tinha de ter uma condição – Disse Lucas, bem baixinho, mas teve uma ligeira impressão de que Lúcia havia escutado.
– Eu só não conto se vocês me deixarem ficar com vocês, o que estão fazendo?
“Estamos apenas atrás do lobisomem” Pensou Lucas, mas mais uma vez ficou na sua.
– Estamos apenas fingindo que o tal lobisomem que estão falando é de verdade. – Disse Charles, sem medo de ser chamado de criança.
– É – Falou Lúcia, com uma cara estranha – Não tem nada mesmo para fazer no sábado. Mas o que a velha casa tem a ver com isso?
– E se tivesse algo a ver com o lobisomem?
– Maravilhoso – Gritou Lúcia, toda cheia de alegria.
Os dois amigos se entreolharam e só então perceberam o quanto Lúcia era infantil e ao mesmo o quanto eles eram infantis por acreditarem naquela besteira de lobisomem.
É um fato estranho, ao mesmo tempo eles querem acreditar, mas o velho orgulho não deixa. Os fatos são incontestáveis, mas o medo de como as pessoas em seu redor vão reagir não deixa que você acredite nem mesmo em algo que você vê em sua frente.
Mas o momento que um jovem mais deseja- um momento em que sua imaginação se torna real pelo menos para você mesmo – durou pouco, pois as pessoas logo começaram a andar pela rua.
Os três saíram dali de fininho, e Lúcia até brincou que qualquer outra lua cheia eles poderiam se encontrar ali de novo.
Mas eles sabiam que uma simples brincadeira poderiam mudar suas vidas para sempre.
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