Até você voltar
2 Quase Livre
Meses depois…
Os primeiros dias depois da partida não foram fáceis.
Na verdade, durante muito tempo, eu me perguntei se tinha tomado uma decisão impulsiva. Talvez ele estivesse certo sobre mim em alguns pontos. Talvez eu realmente fosse intensa demais, sentimental demais, precipitada demais.
Mas sempre que meu coração tentava sentir saudade, minha mente surgia como um freio, me lembrando de todas as noites em que eu me senti sozinha mesmo estando ao lado dele.
E isso bastava para me manter firme.
A ausência dele era estranha. Dolorosa. Silenciosa.
Eu havia me acostumado com o caos que existia entre nós. Com as discussões, com a tensão constante, com aquela sensação de que algo ruim podia acontecer a qualquer momento. Depois que tudo acabou, o silêncio passou a ocupar espaços que antes eram preenchidos por ansiedade.
E o silêncio era ensurdecedor.
Mas, de certa forma, eu também já estava acostumada com o silêncio que existia entre nós dois.
Mesmo separados, eu ainda pensava nele.
Pensava em como estava vivendo.
Se sentia minha falta.
Se sofria.
Ou se apenas eu ainda carregava aquele amor como uma ferida aberta.
Com o passar das semanas, comecei a reaprender a viver.
Devagar.
Como um bebê tentando dar os primeiros passos sem apoio.
Comecei a sair mais. Passei a aceitar convites que antes recusaria. Voltei a ouvir músicas sem associar cada letra a ele. Passei a dormir sem esperar uma mensagem no meio da madrugada.
Pequenas coisas.
Pequenas vitórias.
Minhas amigas insistiam para que eu não me isolasse. Durante algum tempo, porém, tudo o que eu queria era silêncio. Não queria responder perguntas, ouvir conselhos ou revisitar aquela dor em conversas intermináveis.
Mas existiam dias em que eu não suportava minha própria companhia.
Dias em que minha mente se tornava um lugar barulhento demais.
Então eu fugia.
Saía para qualquer lugar.
Conversava sobre qualquer assunto.
Fingia estar bem até começar a acreditar um pouco nisso.
Foi em uma tarde comum de trabalho que percebi o quanto algumas memórias continuam escondidas nos lugares mais improváveis.
Eu estava organizando alguns documentos quando precisei abrir uma gaveta que não mexia havia meses. Entre papéis antigos e canetas esquecidas, encontrei uma fotografia nossa.
Meu corpo inteiro paralisou.
Era uma foto simples. Nós dois sorrindo em uma praia, abraçados, como se o amor ainda fosse suficiente naquela época.
Passei o dedo pela borda da imagem sem perceber.
— Você ainda sente falta dele?
A voz de Bernardo me trouxe de volta.
Levantei os olhos rapidamente e fechei a gaveta.
— Não. Eu só esqueci essa foto aí dentro. Preciso jogar fora.
Ele encostou na mesa, me observando em silêncio por alguns segundos.
— Então por que você não jogou ainda?
Suspirei.
— Algumas coisas levam mais tempo do que deveriam.
Bernardo assentiu devagar, como se entendesse exatamente o que eu queria dizer.
— Ele ainda parece importante para você.
— Já foi. Hoje ele é apenas passado.
Mas nem eu mesma consegui acreditar totalmente naquela frase.
Bernardo apenas sorriu de canto antes de sair da sala.
Assim que ele foi embora, apoiei os cotovelos na mesa e passei a mão no rosto, cansada. A foto continuou dentro da gaveta. Mais uma vez.
Como se alguma parte de mim ainda não estivesse pronta para deixá-la ir.
O restante do dia seguiu arrastado. Tentei me ocupar com planilhas, e-mails e reuniões, qualquer coisa que impedisse minha cabeça de voltar ao passado.
Até meu celular vibrar sobre a mesa.
“Olá, boa tarde. Aquela indicação para vaga ainda está disponível?”
Meu coração vacilou.
A mensagem vinha da recrutadora com quem eu havia falado meses atrás sobre uma oportunidade de emprego para John — irmão do Derick.
Por alguns segundos fiquei encarando a tela sem saber o que fazer.
Era estranho como o universo sempre parecia encontrar pequenas maneiras de me lembrar dele.
Respirei fundo antes de abrir minhas mensagens antigas.
“Olá, boa tarde, John.
Espero que esteja bem. Uma vez pedi seu currículo para uma vaga, e a responsável entrou em contato comigo novamente. Ela pode prosseguir?”
A resposta veio quase instantaneamente.
“Oi, Beca. Pode sim. Muito obrigado.”
A formalidade da conversa me causou um aperto inesperado.
Antes, eu fazia parte daquela família.
Agora parecia apenas uma conhecida distante.
Encaminhei a confirmação para a recrutadora e bloqueei o celular logo em seguida, tentando ignorar o turbilhão de pensamentos que voltava a crescer dentro de mim.
Será que aquilo era apenas coincidência?
Ou o passado realmente nunca vai embora completamente?
— Quer sair para tomar uma cerveja depois do expediente? — Ane perguntou, observando meu semblante cansado. — Sua cabeça está quase pegando fogo daí.
Ri fraco.
— Acho que estou precisando.
Ela puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado.
— O que aconteceu?
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de responder:
— O passado tem uma mania irritante de sempre encontrar um jeito de voltar.
Ane apenas segurou minha mão por cima da mesa, compreensiva.
No fim do expediente, fomos para um bar próximo da empresa. O lugar estava movimentado, cheio de conversas altas e música baixa ao fundo. Pela primeira vez naquele dia, senti minha mente desacelerar um pouco.
Ane era uma daquelas amigas raras que sabiam acolher sem pressionar.
Conversamos sobre trabalho, clientes insuportáveis, contas atrasadas e qualquer assunto aleatório que me ajudasse a esquecer meus próprios pensamentos.
Até ela me olhar por cima do copo e comentar:
— Tem hora que eu acho que o Bernardo está interessado em você.
Franzi o cenho.
— Não vejo dessa forma. Acho que ele só tenta criar uma intimidade que não existe.
— Beca… ele vive te provocando, te olhando diferente. Às vezes até me sinto desconfortável.
Balancei a cabeça, dando de ombros.
— Eu simplesmente ignoro. Não gosto dessas coisas envolvendo trabalho e vida pessoal. Sempre dá problema.
Meia hora depois, como se o universo tivesse ouvido nossa conversa, Bernardo apareceu no bar acompanhado de uma mulher.
Alta, bonita, elegante.
— Boa noite, meninas.
— Oi — respondemos juntas.
Ele sorriu e apontou para a mulher ao lado dele.
— Essa é a Julia, minha amiga.
A garota sorriu educadamente.
— Prazer.
— Prazer, Julia — respondi.
Por um instante, senti um clima estranho pairar entre nós. Talvez ela esperasse algum tipo de reação minha. Talvez Bernardo tivesse contado alguma coisa. Talvez fosse apenas impressão minha.
— Vamos sentar ali no fundo — ele comentou.
Ane rapidamente terminou sua bebida.
— Nós também já estamos indo embora.
Chamamos o carro por aplicativo e nos levantamos da mesa. Antes de sair, me aproximei para me despedir.
Foi então que Bernardo segurou minha mão de leve.
O toque inesperado me fez encará-lo.
Ele sorriu de canto.
— Depois olha seu celular.
E soltou minha mão lentamente.
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