Até você voltar

3 Entre Linhas e Silêncios


Quando cheguei na empresa, Bernardo ainda não tinha aparecido. Aproveitei o começo da manhã para tomar café, conversar com algumas pessoas e organizar minhas tarefas do dia. A mensagem que ele havia mandado na noite anterior continuava esquecida no meu celular. Ou talvez eu só estivesse fingindo esquecer. Parte de mim estava curiosa, mas a outra preferia não alimentar expectativas que poderiam complicar tudo.

Pouco tempo depois, ele chegou.

Assim que entrou no setor, seus olhos encontraram os meus. Havia algo diferente naquele olhar. Era quase uma pergunta silenciosa, como se ele esperasse alguma reação minha. Sentou na mesa sorrindo discretamente, ainda me observando.

Sorri de volta por educação e desviei a atenção para o computador.

— Você leu a mensagem? — Ane perguntou, aparecendo ao meu lado com aquele sorriso curioso de sempre.

— Não. — respondi rindo.

— Como assim não? Você não ficou curiosa?

— Fiquei… mas também fiquei com medo.

Ela arregalou os olhos dramaticamente.

— Deixa eu ver então. Eu leio pra você.

— Não! — falei rápido, segurando o celular contra o peito. — Vai que é alguma coisa muito além do profissional.

Ane começou a rir.

— E qual é exatamente o seu medo?

Eu mesma ri antes de responder.

— Eu não sei.

A verdade era que eu sabia. Só não queria admitir.

Esperei Bernardo sair para uma reunião antes de pegar o telefone escondido. Ane estava distraída conversando com outra pessoa, então aproveitei para abrir a mensagem.

“Você me envolve com o seu olhar. Eu me sinto perdido quando te vejo ou quando você me olha, porque parece que consegue enxergar muito além do que eu mostro aqui. Você vê meus defeitos, minhas qualidades… e, ainda assim, eu me sinto bem quando estou perto de você.”

Li uma vez.

Depois outra.

E então senti aquele aperto estranho no peito.

Aquilo mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir. Talvez porque, no fundo, eu soubesse que não era apenas uma brincadeira ou um impulso momentâneo. Bernardo falava sério.

Respirei fundo e bloqueei a tela do celular rapidamente quando o vi voltando para a mesa. Ele sorriu ao cruzar os olhos comigo, esperando alguma reação. E eu sorri de volta, tentando parecer normal.

Mas por dentro não estava.

Lembrei de todas as vezes em que Derick implicou com a proximidade entre nós dois. As discussões, os ciúmes, as indiretas. Talvez homens realmente percebam coisas antes mesmo da gente querer enxergar.

Fiquei alguns minutos encarando a tela do computador sem conseguir prestar atenção em nada. Até que tomei coragem e respondi:

“Oi, eu li sua mensagem.

Mas eu não quero que você crie expectativas sobre qualquer sentimento.

Nós trabalhamos juntos, e eu preciso muito do meu trabalho. Essas situações acabam interferindo nas coisas, e isso é importante pra mim. Quero que nossa convivência continue leve e boa, sem que nada atrapalhe.”

Assim que ele visualizou, o sorriso desapareceu.

Foi sutil, mas eu percebi.

O brilho no olhar diminuiu, ele travou o maxilar por alguns segundos e logo se levantou, chamando os amigos para almoçar como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia que tinha acontecido.

Olhei para Ane, que me observava em silêncio. Balancei os ombros e dei um sorriso sem graça.

Ela entendeu sem que eu precisasse explicar.

Durante a tarde, fiquei pensando na expressão dele depois de ler minha mensagem. Eu não queria magoá-lo. Só queria evitar algo que pudesse fugir do controle.

Quando ele voltou do almoço, deixei discretamente um chocolate sobre a mesa dele.

Poucos segundos depois, ouvi sua voz:

— Quem deixou esse chocolate aqui?

Levantei os olhos do computador.

— Uma princesa. — falei rindo.

Ele me encarou, tentando segurar o sorriso.

— Foi você?

— Sim.

Pela primeira vez desde a mensagem, ele pareceu relaxar um pouco.

Eu tinha uma reunião marcada logo em seguida. Peguei meu notebook e o telefone e comecei a andar pelo corredor apressada.

— Ei.

Virei ao ouvir a voz dele atrás de mim.

— Obrigado pelo chocolate. — disse, mais baixo dessa vez.

— Não precisava agradecer.

Ele sorriu de canto.

— Não precisava ter me dado.

— É bom pra quebrar o gelo. — respondi rindo. — Mas eu preciso ir, a reunião já começou.

A reunião parecia não acabar nunca. As mesmas pautas, as mesmas pessoas falando as mesmas coisas. Em algum momento, desisti de prestar atenção e fiquei mexendo no celular enquanto terminava meu café.

Quando finalmente acabou, já estava quase na hora de ir embora. E, sinceramente, eu não fazia questão de voltar para minha mesa e correr o risco de encontrar Bernardo de novo.

Mesmo assim, voltei.

O setor estava vazio, exceto por Ane.

— Cadê todo mundo? — perguntei, sentando na mesa dela.

— Foram tomar café faz uns minutos.

Ela sorriu como se soubesse exatamente o que eu estava pensando.

— Ótimo. Assim ninguém me vê indo embora.

Desliguei o notebook, peguei minha bolsa e fui direto para os elevadores. Mas, no instante em que as portas se abriram, dei de cara com todos eles voltando do café.

Inclusive Bernardo.

Sorri sem graça e acenei em despedida.

— Já está indo? — ele perguntou.

— Sim. Tenho um compromisso, então vou sair no horário hoje.

Ele assentiu devagar, como se procurasse alguma desculpa para prolongar a conversa.

— Precisa de ajuda com alguma coisa?

Eu sabia onde aquilo iria parar.

— Não, obrigada. É perto.

— Posso te dar uma carona, se quiser. Evita o metrô cheio.

Ali estava a resposta que ele queria que eu aceitasse.

Mas eu apenas sorri.

— Não precisa. Obrigada. Até amanhã.

Apertei o botão do elevador antes que ele insistisse.

Quando cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá e me joguei na cama logo em seguida. Peguei o celular distraidamente e vi uma mensagem da Ane.

“Olha o que tem na sua mesa.”

Abri a foto.

Uma rosa.

Uma fatia de bolo de chocolate.

E um bilhete.

Meu coração disparou no mesmo instante.

“De quem é?” — perguntei, mesmo sabendo a resposta.

“Você realmente quer saber?” — ela respondeu com deboche.

“Ber…”

Nem precisei terminar.

“Bernardo.” — ela completou.

Sorri involuntariamente.

Mas o sorriso desapareceu tão rápido quanto surgiu.

Aquilo era perigoso.

Bonito… mas perigoso.

Fechei os olhos e me deitei tentando esfriar a cabeça, como se alguns minutos de silêncio fossem suficientes para organizar a confusão que ele estava causando dentro de mim.