Até a Próxima Noite
5 Máscara
Notas iniciais
“Essa porta você não deveria abrir, e você abriu
Então entre agora e veja por qual coisa pouca
Você foi traída... Não há tesouro a esconder,
Nenhum caldeirão, nenhum claro espelho de cristal
A verdade tão procurada, nenhuma cabeça de mulher decapitada
Para ganância como a sua, sem contornos de angústia,
Mas só o que vê... Veja novamente-
Um quarto vazio, com teias de aranha e nenhum conforto.
Ainda isso somente fora de minha vida eu mantive
Para mim mesmo, para que ninguém me conheça bem;
E que você profanou quando se esgueirou
Para dentro desde quarto essa noite
Por isso eu jamais devo encarar sua face outra vez.
Agora isto é seu. Eu procurarei outro lugar.”
Barba Azul – Edna St. Vincent Millay
Ele não acordou no dia seguinte, e, mesmo que Sakura e Tsunade insistissem que, a extensa manipulação feita através da acupuntura e a potente medicação eram as causas, Hinata não deixava de se preocupar. Basicamente, só abandonava seu posto na cabaceira de Naruto no Miya¹, quando era arrastada do leito do príncipe por damas da corte chorosas que insistiam que ela deveria se alimentar para não cair doente como seu marido.
Ela tinha obrigações como senhora do palácio na ausência de uma Imperatriz, e, com a residência de seu marido em reforma após o incêndio, tarefas eram coisas que não lhe faltavam. Ainda assim, ela as ignorava, escolhendo passar seus dias diligentemente cuidando para que Naruto no Miya se recuperasse mais rápido. Ela, pessoalmente, trocava as compressas de água fresca que ajudavam a aliviar a febre do príncipe. Assim como molhava seus lábios com água e administrava a água de arroz que mantinha seu sustento. Porém, jamais dizia coisa alguma, chorando silenciosamente, culpando-se internamente, e, muda, seguia implorando para que ele voltasse a abrir os olhos.
Parte da corte, em geral os de coração mais romântico, enxergava a atitude da princesa como reverenciável. Já a outra, que talvez fosse a maioria, a via como apenas um fardo. Viam-na como alguém que atrapalhava o trabalho dos curandeiros reais no herbário, sobrecarregando as damas da corte e negligenciando seus deveres. Corria também a fofoca pelo palácio de que ela tinha alguma coisa a ver com o incêndio. Tinham a desconfiança de que não havia sido presa apenas pela influência de seu pai no conselho, mas que certamente estava sob investigação. Tudo dependeria do que Naruto no Miya diria quando estivesse em condições de testemunhar sobre as circunstâncias que desencadearam o incidente. Iria ele culpá-la? Usaria aquela oportunidade para cumprir sua sinistra promessa de executá-la? Seria a oportunidade perfeita, e sua sede de sangue seria justificada por meios legais. Hinata, de certa forma, não podia deixar de pensar que caso algo do tipo acontecesse, não deixaria de ser sua culpa. Se não tivesse tentado fugir, se tivesse parado Hanabi logo no início, nada daquilo teria acontecido. Não haveriam provas de sua deslealdade e, principalmente, Naruto no Miya nunca haveria se ferido tentando encontrá-la.
Mas, mesmo sabendo que era irracional, ela não poderia se importar menos consigo mesma, ela só queria que ele ficasse bem.
Quando no segundo dia ele não acordou e sua febre piorou, se recusando a abaixar, Hinata passou por um dos piores momentos de sua vida quando teve que assistir – mesmo que tenham tentado tirá-la do recinto sem sucesso – Tsunade e Sakura espalharem vermes sobre as queimaduras de seu marido. Embora as herbalistas houvessem dito que os animais apenas se alimentariam da pele morta, e que ajudariam a controlar a inflamação, para Hinata ficaria marcada naquela que, estava sendo a primeira vez que estava vendo seu marido despido, a cena macabra daqueles seres rastejantes se alimentando da carne queimada e inflamada da pessoa que ela havia admirado toda sua vida. Era como se ele já estivesse se decompondo sob seus olhos, como se a morte já o tivesse o roubado para si e ela tivesse que ser testemunha do quão provisória era a presença dele em sua vida.
Mesmo assim, a febre não abaixou apenas se manteve estável. Sakura lhe disse que era um bom sinal, ele não estava piorando, mas Hinata pôde ver através dos olhos verdes, que se recusavam a encarar diretamente, que havia perigo ali.
A chuva caia naquela tarde castigando os telhados do palácio sem trégua, Hinata tinha o olhar sem foco. Rosto e corpo mal se moviam enquanto suas damas da corte a terminavam de vesti-la. A conversa entre as mulheres, que geralmente era afável, havia desaparecido naqueles últimos dias. Quando alguma delas tentava iniciar algo, Hinata, com a mente muito longe do quarto onde era vestida e alimentada, se respondia, era com atraso ou com vagos pedidos de desculpas. Sua apatia era tanta que ela nem sem virou quando o sino tocou e foi anunciada a entrada de alguém em seu quarto.
Qual não foi a sua surpresa em ver sua irmãzinha, trajando as tão odiadas vestes da corte, com os cabelos castanhos presos num pesado penteado estilo yoko-hyogo² adentrar seus aposentos, sentando-se à sua frente após fazer as costumeiras reverências e mesuras que o protocolo exigia.
— Hidenka-sama³ – começou ela num tom de voz tão frio e tão atípico de sua personalidade faiscante, que Hinata sentiu um arrepio a lhe atravessar. Ela também não pôde deixar de notar que o olhar duro de Hanabi se mantinha longe do seu, apontado para algo as suas costas. – Espero que esteja passando bem apesar as tristes notícias sobre Naruto no Miya.
— Por favor – Hinata disse com o olhar direcionado a suas damas de companhia – me deixem falar com minha irmã a sós.
— Hidenka-sama, não é o costume deixar que vossa alteza receba estranhos desacompanhada – disse uma das damas mais velhas, Hinata tinha apresso especial por ela mesmo que a conhecesse por pouco tempo e por isso mordeu com força o interior das bochechas, como se tivesse se punindo, antes de responder no mesmo tom que havia ouvido a concubina de seu pai usar várias vezes.
— Você está dizendo que minha irmã é uma estranha? Se retire, não vou dizer outra vez.
As damas deixaram o recinto rapidamente depois disso e só quando a porta foi fechada atrás de si que Hanabi voltou a falar.
— Parece que você já se acostumou mesmo à vida do palácio, hidenka-sama— Hinata reparou no quão ela não economizou veneno ao proferir o título pela segunda vez.
— P-pare com isso, Hanabi! Ou você queria que elas ouvissem nossa conversa?
— E você acha que não vão ouvir? – Respondeu ela num tom arrogante. – Essas bisbilhoteiras devem estar todas com as orelhas na porta nesse exato momento.
O barulho inconfundível de alguém caindo foi ouvido vindo de fora do quarto, as irmãs passaram a falar aos sussurros.
— Mais um motivo para você falar logo e baixo o que você veio fazer aqui.
Hanabi fechou os olhos e suspirou profundamente.
— Olha, sinceramente, eu estou aqui pelo nosso pai, porque depois da última que você me aprontou, eu não queria mais ver sua cara na minha frente...
Hinata sentiu um bolo crescer em sua garganta após ouvir aquilo, mas segurou as lágrimas, parecia que tudo que fazia agora era chorar. Afinal de contas, ela merecia estar ouvindo aquilo e não tinha direito algum de desejar conforto vindo da irmã.
— Hanabi!
A mais nova finalmente dirigiu o olhar para ela, um olhar selvagem e cheio de mágoa.
— O que? Você esperava que eu viesse com abraços saudosos de uma doce irmã mais nova depois daquela traição?
— E-eu... – ela titubeou sabendo que o que diria em seguida iria machucar mais ainda Hanabi – eu não podia deixar ele sozinho...
— E eu? Me deixar não teve nenhum problema?
Hinata fechou os olhos por alguns segundos e suspirou cansada antes de responder.
— Você tem a chichi-ue4.
Hanabi olhou para ela com o olhar ferido e beirando às lágrimas. Ela mordia o lábio como se para se impedir de gritar, apesar do momento tenso, Hinata sentia um certo orgulho dela por estar se controlando tão bem, caso estivessem em casa, Hanabi já estaria gritando e jogando coisas.
— Ele diz que não é seguro para você aqui. – ela disse após alguns momentos, depois de engolir o choro e sua voz só tremeu uma vez – Nós temos um plano.
— Hanabi, eu não vou fugir do palácio outra vez, você viu o que aconteceu.
— A última vez não teve nada a ver com o que aconteceu com o idiota do seu marido. E, dessa vez, ninguém vai desconfiar de nada até que seja tarde demais, não tem nenhuma chance de sermos pegos.
Hinata franziu o cenho preocupada. A última vez já tinha sido arriscada demais e só por um milagre elas haviam escapado de punições severas, ela esperava sinceramente que Hanabi não tivesse convencido seu pai de fazer mais nada perigoso.
— Do que você está falando?
— Too-san5 tem alguém infiltrado no herbário, eles dizem que o idiota não vai durar muito, que Tsunade já desistiu dele.
Hinata ficou lívida e a bolha de desespero que havia vindo crescendo em sua garganta desde que Naruto no Miya havia saído daquele prédio em chamas ameaçou a explodir de vez.
— Não é verdade!
— Cale a boca.
— Hanabi!
— Shhh! Você quer que te ouçam? Você vem pra casa, nós diremos que é para uma visita comum, mas você ficará segura sob o nosso teto. E quando o idiota morrer, você estará a salvo e esse pesadelo todo vai ter acabado.
Hinata empalideceu.
— Hanabi, você teve alguma coisa a ver com aquele incêndio?
Ela pareceu profundamente ofendida.
— O que? Você está louca? Claro que não!
Hinata queria acreditar nela, para o bem de sua própria irmã que poderia ser pega e executada por tentar assassinar um membro da família real, e por si própria que não queria se tornar a irmã da quase-assassina de seu marido.
— Você tem certeza?
— Acho que você está confundindo o membro da sua família que é inclinado à assassinatos, isto é, se você ainda nos considera família.
— Claro que considero! Você sempre vai ser minha irmãzinha, mas Naruto no Miya é meu marido agora.
— Mas logo não vai mais ser. Por favor, ane-ue6! – O lábio de Hinata tremeu e ele teve que fazer muita força para não ceder ao choro. Eram raríssimas as vezes que Hanabi lhe chamava daquele jeito. – Essa é nossa chance! Nós não temos nenhuma garantia de que eles vão te devolver para nós quando ele morrer.
— P-para de falar assim, ele não vai morrer...
— Ane-ue!
— Me desculpe, Hanabi... – ela tocou o sino de prata chamando as damas da corte.
— Hinata! E se eles fizerem você casar com o Uchiha? Nele você confia?
Hinata apenas fechou os olhos deixando as lágrimas finalmente caírem.
— Por favor, acompanhem a minha irmã que está de saída – disse ela se dirigindo às damas da corte que tinham acabado de adentrar o quarto.
Ela não abriu os olhos até ouvir as portas serem fechadas.
Naruto no Miya estava morrendo. Tsunade-dono havia desistido dele. O fogo que havia causado as feridas que o estavam tirando-lhe a vida poderia ou não ter sido causado por ela – no caso, por sua família tentando resgatá-la, mas sua culpa de qualquer forma – como muitos na corte haviam sugerido. E para coroar ela havia tido que partir o coração de sua irmãzinha mais uma vez. Ela não sabia se o relacionamento que mantinha com Hanabi, que sempre foi de extremos, iria sobreviver a mais aquele golpe. Também não conseguiria suportar a ideia de que ela a odiasse, já que pela maior parte de sua vida, inclusive agora, a única pessoa pela qual realmente havia se sentido amada, havia sido Hanabi. E com Naruto no Miya entre a vida a morte, ela sentia como se tivesse perdendo tudo ao mesmo tempo.
O estresse, a dor e o desespero pela situação em que estava, explodiram em seu peito em forma de soluços e a tristeza em seu coração transbordou em lágrimas. Nenhuma das damas da corte se aproximaram, apenas desviaram o olhar, enquanto Hinata se via ali, sozinha, chorando como uma criança abandonada numa multidão, sem ninguém para confortá-la.
Naquela noite, ela foi sozinha ao quarto onde Naruto no Miya era mantido. Todos já estavam dormindo e ela foi o mais silenciosa possível. Um guarda tentou segui-la, mas foi obrigado a desviar o olhar quando viu que ela trajava nada além do translúcido em partes hyoku7.
Ela se sentou ao lado dele, tocou o rosto o príncipe adormecido, sentindo sua testa febril ao afastar do rosto suado os longos cabelos louros que haviam escapado do coque no alto da cabeça.
Então, ela finalmente falou com ele.
— Denka-sama8— disse baixinho, mesmo que provavelmente não houvesse ninguém para escutá-la, nem ele. — Denka-sama p-precisa acordar, o reino precisa de vossa alteza, e-eu... — ela fungou, sua voz trêmula. – Ainda não há respostas das c-cartas enviadas a Tennou Heika9... Os ministros não tem a quem responder e sem alguém para mantê-los no controle eu temo pelo que possa vir a acontecer...
Ela pegou a tina de água e a compressa ao lado dele, molhando o tecido branco na água fresca e, cuidadosamente, o usando para dar suaves batidinhas com o material úmido e macio na testa de Naruto.
— Denka-sama se lembra de quando a senhora minha mãe morreu? Eu tinha apenas cinco anos, e, no começo, não sabia muito bem o que estava acontecendo... De repente tudo havia mudado, chichi-ue trouxe Mari-san para nossa casa. Ninguém me dizia nada, só me deixaram ver Hanabi quase um mês depois. Chihi-ue eu já havia perdido dois anos antes, mas depois daquilo eu sentia como se tivesse perdido toda a minha família, haha-ue10 não existia mais a imouto11 que haviam me prometido... – ela segurou o pano com força, fazendo uma pausa para recuperar o controle quase perdido. – Todos diziam que ela era frágil demais, que eu iria fazer mal a ela se me aproximasse, engraçado porque quando ela chorava não me parecia nem um pouco frágil – ela pegou seu reflexo na bacia sorrindo um pouco, mas a imagem desapareceu quando uma lágrima despencou de seu queixo, criando ondas na superfície da água.
“E Neji-nii-san... Naquela época... – um suspiro. – Eu me sentia completamente sozinha, sem uma alma no mundo que compreendesse meu sofrimento. Então, nós fomos trazidos para o palácio, era por motivo de alguma cerimônia, não me recordo qual, a sua família também veio... Acho que aquele foi o último ano do reinado de Fugaku Tennou, eu me lembro que Mitoko Chuugu12 não pôde comparecer, mas naquela época, ninguém achava que ela tinha algo grave e... Vossa alteza estava lá. Com Minato Tennou, na época Minato no Miya e a sua mãe Kushina no Miya, eu nunca tinha visto nenhuma pessoa mais bonita que ela, ela sorriu para mim e me apresentou à vossa alteza...”
“Vossa alteza tinha um sorriso enorme e cheio de janelinhas, seu sorriso me cativou de primeira. Acho que eu nunca tinha visto ninguém sorrir de maneira tão sincera, especialmente para mim... Então, eu fiz questão de não te perder de vista quando as cerimônias começaram. Foi tudo tão bonito, eu me lembro de um número de dança Noh13 , todas aquelas máscaras enfeitadas, as crianças, filhos de nobres, como eu, jogando feijões para afastar os maus espíritos... Então ela surgiu, a estrela da noite, com suas vestes de pele amarela que pareciam feitas de ouro naquela luz, mas a máscara... Eu fiquei aterrorizada e saí correndo. Ninguém da minha família notou, ninguém se importava.”
“Eu corri para dentro do palácio, mas eu era tão pequena e o mundo tão grande a minha volta, logo fiquei perdida em meio aos corredores, meu coraçãozinho batia com força. Num dado momento eu tropecei em algo, provavelmente em meus próprios pés, meu joelho começou a doer e manchou de sangue meu kimono, eu me arrastei para perto do vão da parede e fiquei ali, chorando sozinha.”
“Então, outra raposa apareceu, mas essa era branca, uma zenko14, diferente da monstruosa yako15 da dança, haviam marcas vermelhas em suas bochechas e na testa um rodamoinho, eu não me movi. Por medo ou choque, talvez os dois, então a máscara foi afastada e um sorriso cheio de janelinhas surgiu.”
Ela fez silêncio. O rosto dele permanecia destituído de qualquer expressão. Hinata procurou naquele rosto o da criança que a havia encontrado naquela noite, as sardas haviam desaparecido e ela sabia não havia nenhum membro ausente em seu sorriso. A forma arredondada do rosto havia se alongado e ganhado curvas afiadas, mas ainda havia a mesma angelicidade nos longos cílios dourados que faziam sombras nas maçãs do rosto dele, e ela sabia que se olhos se abrissem – quando se abrissem, porque eles iriam se abrir, ela tinha fé – teriam o mesmo tom celestial de azul dos olhos do seu salvador de outrora, a mesma pureza e sinceridade que jamais pertenceriam aos olhos de um assassino.
— Era Denka. Eu não me lembro das palavras que vossa alteza me disse imediatamente, só me lembro de que se sentou ao meu lado e conversou comigo mesmo que eu pouco respondesse... Secou minhas lágrimas com as próprias mãos sem se preocupar com status e comportamento apropriado. Depois lembro-me de vossa alteza dizendo para que eu não tivesse medo da raposa de nove caldas, que elas vinham da terra de sua mãe e não eram todas malignas. Contou-me sobre Inari Okami16 e seus mensageiros, mas que se uma raposa maligna viesse para me assustar, vossa alteza me defenderia. E eu acreditei e acredito agora, não importa o que todos digam, não importa qual seja o mal que o tenha feito assim, que tenha tentado te tirar de mim... Vossa alteza irá me proteger e não me deixará sozinha aqui nesse palácio tão grande.
A primeira coisa que ele sentiu foi dor. Uma ardência que parecia se espalhar por toda a metade direita de seu corpo, suas pálpebras pareciam pesar toneladas, quantas sementes de ópio vovó Tsunade devia ter-lhe dado? Duas? Três? Aquela velha um dia iria o matar com o pretexto de salvá-lo. Sua cabeça estava estourando. Ele respirou fundo algumas vezes, cada vez que seu peito expandia a ardência piorava. Flashes do que haviam lhe acontecido lhe passavam pela cabeça, todo aquele fogo... As imagens se misturavam ao sonho que havia tido, algo a ver com as estórias que sua mãe contava e máscaras de teatro e uma voz... Uma voz cálida, doce e clara como a água do rio Nakano.
Era um verdadeiro milagre que ele havia sobrevivido, mas seria irônico dizer que havia tido sorte, afinal, se sorte ele tivesse, não estaria naquela situação.
Ainda sem coragem de abrir os olhos, ele resolveu tatear a sua volta e teve a certeza dolorosa de que seu braço direito estava, por hora, – ele esperava – inutilizado. Ele murmurou um palavrão constatando com acidez que pelo menos sua voz estava intacta, Sasuke ficaria decepcionado. Sasuke... Aquele maldito! Teria ele dado notícias enquanto ele havia dormido? Pelos céus, por quanto tempo havia dormido? Ele esticou o braço bom, finalmente alcançando algo, era macio e entremeou-se a seus dedos como teias de aranha. Ele respirou fundo duas vezes em preparação, obrigando seu corpo a acostumar-se com a estranha situação atual, com cada diferente espécie de dor e desconforto que sentia e, então, finalmente abriu os olhos.
Estava em um quarto do palácio de Sasuke, já que pelo que se lembrava, o fogo havia consumido sua casa, contudo não eram os aposentos do Imperador. Claro que não seriam, provavelmente encontrava-se no quarto mais próximo do herbário. Devia ser início da manhã ou começo da noite, seus olhos, ainda sensíveis, agradeciam a pouca iluminação. O quarto parecia estar vazio além dele próprio, sem se mover, ele espiou as portas fechadas, então ele ouviu um suspiro e algo se remexer ao seu lado. Ele virou a cabeça para o lado sentindo a pele repuxar e arder onde as queimaduras o tinham atingido no pescoço.
A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi que era a primeira vez que a via dormir.
E não parecia o mais tranquilo dos sonos, ela não estava vestida para tanto, embora não usasse nada elaborado, seus cabelos caiam em desalinho nunca antes visto por ele. Ela estava deitada de mau jeito, como se tivesse sido vencida pelo cansaço em algum momento de sua sentada vigília, pois não havia leito ao lado do seu. Tinha o cenho franzido e, ferrada no sono, murmurava coisas desconexas, entre elas o nome de Naruto.
Ele mexeu o braço esquerdo novamente, notando que a coisa que havia alcançado antes havia sido uma mecha dos cabelos dela. E luz no quarto aumentou suavemente, manhã então, outro amanhecer, quantos mais ainda poderia dar a ela? Dependendo do quanto havia dormido, teria ainda seis meses. E esperava sinceramente que até lá Sasuke tivesse encontrado uma saída porque ele não sabia o que faria em seguida, não sabia o que ele poderia fazer que pudesse ser suficiente.
É claro que ela não tinha aproveitado a oportunidade para escapar, aquela mulher era mesmo estranha.
Ela franziu mais o cenho e então piscou, abrindo os olhos.
Assim que o viu ela arregalou os olhos, mas não se levantou, mal se mexeu, como se congelada pelo choque. Naruto observou a luz pálida da manhã iluminar suas bochechas rosadas se tornarem carmim e as lágrimas encherem seus olhos perolados.
— Naruto no Miya – ela disse numa voz cheia de sentimento.
— Eu sonhei com você – ele não sabia por que havia dito aquilo, mas era verdade. Ela havia estado ao seu lado todo aquele tempo, e se ele havia atravessado o vale da morte, havia sido segurando a mão de Hinata.
Ela finalmente se levantou e gritou para a dama da corte no corredor trazer Tsunade. Depois disso ele não conseguiu acompanhar muito bem os acontecimentos, tudo se passou numa confusão de herbalistas com remédios fedorentos e ministros querendo saber de sua condição, dolorosas trocas de bandagens e seu único consolo foi engolir uma semente de papoula e voltar a dormir.
Ele acordou com maior frequência nos dias seguintes. Muito embora, no começo, não passasse mais do que algumas horas acordado. Toda as vezes em que acordava, podia contar com a presença dela ao seu lado, mesmo que nunca houvesse a pego adormecida outra vez. Ele sentia um pouco de tristeza ao pensar nisso, nunca antes havia visto Hinata tão destoante de sua posição de rica senhora, bem-nascida e filha de um político. Mesmo quando a entregavam para ele, vestida com aqueles kimonos feitos de materiais translúcidos para tentá-lo, mas com cada fio de cabelo no lugar esperado para uma mulher de sua posição, ela nunca lhe pareceu tão atraente tanto quando naquela manhã em que ele havia voltado a vida. Naquela ocasião, com seu rosto marcado de lágrimas, de noites mal dormidas, cabelos em desalinho e kimono amassado ela não era a esposa de um príncipe, ela era apenas uma mulher preocupada com o marido.
E o que ele havia feito para merecer tal sentimento? Mistério.
Ele havia tentando manter a persona anterior, a que dizia que Hinata deveria temê-lo – e ela deveria mesmo – mas sua personalidade parecia escorrer como água pelas rachaduras de sua máscara, e, nos quase seis meses que se seguiram de sua recuperação, seu relacionamento com ela mudou.
— Você tem certeza que sabe como fazer isso? – ele perguntou com um ar divertido.
Ela ergueu as sobrancelhas, mas não ergueu o olhar. Era sempre tão própria, sua esposa, raramente o olhava nos olhos.
— Sakura-san me ensinou ela mesma.
— Mas o óleo vai manchar a manga de seu kimono’ttebayo.
Ela apertou os lábios para não sorrir e desviou o olhar para longe, como se controlasse para não o encarar diretamente.
— Ainda dói? É por isso que não quer que eu o toque?
— Não é isso...
— Ou o problema sou eu? Porque posso chamar Shizune-san...
— NÃO! – A última vez que Shizune tinha feito a massagem estimulatória em seu braço, Naruto profundamente desejou que o fogo tivesse engolido o membro por inteiro para que ele não tivesse que passar por tal tortura.
Dessa vez ela não conseguiu se impedir de rir e finalmente ergueu o olhar.
— O que foi, senhor meu marido? O que te perturba?
Ela soou tão sincera que ele não resistiu.
— Não quero que você veja’ttebayo?
— Ver o que?
— Minhas deformidades.
O sorriso dela morreu, seu cenho franziu, foi a vez de Naruto desviar o olhar, não queria ver o nojo no rosto dela, tampouco a pena.
As mãos pequenas e mornas de sua esposa envolveram sua mão direita o surpreendendo. Naruto prendeu a respiração e tentou puxar a mão quando ela começou a desenrolar as faixas que envolviam o membro defeituoso, mas ela o apertou firme.
— D-desculpe! Eu te machuquei?
— Não – ele suspirou – não dói mais.
Ela pareceu genuinamente aliviada e Naruto não desviou o olhar do rosto dela na cena que se seguiu. Ela desfez as bandagens com muito cuidado, jamais voltando a empregar força contra sua pele. A derme, deformada com a qual Naruto já estava familiarizado, era vermelha e repuxada, formando grossas e horrendas cicatrizes. Não havia uma só parte que o fogo não havia derretido e remoldado em algo disforme e monstruoso. O toque dela era delicado, como se em perfeito contraste com os traços rudes que sua tez havia tomado, ela o segurava como se ele fosse de frágil porcelana e com o cuidado que se empregaria somente a algo muitíssimo valioso.
— Hinata...
— Era isso que Denka-sama não queria que eu visse? Deformidades? Não vejo nenhuma. Vejo apenas a prova de sua valentia, a prova do que vossa alteza é capaz e a prova de que está aqui, comigo.
— Valentia? Não... Do que eu sou capaz? Talvez e você devesse se lembrar disso sempre, eu sou capaz de muitas coisas, Hinata.
Ela nada respondeu, apenas molhou as palmas das mãos em óleo perfumado e começou a fazer a massagem nele, começando das palmas das mãos em direção ao braço.
— Os anciões decidiram que com a reconstrução de meus aposentos finalizada e com minha recuperação completa eu devo voltar a minha rotina anterior... e você também deve. Esta noite.
As mãos dela pararam de se mover, seu corpo inteiro congelou.
— Você deveria ter partido quando teve a oportunidade.
— Meu lugar é ao seu lado. Achei que havia provado isso a vossa alteza nos últimos meses.
Pois eles ficaram tão próximos que Hinata sinceramente acreditou que o quer que tivesse feito dele o homem assustador do início de seu casamento havia passado. Nem nos corredores se falavam mais em assassinato, era como se toda aquela tensão havia sido um louco pesadelo do qual o palácio havia, enfim, despertado. O que se via era um príncipe que havia estado nos portões da morte e uma princesa que era a mais dedicada das esposas. Pois os motivos pelos quais ela era criticada quando Naruto no Miya havia caído doente, eram agora enaltecidos como virtudes. Toda sua diligência, todo o zelo. E Naruto emergiu das literais cinzas como alguém abençoado pelos céus e menos como o príncipe rejeitado por ter seu sangue misturado ao de uma estrangeira – embora houvessem sim aqueles que diziam ele só havia sobrevivido por conta do sangue de sua mãe, a bruxa.
Mas agora, ao que parecia, tudo havia voltado ao seu devido lugar e a cabeça de Hinata estava na linha de perigo outra vez.
Mais uma vez ela foi banhada, vestida com tecidos translúcidos, penteada, perfumada por damas da corte que não conseguiam compreender porque não havia sorriso em seu rosto, afinal, era a primeira noite que passaria ao lado de seu marido depois de todo aquele tempo e ninguém mais acreditava que ela não sairia sã e salva daqueles aposentos na manhã seguinte.
E mais uma vez ela estava de pé na porta dos aposentos de seu marido. O castelo era quase inteiramente novo, mas a situação era terrivelmente familiar.
Ela foi anunciada e as portas se abriram.
Hinata havia visto aquele rosto todos os dias desde que ele havia acordado. Mesmo naquele dia, eles haviam compartilhado da presença um do outro. Não era como no início do casamento, quando ela passava os dias bordando na Ooku17 e ele governando o país no Palácio. Havia familiaridade na presença dele, por maior que fosse a hostilidade que ele tentava forçar entre os dois.
— Boa noite, meu marido.
Mesmo que ele tentasse arrastá-la para o início, ela se apoiaria nas provas de que o tempo havia passado para atravessar aquilo de cabeça erguida e as provas estavam em todos os lugares, do ambiente completamente novo em que estavam às faixas que envolviam a mão direita de seu marido subindo por seu pulso e desaparecendo dentro da manga de seu kimono.
— Sente-se.
Ela obedeceu.
— Quer que eu sirva o chá?
— Não, essa noite não quero chá, mas você bebe comigo?
— P-perdão?
— Sakê’ttebayo? O que foi, Hinata? É corajosa o bastante para não fugir, mas não para beber comigo?
Ela nada disse, apenas serviu os dois copos de bebida.
Ele bebeu o dele num gole só, fazendo uma careta e depois abrindo um sorriso.
— As coisas definitivamente tem um gosto melhor quando proibidas, Tsunade-baa-chan vai ter um treco quando descobrir que eu bebi.
— Naruto no Miya!
Ele gargalhou.
— Vamos, Hinata, beba o seu.
— Beberei com uma condição.
Ele sorriu.
— Digamos que eu aceite que minha própria mulher imponha condições sobre minhas ordens, que condição seria?
— Uma estória...
— Ahhh você e suas estórias, mas não estou com vontade de ouvi-las hoje. Esta noite eu quero beber, se você não vai, melhor para mim, sobra mais.
Ele fez menção a pegar o copo dela, mas Hinata colocou a mão na frente.
— Denka-sama, se Tsunade-dono disse que vossa alteza não devia beber, ela deve ter um motivo.
— O motivo é que ela é um porre e se é para eu ter que lidar com um, vai ser com um gerado por licor tirado da adega do Sasuke, e não por velhas que usam decotes grandes demais para sua idade.
Ele tentou outra vez, mas ela foi mais rápida, entornando o licor num gole só.
— Ora ora’ttebayo!
E antes que ele pudesse pensar em fazer o mesmo ela apanhou também a garrafa com a bebida, trazendo-a para o colo, quase abraçando o objeto para mantê-lo a salvo de Naruto no Miya.
— Se ouvir minha estória eu sirvo mais doses à vossa alteza.
— Hinata, eu posso tirar essa garrafa de você a hora que eu quiser.
— E-eu pareço fraca, mas sou de um clã samurai! Eu jamais ganharia, mas não seria uma luta f-fácil. Especialmente quando sua recuperação ainda não foi completa, a garrafa se quebraria ou o líquido seria derramado, eu prometo que conseguiria pelo menos isso.
— Porque você quer tanto me contar uma estória? Tem tanto medo assim de não ver o amanhecer?
— Denka-sama mesmo disse para que eu não confie que irei.
— Ahhh não é tão tola assim! Finalmente vejo um pouco de juízo, eu tinha perdido as esperanças quando te vi de volta daquela fuga com a sua irmã.
— C-como sabia disso?
— Por favor! Como acha que ela passou desapercebida sem ordens minhas para que os guardas do palácio a ignorassem?
— M-mas?!
— Anda, me conta logo essa estória, eu quero beber’ttebayo!
Mas ela não teve tempo de começar a contar a estória, pois o chão começou a tremer.
— Não... É muito cedo – ela o ouviu dizer.
Ele se levantou e ela o acompanhou, mas era difícil, o chão tremia muito. Gritos foram ouvidos vindo se fora e de repente Naruto no Miya a estava arrastando pelos ombros para fora do quarto.
— Corra, Hinata, fuja para o mais distante daqui que você consiga, leve meu cavalo Gamabunta, ele é o mais veloz.
— Fugir? Do que está falando? – Ela o agarrou com a mão livre pelas vestes, mas Naruto fazia força para que ela se afastasse.
Um outro grande tremor quase os derrubou e uma voz monstruosa gritava, parecia vir de todos os lugares.
Mas Hinata só deixou a garrafa cair e se espatifar em milhares de pedaços de cerâmica e caro licor molhar o chão quando o viu.
Era monstruoso e parecia ter saído das suas lembranças infantis, mas era pior, muito pior. As cores da cara peluda eram ao mesmo tempo brancas, negras, vermelhas e douradas, os olhos com pupilas fendadas pareciam iluminados por fogo vindo do próprio inferno. O focinho gigante da criatura estava franzido e suas enormes presas expostas em atitude ameaçadora, as longas garras rasgavam o tatame do chão, toda a criatura parecia envolta de fogo que assim como a coloração de seu pelo parecia mudar de cor e atrás dela, nove caldas se erguiam em direção aos céus.
1 — Naruto no Miya:"no Miya" é como se faz referência ao príncipe.
2 — Penteado estilo yoko-hyogo: um penteado bastante elaborado usado no final da era Edo. Bem parecido com o que as gueixas atuais usam.
3 — Hidenka-sama: Modo de se adereçar à princesa territorial.
4 — Chichi-ue: modo respeitoso de se referir ao próprio pai.
5 — Too-san: modo informal de se referir ao próprio pai.
6 — Ane-ue: modo respeitoso de se referir a própria irmã mais velha.
7 — Hyoku: um tipo de kimono mais simples usado por mulheres debaixo do kimono.
8 — Denka-sama: Modo de se adereçar ao príncipe territorial.
9 — Tennou Heika: Vossa majestade o Imperador.
10 — Haha-ue: modo respeitoso de se referir a própria mãe.
11 — Imouto: irmã mais nova.
12 — Chuugu: Imperatriz.
13 — Noh: Teatro dançante tradicional japonês, é geralmente performado usando máscaras.
14 — Zenko: raposas benignas, celestiais associadas a Inari.
15 — Yako: raposas brincalhonas ou maliciosas.
16 — Inari Okami: deus xintoísta do arroz, usava raposas como mensageiros.
17 — Ooku: lugar onde o imperador mantinha as mulheres ligadas a ele, Imperatriz, concubinas e a mãe dele etc.
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