Notas iniciais
Olá pessoas, aqui estou eu novamente com mais uma fic sobre O&P, espero que gostem, peço que me deixem recado dizendo o que acharam da fic, fico muito feliz quando comentam e responderei a elas o mais rápido possível, att

Inglaterra 15 de Janeiro de 1795

Na pequena saleta que era destina aos trabalhos manuais, Lizzie tentava ensinar a sua pequena filha de cinco anos como se fazia um bordado de ponto cruz, bordado esse que ela mesma havia aprendido a fazer há cinco anos pela prestativa Mrs Smith, que fora a mulher designada a ser a sua dama de companhia poucos dias depois que ela chegara fugida de Londres a casa de seus maravilhosos e excêntricos tios, que foram os únicos que Lizzie sabia com certeza que a ajudaria sem questionar se ela havia de fato se casada ou não, desde que havia alegado que agora era viúva, nunca lhe perguntaram nada.

Elizabeth Bennet era uma linda mulher morena de 22 anos, de estatura baixa com uma filha pequena para criar. Para todos os efeitos, era uma mulher viúva e inteligente demais para ser mulher. Coisa que era considerado inadmissível para o século XVIII, pois se esperava que as mulheres fossem submissas a seus maridos e mãe exemplar para seus filhos. Admitir que ela fosse uma inventora estava fora de questão. Então a solução que ela criara foi que os seus tios levassem o crédito por tudo o que realizara até então. Mas não podia reclamar, desde que tivesse condição de criar a filha longe de pessoas que pudesse lhe fazer mal, era o que queria.

Ainda era possível sentir o tempo friozinho do inverno em Derbyshire, mas felizmente os dias maravilhosos da primavera estavam para se iniciar dentro de poucos meses e a sua pequenina flor do campo, estava animada demais com a possibilidade de poder ir brincar nos campos depois do inverno tão rigoroso.

— Minha linda, você está conseguindo fazer esse ponto? — Perguntou Lizzie para Jane, que entediada com a tarefa brincava com a agulha e linha.

Jane balançou a cabeça de deixou o bordado de lado.

— Mamãe minha cabeça dói — ela passou a mão pelo rosto para afastar os cabelos loiros do rosto.

Lizzie deixou o bordado de lado e pegou Jane no colo.

— Faz tempo que você está com dor? — Perguntou medindo a temperatura da filha pousando a mão em sua testa. Notou que realmente estava um pouco quente, Mas por enquanto aquilo não era motivo para se chamar o médico, se ela viesse a piorar faria isso com certeza. Jane negou com a cabeça. — Vamos fazer o seguinte meu amor. Vou chamar a Mrs. Smith para que ela me ajude a cuidar de você, assim que melhorar, nós vamos dar um passeio no jardim. Combinado?

Jane esboçou um pequeno sorriso, enquanto era levada no colo pela mãe que fora atrás da Mrs. Smith.

Com certeza aquilo era apenas uma gripe que logo se curaria. Porém não fora isso que aconteceu, pois dali para frente, Lizzie viu a sua amada filha indo de mal a pior, sem poder fazer nada a respeito.

Inglaterra 2 de abril de 1795

Apequena Jane Bennet, de cinco anos, descansava recostada em uma pilha de travesseiros em seu quarto, o primeiro à esquerda no andar de cima. Não podia sair da cama com muita frequência, não sem a ajuda da mãe. Mas ela havia virado a cama para a janela e aberto às cortinas para que Jane pudesse ver o céu enquanto estivesse deitada. E hoje, enquanto apreciava o céu noturno, viu uma estrela cadente… E outra, e depois outra. Cortaram aquele céu azul-escuro, deixando um rastro branco, e apesar de não ser nada científico, Jane fechou os olhos e desejou com toda a sua força.

— Três estrelas cadentes, três pedidos para mim. Eu desejo… — Pensou bastante para certificar-se de pronunciar os desejos corretamente e não desperdiçá-los. — Desejo ficar boa de novo para poder correr e brincar lá fora e montar meu pônei e não morrer como todos acham que vou, apesar de não falarem.

Puxou o ar e escutou o chiado que fazia ao alcançar seus enfraquecidos pulmões. A cabeça doía. Sentia dores em todo o corpo e sentia-se exausta. Os olhos tentaram se fechar, mas ela não deixou. Isso era importante e ainda tinha dois pedidos a fazer.

— Desejo um pai. Um pai de verdade, que me ame, que leia para mim… E que seja forte como um touro e não medroso como Mr. Haversham que tem medo de pererecas. — Sorriu depois de fazer o pedido, pois tinha certeza de que falara certo.

Jane apertou os olhos e fez o terceiro pedido, que sempre desejara:

— Desejo um irmão mais velho. Prometo que nunca vou brigar nem implicar com ele. Quero que seja esperto, corajoso e forte, como minha mãe. Até posso dividir meu pônei com ele.

Jane abriu os olhos, olhando pela janela. Não havia mais nenhum rastro das estrelas. Mas ela as vira. E agora um sentimento estranho e cálido tomava conta dela, como se fosse um grande cobertor de lã. Sabia que tudo ficaria bem.

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2 de abril de 2017

Georgiana Darcy olhou por cima do tablet que ganhara do pai no oitavo aniversário, virando a cabeça bem a tempo de ver três estrelas cadentes cortarem o céu em direção às estradas desertas e estreitas de Derbyshire, avançando para a costa.

— Uau — suspirou ela, esticando o pescoço para ver melhor. De todas as coisas que vira na viagem desde Londres, essa fora a mais inacreditável. Três de uma vez. Isso não podia ser normal.

— Você viu, papai?

— O quê?

— Três estrelas cadentes, uma atrás da outra!

Ele sorriu para a filha, tirando os olhos da estrada por apenas um segundo.

— Então por que você não faz um pedido? Ou é muito cética para isso?

Georgiana era muito inteligente para acreditar em pedidos para estrelas cadentes. Mas sabia que o pai não gostava de vê-la levar a vida com tanta seriedade, e um toque de capricho a fez fechar os olhos e murmurar coisas que vinha pensando ultimamente.

— Desejo ter uma mãe — disse ela baixinho. — E uma irmã ou irmão menor, porque é chato demais ser filha única. Nós nos divertiríamos muito juntos. E desejo… — Abriu os olhos e fitou o céu. Sentiu lágrimas nos olhos, mas as enxugou depressa. — Desejo que o meu pai seja feliz. Sei que ele não é, e não consigo lembrar se algum dia já foi.

Abaixou a cabeça, e a mão macia do pai afagou seu cabelo.

— É claro que sou feliz, Georgiana. Tenho você e uma casa nova em uma cidade pequena como sempre sonhei. Do que mais preciso?

Georgiana sorriu. É claro que ela sabia, mas nunca conseguira fazer com que admitisse que sua vida fosse menos do que perfeita.

— Você percebeu que eu acabei de fazer pedidos para três pedaços de pedra queimada?

— Você foi até generosa em gastar um pedido inteiro comigo.

Ela voltou sua atenção para o tablet. Não foi tão ruim se deixar levar por fantasias infantis. Era como o pai sempre dizia, ela ainda era criança, mesmo tendo o cérebro de um físico nuclear adulto.

— Então, pensou sobre o que lhe contei? — perguntou ela.

— Sobre o quê, Georgiana?

Quando passou o final de semana com os avós, ouvira algo por acaso que devia ser importante, mas seu pai, como sempre, não podia ligar menos para os negócios da família.

— Aquilo que escutei quando o vovô me levou para trabalhar com ele, na semana passada. Não lembra? Aquela bruxa da Caroline estava lá e…

— Georgiana, isso não é legal.

— E daí? Ela também não é. De qualquer forma, ela estava tratando a tia Kitty muito mal. Disse que sabia de um segredo e que se Kitty e o namorado… Wayne não fossem embora ela contaria a todos o segredo.

— Eu não me preocuparia com isso, Georgiana. Todos sabemos que Caroline está tentando colocar as mãos nos negócios. Provavelmente vê a tia Kitty como uma rival.

— É, mas tia Kitty descobriu que é uma Darcy.

— Se ela for uma Darcy, conseguirá lidar com as ameaças de Caroline Darcy. Este é apenas mais um exemplo do por que não quero tomar parte nos negócios da família. Tanta briga e desavença para tomar conta deles. — Olhou pela janela para o contorno acidentado da costa. — Vai ser muito melhor aqui.

Georgiana suspirou. Era inútil conversar com ele sobre negócios. Simplesmente não ligava. Ela olhou para o oceano escuro e para as ondas brancas que estouravam na areia, e pensou que talvez ele estivesse certo. Era realmente bonito aqui.

— Então, quanto ainda falta para chegarmos?

— Eu acho… que esta é… Ah, Georgiana, esta é a casa. Olhe só!

Georgiana olhou para a casa iluminada pelos faróis do carro enquanto entravam na rua.

— Parece que saiu de uma história de Stephen King.

— Não é maravilhosa?

Ela fez uma careta para o entusiasmo do pai enquanto ele parava e desligava o carro.

— Pensei que gostasse dos livros de Stephen King.

— Gosto, mas não quero viver em um.

Ele sorriu para ela, que olhou mais uma vez para a casa grande de dois andares era encoberta por eras e congelou. Pelo canto do olho, ela viu uma luz na janela do andar de cima. Como de uma lanterna ou algo parecido. O pai já estava abrindo a porta do carro quando ela colocou a mão em seu braço e a fez parar.

— Acho que tem alguém aí dentro.

— O quê? — Ele olhou para onde ela apontava. — Não vejo nada.

— Às vezes foi só um reflexo. — Mas não achava isso. Guardou o tablet e pegou sua caneta-lanterna do bolso. Nunca saía sem ela, não que fosse uma boa arma, mas, pelo menos, conseguiria ver a criatura que se aproximasse dela. — Melhor eu ir à frente, pai, só para garantir.

Ele bagunçou o cabelo dela, coisa que ela odiava.

— Minha garota corajosa. — Mas ela podia perceber que ele não estava nem um pouco preocupado em entrar naquela casa enorme, vazia e escura. Devia ser louco.

Faróis passaram pelo para-brisa traseiro e Georgiana virou-se para ver um segundo carro subindo a rua. Um carro grande preto. Então se não era da polícia, só poderia ser do corretor de imóveis.

— Graças aos céus! — disse ela, apesar de ainda estar nervosa.

Nos livros de Stephen King, os policiais das pequenas cidades ou mesmo outros personagens mais inocentes eram sempre eram homens bons, mas geralmente eram assassinados logo, deixando uma mãe inocente — e o filho, que o tempo todo sabia que tinha alguma coisa errada, mas que ninguém escutava — tendo de se defender sozinha.

Um homem magricelo, vestindo um terno azul, saiu do carro e se aproximou, enquanto Fitzwilliam saía do seu.

— William Collins. Acredito que seja o Sr. Darcy. Chegou bem na hora. — Ele tinha o mesmo sotaque que o velho que morava em frente à casa dos personagens principais de "Cemitério Maldito". Georgiana arrepiou-se.

— Pode me chamar de Fitz — disse ele, apertando a mão do corretor. — E este éminha filha, Georgiana.

Georgiana apenas o cumprimentou com a cabeça, sem apertar a mão. Estava muito ocupada observando a casa.

— Acho que vi alguma coisa lá em cima — disse ela, apontando, com a esperança de que o corretor enfrentasse o sujeito e o expulsasse.

— Ah, eu não me preocuparia com isso. Deve ser a fantasma.

— Fantasma?

— Dizem por aí que o fantasma de Elizabeth Bennet ainda anda pela casa. Não que eu acredite nisso, imagine. É apenas uma lenda que os mais antigos gostam de contar de vez em quando. Dá assunto para eles conversarem enquanto jogam gamão.

— Gamão — disse Georgiana. — Viu, papai. Obrigado por me trazer para essa Meca cultural.

— Olhe os modos, Georgiana. Mr Collins, se o senhor trouxesse as chaves, eu…

— Aqui estão — disse ele, forçando o sotaque. O pai achava esse sotaque legal e diria que era o tempero local. Georgiana achava isso irritante, como toda a situação, o corretor segurava uma grande chave antiga em uma argola de bronze. Parecia uma chave de cela de cadeia de um faroeste antigo. Ou a chave da masmorra de um filme de terror. Georgiana sentia o tom mudar de King para Poe. Isso não era um bom sinal.

— Vou ajudá-los com a bagagem, se quiser. A energia foi ligada e tudo deve estar preparado.

— Muito gentil de sua parte.

— É — acrescentou Georgiana. — Fico feliz em saber que temos uuuhhhh.

Darcy cutucou suas costelas, mas o corretor distraído parecia não notar a imitação de Georgiana.

— É o mínimo que eu poderia ter feito por sua avó. Anne Darcy era uma mulher extraordinária, se me perdoa o modo de falar. Quando me pediu para tomar conta da casa, fiquei mais do que satisfeito. Pena que a perdemos.

Darcy assentiu.

— Sinto muito a falta dela. — Ele passou os braços em volta dos ombros de Georgiana. — Nós dois sentimos.

O corretor concordou, limpando a garganta.

— Bem, vamos lá. Sigam-me, vou lhes mostrar tudo. E já que estou aqui, aproveito para contar tudo sobre o único motivo de fama de nossa cidade. A primeira dona deste lugar, a fantasma, se acreditam nesse tipo de coisa, Elizabeth Bennet. — Ele andava enquanto falava, daquele jeito mole e preguiçoso que faz cada frase parecer uma pergunta. Eles o seguiram pelas escadas da varanda, até a porta da frente, que era alta e escura, e, do ponto de vista de Georgiana, um pouco assustadora.

Então William abriu a porta da frente, e Georgiana decidiu que estava errada. Era muito assustadora.

O corretor acendeu uma luz.

Era fabulosa! Tudo que Darcy sempre sonhara para um lar tinha nessa casa. Ah, ele sabia que a maior parte de sua família o achava um homem sem esperanças e antiquado, mas não gostava da sociedade moderna e nem de sua aparência. Os valores modernos foram o que o deixaram com um bebê nos braços e sozinho oito anos atrás, e aquele choque o guiara para seu próprio, e talvez antiquado, código de moralidade.

Esta casa era a encarnação da vida que queria para si e para Georgiana. Uma vida simples, à moda antiga. Com uma considerável exceção. Não haveria mãe nessa tradicional família inglesa. Darcy era pai e mãe e tudo o mais. Todos diziam que não podia fazer tudo, que se cobrava muito. Mas ele podia. E faria isso sem o dinheiro da família. Não queria parte do negócio e nem a riqueza que vinha com isso. Era uma raça desgraçada, todos brigando para assegurar sua fatia na fortuna e sempre se preocupando com alguém que estava tentando tirá-la. Não. Não queria se envolver.

Isto, contudo, era perfeito.

— Nunca pensei que minha avó, com a cabeça tão moderna, tivesse alguma pista do que fazer para mim — murmurou ele enquanto andava pelo modesto hall de entrada e entrava na sala de estar gótica, com seu teto alto e sua complexa estrutura de madeira escura. — Mas vovó Anne me conhecia melhor do que eu poderia imaginar. Devia conhecer, para me deixar esta casa. — Em volta deles, os móveis estavam cobertos por lençóis brancos, como um exército de fantasmas.

— E aquela casa de hóspedes na frente será perfeita para minha oficina e antiquário. — Não conseguia evitar o sorriso. A casa era a realização de um sonho.

— Isso não é nem metade da casa. É a história que a acompanha que a torna tão especial. — Ele carregava duas malas que colocou no chão. — O senhor deve ter ouvido falar sobre a meningite, não é?

— Ouvir falar de quê? — Darcy olhou para trás, mas Georgiana já estava explorando todos os cantos e gretas, iluminando com seu sempre presente caneta-lanterna os armários e estantes. Seu coração se apertou no peito à mera menção da doença. — Quase perdi minha filha para essa doença. Ela foi exposta ainda bebê. Graças ao senhor, descobrimos a tempo.

— Bem… Uma baita coincidência, senhor, se me perdoa a expressão.

— Por que, Mr Collins?

— Bem, apesar da época Elizabeth Bennet foi à mulher responsável por encontrar a cura. Doxiciclina, você sabe. O mesmo remédio que tomamos hoje, com algumas modificações, é claro. Se não fosse ela… Ah, aqui está à sala de jantar. Estantes de madeira de lei indo do chão até o teto em duas paredes. Como na cozinha. E aquelas entre… — Ele abriu uma porta da estante, a deixou aberta e então foi para a cozinha. Abrindo a porta daquele lado, olhou para Darcy. — Viu isso? Acessível pelos dois lados.

— Muito legal. — Mas ele estava mais interessado na história que ele estava contando antes.

Georgiana se juntou a eles neste momento, tendo ouvido a história e os comentários do corretor.

— O senhor está completamente errado sobre a Doxiciclina, Mr Collins — disse ela, dando um sorriso forçado para o pai, e acrescentou: — Se me perdoa a expressão.

— Georgiana!

— Ah, pai! Todo mundo aprende isso na quarta série. O vírus de meningite e a cura para a doença foram descobertos por Phillips e Gardiner em 1796.

Darcy franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça.

— Você é uma enciclopédia ambulante ou o quê?

Ela deu de ombros e seu olhar passou do pai para o corretor.

— Nossa, que menina brilhante você tem, Mr. Darcy. Georgiana, não é? Bem, parte disso está certo. Mas você não conhece a história toda. Você sabia, por exemplo, que Crhistian Phillips e Eli Gardiner apesar de serem parentes, passaram a maior parte de suas vidas competindo um com o outro? Grandes pesquisadores, porém, mais preocupados em ser melhor do que o outro do que com a importância de seu trabalho. Cegos de ambição, podemos dizer.

Darcy viu que Georgiana estreitava os olhos em suspeita. Mas escutava.

— Foi finalmente a sobrinha deles, Elizabeth Bennet que era muito a frente para o seu tempo, quem os uniu. E como naquela época não era apropriado para uma mulher trabalhasse sozinha, pois não era apropriado, mesmo escondida do resto da sociedade, foi que juntos conseguiram encontrar a cura. — Ele balançou a mão indicando que eles deveriam segui-lo e se virou em direção à sala de estar. — Venham, quero lhes mostrar uma coisa.

Darcy sabia que estava com um sorriso idiota nos lábios, mas não conseguia evitar.

— Não é fantástico, Georgiana? Uma casa completa, com fantasma e história?

— Papai, você está muito interessado na história. Volte para a realidade, tá?

— Tudo bem. Vamos, quero escutar o resto. — Seguiu a filha, percebendo o jeito que ela parou na porta do quarto, no topo das escadas. Ficou parada por um momento, encarando a porta. Então estremeceu e esfregou a nuca.

— Você está bem, filha?

— Estou. Claro. Vamos.

Mr Collins foi em direção a um quarto no final do corredor, acendeu a luz e sinalizou para que entrassem. Darcy prendeu a respiração.

— Minha nossa! — sussurrou, piscando ao ver o retrato na parede oposta. — Parece um Derbyshire! — Ele se aproximou, passou os dedos pela moldura ornamentada, depois tocou a obra em si. — Mas não pode ser. Isso deve ter no mínimo duzentos anos.

— Você tem bons olhos, Fitz.

— Conheço antiguidades. É o meu negócio. Não está assinado. Você sabe quem fez?

— É verdade, não está assinado, e não sei quem foi o artista — respondeu Collins. — Mas é seu, junto com tudo o que está na casa. Incluindo o antigo cofre que está no sótão, ainda trancado. Podem até ter anotações de Elizabeth Bennet presas lá. Tudo seu, para fazer o que quiser como o testamento de sua avó especificou.

Darcy não conseguia tirar os olhos do retrato na parede. Uma pintura bem no estilo Derbyshire de uma mulher de cabelo escuro e preso em um penteado bem feito, olhos apaixonados e intensos, usando um vestido bordado rosa com um broche no pescoço. Em uma das mãos, segurava um pequeno aparelho com molas e fios saindo em todas as direções, e na outra, uma pequena chave de fenda. Aqueles penetrantes olhos castanhos nos encaravam através da obra. E ao lado dela, bem ao lado, vestindo roupas idênticas — apenas menores — estava sentada uma menininha que não devia ter mais de quatro ou cinco anos. Tinha cachos loiros e olhos verdes brilhantes, e segurava sua uma boneca que parecia ser de porcelana usando um vestido com saias bufantes. As duas estavam sentadas tão juntas que deviam estar encostadas. E o vínculo entre elas era tão forte que era palpável, apesar de nem estarem se olhando. Na parte inferior da pintura, tinha duas palavras: Mãe exemplar.

— Esta é Elizabeth Bennet, senhor. E a menina é a sua filha, Jane.

— Jane — murmurou ele. — Era o nome da minha tia e essa criança parece tanto com Georgiana que poderia ser sua…

— Irmã mais nova — completou Georgiana, entrando ainda mais no quarto.

— Bennet era sobrinha de Gardiner e Phillips. De fato, os dois disseram publicamente que a considerava uma das mentes científicas mais brilhantes da época. Uma das poucas coisas em que concordavam. Bem, quando a pequena Jane morreu de febre meningite…

Darcy soltou um grito sufocado, seus olhos procurando os olhos verdes da menina.

— Ah, não. Aquela menininha linda?

— Isso. No dia em que a menina morreu, Elizabeth Bennet perdeu a cabeça. A dor era muita, dizem. Trancou-se no quarto da menina e se recusava a deixar as pessoas entrarem. Quando finalmente arrombaram a porta, ela já tinha ido embora e levara consigo o corpo da menina. Nunca mais se ouviu falar de Bennet. Depois, Phillips e Gardiner ficaram tão perturbados que prometeram encontrar a cura para a doença que levara Jane. E foi exatamente o que fizeram.

Darcy brigava com as inexplicáveis lágrimas que vieram aos seus olhos enquanto escutava a história.

— É tão incrivelmente triste!

— É sim. Posso tirar a pintura e guardá-la em outro lugar se for incomodá-lo.

— Não — respondeu ele rapidamente. — Deixe-a onde está. — Seus olhos encontraram os da inventora, quase podia sentir sua dor.

— A casa não mudou muito com o passar dos anos. Tirando algumas pinturas, está quase a mesma que Bennet deixou. Como se estivesse… esperando…

Darcy franziu a testa para o homem.

— Mas tem dois séculos.

— É. Depois que Bennet desapareceu, seus tios, Phillips e Gardiner, tomaram conta da casa. Pagaram os impostos e tudo o mais, sempre insistindo que Bennet voltaria algum dia. Claro que nunca voltou. A casa foi deixada sozinha por um período curto depois que os dois morreram. Por causa dos impostos atrasados, a prefeitura a tomou e resolveu mantê-la com a esperança de conseguir vender. Nunca conseguiu. Até sua avó Anne aparecer. E mesmo quando comprou, se recusou a mudar qualquer coisa.

Darcy conseguia entender aquela relutância em mexer na casa. Ela tinha uma alma própria, como se fosse uma entidade viva — ou era a presença prolongada da cientista morta que ele sentia neste quarto?

— Ei, papai?

Ele virou-se, surpresa de a voz de Georgiana vir de uma certa distância e não bem de trás dele, onde ela estava há poucos segundos.

— Georgiana? Onde você está? — Ele saiu do quarto principal para o corredor. Georgiana estava parada em outra porta, na frente do quarto no topo das escadas. Aquele que parecia a ter assustado antes.

— Quero este quarto, se não tiver problema.

Preocupado, ele foi para onde ela estava, perto da porta que agora estava aberta. Olhou para o quarto com aparência normal, exceto pela enorme lareira de mármore em uma parede.

— Eu tive a impressão de que esse quarto lhe causou arrepios. Não foi aqui que achou que viu coisas mais cedo?

— É por isso que quero este — disse Georgiana. — Se tem algum tipo de fantasma por aqui, quero saber.

— Vai analisá-la até convencê-la de que possivelmente não pode existir?

— Talvez — respondeu ela, com um sorriso. — Então, quando a mudança vai chegar com meu XBOX?

Notas finais
Espero que tenham gostado