Até As Últimas Consequências
24 Conversa Interessante
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Você está bonito também. Por pouco não troquei, por outra roupa mais apropriada.
— O que seria muito desnecessário. Estão prontas?
Elas acenaram com a cabeça.
— Sim.
Sem mais perda de tempo saíram.
***
Charles e Louisa viviam em uma parte muito bonita de Rosings. Ele conduziu devagar e seguiu as direções com cuidado. O caminho era escuro e muito arborizado. Meia hora mais tarde, eles estava diante da casa de Charles, procurando um lugar para estacionar seu carro. Eles desceram do carro, pegou a sacola com os bifes e o bolo e rumaram para casa.
Quando a porta abriu, ele exclamou quando Charles atendeu:
Charles assobiou.
— Misericórdia! Vocês dois estão nos trinques. Olha, querida. Olha como meu amigo está paquitão. E minha nossa, Fitzwilliam. Se eu fosse mulher, eu mesmo faria umas investidas em você.
— Você faz um bem para minha autoestima, mas sem exageros. Rapaz, sua casa é muito bonita. — Ele deu um abraço de urso no amigo e entregou o bolo de chocolate que havia trazido como um presente.
— Sei, — ele riu e deu espaço para eles entrarem. — É um prazer conhecê-la. Eu me chamo Charles Bingley, o melhor amigo desse mal educado. E esta é minha adorada esposa Louisa. Qual é o seu nome?
Elizabeth estendeu a mão e cumprimentou alegremente aquele homem bonito. A mulher atrás dele, era uma mulher negra linda. Tanto ele quanto a esposa formavam um bonito casal.
— Me chamo Elizabeth Bennet Terceira. — Ela apressou-se a dizer antes que surgissem mal entendidos.
— Seja muito bem vinda, e só para você saber meu amigo, a casa é realmente bonita, foi Louisa quem escolheu.
— Ei! É claro que foi eu que a escolhi, se dependesse do seu amigo, viveríamos em um cubículo. — Ela falou com segurança quando o marido acabava de se apresentar para a recém-chegada e agora estava abraçando Georgiana, levou sua mão a Elizabeth em boas-vindas. — Seu nome é muito bonito. Você tem algum apelido ou quer que lhe chamemos Elizabeth mesmo?
— Bem algumas pessoas me chamam de Lizzie. Podem me chamar do que quiserem.
— Então a chamarei de Lizzie, pode deixar o seu casaco com Charles, que ele vai guardar. Venha vamos pôr este bolo na cozinha, hoje serão os homens que cuidaram do nosso jantar. Georgiana, Cynthia está na sala de brinquedos, quer ir se juntar a ela? Subindo a escada é a primeira porta e esquerda. — Perguntou a menina que mais do que de pressa correu para brincar com a menina de quatro anos. — A propósito, você parece ótima. Amei seu cabelo, e roupas — Louisa lhe disse. Agradecendo ao elogio, Elizabeth imediatamente percebeu que se elas seriam ótimas amigas, se a situação fosse diferente.
Elizabeth olhou ao redor quando Louisa mostrou o caminho à cozinha. A sala de estar estava dominada por uma maciça chaminé e ao lado uma escada que levava a um andar superior. O teto da sala de estar era saltado, dirigindo a atenção de qualquer um para às claraboias no terraço. Havia alguns brinquedos espelhados na sala e muitas fotos. Dava para sentir o aconchego de longe naquele lugar.
— Vou deixar o bolo aqui e quero te apresentar minhas filhas, vamos deixar os rapazes se virarem sozinhos.
Louisa depositou o bolo no balcão da cozinha e deixou os homens ali e foram atrás das crianças.
— Você tem filhas Elizabeth?
— Tenho sim, ela se chama Jane.
— Quantos anos ela tem?
— Cinco, neste momento está com meus tios. — Só de pensar na filha, sentia o coração doer, mas decidiu ser forte. — Hoje está fazendo quatro dias que eu não a vejo.
Louise estacou em meio ao corredor e a olhou horrorizada.
— E você não sente falta dela?
— Demais, porém eu voltarei para ela dentro de poucos dias.
Guiadas pelos sons de risos infantis, elas entram em um aposento cheio de brinquedos. Uma menininha negra, que deveria ser Cynthia estava sentada em uma pequena mesa segurando uma boneca, enquanto Georgiana fingia que enxia uma xícara com chá.
— Aqui está uma de minhas filhas. Cynthia querida, venha aqui conhecer uma amiga de mamãe.
A menina deixou a boneca de lado e veio perto da mãe, estendendo a pequena mão para ser cumprimentada.
— Olá. — disse tímida.
— Olá, é um prazer conhecê-la. Você é muito bonita. — Ela se parecia muito com o pai, mas puxara a cor da mãe, não tinha como negar que a mistura, ficara muito interessante.
— Obligada. Você também é.
Não se aguentando, Elizabeth se inclinou e deu um beijo no rosto dela. Rapidamente a menina voltou-se para junto de Georgiana.
— Ela ainda diz algumas palavras errado, mas com o tempo, espero que ela melhore. Enquanto elas brincam, vou te levar para conhecer Agatha, ela está com três meses agora. E se eu não me engano, falta pouco para começar a reclamar de fome.
Saindo dali, foram até o quarto em frente daquele. Era um lindo quarto de bebê todo rosa, com alguns ursos de pelúcia enfeitando o ambiente. Elas se encaminharam até o berço. De fato a bebê, muito parecida com a irmã, estava começando a se agitar no berço.
Louise se abaixou apanhou a menina nos braços.
— E essa malandrinha aqui se chama Agatha. Vou dar mama para ela, se não abre uma boca que ninguém aguenta. — Louisa foi se sentar na poltrona e sem pudor nenhum abriu a blusa e colocou a bebê em seu seio, que rapidamente o agarrou como se a vida dependesse daquilo. — Quando se trata de comer, ela se parece com o pai.
— Suas filhas são lindas.
— Obrigada. Eu lembro que quando conheci Charles, não levei muita fé que ele viesse a se interessar por mim. Por que somos de cores diferentes. Algumas pessoas nos criticaram dizendo que nossa relação não ia dar em nada. Que um homem como ele nunca iria me satisfazer e nós nunca iriamos conseguir ter filhas bonitos. Hoje eu tenho orgulho de mostrar que eu me dei bem. Bem, já que estamos aqui, por que você não me conta como foi a sua gravidez.
Elizabeth ficou muito admirada com tal atitude, na sua época, era impróprio falar sobre sexo, e mais impróprio ainda, era ver uma mãe dar de mamar na frente de estranhos.
Lembrando-se de tudo pelo que passou, Elizabeth não podia falar muita coisa sobre sua gravidez, então ela tinha que dar um jeito de falar sem que acabasse se entregando.
— Bem..., como posso dizer, a minha gravidez foi tranquila. Não pude contar com o pai da minha filha.
— Por quê?
Elizabeth não sabia o que Louisa tinha para deixa-la tão à vontade ao falar de seu passado.
— Ele me abandonou quando soube e eu tive que lidar com aquilo sozinha.
Louisa, suspirou quando trocou a filha de seio.
— Infelizmente esse mundo está cheio de cafajestes.
— Verdade. Mas prefiro não ficar pensando muito no passado, o que passou, passou. Como o seu marido reagiu quando descobriu que você estava grávida?
— Isso mesmo, garota, siga em frente. Charles queria esperar que Cynthia fizesse cinco anos até que começássemos a tentar novamente, mas eu achei que já era hora, aproveitei que estava em meus dias férteis, e então um belo dia eu o peguei de jeito. — Louise sorriu ao se lembrar. — Poucos dias depois eu fui até uma farmácia e comprei um teste de gravidez, tinham um monte de testes, mas eu queria comprar um específico, saiu um agora que mostra até de quantas semanas a pessoa está, então eu comprei esse, e nele mostrava que eu já estava com duas semanas. Quando contei ao meu marido, ele ficou branco como um fantasma. Tadinho, se ele sofresse do coração teria infartado na hora. Felizmente Charles sempre foi um homem honesto e ele faz de tudo para me ver feliz.
Ambas riram e aproveitando aquele clima de descontração, Elizabeth pensou que poderia perguntar alguma coisa a respeito de Darcy.
— Como foi o parto? — Elizabeth perguntou interessada, já que Louise estava sendo tão franca.
— Os dois foram partos normais, acho que judia menos da mulher. O de Cynthia, eu tive no hospital, foi um longo trabalho de parto, dói até de lembrar. Mas ainda bem que tudo correu bem. Já o de Agatha, eu queria uma coisa diferente, queria tê-la em casa, a principio Charles não gostou da ideia, achando que poderia ser perigoso. Fui atrás de doula e parteira que explicaram a ele que o parto humanizado não era um bicho de sete cabeças. No dia marcado para Agatha nascer, Charles estava lá comigo, e foi tão lindo. Se eu tiver outro bebê, vou querer que ele nasça do mesmo jeito.
— Doula? O que é isso?
— A doula é uma mulher que nos ajuda e orienta na hora do parto. E como foi o seu parto?
Não sabia como poderia explicar que da onde vinha tudo era diferente. Os costumes também.
Ela sabia que em sua época, ter filhos era algo realmente perigoso e complicado para as mulheres. Infelizmente para as que pertenciam às classes sociais menos favorecidas, não podiam se dar ao luxo de ficar em casa, tomando conta dos filhos e o marido.
Para começar, assim como aconteceu com ela, a gravidez era muitas vezes uma surpresa para as mulheres. Mesmo por que as mães morriam de vergonha de explicar para as filhas alguns detalhes íntimos, e a ignorância era assustadora.
Cerca de um mês antes de Jane nascer, ela perguntou a Mrs Smith, já que ela era a única mulher confiável que tinha filhos, por onde o bebê saia. Lembrava que ela ficou estupefata e não explicou muita coisa a deixando mais confusa ainda.
Era considerado até mesmo deselegante ver uma mulher grávida. Como nada se falava sobre o “estado interessante” da mulher, também não era conveniente aliviar de alguma forma a vida. As mais pobres, como ficou sabendo depois que ganhou a sua filha, trabalhavam até o parto. E as de classe média, esperava-se que ela cumprisse as suas funções sem qualquer desconto.
Mas no seu caso, não teve que se submeter aquilo. Como seus tios tinham dinheiro, foi permitido a ela ficar ociosa durante a gravidez, pois lhe diziam que muito movimento fazia mal a sua saúde.
O parto por si só era algo muito arriscado. A grande maioria morria e aquelas que sobreviviam, assim como ela mesma, eram consideradas sortudas.
Lembrava-se que estava apavorada, quando as dores começaram. Naquele dia ela se sentia muito sozinha e que chorava muito.
Todas as mulheres da casa estavam presentes. Enquanto a parteira dava instruções pedindo que as criadas providenciassem jarras com água fervida. Finalmente ela descobriu depois de muita vergonha e dor, por onde era que os bebês saíam.
Depois do nascimento, ficara muito fraca e ela fora cercada de cuidados, e não permitiam que levantasse da cama durante um mês. Era alimentada a colheradas, não sendo recomendado nem mesmo sentar-se na cama. Todas as janelas ficavam fechadas, para evitar que se resfriasse.
Mas no caso das famílias humildes, não havia recursos para deixar a mulher tanto tempo no resguardo e muitas vezes elas tinham que voltar a dura realidade poucos dias depois de darem a luz.
— Não foi tão fácil como pareceu. Minha filha nasceu com o cordão enrolado ao pescoço. Fiquei muito assustada, mas felizmente a parteira era muito experiente.
— Que bom.
— Eu poderia te perguntar uma coisa?
— Claro, se eu puder te responder, ficarei muito feliz.
— Você... você sabe alguma coisa a respeito do passado de Darcy?
Louise a principio não respondeu, tirou a filha do seio e fechou a blusa.
— Quer segurá-la?
— Sim.
Tomando a menina nos braços, Elizabeth começou a dar tapinhas nas costas do bebê.
— Eu não sei muito, faz exatamente uns quatro anos e meio que o conheço. Sei aquilo que meu marido me contou, que quando a esposa dele sumiu, Fitz sofreu muito. Charles não é de ficar contando muita coisa, para guardar um segredo, ele parece um túmulo, então eu nunca o forcei.
— Você acha que se ela um dia aparecer novamente, eles voltam a ficar juntos?
— Se um dia ela aparecer, eu sinceramente espero que Fitzwilliam não a aceite de volta. Você está apaixonada por ele, não está?
Louisa perguntou delicadamente observando o rosto de Elizabeth que ficou vermelho.
— Muito, essa não era a minha intenção, mas aconteceu, e eu não sei o que vou fazer.
Louise se inclinou e pousou a mão no joelho de Elizabeth.
— Posso te dar um conselho? Vai com tudo, já passou da hora de Fitzwilliam dar uma nova chance ao amor, e se eu fosse você não desperdiçaria.
Elizabeth ia argumentar, quando ouviu Agatha arrotar e pouco tempo depois sentiu que a menina regurgitava em seu ombro, Louisa deu um pulo e pegou a menina nos braços.
— Mil desculpas por isso. Venha, vou te arrumar um pano para você se limpar. Enquanto isso vou lá embaixo fiscalizar os nossos rapazes.
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