Notas iniciais
Ola meninas, como vcs estão? Desculpem da demora, mas aqui estou eu. Obrigada a todas as mensagens deixadas. Espero que gostem do capítulo e por favor não esqueçam de comentá-lo. Até mais.

[RECAPITULANDO]

Uma luz ofuscante fez uma fenda na noite, e Lizzie correu para a porta, empurrando o homem para o lado enquanto saía para a chuva. Fitz correu para fora ao lado dela e seguiu seu olhar para o velho estábulo, a uns cinco quilômetros dali. Enquanto olhava, pequenas línguas de fogo começaram a lamber o céu escuro vindas do telhado do estábulo.

— Jane! — disse ela, soluçando. — Senhor, não leve meu bebê!

A calma de Lizzie tinha acabado. Não podia mais manter a máscara no lugar. Seu grito agudo cortou a noite e ela caiu de joelhos na chuva, sem perceber o frio ou a poça em que ajoelhava.

— Senhor, não… — murmurou Fitz.

***

O sangue de Darcy congelou quando percebeu que o estábulo distante era o mesmo que Lizzie falara. De acordo com a história que contara, ele seria arruinado pelo fogo rapidamente. Pela aparência velha e seca que a madeira da construção parecia ter quando Lizzie apontou mais cedo, podia entender o porquê. E neste momento, sua filha e a de Lizzie poderiam estar dentro do estábulo. Talvez dormindo. Inconscientes do perigo. Caindo na armadilha.

Ele só conseguia ficar ali, parado embaixo da chuva forte, impotente, observando, enquanto Lizzie se levantou pegava as rédeas do cavalo completamente molhada e subia nas costas do animal. Chutou o cavalo para que começasse a galopar, quase jogando uma charrete para fora da estrada estreita ao passar. Então desapareceu na escuridão da noite tempestuosa.

A charrete parou e um homem desceu, virando a cabeça na direção que Lizzie tomara, se apressando para chegar perto de Jane. Ele quase foi derrubado pela urgência dos homens que saíam da casa ao perceberem o que estava acontecendo. Homens montavam em seus cavalos, e o som do galope rivalizava com o da tempestade que caía.

— O que está acontecendo? — perguntou o homem. E como Darcy não respondesse, ele segurou seus ombros e o sacudiu levemente. O som do tropel foi diminuindo lentamente, até se perder no uivo do vento e no ronco interminável dos trovões. — Eu perguntei o que está acontecendo? A cidade inteira está alvoroçada. Dizem que a menina desapareceu e… — Ele parou, fechou os olhos e mordeu o lábio.

E pela primeira vez, Darcy olhou para ele. Os cabelos louros escuros caíam molhados em volta do rosto por debaixo do capuz da capa azul-escuro que usava. Tinha presença. E estava realmente muito assustado. Mas tentava esconder. Institivamente soube quem era aquele homem na sua frente.

— Você é ele, não é? — perguntou Darcy. — Você é aquele que…

Os olhos do homem se arregalaram e os lábios se abriram deixando escapar um grito sufocado.

— Eu… Não tenho ideia de quem você está falando. Sou apenas um vizinho preocupado. — Baixou os olhos e percebeu as roupas de Fitz. — E quem é você?

Darcy balançou a cabeça. Céus, não se admirava por Lizzie ter se apaixonado por um homem tão apessoado. Tinha um rosto marcante. Lábios finos e grandes olhos azuis que eram capazes de engolir uma pessoa inteira. Uma parte dele se ressentia por saber que este homem fizera Lizzie sofrer e abandonara a própria filha. Outra parte sentia um ciúme insano, a ponto de se segurar para não virar um soco bem nos meios dos dentes. Este homem tivera o coração de Lizzie nas mãos. Ela o amara. Talvez, bem lá no fundo, ainda ame. Darcy vinha tentando não pensar muito nessa suspeita, mas ela invadira sua mente agora. Ele a amava. Ele a fizera sofrer. Ela nunca mais se permitiu amar de novo. Era possível que o motivo fosse porque nunca superara esse amor.

Parte de Darcy queria dizer a este homem o que pensava ele. Mas a maior parte era o pai que existia dentro dele. E essa parte sabia e entendia o medo nos olhos do outro homem. Era o medo de um pai pela vida da própria filha. Mesmo que fosse uma filha que nunca abraçara, nunca quisera, talvez até mesmo nunca amara… O vínculo biológico estava lá, em algum lugar. Mesmo um vínculo fraco como o dele tinha de estar. Foi o pai que existia dentro de Darcy que fez engolir o orgulhe e falar com o outro homem.

— Minha filha também está desaparecida. E temos razões para achar que as duas meninas estão… Naquele estábulo. — Apontou.

— Mas… Está pegando fogo!

Darcy respirou fundo e desviou os olhos.

— Tenho de ir ver minha filha. Deixe-me usar sua charrete.

O outro homem assentiu sem dizer uma só palavra, se virando e caminhando ao lado de Darcy.

— Vou com você.

Darcy não discutiu.

****

Lizzie cavalgou o cavalo de forma implacável, afundando os saltos nas costelas do animal mesmo sabendo que ele já estava correndo o máximo que podia. A estrada estava coberta de lama e ainda chovia muito, o que a tornava escorregadia e perigosa. A chuva, porém, não era suficiente para apagar aquelas chamas. Desejava conseguir afastar de sua cabeça à imagem do estábulo queimando. Mas não conseguia. Estivera deitada na cama da filha observando as chamas devorarem a estrutura inteira, tão rapidamente que parecia impossível. Sabia que tinha muito pouco tempo para alcançar Jane e Georgiana. Ela sabia, e isso a estava matando.

O vento trazia gotas congeladas que cortavam seu rosto como lâminas. Mal conseguia enxergar a estrada lamacenta à sua frente, e talvez não conseguisse mesmo se fosse dia. Seu olhar estava cravado naquela luz terrível e distante. As chamas se espalhavam rapidamente pelo telhado da construção, alcançando o céu como se quisessem devorá-lo; e estavam mais baixas nas laterais, destruindo as paredes inflamáveis. Escombros em chamas caíam pela escuridão, apenas para alcançar o chão e continuar queimando as paredes do estábulo.

Lizzie pensou em Jane lá dentro. Talvez só acordando para perceber que o prédio estava pegando fogo. Talvez ainda inconsciente. Logo seria atingida. Logo não teria escapatória. Logo… Não!

Lizzie chutou o cavalo mais forte, se inclinando para frente, sobre o pescoço liso e molhado, sentindo o calor que brotava por causa da cavalgada.

— Vamos lá. Mais rápido, droga!

O cavalo esticou as pernas, correndo ainda mais rápido do que antes. Lama e água respingavam a cada impacto das patas voadoras, encharcando tanto Lizzie quanto o animal. Finalmente o estábulo apareceu na frente deles como uma tocha gigante iluminando a escuridão da noite. A chuva caía inutilmente, fazendo pouco mais do que aumentar o crepitar das chamas. O cavalo derrapou e empinou-se, guinchando em terror. Lizzie foi jogada das costas do animal, caindo na lama. O impacto a surpreendeu, mas logo estava de pé, indo em direção ao estábulo em chamas, mesmo sabendo que o cavalo se afastara do terrível espetáculo.

Protegendo o rosto com um braço, Lizzie se aproximou, até o calor chamuscar sua pele através da roupa, e o ruído se sobrepor a qualquer outro. Era ensurdecedor. As chamas eram muros impossíveis de atravessar, e ela as contornou, andando em volta do inferno enquanto procurava uma brecha. Uma passagem para entrar. Tinha de haver uma. E finalmente, com os olhos ardendo da fumaça, ela encontrou. Uma passagem. Como um anel de fogo de algum espetáculo de circo. Sem hesitar por nem um segundo, Lizzie mergulhou pela abertura. Aterrissou no feno lamacento do lado de dentro.

A escuridão só era quebrada por flashes ocasionais das chamas, aumentando conforme encontravam combustível para se alimentar. O cheiro de madeira e feno queimados pesava no ar cheio de fumaça, queimando seus pulmões. Levantou e tossiu antes de avançar três passos. Levantando a lapela do casaco até o nariz para tentar filtrar o ar, ela gritou:

— Meninas! Onde vocês estão? Jane! Georgiana!

Não conseguia enxergar nada além da fumaça densa e fatal e do espocar ocasional do fogo. Não conseguia escutar nada além da crepitação e dos estalos que até pareciam de um ser vivo. Um monstro desejoso de devorar todas elas. Um movimento repentino fez com que virasse para o lado. Então sentiu o pônei de Jane passar como um raio por ela em absoluto pânico. A cabeça de Lizzie bateu em uma viga quando se abaixou, e a pata bateu em seu queixo enquanto o animal amedrontado ia em direção à abertura. Pelo menos o pobre bicho estava na direção certa. Segurando em uma viga para se levantar de novo, Lizzie foi para a área de onde o pônei viera. Seus gritos e sua tosse misturados.

E então ela tropeçou e caiu de novo. Mas desta vez, foi um corpo que a fez tropeçar.