Astronauta de Jardim

1 Primeiro Capítulo: A memória


— Ei, querido, você não vai adivinhar na pérola que acabei de encontrar! — a mulher surgiu do cômodo mais profundo da casa, abraçando uma caixa em seu corpo. Seu rosto estampava uma felicidade travessa, acentuando seu olhar acaju; o mesmo olhar e expressão que o fizera se apaixonar na adolescência.

Nelson, mesmo depois de tantos anos, precisava fazer um esforço a mais para voltar à realidade depois de observar sua esposa; se impressionava por ainda ter Suzana como sua paisagem favorita no mundo, sempre encontrando nela um novo motivo para se apaixonar ainda mais.

— Meninos, venham aqui! A mamãe encontrou um tesouro do passado... —ela gargalhou, enquanto chacoalhava a caixa ao alto de sua cabeça.

— O que tem aí, mulher? Quanto suspense... — ele sorriu desconfiado.

Sabia que Suzana adorava tanto surpresas quanto bagunças, quando brincava com os filhos tornava-se uma verdadeira criança e essa era uma das coisas que ele mais amava em sua mulher.

Os dois meninos vieram tropeçando e se chocando da cozinha, com o rosto lambuzado pelo café da manhã e pela curiosidade: "O que é, mamãe? O que é, mamãe?" eles repetiam em gritinhos, com os olhos saltando em felicidade.

Nelson achou graça do quanto as crianças e Suzana se pareciam, não só na aparência dos gêmeos como até mesmo na energia — sentiu uma alegria tomar conta de seus pulmões, a felicidade pura e simples de ter sido escolhido pelo amor.

— Vocês se lembram que o papai vive enchendo as pompas para falar da banda que ele tinha na adolescência? De como ele reproduzia os solos de Scorpions como ninguém e blábláblá...

— Aquela que ele tinha com o titio, mamãe? — os meninos pareciam ensaiar as mesmas falas.

— Sim, essa! Astronauta de Jardim! — balbuciou em deboche.

Nelson estava agora um tanto quanto corado, suas bochechas queimavam e não precisou se olhar no espelho para saber que ficava gradativamente mais rubro.

— Pois então... — ela continuou tirando um papel da caixa. — Encontrei uma foto deste dia, uh, digamos assim, fatídico... — ela zombou, o encarando e remexendo as sobrancelhas. — Uma foto! Uma foto que eu mesma tirei, sim, eu lembro! Que tal mostrar para os seus filhos como a sua banda era "pauleira", Nelson?

Sua gargalhada se propagou pela casa, e ele já sabia do que se tratava. Ela o encarou e correu pela sala, enquanto ele tentava persegui-la e tirar de suas mãos o poder de arruinar sua reputação com os pequeninos. Ele a agarrou num abraço de urso, mas como uma felina, se contorceu e jogou a foto para os filhos.

Eles a pegaram e em pulinhos, começaram a apontar para o pai. Se envergavam com tamanha graça.

— Olha só você, pai! — um deles gritou.

— Essa roupa apertadinha e colorida, que gracinha!

Nelson franziu o cenho e cruzou os braços, tentando de alguma forma intimida-los com seu porte masculino, mas era inútil. Por fim, jogou-se na poltrona bufando, mas logo sucumbiu as gargalhadas, até porque, sabia, todo mundo tem um certo constrangimento de seu passado.

— Venham aqui, me deem essa foto. — chamou, os gêmeos se sentaram. —Essa foto é mesmo ridícula, hein?!

Eles sorriram.

Nelson, apesar de ter sido intimidado, sabia que seu passado não carregava somente os momentos vergonhosos, mas também os de honra. Foi invadido pela nostalgia: Pelos dias longos junto aos amigos, pelos ensaios da banda, partidas de futebol e jogos de vídeo game, pelos filmes da época, pelas brincadeiras... E até mesmo pelo dia em que ele e os amigos intitulavam como dia sombrio.

A lembrança do temor daquela noite o fisgou e o fez arquear pelo arrepio à nuca. Ele tremeu.

— Querem saber — ele começou ajeitando seus meninos em seu colo. —Apesar da foto, um dia depois eu consegui uma bela duma cicatriz, essa que tenho no ombro. — puxou um pouco a manga de sua blusa, estampando a mancha de cor e textura diferenciada.

Olhou para Suzana, que agora estava séria, suspirando com as mãos envoltas ao pescoço; confirmando, de maneira indireta e silenciosa, a veracidade da história. O direcionou um olhar de permissão que o marido esperava para contar aos filhos sobre tal aventura; já tinham idade suficiente para escutar a história e escolher se acreditariam ou não.

— Um dia depois, esse menino de roupa coladinha ao corpo, verde e abarrotada de lantejoulas, salvou a mãe de vocês. É bom vocês respeitar em quem se veste com estilo, está bem? E vamos combinar, vocês estão morrendo de inveja do meu look... — ele sorriu, fechando e abrindo as pálpebras devagarinho num ato de capricho.

— E como foi, papai? — perguntaram ansiosos, batendo os pezinhos na poltrona.

Ele sorriu sereno, arfando o peito a procura de ar e coragem para trilhar os caminhos do passado e começou a contar.

— Foi há trinta anos atrás...