Astronauta de Jardim

2 Segundo Capítulo: Blackout!


Fábio depositou a fita em seu rádio e levou os dedos ao que seria o play. Respirou fundo, fitou os meninos e gritou "Prontos?" como se estivessem preparados para enfrentar um exército de monstros espaciais, iguais dos seus jogos favoritos de Atari.

O grupo suspirou; Fábio impulsionando o peito e tremeluzindo os dedos das mãos, Sérgio comprimindo os lábios e contraindo os ombros e Nelson, confuso, olhando para os amigos com uma feição de quem come jiló no café da manhã.

—Concentrem-se, moro? —ordenou Fábio.

Alguns segundos depois o quarto escuro, bagunçado e abarrotado de posters de bandas de rock se inflou com um som de batidas ininterruptas...

A música cobriu o ambiente com uma melodia divertida e dançante, uma letra cantada em num português engraçado. Os garotos acompanharam as vozes de maneira desengonçada.

"Canta, dança, sem parar..."

Suas vozes, que passavam por constantes transformações, ecoavam desordenadamente pelo quarto. Os movimentos, que também não eram nada harmônicos, se distanciavam da dança original e o que deveria ser um remexer de pernas e estalar de dedos se transformava numa verdadeira bagunça, mais se pareciam com Os Trapalhões do que verdadeiramente com os tão amados pelas meninas da escola, Menudos.

Fábio, que tinha mais jeito com a dança, se destacava de Sérgio e Nelson que se chocavam e se entrelaçavam sem querer, acabando com o planejado.

— Droga, Sérgio, você acertou meu pé. — pulava Nelson, mordendo um dos dedos para espantar a dor.

— E você que acertou esse seu cotovelo na minha costela, Nelson.

A porta abriu num solavanco, fazendo surgir a silhueta de Suzana, irmã de Fábio. Em sua mão, na direção do seu olho esquerdo, apertava o botão de sua Polaroid e com um clique fez a imagem dos três meninos desapontados, envergonhados e vestidos como a boyband mais famosa da atualidade eclodir.

— Isso, meninos. Não se reprima, não se reprima, oh! — zombou, ziguezagueando a foto em sua mão. — Que fofos!

Fábio pôs fogo pelas ventas, fechando as mãos junto ao corpo. Sérgio quis imediatamente esconder-se dentro de si. Nelson, atônito, só conseguia pensar o quanto Suzana, apesar de má, era encantadora em sua meia arrastão preta por baixo de sua mini saia jeans, sua jaqueta de couro, seu cabelo curto ao ombro; o quanto, se ela quisesse, ele aprenderia a dançar qualquer música só para agradá-la, ela era tão...

"Linda", Nelson deixou escapar, sem que ninguém ouvisse.

— Suzana! Me dê já essa foto, você não tem o direito! — gritou o irmão.

— Você não perde por esperar, Fabinho. Imagina o quanto eu e as meninas vamos rachar o bico com essa foto.

A menina saiu correndo pela casa, tirando sarro do irmão enquanto ele a perseguia aos berros. A mãe, da cozinha, gritou e os dois pararam imediatamente. Suzana, fugira para seu quarto, trancando a porta no nariz de Fábio que praguejou em mil línguas o quanto detestava a irmã mais velha.

Pisando com força e fúria, ele voltou para seus amigos batendo com toda a força a porta de seu quarto.

— Deixe sua irmã, se ela quiser pode ficar com minha foto e dar uma poção de beijinhos. — Nelson caçoou do amigo, o abraçando. — Cunhadinho... — completou, parando com um soco que Fábio lhe deu de leve na barriga.

— Eu disse, seria muito melhor apresentar um cover do The Smiths... — Sérgio disse, zangado. — Ou do A-ha, quem sabe... Po, treinei as férias inteira o solo de Take On Me no teclado. Que se dane os Menudos, valeu?

Os meninos mergulharam na cama em desalento.

— Droga, nunca vamos arrumar um brotinho na festa da escola! — Fábio disse, colocando os óculos escuro que estavam em sua escrivaninha ao rosto, deixando-o na metade do nariz para encarar os amigos por cima da armação.

Eles ficaram em silêncio.

Era engraçado como podiam ficar por horas sem fazer nada juntos, passavam por todas as alegrias e desavenças sem arredar o pé um da presença do outro.

— Eu posso imitar o Michael, sou fera nisso. — disse Fábio, olhando seu reflexo no espelho e passando a mão em seus cabelos arrepiados. Ele era um menino bonito, que poderia arrancar suspiros apaixonados pelos corredores da escola se não fosse o fato de ser tão irritante com as garotas; de certa maneira, parecia não ter crescido tanto em sua maturidade, isso com certeza as espantava.

— Claro, passe um pouco de quiabo no palco e faça um moonwalk perfeito. Depois tente azarar uma gata, que ideia brilhante. — atacou Sérgio, que estava sendo engolido pelos travesseiros.

— Aparentemente não precisamos dançar Thriller para espantar as meninas. — retrucou Fábio.

— E olha que eu pareço com o Michael, mas nem assim... disse Sérgio, que realmente parecia com o rei do pop com seus cachinhos e sorriso doce, uma versão completamente tímida dele.

Se refugiava nos livros de ciência e na música, especialmente em seu teclado; achava a melodia e as notas do instrumento o máximo, sabia que numa banda ninguém se importava com o tecladista, isso era mais um pretexto para amar o conforto da invisibilidade. De todos, era o que menos ligava para conquistar as meninas, preferia ficar na dele e se irritava com a fissura em que Fábio e Nelson tinham nisto, elas eram só... Meninas.

— Eu não me importo em xavecar as outras meninas... — disse Nelson. — Tudo que eu quero é minha menina veneno Suzaninha, sou tão gamado nela... — suspirou apaixonado. Fábio o direcionou um olhar de reprovação, quase como o de seu pai quando fazia uma peripécia diária.

Nelson era um abobalhado, não era muito esperto e parecia estar sempre no mundo da lua. Exceto quando tocava sua guitarra, era realmente bom nisso, mas travava na presença de desconhecidos, imaginava que jamais pudesse se apresentar para uma plateia que ultrapasse o número de conhecidos, isso é, sua família e amigos. O chamavam de Starman — não apenas por ser bastante parecido com David Bowie — por haver momentos em que ele parecia estar fora de órbita, momentos tão comuns quanto respirar, eles diziam. Desde a quarta série era apaixonado pela irmã do melhor amigo, mas nunca teve coragem de se declarar. Se contentava com o amor platônico, afinal de contas, era medroso demais para se quer balbuciar algumas palavras à menina.

— Crianças — a mãe gritou da cozinha — O lanche está na mesa!

Levantaram num salto e numa corrida, ficaram presos na porta, até Fábio tropeçar e seguir engatinhando em direção a cozinha. A correria tinha motivo: a mãe de Fábio cozinhava como ninguém! E naquela tarde havia preparado bolinho de chuva com creme de avelã e suco de groselha. O cheiro que inundava a casa parecia fazê-los levitar de tanto prazer, antes mesmo de colocarem a massa polvilhada com açúcar e canela em seus lábios.

— Ei, coroa, a senhora é o máximo na cozinha. — Fábio disse, dando-lhe um beijo na mulher de corpo esbelto, cabelos negros e ondulados, que quase não aparentava ser mãe e sim sua irmã.

— Deixa de papo furado, menino. Coroa? É ruim, hein. — ela disse sorrindo, encarando a porta do quarto de Suzana. — Suzana, garota, vem comer, não sobrará por muito tempo!

Ao falar isso, sem que ninguém visse, Nelson tratou de separar alguns de seus bolinhos, só para assegurar que sua amada não ficasse sem nada.

— Mãe, como eu estava dizendo... — sibilou Fábio com um sorrisinho no canto da boca. — A senhora é esmo uma cozinheira de mão cheia. Não fará a desfeita de preparar uma janta daquelas de arrebentar a boca do balão para os meninos que irão dormir aqui... Seu sorriso canastrão estava estampado no rosto, olhando e dando uma piscadinha para a mãe que se engasgava numa gargalhada.

— Cruzes garoto, como você se parece com seu pai quando quer pedir alguma coisa.

— Mamãe, a senhora está viajando na maionese. Com todo respeito: Papai? Papai parece o Elvis de tão bonito. — Suzana surgiu na cozinha implicando com o irmão mais novo. — Fabinho parece o Spok com essas orelhas pontudas e sobrancelha de taturana.

Apesar das orelhas e sobrancelha, a irmã o achava lindo, implicava por esporte; adorava deixá-lo desconcertado. Todos riram, menos ele. A irmã o deixava com os nervos fervilhando, acertava em cheio seus pontos fracos. Detestava mais ainda quando ela o chamava de "Fabinho".

— Cale a boca! — ele bufou, estreitando os olhos. — Você parece a menina do exorcismo... — disse, fazendo careta.

A menina colocou pasta de amendoim em seu bolinho e o abocanhou, sorrindo.

— Como ia dizendo, os meninos podem dormir aqui hoje? Nelson alugou a fita de E.T e Sérgio a dos Caças Fantasmas. A senhora pode ligar para as mães dele e pedir, hein, por favor? — ele fez um biquinho. Sérgio achou engraçado, Nelson um pouco esquisito, mas acabaram reproduzindo a mesma carinha de pena, para subornar Tereza, mãe de Fábio.

— É, mãe. — concordou Suzana, num ato que Fábio achou completamente esquisito; a irmã jamais o ajudara em absolutamente nada. A única ajuda que recebia da garota era ajudar a atrapalhar cada vez mais sua vida. Isso o fez arregalar os olhos: Certamente Suzana estava aprontando alguma coisa. Quando o menino iria abrir a boca para começar uma nova discussão, se surpreendeu.

— Deixe os meninos, o que tem? Uma noite vendo filmes não os fará mal, e com os meninos aqui o boboca do meu irmãozinho perturba menos a minha cabeça. — ela piscou para ele.

Nelson quis gritar de emoção, aquele rosto, pensava, aquele rostinho, ai meu Deus!

A mãe havia concordado com a condição dele e dos meninos lavarem a louça do lanche e da janta. Assentiram, era sua melhor troca.

Ao som do repertório da MTV na tevê, gritavam enquanto ensaboavam, enxaguavam e secavam a louça da macarronada servida no jantar o refrão das músicas que abalavam a época. Brandiam com entusiasmo a letra de Pro Dia Nascer Feliz. Faziam gestos de guitarra, bateria e baixo imaginários remexendo os corpos...

A voz de Cazuza ecoava e bem na hora da estrofe "Estamos, meu bem, por um triz" a música fora interrompida por uma manchete repentina no jornal.

"Coisas estranhas têm acontecido na cidade de Hawkins, em Indiana, nos Estados Unidos" a voz suave e séria da apresentadora chamou atenção dos meninos que, vagarosamente, se sentaram na poltrona...

"Nesta semana, a notícia de que uma cidadã de Hawkins, Barbara Holland, desaparecida desde o ano passado, apresentou evidências controversas: Segundo uma denúncia anônima nas principais mídias da cidade, e até mesmo do estado, as respostas podem estar mais próximas do que o esperado: no próprio Laboratório Nacional de Hawkins. Há indícios de que Barbara Holland pode ter sido contaminada com uma substância radioativa na floresta próxima ao laboratório e, teorias apontam para a resposta de que até hoje seu corpo está sobre domínio dos líderes do estabelecimento tendo como justificativa o medo da contaminação se propagar pela cidade."

"A questão é que fazendas de Hawkins estão apodrecendo, como mostrado em diversas reportagens atuais, por razões aparentemente inexplicáveis; a colheita de abóboras, tão desejadas no Halloween, tradição norte americana que ocorreu no mês passado, estão todas devastadas. A população teme a semelhança entre os casos e mostra-se indignada com os problemas da pacata região. As autoridades locais permanecem investigando, sem respostas concretas."

Os meninos pareceram querer falar algo, mas o ar foi tomado por apreensão. Mal sabiam quem era Barbara, o problema estava tão distante, mas de alguma maneira se sentira conectados com o caso. Conheciam diversas histórias sobre desaparecimento, histórias pelas quais o faziam chorar em desespero na infância. Quando Sérgio iria romper o silêncio, o gato de Fábio, Chewie, arfou as costas e rosnou, saltando de cima da televisão para o chão, encarando de forma sinistra as janelas.

As luzes piscaram, a árvore de natal montada no canto da sala esmoreceu, a tevê chiara e ficara cinza por um momento ressoando o incômodo ruído da falta de sincronização e, por fim, tudo se apagou...

Estavam chafurdados na penumbra, na noite sombria.