Cap. 2

— Pai!
— Oi minha pequena! – George estendeu os braços para a menina de cabelos cacheados que corria em sua direção.
— Fiz um desenho para você. – Ela entregou o papel que carregou cautelosamente por todo o trajeto da escola até sua casa para ele. Eram três pessoas tortas do lado de uma casa tão torta quanto e uma flor vermelha gigante.
— É lindo! Vamos colocar na geladeira com os outros.

A menina correu para dentro de casa, largando a mochila no chão da sala.
— Como foi o seu dia, meu amor?
George abraçou o marido com força.
— Parado como sempre. Ainda estou esperando a agência me ligar.
— Você não sabe como meu coração fica apertado quando você vai.
— Mas dessa vez vou para uma missão.
— O que me deixa ainda mais apreensivo.
— Nossas naves são as mais seguras do mundo.
— Mas nada me faz esquecer da Apolo...
George riu, segurou Matt pelos ombros e o guiou para dentro de casa.
— Quando o acidente da Apolo aconteceu, nós eramos crianças. A ciência evoluiu muito desde então. Vamos, o jantar está no forno.
Os dois se abraçaram. George também estava com o coração apertado, seis meses sem ver os amores de sua vida. Mas essa foi a vida que ele escolheu para si.

“BEEP, BEEP, BEEP”

George olhou em volta atrás de onde esse som poderia estar vindo.

— Tenho certeza que a agência ligará logo. Você é o melhor astronauta deles. – Respondeu Matt.

“BEEP, BEEP, BEEP”

— Você está ouvindo isso? – Disse George.
— Isso o que?
— Esse alarme.
— Não, não estou ouvindo nada.

“BEEP, BEEP, BEEP”

— Acho que é o nosso despertador. Já volto. Você dá uma olhada no frango?
George subiu as escadas a passos largos e entrou no quarto do casal.

“BEEP, BEEP, BEEP”

Para a sua surpresa o barulho não aumentou, como deveria, manteu-se no mesmo volume. O relógio marcava 18h.

— Você está piradinho. – George pegou o despertador nas mãos e apertou o botão para parar o alarme. Virou o aparelho de costas para ajeitar o horário, checou as horas no relógio de pulso e tomou um susto. Eram 18h.

— Mas se a Lily sai da escola ás 18h e eles passaram no supermercado... Deveriam ser 19h, ou um pouco mais... Será que eles sairam mais cedo?

“BEEP, BEEP, BEEP”

George se assustou com o barulho e arrancou as pilhas do aparelho.

“BEEP, BEEP, BEEP”

O som estava cada vez mais alto.

“BEEP, BEEP, BEEP”

George desceu as escadas correndo, apavorado.

— Matt! Que barulho é esse!?

“BEEP, BEEP, BEEP”

O alarme estava prestes a fazer sua cabeça explodir.

Na cozinha Matt e Lily brincavam e riam, mas algo não estava certo. George não conseguia ouvir as suas vozes.
Tudo o que ouvia era o maldito alarme, e os dois agiam como se ele não estivesse ali.

—MATT! MATT! LILY! POR FAVOR! MATT!

Ele tentou tampar os ouvidos com as mãos, tentando abafar o som, mas naquela altura, era impossível.

— MATTHIAS! SOCORRO! MATTHIAS!

George acordou sobressaltado. Olhou em volta e percebeu que ainda estava dentro de sua nave. Com raiva, deu um soco no vidro protetor da cama espacial.

“Eu daria o mundo para que isso aqui fosse um sonho, Matt.”

George se lançou na direção do painel de comando da nave. O som estridente fazia com que sua cabeça latejasse. Para seu desespero era o sensor de aproximação que estava desparado, avisando que um objeto de grandes proporções se aproximava em alta velocidade.

— Era só o que faltava! Se a nave sofrer qualquer dano, eu estou perdido! – Ele pressionou alguns botões tentando descobrir o que estava em rota de colisão com a nave. Havia um programa instalado que dava um código para cada tipo de objeto espacial, e caso fosse uma outra nave, ele daria um número como o chassi de um carro.

Uma lista infinita de números começaram a rolar pela tela, eram mais de cem naves diferentes, algumas que o próprio programa não conseguia identificar.

— Um ataque em massa!? Mas eu sou apenas uma nave de reparos! Não tenho nem armas! – Seja o que fosse, acertou em cheio a lateral da nave, arremessando George contra o painel. Em pânico, ele tentou se puxar para a sala dos trajes espaciais, imaginando uma maneira de fugir.

“Me arremessar no espaço ou ficar aqui e ser dizimado por seja lá o que esteja lá fora? Eu vou morrer de qualquer jeito, não vou?”

Outro estrondo fez com que a nave toda chacoalhasse novamente, dessa vez o impacto veio de baixo, como se a nave fosse arrastada pelo chão. George olhou em volta e entrou na camara dos trajes. Precisava se vestir antes que a ambientação artificial da nave fosse danificada e ele morresse pelo vácuo. A roupa espacial o manteria vivo por mais algumas horas, pelo menos seu cérebro não explodiria.

Foi o tempo de vestir o capacete e a ambientação finalizar, a porta da escotilha foi aberta com força, estragando um pedaço da lataria e formando um buraco no casco. Feixes de luz entraram vasculhando cada centímetro do interior até encontrarem George paralizado no meio da nave.

“MÃOS PARA CIMA, SAIA DA NAVE IMEDIATAMENTE.” Disse uma voz robótica grave e ameaçadora, em russo.