Duas criaturas fortemente armadas, com armaduras pretas entraram na nave e agarraram George pelos braços. Graças a falta de gravidade, seus pés não tocavam o chão direito, qualquer tipo de resistencia seria inutil. Sem contar que os dois eram muito mais fortes fisicamente que ele.

— Por favor, me soltem! O que está acontecendo? Eu não fiz nada!

Ele balançava os braços para os lados, mas os dois brutamontes nem se mexiam. Incapaz de resistir, George foi levado para uma sala onde o algemaram. Duas criaturas magras e esguias, como lulas, se aproximaram, e com dedos ageis retiraram a roupa espacial, deixando-o nu.

Um cilindro de vidro se ergueu em volta de George e uma voz robótica feminina deu um aviso em uma lingua que ele não conhecia. Em segundos um anel de metal se elevou do chão, na altura de seus pés e microjatos de vapor escaldante começaram a se projetar contra sua pele. A dor era excruciante.

Desesperado, ele olhava em volta, atrás de qualquer sinal de vida. À sua esquerda, uns cinco metros de distância, um grupo de três pessoas distintas o observavam. O vidro, tanto do cilindro quanto da parede que separava as salas, impedia-o de vê-los com precisão, eram apenas silhuetas.

— Me tirem daqui! Me soltem!

Os jatos estavam se aproximando de seu rosto, George gritou uma ultima vez, implorando para que parassem. O vapor cessou assim que atingiu seu queixo, o anel parou de girar e voltou para o chão. Feixes de laser fizeram uma varredura em seu corpo, de cima a baixo, e o cilindro desapareceu no chão.

As mesmas lulas de antes entraram com um carrinho metálico, com um macacão dobrado em cima. Era a roupa que os astronautas usavam dentro da nave, no seu dia a dia. Com a mesma habilidade de antes, o vestiram e o algemaram, e os brutamontes o levaram para fora.
Arrastaram o rapaz por um longo corredor, George podia ver que tanto o chão, quanto as paredes eram feitas de pedaços diferentes de metal, como uma colcha de retalhos. Até mesmo algumas portas eram diferentes.

Uma delas estava aberta, era uma sala clara, bem iluminada, com uma mesa preta redonda no centro. Na sua frente duas cadeiras diferentes, vazias, e atrás uma grande almofada vermelha flutuava. Sob ela estava uma criatura de pele preta, de textura similar a sua, com um robe preto de um material que lembrava cetim. De longe parecia apenas uma sombra, mas assim que o astronauta se sentou em uma das cadeiras, forçadamente, percebeu que a pele tinha linhas em alto relevo, tão delicadas como uma renda.

Os seguranças seguiram na direção da porta e pela terceira vez as lulas apareceram. Uma delas segurava uma bandeija nas mãos. Pela primeira vez ele pode olhar direito para elas. Eram pálidas e levemente transparentes, com uma duzia de pequenos olhos milimetricamente organizados no rosto liso e sem expressões. Não havia corpo, no lugar onde deveria sair o pescoço, inumeros tentáculos finos como fios elétricos se projetavam para fora. Elas flutuavam como águas vivas no oceano.

A segunda criatura pegou algo que lembrava uma pílula vermelha da bandeija e levou na direção de George.

— Tire isso de perto de mim! Já não basta a tortura que me fizeram passar uns minutos atrás!? – De nada adiantou, com uma delicadeza cirurgica, ela enfiou a capsula dentro do ouvido de George, que gritava e esperneava na cadeira.

Terminado o procedimento, as duas sairam da sala deixando apenas o rapaz e a criatura da almofada vermelha.

— Mais calmo? – perguntou uma voz calma e serena.

— Calmo? Como eu posso estar calmo!? E se você sabe falar português, por que não se comunicou comigo antes!?

A criatura se ajeitou na almofada e abriu os olhos. Eles eram amendoados e de uma cor violeta levemente puxada para o rosa, assim como o pôr do sol numa tarde de verão. Pequenos sinais em forma de circulos nas maçãs do rosto se acenderam como pequenos leds, na mesma cor que seus olhos, iluminando o rosto fino em forma de gota invertida.

— Não falo português, mas a pequena capsula que colocaram no seu ouvido traduz minha lingua pra você.

— Você me sequestrou, me torturou e ainda acha que pode colocar um implante no meu cérebro!?

— Não te sequestramos, nem te torturamos, e o implante é para melhorar a nossa comunicação.

— Então como explica tudo o que aconteceu até agora?

— Encontramos a sua nave à deriva, flutuando pelo espaço, achávamos que era lixo espacial. Para a nossa surpresa você estava dentro, vivo. Você apenas passou por um processo de limpeza rigoroso que temos aqui dentro, não posso deixar que você espalhe doenças pela nave.

— Vocês são o que? Algum tipo de lixeiro para sair por ai recolhendo lixo espacial? Eu deixei uma mensagem, para provar que eu estava vivo e precisando de ajuda.

— Uma mensagem jogada aos quatro cantos do universo pode ter até milhões de anos. Não era prova de que está vivo. E precisamos de peças da sua nave, quando a vimos, a interceptamos para conseguir o material que necessitamos.

— Eu exijo que devolvam a minha nave e me deixem voltar para casa.

— Aqui só há duas alternativas. Ou nos dá a sua nave, e se junta a nós, ou pode se jogar da escotilha. Não se esqueça, você não tem mais uma casa para voltar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.