Astaev - A Dama dos Olhos Cinzas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Flocos de neve pousavam no rosto da moça solitária e derretiam ao primeiro contato, camuflando-se entre as lágrimas que logo estariam ali. A face era a única parte do corpo exposta à baixa temperatura. O resto do corpo franzino estava protegido por um enorme manto negro; muito maior do que as proporções dela exigiam. Os olhos acinzentados miravam um ponto específico. Uma careta surgiu por breves segundos; esforçava-se para não chorar. Estava sozinha, perdida e desolada. Teve sorte, é verdade, pois ao menos um grupo de religiosos a acolheu. Ela seria eternamente grata pela atitude nobre daquelas pessoas. Perdeu tudo o que tinha de importante e eles ofereceram a ela um teto, uma cama, comida quente e roupas confortáveis. Naquela primeira semana conseguiu até mesmo cativar o coração de algumas pessoas, que logo passariam a vê-la como uma filha. Ali, tudo e todos eram humildes. Não havia luxo, mas nunca vivera uma vida de abundâncias. Isso não a incomodava. Definitivamente não era a ausência do materialismo que fomentava a vontade de chorar.
As pernas cederam. Caiu de joelhos no chão gelado e, nesse impacto, perdeu todas as energias. Ao menos ali ninguém poderia ouvir seu pranto. Não queria, mas permitiu os olhos ficarem marejados. Quando se deu conta, já era tarde demais. A angústia crescia no peito, incomodando-a a tal ponto que a respiração perdeu o ritmo. Em meio a soluços, ela tentava recuperar um pouco de fôlego. Prostrada diante do túmulo da mãe que perdera havia pouco tempo, ela se encontrava em uma posição que demonstrava todo seu desespero. Temendo a incerteza de uma vida solitária, seus punhos fecharam na vã esperança de agarrar algo inexistente. Alguns fios de seu cabelo escuro caíam em frente ao rosto. Em meio àquele número considerável de criptas e túmulos estava desenhada a tela de uma garota impotente. Entristecia-lhe ainda mais saber que, na verdade, o corpo não estava ali, mas, na verdade, fora jogado em uma pilha de mortos – as dolorosas consequências da guerra. Aquilo era apenas uma homenagem; teve ajuda do sacerdote que a encontrou perdida em uma estrada qualquer destevasto mundo. O homem, tocado por aquela situação, comprometeu-se a fazer algo que a permitiria lembrar da mãe para sempre, reservando um espaço no cemitério que se localizava atrás do humilde monastério.
Uma figura robusta surgiu atrás dela. Distraída pelos pensamentos obscuros, não notou a aparição de um indivíduo encapuzado e cuja fisionomia camuflada pelas roupas sugeria que fosse um homem. Ele erguia um punhal e, aproveitando-se do descuido da jovem, aproximou-se até que pudesse tocar a arma em seu pescoço ou encravá-la no coração da pequena. Ao se dar conta da presença hostil e perceber que sua vida estava nas mãos de um estranho, as pupilas dilataram e ela permaneceu estática. Ao menos poderia voltar para a mãe e, quem sabe, também para o pai – que regularmente lhe vinha à memória.
Viu a neve ser conspurcada pelo sangue. Não havia dor, e era isso o que ela queria. Escutou um murmúrio de dor às suas costas e, ao tentar olhar para trás, deparou-se com o corpo pesado de um homem caindo sobre ela. Tentou escapar, mas aquilo a pegara de surpresa. Enojada e ainda mais amedrontada, sentiu o calor da vida fugir lentamente do moribundo. Mais sangue, agora manchando suas roupas e seu rosto. Com a força que foi capaz de reunir, a garota afastou aquilo que acabara de se tornar um cadáver. Estava assustada e isso era compreensível. Em aflição, ela não sabia se deveria erguer-se ou apenas se afastar. Toda a sua atenção estava voltada para aquela imagem desagradável. Tomou um susto ao ver que, próximo a ela, havia mais alguém. Com a mão estendida, uma mulher alta a avaliava com uma expressão amigável. Seu rosto magro estava corado. O cabelo dourado caindo sobre os ombros tal qual um anjo. Roupas de frio que poderiam ser confundidas com a neve cobriam o corpo levemente atlético. Uma beleza fascinante iluminava a sua face, que realçava os olhos verdes. Os lábios avermelhados abertos em um sorriso faziam a jovem sentir-se parcialmente segura. A mão esquerda a convidava para se posicionar de pé, enquanto a direita segurava uma das espadas mais bonitas que a menina já tivera a oportunidade de ver. Não que, durante a sua curta vida, tivesse visto muitas. Mas havia um brilho naquela que era encantador. O que mais a impressionava era que o sangue escorria pelo ferro afiado, mas não parecia sujar a lâmina. Não sabia o que fazer, mas vendo-se sem muitas alternativas, aceitou a ajuda.
— Senhorita Lia del Montt? – A voz daquela imagem ilustre era tão doce que parecia música aos ouvidos da garota. – Você é a Lia, certo? – Percebendo que a garota estava apreensiva, decidiu tentar lhe confortar de alguma maneira. – Não precisa ter medo. Só preciso que confirme se você é ou não é Lia Del Montt.
A pequena, ainda intimidada, assentiu.
— Muito bem. Já faz algum tempo que procuro por você. – A mulher olhou para o corpo caído. – Fico feliz em saber que a encontrei em tempo para que nada de ruim acontecesse. Fui enviada para entregar isto.
De dentro das vestes que a protegiam do frio, retirou um envelope de cor amarelada e entregou para Lia.
— Não abra agora. Vá para casa, ou o lugar em que você se encontra. Não deixe que ninguém a veja. Apenas abra o envelope quando estiver sozinha, de preferência, durante a noite.
A garota assentiu mais uma vez.
— Você não precisa ficar assustada. Eu apenas quero o seu bem. – Lia a observava falar e guardar a espada em uma bainha que, até então, não havia notado. – Que os deuses possam garantir a ti diligência e guiar seus pensamentos, garota.
Lia del Montt permaneceu parada em seu lugar, apenas olhando enquanto aquela presença quase divinal se retirava. Ao passar pelos portões do cemitério, já não sabia dizer onde ela estava. Era tão sublime que pareceu se desfazer em meio aos flocos que ainda insistiam em cair. Passados alguns minutos, enquanto tentava compreender tudo o que acabara de suceder, vislumbrou por uma última vez a lápide da mãe. Guardou o envelope com tamanho zelo e, com um último suspiro, Lia se despediu da única coisa que mantinha um elo entre ela e a família. Abandonou todos os corpos que ali haviam, todas as almas cansadas e histórias inacabadas, deixando-os com seus respectivos descansos. Hesitou por alguns segundos, mas acabou indo embora.
Lia del Montt, a dama dos olhos cinzas, não voltaria ali tão cedo.
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