Astaev - A Dama dos Olhos Cinzas
2 Capítulo 2
Notas iniciais
No findar daquele dia, a lua já exibia seu esplendor. Estava cercada pelas estrelas mais brilhantes, estas formando constelações que um dia aquela jovem aprendera sobre, lendo nos poucos livros que possuíra em casa. Todas surgiram de alguma aventura em um passado longínquo. Cada nome dado a uma estrela ou constelação escondia uma odisseia. Eram as mais fantásticas lendas sobre os incríveis poderes habitados no coração de pessoas que os mereciam, e a cada aventura que ela conhecia, mais ela invejava aquela realidade.
Na cama improvisada, após seu banho, ela deitou e então retirou de sob o colchão encardido o envelope. Sentia a textura do papel delicado. Um selo o mantinha fechado, sendo uma espécie de desenho cujo significado ela não conseguia distinguir, mas lembrando-a vagamente de algo como uma ave; talvez uma águia ou um falcão. Com extrema cautela, retirou o selo e o envelope revelou estar vazio, mas desmanchou-se de modo a permitir que se abrisse como uma folha e, no interior, estava escrito, em uma finíssima e bem desenhada caligrafia cursiva, os seguintes dizeres:
“Seus dedos são a chave.”
Com um raciocínio rápido, ela logo compreendeu o que deveria ser feito, embora achasse a teoria estúpida. Mas decidindo esquecer por um momento todas as suas crenças e descrenças, permitiu-se adentrar em um mundo de magia. Lia se ergueu e caminhou até uma pequena mesa, onde uma vela presa em um candelabro se encontrava acesa, possibilitando-a uma melhor visão da folha. Tocou com a ponta dos dedos da mão direita o papel e, logo após retirá-los, cinco marcas surgiram como se desenhadas com tinta. Sem muito demorar, logo desapareceram e se transformaram em linhas que correram por toda a superfície do papel. Foi necessário apenas um piscar de olhos para que as palavras surgissem.

Seus olhos percorreram aquelas letras pela segunda e, alguns segundos depois, a terceira vez. Tremia um pouco ao ser pega por aquelas bizarras palavras tão de repente e, mais ainda, ser ameaçada de morte. Não possuía a intenção de falar sobre aquilo com outras pessoas, mas não deixava de se sentir intimidada. Afinal, como poderiam fazer algo a ela? Como ao menos saberiam sobre suas atitudes? Seria possível que alguém estivesse a vigiá-la?
Incerta sobre o seu destino, pesou sobre a atitude que deveria tomar e, sem muita demora, descobriu o que deveria ser feito. Decidiu não parar pra pensar nas consequências de suas atitudes. Prometeram-na respostas, e respostas eram o que ela mais precisava. Observou as chamas da vela tão próxima e fechou os olhos. Junto a eles, lacrou a carta, confirmando, então, a sua resposta.
~ ~ ~
Dois dias se passaram. Sentia-se tola por ter acreditado naquilo. Uma mulher desconhecida que sabia quem era ela sem nunca tê-la visto antes; uma carta que prometia respostas aos seus vários questionamentos. Sentia-se irritada e desanimada. Por mais que, aos seus olhos, tudo parecesse tão real, a pequena ponta de desconfiança que habitava em seu interior cresceu naquelas gélidas e melancólicas manhãs, e nas noites prolongadas pela ansiedade. Tudo estava perdido. Alimentada por um sentimento de solidão e descrença, viu-se sem rumo. Os dias que se seguiram não foram muito diferentes. Tudo o que ela fazia era colaborar em algumas tarefas do mosteiro. Era um ambiente simples, voltado apenas para estudos, adoração a uma deusa que ela desconhecia e, sempre que podiam, recebiam enfermos e passavam algumas semanas cuidando deles até que pudessem regressar às suas vidas. As funções de Lia eram focadas na limpeza do local. Um serviço que julgava simples, considerando que, além de um lugar para ficar até ter condições de se cuidar sozinha, ela também estava sendo educada, aprendendo coisas básicas que toda garota de sua idade deveria saber.
Lia não demonstrava muito interesse ao se tratar de assuntos religiosos. Alguns viam isso como algo temporário; a garota ainda estava abalada em razão das perdas ainda recentes. Outros, apenas reclamavam que ela nunca demonstraria nenhum gosto pelos aspectos da fé. Esses eram os mesmos que reclamavam de sua presença e diziam que, assim como aqueles doentes, chegaria em breve o momento dela ir embora e ser entregue à própria sorte. Lia começou a compreender neste momento sobre a crueldade humana, e que pode ser encontrada em qualquer lugar – até mesmo entre pessoas que pregam amor e paz.
Suas noites eram perdidas em meio a pensamentos. Dificilmente conseguia dormir. Apenas ficava deitada em sua cama, esperando que o cansaço a consumisse em algum momento. Isso dificilmente acontecia. Permanecia sozinha com suas memórias e a tristeza que nunca mais foi demonstrada através de lágrimas. Ela aprendera a controlar isso. Conforme os dias passavam, percebia estar cada vez mais incapaz de expressar qualquer sentimento. Seu rosto se tornou uma máscara e a amargura já estava a incomodando cada vez menos. Ela estava começando a lidar com suas emoções e, mais importante, a gostar de tal hábito. Numa dessas noites, enquanto tentava se concentrar para conseguir dormir, algo diferente aconteceu. O silêncio sepulcral do ambiente durante a madrugada permitiu-lhe ouvir um som incomum. Precisou de alguns segundos para perceber que se tratava de passos. Passos apressados e, certamente, de uma pessoa que não deveria estar ali. Lia se sentou na cama. O barulho aumentava aos poucos e parou em frente a porta de seu quarto.
Pôs-se de pé. A insegurança não se manifestou em seu rosto. Manteve uma expressão neutra, embora o pânico fizesse suas mãos tremerem. Arriscou ir até a porta. Com toda a cautela que conseguia encontrar, ela tocou a maçaneta e, em um movimento lento, a abriu. Não encontrou nada além da escuridão. Colocou a cabeça para fora do cômodo, na esperança de achar alguém vagando pelos corredores. Não muito longe, percebeu que um dos monges, vestido em um hábito negro, carregava uma pequena vela. Nada além de um funcionário do mosteiro exercendo alguma atividade relacionada a sua deusa. Sentindo-se mais tranquila e deixando toda a paranoia de lado, ela lembrou que não era a primeira vez que algo assim acontecia. Na verdade, acordar durante a madrugada para realizar preces era uma atividade frequente por ali.
A brisa gelada invadiu o seu quarto. Fechou a porta procurando não fazer barulho e, ao se virar com o foco de voltar para a cama, notou a presença de uma criatura no aposento. Tratava-se de uma borboleta. A mais bonita que ela alguma vez havia encontrado. Suas asas possuíam um brilho incomum e eram transparentes como vidro. Ao batê-las, era possível ouvir, em uma baixíssima frequência, um som semelhante a uma estranha e doce melodia. O animal voou de encontro a Lia e, aproveitando-se de que a garota havia estendido os braços para recebê-la, pousou em sua mão. Lia estava encantada com aquela beleza, mas não se sentia capaz de esboçar um sorriso. Perdeu o olhar nas finas e quase invisíveis linhas que se desenhavam nas asas da borboleta. Em meio a toda aquela concentração, novamente a viu levantar voo, indo para um canto pouco iluminado de seu cômodo. Foi aí que reparou no par de olhos brancos que a observavam da escuridão.
— Bons sonhos, garota.
A menina sentiu suas pálpebras pesarem. Seu corpo desabou e caiu nos braços de um estranho. A visão turva não permitia que visse muita coisa. Ela havia notado apenas um brilho diferenciado nos olhos daquele estranho encapuzado. Um brilho tão belo quanto o que havia na borboleta e, ainda assim, tão vazio.
Tudo ao seu redor desapareceu. Aquele foi o sono mais leve que Lia teve em tempos.
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